11.2.17

O que uma jumenta pode ver

“Por que você bateu três vezes na jumenta?”, perguntou o anjo do Senhor. “Eu vim para impedir sua passagem, pois você insiste em seguir por um caminho que me desagrada”.
Números 22.32


Um relato no qual um animal - no caso, uma jumenta - fala não está registrado nas Escrituras para que discutamos sua historicidade ou a fantasia ficcional que porventura aponte.
Perdemos tempo e perdemos a aprendizagem possível quando, em vez de entender o que o texto nos diz, discutimos a possibilidade ou impossibilidade de uma jumenta falar - ou qualquer outra lacuna ou circunstância incrível que as Escrituras nos oferecem.
É o fundamentalismo ou o ateísmo militante que nos fazem perder esse tempo porque partem da mesma compreensão: a fé só seria real se uma jumenta falasse.
Ora, o texto nos fala de muito mais coisas do que isso.
Fala-nos, pelo menos, da nossa incapacidade de seguir o caminho que o Senhor propõe, nossa incapacidade de perceber, de ver, que Ele se opõe a diversas de nossas escolhas.
Quantas vezes não somos capazes de perceber que Deus não apoia nossa opção? No caso de Balaão, no entanto, a jumenta viu!
Nós, por vezes, somos menos inteligentes que uma jumenta para perceber a oposição do Senhor, entender que aquele não é o melhor caminho, que sua escolha seria outra. Algo tão óbvio, que até um asno veria - mas nós fomos capazes!
A melhor escolha, a escolha do caminho do Senhor, é às vezes tão evidente, tão óbvia, que não vemos. Não somos tão inteligentes quanto àquele animal. Ela viu. Balaão não.
As consequências de não perceber a vontade de Deus em seus caminhos para Balaão foram as piores possíveis, ainda que o livro de Números tenha lacunas em seu relato. O texto diz em Nm 31.8 que os israelitas mataram Balaão em Midiã - as causas dessa vingança são explicadas: sabendo que Deus não amaldiçoaria Israel como queria Balaque, Balaão teria ensinado como fazer com que o povo pecasse e, assim, fosse castigado por Deus.
Em outras palavras, a morte de Balaão, no relato de Números, é a consequência da vida de um sujeito que primeiro não viu o Senhor se opondo a seu caminho e, depois, gradativamente se afastou do caminho dEle até o pondo de tentar ludibriá-lo.
Não parece ser o caso de uma justiça retributiva da parte de Deus - uma punição -, mas sim a consequência natural de quem agiu sempre se afastando mais do caminho definido e escolhido pelo Senhor.
Que nós possamos perceber quando o Senhor se opuser às nossas escolhas - e recuar sempre que isso acontecer. Antes que as consequências sejam graves e imprevisíveis.

8.2.17

Prova de fé

O mundo não era digno deles!
Hebreus 11. 38


O que prova a fé de alguém? Se fizéssemos essa pergunta às igrejas de nossos dias teríamos, certamente, respostas as mais diversas. Na enorme diversidade das igrejas dos nossos dias, encontraríamos pessoas que, firmadas em suas diferentes crenças, definiram provas diferentes da fé dos cristãos.
A programação televisa cristã, especialmente forte aos sábados pela manhã, dá prova disso. São igrejas de matizes e teologias distintas defendendo conceitos absolutamente diferentes uns dos outros do que seja a fé e de como ela se prova.
Estava pensando nisso hoje ao refletir sobre o conhecido texto de Hebreus 11. Aquela galeria de homens dos quais o mundo não era digno. Ao ler essa lista de pessoas que descobriram que a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver (Hb. 11. 1) e que, descobrindo essa fé, acharam a salvação, me perguntei que provas elas obtiveram de sua fé. E que resultados visíveis elas tiveram.
Comecei a me questionar isso porque, a julgar pelo que pregam alguns hoje em dia, a fé se traduz em resultados visíveis, sempre. É uma cura, uma libertação, a prosperidade material. A fé se manifesta quando eu deixo de ser o caso perdido que eu era e encontro uma saída. A fé, nessa teologia, precisa de prova.
Não precisamos olhar com atenção aprofundada o texto para descobrir que essas idéias não se sustentam. A fé diz respeito a saber da existência de coisas que não podem ser vistas ou tocadas. Fundamentalmente é isso. É viver como quem vê um Deus que é invisível, como quem vive uma salvação que é improvável, como quem experimenta uma qualidade de vida impossível.
Boa parte de nossa geração de cristãos busca sinais. Busca resultados. Busca uma prova de fé. Milagres acontecem em resposta a nossa fé, mas a fé não é uma chave automática para milagres. A vontade de Deus é. Sua Glória e Sua Majestade são. Os milagres acontecem para honrar a Deus e não a nossa fé.
E eles acontecem. É só olhar a primeira parte do capítulo 11 de Hebreus para ver isso com clareza. Ou olhar para a minha e a sua vida. Temos muitos milagres para partilhar. Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era correto e receberam o que Deus lhes havia prometido. Fecharam a boca de leões, apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes. Foram poderosos na guerra e venceram exércitos estrangeiros. Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram (Hb. 11. 32 – 35).
O equívoco está em acreditar que milagres são as únicas conseqüências possíveis para a fé. O mesmo texto aponta o equívoco. Enquanto alguns foram libertados e viram tremendos milagres, outros foram torturados até a morte; eles recusaram ser postos em liberdade a fim de ressuscitar para uma vida melhor. Alguns foram insultados e surrados; e outros, acorrentados e jogados na cadeia. Outros foram mortos a pedradas; outros serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles! (Hb. 11. 35 – 38). A história da igreja e do testemunho de Cristo nos diz que na maior parte das vezes a fidelidade ao Senhor teve como resultado, não o milagre e a libertação do crente, mas a tortura, o sofrimento, a perseguição e a morte.
Jesus venceu, não descendo da cruz, mas morrendo na cruz. Por isso, eu penso que é muito fácil para mim afirmar a minha fé quando eu estou com minhas dívidas pagas em dia ou quando eu passo em um concurso da Petrobras, ou quando recebo o milagre de uma cura e, por isso, agradeço, feliz, ao meu Deus. Mas sei que minha fé seria, de verdade, provada, se uma arma fosse posta em minha cabeça sob a ameaça de morte, caso não renegue a minha fé em Jesus. Ou quando eu fosse desafiado a crer, ainda que não tivesse um teto ou comida para comer. Enquanto estava no Rio vi uma fé dessas: um homem se preparava para dormir sob uma marquise da avenida Presidente Vargas, lendo sua Bíblia apoiado na luz de uma agência bancária. Essa é a verdadeira prova de fé, pela qual ainda não passei.

7.2.17

Temos propósito?

O que ninguém nunca viu nem ouviu, e o que jamais alguém pensou que podia acontecer, foi isso o que Deus preparou para aqueles que o amam. Mas foi a nós que Deus, por meio do Espírito, revelou o seu segredo.  
1 Coríntios 2. 9 – 10

Andava pela praça de alimentação de um shopping e comecei a pensar nas pessoas à minha volta. Na verdade, uma pergunta me veio à mente: será que cada uma dessas pessoas – que eu nunca vi antes e, provavelmente, não verei depois – tem alguma noção do propósito de sua existência? Em outras palavras, eu me perguntava se temos vivido as nossas vidas motivados por algum propósito em particular ou se vivemos de qualquer maneira. Será que temos propósito em viver? Seremos conscientes dele?
Muita gente busca razões para viver. Alguns cativam sonhos românticos e põem neles os motivos para existirem e se manterem existindo. Alguns transformam sua existência no desejo de terem sucesso ou fazerem dinheiro. Outros, de maneira mais nobre, dedicam suas vidas em assistir os mais necessitados; fazem da caridade sua razão de viver. Mas tenho a impressão que a maior parte de nós vivemos sem refletir, um pouco que seja, na razão de nossa existência. Somos levados a roldão pelos acontecimentos da vida. Nem temos controle, nem temos compreensão, nem temos sequer vontade de fazermos e agirmos de forma diferente. 
Mais tarde, refletindo sobre isso e pensando no texto bíblico, enquanto dava aula no Centro de Treinamento Missionário, me lembrei que só há uma coisa que pode nos dar e nos fazer entender o propósito fundamental de nossa vida, o único propósito, que é viver para o Senhor. A gente só pode vir a descobrir isso se for por meio de uma experiência de conhecimento pessoal com Deus, na Pessoa de Cristo. Para alguns, Deus é um conceito e o conhecimento de Deus se resume a uma questão intelectual, resumida na capacidade de falar umas palavras e ler um livro. Mas os que realmente experimentam o conhecimento de Jesus e Seu reino entendem fácil que – ainda que aquelas coisas façam parte do bolo – andar com o Pai e conhecê-Lo é muito mais uma experiência mística e pessoal. Vida com Jesus é relacionamento muito mais que intelectualidade, porque o conhecimento intelectual sem o relacionamento pessoal não significa nada, não traz significado nem propósito para a vida.
O que ninguém nunca viu nem ouviu, e o que jamais alguém pensou que podia acontecer, foi isso o que Deus preparou para aqueles que o amam. Mas foi a nós que Deus, por meio do Espírito, revelou o seu segredo. Na aula, falávamos sobre a realidade do Reino de Deus manifesto em Cristo e cabível de ser experimentado pelo ser humano. Esse Reino traz em si a contradição do já-presente mais ainda-não-consumado. O Reino já está presente, ainda que não se manifeste em plenitude. Mas ele já é experimentado por aquele que entra em relacionamento com o Senhor, porque o Espírito vem a esse crente, habita em seu coração para estabelecer esse relacionamento. E esse relacionamento que traz o Reino para o nível do já-presente em nossas vidas. Já-presente, ele nos conduz a experimentar as riquezas das bênçãos do Senhor, a conhecer a grandeza daquilo que já recebemos nas regiões celestes. O prazer que temos de andar na presença do Senhor é algo de extremamente inefável para o homem. Só podemos, exultantes de alegria – incapazes de palavras –, celebrar a bênção e a riqueza do Reino em nós.
É disso que fala o texto de Coríntios. O Reino já está presente, ainda que ainda-não em plenitude. Mas podemos experimentar o que já temos e ainda vamos ter por meio do Espírito que habita em nós e enche a nossa vida. O que ninguém jamais viu ou compreendeu e é reservado para aqueles que conhecem a Deus – e essa parte a gente nunca presta atenção – não é um segredo inalcançável para nós. Pelo contrário: já começamos a experimentar no nosso dia a dia com o Pai e o Espírito já nos revelou esse segredo: Mas foi a nós que Deus, por meio do Espírito, revelou o seu segredo. 
Esse segredo é o que faz diferença entre uma vida que tem propósito e é consciente dele de uma vida que é levada a roldão. Isso significa que mesmo aqueles que correm em busca de um propósito, por mais nobre que ele seja, não tem qualquer propósito real na vida nem faz qualquer coisa de relevante enquanto não descobrir que a vida de verdade é vivida na dimensão do Reino. Reino que já veio em Jesus, que ainda se consumará depois desse tempo, mas que já pode ser experimentado – o que muda a nossa vida – no dia a dia de quem investe em conhecer e a andar na dimensão do Espírito que habita em nós e se relaciona conosco.

Publicado originalmente em 4 de novembro de 2005.

6.2.17

Amor e oração

Mas eles se prostraram com o rosto no chão.
Números 16.45


Vivemos tempos em que a raiva, a mágoa, o ressentimento, o ódio estão cada vez mais presentes nas relações sociais, potencializados pelo anonimato e distanciamento propiciado pelas redes sociais.
Recentemente, na morte de uma figura pública, o ódio grassou - inclusive da parte de médicos que, em vez de defenderem a vida, se colocaram pedindo a morte.
Essa espécie de relação já nos alcança pessoal e diretamente. Você não deve ter dificuldade em lembrar de seus relacionamentos que estão sendo alimentados e estão alimentando perdões não concedidos, desejos de vingança, raivas diversas. 
É da natureza humana, da natureza das relações, da natureza da sociedade.
Mas não significa que não possamos nos insurgir contra.
Essa é uma tarefa cotidiana para mim. Uma pessoa de minha família relatou há poucos dias que fora xingada no embarque de um vôo por causa da camiseta que vestia - sua resposta foi mandar a outra pessoa ao inferno. Eu sugeri que dissesse à pessoa que desejava que ela pudesse encontrar amor verdadeiro em sua vida. É algo que tenho tentado fazer: responder com paz e amor toda manifestação de raiva, mágoa ou ódio. Nem sempre consigo e nunca é fácil.
Números 16 começa com a revolta de Corá, Datã e Abirão contra Moisés e Arão. Debaixo de seus pés o chão se abre e os três morrem, em um ação divina para reforçar a autoridade de Moisés e Arão.
Mas no dia seguinte, o povo novamente começa a reclamar de seus líderes e quer depô-los - em reação, Deus quer destruir toda aquela gente e começar de novo com a família de Moisés. Moisés e Arão só fazem uma coisa:

Mas eles se prostraram com o rosto no chão.


A resposta de Moisés e Arão a mais uma tentativa de deposição do povo, com raiva pela morte de Corá, Datã e Abirão, é orar pelo povo que quer sua morte!
Orar pelo povo que quer sua morte!
No Sermão do Monte, Jesus nos desafia a não resistir ao perverso, oferecer a outra face a quem nos agride, dar a capa a quem pedir a túnica, andar a segunda milha a quem quiser nos forçar a andar uma (Mt. 5. 38-41).
O desafio é respondermos de forma pacífica e amorosa.
O desafio é orar por aqueles que querem nos derrubar.
O desafio é amar a quem nos odeia. É Jesus quem chama:

Vocês conhecem a antiga lei: “Amem seus amigos”, e seu complemento não escrito: “Odeiem seus inimigos”. Quero redefinir isso. Digo que vocês devem amar os inimigos. Deixem que tirem o melhor de vocês, não o pior. Se alguém fizer mal a vocês, reajam com a força da oração, pois assim agirão do fundo do seu verdadeiro ser, do ser que Deus criou.
Mateus 5. 43-45


Não imagine que isso seja fácil. Mas é a única forma de que não deixemos ninguém tirar o pior de nós, apenas o melhor.
Não é fácil, mas somente assim estaremos nos aproximando de nosso verdadeiro ser, de nossa essência. Uma essência que não derivará do pecado, de nossas relações adoecidas pela mágoa e pelo ódio, ou da opressão presente na sociedade.
Essa essência deriva de nossa relação com Aquele que descia na Tabernáculo na travessia do deserto e Tabernaculou entre nós na Encarnação de Jesus.
Essa essência deriva de nossa relação com o Amor - que na cruz, tortura, escarnecido e condenado à morte, foi capaz de orar:

“Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo”.
Lc. 23. 34






5.2.17

Silêncio

Arão ficou em silêncio.
Levítico 10. 3


Dois filhos do sacerdote Arão, irmão de Moisés, entraram na presença do Senhor na tenda da congregação de maneira inadequada e, por esse motivo, foram fulminados. De uma só vez, Arão perdeu dois filhos.
Você consegue imaginar o tamanho do seu luto?
As coisas ainda ficam mais difíceis com as ordens que Arão recebeu de não prantear seus filhos. Tudo o que lhe resta é ficar em silêncio com sua dor e seu sofrimento.
Quando as coisas são difíceis e tudo está doendo, você sabe, é muito difícil ficar em silêncio. Nosso desejo é chorar em alta voz, gritar por socorro, chamar os amigos para desabafar e mesmo orar de maneira honesta e dolorosa diante de Deus.
A Arão foi dito que ele não podia fazer nada disso. Só lhe restava ficar em silêncio.
Não posso imaginar quão dolorosa foi essa situação. Mas sei dizer como é duro encarar a dor e os sofrimento sozinho, em silêncio, sem um companheiro para estender o ombro para chorar ou a mão para auxiliar na caminhada, sem um amigo para desabafar, sem um conselheiro para orientar.
É extremamente doloroso e difícil. A solidão e o silêncio amplificam a dor. Não poder falar sobre o que lhe causa sofrimento é causa de mais sofrimento. É como se houvesse uma voz constante exigindo que não derramemos lágrimas, não choremos, não falemos dos nossos problemas.
O que nos resta, numa situação como essa, é aprender. Aprender no silêncio de um coração que sente. Aprender na reflexão e meditação dolorida diante de Deus. Aprender a suportar o que nos pesa para podermos, assim, caminhar para longe do lugar onde estamos - e que nos causa dor e silêncio.
Há silêncios que vemos como se nos fossem impostos, tal qual o de Arão.
Há silêncios que nos impomos por perceber que o melhor caminho é, ainda que doa, uma reflexão silenciosa. O silêncio pode nos auxiliar a entender já que não há vozes para se misturarem com aquela da nossa reflexão.
O silêncio pode ser sua opção diante da dor. Mas saiba que calar toda a dor o tempo todo faz muito mal para a alma.
Esta semana ouvi de uma psicóloga que determinada pessoa em sofrimento não queria mais falar sobre o assunto que lhe provocava dor - como se isso fosse bom. Você pode não querer falar, você pode querer enterrar a dor, o luto, o sofrimento no seu passado - mas se você não o encara, não lida com ele, ele vai condicionar o seu presente e o seu futuro. Se você não lida com a dor ela estará presente para sempre.
Há silêncios que nos fazem mal porque são fruto de nossa solidão. A solitude pode ser uma opção, mas a solidão resulta geralmente da nossa dificuldade de criar e manter laços.
Passar pela dor, sem amigos, pode ser insuportável.
Mas em todos os cenários, resta o amigo mais fiel, o ouvido mais preparado, o ombro mais largo para nosso choro, a mão mais delicada para as nossas lágrimas, a palavra mais poderosa para o nosso consolo.
É difícil passar pela dor em silêncio e solidão - seria quase impossível se, além disso, passássemos sem o cuidado e a proteção de Deus.
Ainda que tudo seja silêncio e dor, Jesus está conosco - Ele sabe muito bem o que é isso:

Cerca das três horas da tarde, Jesus gritou bem alto: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”.
Marcos 15.34


Na hora mais difícil, saber que o Senhor está conosco faz toda diferença. Lembre disso.

4.2.17

A carta

Senhor Jesus,

Hoje eu senti vontade de escrever uma carta para o Senhor. Não sei bem porque nem sei direito o que direi.
Tu me chamaste, há duas décadas, para uma vida vivida na Tua presença e oferecendo, não somente a Ti, mas ao próximo os dons e os talentos que, sei, Tu me deste.
Há duas décadas eu tenho prazer em ler, meditar e refletir nas Tuas Escrituras - e, é claro, que em 20 anos muitas de minhas crenças fundadas em interpretação da Bíblia se modificaram porque eu mudei, minhas concepções de leitura mudaram, as interpretações mudaram.
Conheci gente - muita gente - que me ajudou a ser quem sou hoje. Não apenas pessoas que cruzaram meu caminho e tocaram a minha vida presencialmente - em salas de aula, em espaços religiosos ou na pura amizade. Houve pessoas que cruzaram a minha vida apenas virtualmente - na forma de um texto, de uma proposta, de um livro.
Todos esses são capazes de nos mudar, Senhor. E eu sei que cada um deles fez o Teu trabalho de transformar um garoto de 17 anos em um servo de 37.
Houve amigos e familiares que chegaram e que se foram. Houve mortes reais e simbólicas que mexeram comigo. Houve lutos e perdas, celebrações e alegrias. Houve aprendizado na dor e na festa. Em todo o tempo, mesmo quando eu não sabia, Tu estavas comigo.
Hoje eu penso no Senhor não como aquele que vai operar um milagre extraordinário para nos livrar da dor e do sofrimento. Para mim, o Senhor é o amigo que segura a minha mão quando dói e quando eu estou com medo, é o companheiro que me beija e abraça quando tudo deu certo e eu festejo.
Por isso, Senhor Jesus, hoje eu quero agradecer pelo Teu cuidado constante comigo. Especialmente nos últimos meses, somente ao Senhor posso tributar o estar vivo. Foi o Senhor que esteve comigo nos piores momentos e me empurrou de volta à vida. Afinal, eu sei que o Senhor é a vida.
É a experiência que temos com o Senhor Ressuscitado que é capaz de mudar para sempre o nosso viver. É saber que o Senhor está vivo que pode nos ajudar a não desistir da vida. É saber que no terceiro dia o Senhor se pôs de pé que nos ajuda a festejar a vida e saber que a dor do momento não é eterna: no terceiro dia ela vai ser substituída pela festa de viver.
Tem sido essa a minha experiência, Senhor. A experiência com o Senhor que está vivendo - um eterno e constante convite à vida.
Lembro que quando estudei o “Celebração da Disciplina” de Richard Foster passei a usar a imaginação na minha relação contigo. Lembro de uma manhã em que estava no púlpito da igreja e o louvor tocava um reggae. Lembro que imaginei o Senhor entrando no templo pela porta da frente e vindo até o púlpito dançando, em festa.
Essa é a imagem que eu quero do Senhor hoje.
Obrigado por tudo. Sempre.

Daniel Dantas Lemos

3.2.17

Sejam santos

Sejam santos porque eu sou santo.
Levítico 11. 45


Quando lemos o livro de Levítico encontramos um tipo de religiosidade e de fé peculiarmente relacionada ao rituais sagrados e as formas de tecnologias religiosas: o texto está repleto de orientações sobre como realizar o culto, que roupas os sacerdotes devem vestir, em que momentos devem se banhar, que animais podem ser sacrificados, quais não podem ser comidos, e segue.
Para os sacerdotes que escreveram o Levítico, ser santo é seguir o manual de vida espiritual, religiosa e os cultos conforme prescritos. Ser santo é viver de acordo com as leis e os ritos.
É nesse contexto que surge o chamado:

Sejam santos porque eu sou santo.

Quando os sacerdotes, os judeus religiosos liam esse chamado só podiam entender de uma forma: sigamos a lei, cada um de seus preceitos, obedeçamos a ordem do culto, ofereçamos cada sacrifício prescritos, então estaremos agradando a Deus e sendo santos.
Era assim nos dias de Jesus, mesmo que fariseus e saduceus tivessem interpretações teológicas distintas, ambos ainda vivenciavam um formato legalista de servir a Deus.
Jesus não nega a necessidade de sermos santos. Ele nega a forma como achavam que seríamos. Ele nega o rito estrito, a lei que estava acima das pessoas, o peso da letra sobre a vida.
Enquanto no mesmo livro de Levítico (15. 25 - 30) se afirma que uma mulher que tenha fluxo contínuo de sangue estaria impura enquanto sangrasse, tornando impuros todos e tudo que a tocasse, Jesus não se preocupa com isso quando cura uma mulher assim (Mt. 9, Mc. 5, Lc. 8).
Enquanto o Levítico 13-14 discorre sobre a lepra e sua impureza, inclusive delimitando quando e como o doente seria considerado curado e puro, Jesus não ligava para tais rituais quando curava os tantos leprosos que curou em seu ministério.
O ser santo, em Jesus, ia muito além da normatização do rituais e leis e do respeito a eles. Ser santo é muito mais que isso - a começar pela compreensão de que o ser humano não é definido pela lei, mas sim a lei se relativiza em favor do homem.
Foi assim com o sábado e com a mulher adúltera (Jo. 8).
Lembro, então, da parábola do samaritano (Lc. 10:30-37), na qual Jesus denuncia a religiosidade dos judeus (um levita e um sacerdote poderiam ter ajudado o homem ferido, mas passaram ao largo para não se contaminar com o sangue derramado) em favor daquilo que vale e que foi feito por um herege apóstata, o samaritano.
Sempre me chamou atenção uma coisa nesse texto: a pergunta que Jesus faz, no final da parábola, ao mestre da lei com quem conversa, me incomoda porque não era a que eu esperaria. Ela mudo enfoque - há um homem ferido e três passaram por perto, mas só um ajudou. Para mim, a pergunta deveria ser: “qual dos três considerou o homem ferido como seu próximo?” Mas a pergunta de Jesus inverte a ordem:

“O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?”
Lucas 10. 36


Em vez de olhar para os três homens, olha para o ferido. Qual dos três é o seu próximo?
Você lembra o que motiva Jesus a contar a parábola? Um mestre da lei se aproxima e pergunta o que era preciso fazer para herdar a vida eterna (Lc. 10. 25). Jesus responde questionando-o sobre o que ele pensa que diz a lei:

“Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”.
Lucas 10. 27


Jesus elogia a resposta e diz que ele tem de fazer aquilo mesmo para ser salvo. O mestre fica desconcertado e pergunta:

“Como saber quem é o próximo?”
Lucas 10. 29


É para responder essa pergunta que Jesus conta a parábola.
O próximo, no contexto, é alguém que devemos amar como a nós mesmos. Por isso, se eu olho a estória do ponto de vista do homem ferido (Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?), ela não me diz apenas que o samaritano é o seu próximo que deve ser amado como si mesmo.
Ela diz também que os religiosos não são - e logo, não dever amados. Em outras palavras, Jesus diz que não devemos amar uma religião ou religiosos que passam ao largo de nós sem nos socorrer.
No fundo, também, toda essa história leva mais longe a questão do Levítico e da relativização da lei por Jesus.

Sejam santos porque eu sou santo.


Não é o ritual, a prática religiosa, as vestes, o culto, a norma, o seguimento estrito da letra que nos faz santos como o Senhor é santo.
Em Jesus, o Santo, o Senhor, ser santo é, simplesmente, amar. O seguimento estrito e legalista de ritos e leis nos afasta do próximo e da santida e nos torna indignos do amor.
O que importa, o que nos faz santos, o que nos aproxima de Deus, é aquilo que resume toda a lei e os profetas:

“Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”.








2.2.17

Holocausto

Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a Ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus.
Romanos 12. 1 (NTLH)


A palavra pela qual conhecemos essa espécie de sacrifico que consome completamente a oferta é holocausto. Ainda que no mundo contemporâneo a referência imediata possa ser os campos de concentração nazistas na segunda guerra, o holocausto é um termo que vem dos rituais, do culto: era o sacrifício que era totalmente (holos) queimado (kaustos).
Por trás de Romanos 12. 1, como capta a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, há a ideia do holocausto.
Entre várias possibilidades, o holocausto pode representar a entrega total e absoluta do adorador, o ofertante, ao Deus a quem oferta. A oferta será totalmente consumida pelo fogo - de igual modo, o ofertante afirma estar sendo completamente entregue e consumido por Deus.
Paulo pede aos Romanos - e a nós, por tabela - que nos ofereçamos “completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a Ele”. Este seria, para o apóstolo, nosso culto lógico, racional, espiritual: a verdadeira forma de adoração, um entrega total e absoluta a Deus.
Sempre que leio sobre holocausto nas Escrituras penso nesse significado: oferecer um holocausto é fazer uma entrega total. E penso: e eu? Já fiz?
Será que nós dizemos que fizemos uma entrega total de nossas vidas a Deus, mas lutamos com unhas e dentes para mantermos o nosso controle sobre algumas esferas dessa vida?
Será que nós dizemos que ofertamos nossa vida como holocausto a Deus, mas esquecemos que ser consumido por Alguém deveria significar mergulhar em sua intimidade - e aí nem lembramos qual foi a última vez que meditamos nas Escrituras, que louvamos a Deus, que conversamos com Ele?
Será que nos oferecemos a nós mesmos "completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a Ele” mas somente como um assentimento emocional ou intelectual sem repercussões reais em nossa vida?
Será que dizemos e fazemos tudo isso porque o hábito cultural de nossa sociedade implica a religião, mas consideramos a religião tão secundária que descartamos a importância de nossa espiritualidade, de nosso culto racional, de nossa relação com Deus?
O que precisamos mudar em nós para experimentarmos de verdade os impactos e as implicações de uma real oferta pessoal como holocausto?
Talvez a própria sequência do texto possa nos ajudar a encontrar a resposta:

Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele.
Romanos 12. 2 (NTLH)


Alguém que se oferece como oferta total, como entrega completa, como um holocausto a Deus, só poderá ver as implicações disso quando experimentar uma completa, total mudança de mente.
E essa parte não depende de Deus - depende de mim e de você, apenas.
O chamado de Paulo é claro:

Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês.
Não é Deus quem vai tomar tal atitude por você. A atitude é só sua.
Aí sim, conhecendo a vontade de Deus, experimentando-a, a entrega de si mesmo como holocausto num culto lógico, racional, espiritual, fará diferença em sua vida e, de sua vida, na vida dos outros.
Consumido por Deus você será, acima de tudo, instrumento de Deus.

1.2.17

Ídolos

Ele derreteu todo aquele ouro e modelou, com uma ferramenta de escultor, a forma de um bezerro.
A reação do povo foi de entusiasmo: “São esses os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito!”.
Êxodo 32. 4


O capítulo 32 do livro de Êxodo tem uma mensagem muito clara para mim: mesmo diante da mais poderosa manifestação de Deus podemos construir uma religião, com nossas próprias mãos, que, mesmo se referindo a Ele, se afasta dEle. Uma religião que chama pelo nome de Deus um ídolo feito por mãos humanas.
O episódio me diz que não adianta estar diante de Deus: vamos sempre querer construir nosso próprio caminho religioso. A religião é, normalmente, um mecanismo humano que tenta ligar homens com homens para se aproximarem do Eterno, da Realidade Última da Existência.
Como em Babel (Gn. 11), construímos um edifício, uma torre, com tijolos que nós mesmos queimamos. Queremos chegar no céu, queremos alcançar Deus, queremos tornar nossos nomes conhecidos.
Mais que isso.
Se eu não sei o que aconteceu a Moisés, a tantos dias oculto na montanha enquanto conversa com Deus, se eu me sinto perdido, eu quero uma religião na qual eu controle as regras, os ritos, os processos e, se possível, o próprio Deus.
O bezerro é feito pelas ofertas dadas pelo povo. Feito pelo sacerdote. Nomeado pelo sacerdote:

“São esses os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito!”

É o sacerdote que anuncia que no dia seguinte haverá uma festa em honra ao Deus que os tirou do Egito - Yahweh. O sacerdote nomeia o Deus que ele mesmo fabricou: não é qualquer Deus, qualquer bezerro, mas é Yahweh, o Deus que os tirou do Egito.
Sinto que muito de nossa vida religiosa segue assim: mesmo diante do Deus vivo, somos incapazes de vê-lo e, assim, construímos ídolos que chamamos pelo nome desse Deus, mesmo que tenha pouco a ver com Ele.
Muito da nossa espiritualidade depende de uma imagem acerca de Deus que muitas vezes não corresponde àquela revelada nas Escrituras e em Jesus.
Muito da nossa espiritualidade depende de uma religiosidade que construímos com nossas próprias mãos, a partir daquilo que oferece o povo que crê, manipulado no fogo pelos sacerdotes.
Muito da nossa espiritualidade, diante do Deus vivo, caminha a passos largos para longe dEle.
Jesus tratou disso em outra região montanhosa, no meio do território dos samaritanos, ao lidar com um povo que, ele mesmo, se organizou em torno de uma proposta religiosa derivada do culto a Deus na forma de um bezerro (1 Rs 12. 29):

Mulher, acredite, está chegando a hora em que vocês, samaritanos, irão adorar o Pai, mas não neste monte nem em Jerusalém. Vocês adoram como que tateando no escuro. Nós, judeus, adoramos na clara luz do dia. O caminho de Deus para a salvação veio por meio dos judeus. Mas chegará o momento — na verdade, já chegou — em que não importará como vocês são chamados ou onde irão adorar.
O que conta para Deus é quem você é e como vive. Seu culto deve envolver o seu espírito na busca da verdade. Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser”.
João 4. 21-24


Que nossa adoração prescinda de qualquer ídolo ou imagem de Deus que construamos por nossa própria força. Que nossa adoração venha do espírito, do mais íntimo de nosso ser, sempre.

31.1.17

Onde está Deus?

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus
Salmo 14. 1


Não são raras as ocasiões em que as pessoas se questionam, ou nos questionam, perguntando: Onde está Deus? Nas grandes tragédias, como na Tsunami do ano passado [2004]; nos momentos de dor e morte, como em chacinas em que se mata, de graça, 30 pessoas no Rio de Janeiro. Momentos de mal e dor, pratos cheios para o desafios dos incrédulos.
O mundo, boa parte das vezes, parece provar que a fé em um Deus bondoso e de amor não é outra coisa senão uma grande mentira. Qualquer piedade, quando sentimento religioso, é visto como tolice. O problema do mal, o problema da dor, o dilema da morte, parecem atentar contra a realidade da presença do Deus vivo no nosso meio. Um Deus que é Senhor do universo e tem todas as coisas nas Suas mãos.
Dizem os que duvidam de Deus, diante grandes dores e tragédias, que se há um Deus, ou Ele não é Todo-Poderoso, e, por isso, não pode evitá-las, ou não é Bondoso e Amoroso, por isso, as deixa acontecer.
Se o nosso olhar for um olhar puramente humano, será impossível não darmos certa razão a essas críticas. Mas a nossa visão não parte de qualquer ponto humano. Devemos olhar a vida sob o prisma da Palavra de Deus. Sob esse prisma, não é tolo o que crê em um Deus Poderoso e Bom no universo. Antes, ao contrário, o tolo, o insensato, é aquele que diz no coração que não há Deus. Mas afirmar isso é reafirmar o aparente contra-senso: Deus é bom e poderoso e o mal continua reinando no mundo.
Isso me faz pensar em dois relatos que se contam sobre os dias no Campo de Concentração de Auschwitz, onde os nazistas mais mataram gente. Conta-se que um grupo de judeus assistia enquanto um oficial alemão espancava uma criança judia no campo de concentração. Após certo tempo, ele a matou com um tiro. Nesse momento, ouviu-se alguém perguntar: "Onde está Deus?" Ao que foi respondido: "Estava ali, com aquela criança".
Um outro relato é de um fato ocorrido alguns anos depois da Segunda Guerra. Em um debate entre alguns teólogos e filósofos famosos, um dos teólogos debatedores parafraseou uma fala de um poeta e disse que era possível orar depoisde Auschwitz porque se orava em Auschwitz.
Não acredito em respostas para a questão do mal. Não acredito que qualquer um tenha uma resposta, nem que precisamos tê-las. Não acho que a fé em Cristo nos dá todas as respostas. Não consigo entender nem jamais poderei entender isso. Mas sei de uma coisa: o Cristo a quem amo está sempre comigo, sempre conosco, mesmo no meio das maiores tragédias. Essa é a grande coisa do que Deus faz por nós. E é a grande certeza que podemos ter de que, ao contrário do que pensa o tolo, há um Deus.
O evangelho de João está repleto de promessas a esse respeito: Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês ... A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela... Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês (Jo. 14. 18; 23 e 15: 4). E, estando com Cristo, poderemos entender que mesmo que não saibamos o porquê do mal, podemos passar por ele, porque Ele está conosco: Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem.Eu venci o mundo (Jo. 16. 33). Enfim, tolo é o que não se lembra que, quando subiu ao céu, Jesus não prometeu o fim do mal no mundo, mas que estaria conosco por todos os dias, até o fim dos tempos (Mt. 28. 20).
Jesus nunca nos prometeu que nos livraria da tragédia, do mal e da dor. Não. O cristianismo não é a mensagem de uma boa vida por todo o tempo. Mas a mensagem da Cruz de Cristo ensina que Ele sempre estará conosco. Ele pode não impedir que enfrentemos a dor, mas com certeza Ele estará conosco quando passarmos por ela, enxugando a nossa lágrima e fazendo com que a dor e o sofrimento sejam mais fáceis de suportar. Porque, sim, há um Deus. Houve um Deus em Auschwitz. Há um Deus na baixada fluminense. Há um Deus no meio das vítimas da Tsunami.

30.1.17

Sábado

Guardem o dia de sábado, para que sempre seja santo. Trabalhem seis dias e, nesse tempo, façam tudo que for necessário. Mas o sétimo dia é o sábado do Eterno, o Deus de vocês. Não realizem nenhuma espécie de trabalho, nem vocês, nem seu filho, nem sua filha, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seus animais, nem mesmo o estrangeiro em visita à sua cidade. Porque, em seis dias, o Eterno fez o céu, a terra, o mar e tudo que neles há e descansou no sétimo dia. Portanto, o Eterno abençoou o dia de sábado e o separou como dia santo.
Êxodo 20. 8-11


Jesus enfrenta o sábado em todo o seu ministério - não para negar sua importância, mas para relativizá-lo diante da forma estrita com que a ortodoxia religiosa lidava com o tema.
O refrão de Jesus era que o sábado foi feito por causa do homem, não o homem por causa do sábado.
O sábado é descanso e celebração. Não é necessariamente um dia da semana, mas aponta para essa dupla necessidade que o ser humano tem.
Quanto de nossa vida espiritual e emocional adoeceu porque não guardamos um sábado? Trabalhamos muito, levamos trabalho para casa e, quando deveríamos estar descansando, curtindo a família ou celebrando ao Senhor, seguimos trabalhando.
Quantos fins de semana perdidos em trabalhos?
Quantos cultos que não fomos por causa de trabalho?
Quantos momentos de devoção pessoal foram perdidos porque precisávamos trabalhar?
Quanto de nosso trabalho roubou nossa vida, nosso descanso, nossa celebração, nossa saúde?
O sábado nos lembra que precisamos ter um momento de, fechada porta do quarto, falarmos na intimidade com o Senhor, louvarmos, ouvirmos sua voz falada na Palavra de Deus.
O sábado nos lembra que precisamos ir à praia, ao parque, ao cinema, viajar, descansar, dormir sem ter hora para acordar.
O sábado nos lembra de olhar os olhos de nossa família, nossos cônjuges, nossos pais, nossos filhos, nossos amigos.
O sábado nos lembra que o tempo passa, mas haveremos de reservar um tempo para cuidar de nós e dos outros.
O sábado nos lembra que o mundo veloz, líquido, superficial, passageiro no qual nos inserimos não há de ser o definidor de nossa existência, de nossas relações, de nossa religião.
O sábado nos lembra que é necessário desacelerar.
O sábado é a marca que pontua e faz pulsar o relógio de nossa vida - minuto a minuto, hora a hora, a cada momento.
O sábado nos lembra de mergulhar nas profundezas de um rico relacionamento com Deus.

Portanto, o Eterno abençoou o dia de sábado e o separou como dia santo.

29.1.17

Impassível?

E o Eterno disse: “Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"
Êxodo 3. 7-8


Para Aristóteles, Deus é o Motor Imóvel do universo. Essa ideia penetrou na teologia cristã ainda na Idade Média - muitos teólogos a partir de Tomás de Aquino se valeram da filosofia de Aristóteles para desenvolverem suas construções de fé.
O Motor Imóvel não pode mudar e, por isso, é Impassível - diante da dor e do sofrimento, diante da paz e da alegria, o Motor Imóvel segue igual.
Além disso, muita gente crê em Deus como um Todo-Poderoso e Soberano que já escreveu toda a história passada, presente e futura - portanto, uma história sob Seu controle mas completamente imutável.
Muita gente faz de Deus imutável - ser o mesmo ontem, hoje e sempre, para tais pessoas, faz de Deus alguém Impassível - alguém cuja misericórdia e a compaixão se existirem, são ficções, porque não representam nenhuma mudança no Seu Ser e nas Suas ações.
No entanto, o resumo do chamado de Moisés no Êxodo é que o Eterno não é Impassível. Ele vê, Ele ouve, Ele conhece e Ele, por isso, é tocado e desce para socorrer.
O Eterno não é Impassível.
Diante de um Deus que se compadece podemos saber que nunca estamos sozinhos.
Ele vê sua aflição. Ele sabe o que você está passando. Sabe quanto dói. Sabe que, por vezes, você sente que não aguenta mais. Sabe que você tem vontade de sumir e esgotou suas forças na tentativa de escapar da dor e da aflição. Sabe que você pode estar no limite. Ele vê sua dor e sua angústia.
Ele ouve a sua oração, o seu clamor. Você não chorou sozinho. A dor não doeu só em você. Você não jogou palavras ao vento, mas falou para um Deus que ouve. Se ninguém mais ouviu você, Ele ouviu. Ele ouviu e ainda ouve seu clamor.
Ele desceu para socorrer você. Ele não é impassível. Ele se importa com o que você está passando. Ele desceu, Ele veio até você.
A revelação do Deus da Bíblia tem a ver com um Deus que desce até nós para se revelar e nos libertar - ao invés de uma religião em que os humanos constroem ritos e regras para que alcancemos, tal qual numa Torre de Babel, a Divindade.
A revelação que Deus faz a Moisés aponta para aquela que se manifestou plenamente em Jesus. Em Jesus, o Eterno se fez um de nós. Se Deus fosse um Motor Imóvel, um Deus imutável, nunca poderia ter sido um de nós em Jesus. Nunca haveria esvaziamento, nunca haveria Emanuel, Deus conosco. Nunca haveria vida verdadeira tocada pelo Eterno, cruz, ressurreição e Espírito Santo.
Deus desce para nos livrar finalmente se tornando um de nós.
Deus desce para nos livrar e morar em nós pelo Seu Espírito.
Não é fácil passar por sofrimentos como os hebreus passavam no Egito. Não deve ser fácil enfrentar a dor e as circunstâncias que você está enfrentando. Pode ser que no meio do sofrimento você ainda se sinta sozinho e abandonado por amigos e parentes.
Há um momento no relato de Êxodo 5 que as coisas pioram logo depois de Moisés e Arão falarem com o Faraó. Agora os escravos precisam fazer a mesma cota de tijolos diária, mas sem que os egípcios forneçam a palha necessária. Os castigos aumentaram, a dor aumentou, o sofrimento aumentou.

Moisés orou ao Eterno e perguntou: “Por que tratas tão mal este povo? E por que me enviaste? Desde o momento em que fui falar ao faraó em teu nome, as coisas só pioraram para o povo. Libertação? É essa a ‘libertação’ que pretendias?”
Êxodo 5. 22-23


Nessa hora, por mais que seja difícil, acredite que Deus não é impassível - Ele desceu a fim de livrar você. Se mais ninguém está ao seu lado, Ele está não apenas ao seu lado, mas o Emanuel habita em você por meio do Espirito Santo.
Ele nunca o deixará e nunca o abandonará. Ainda que você não saiba quanto tempo ainda haverá até a libertação, Ele está com você e será sua força para que você passar por tudo.
Ele levará você à terra prometida.

“Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"

28.1.17

Mágoa

Passado o funeral, os irmãos de José começaram a falar: “E se José está guardando rancor e resolver nos devolver o mal que lhe fizemos?”
Gênesis 50. 15


Muitos anos atrás, ouvi uma pregação sobre esse texto. Jacó/Israel morreu após 17 anos morando no Egito. Embalsamado, foi levado por seus filhos para ser enterrado na Palestina.
Agora, os irmãos de José têm medo de que o agora governador do Egito decida se vingar pelo que lhe fizeram - ser vendido como escravo para uma caravana que o levou até o Egito.
Confesso que ao ouvir essa mensagem, me incomodei. Não porque não ache importante falarmos de rancor e mágoa. Mas porque o pregador assumiu a ideia, fácil, de que José, o sonhador, vendido como escravo, afastado de sua família, não guardou mágoa, não alimentou o rancor.
Os irmãos inventam que Israel pediu que José os perdoasse. José chora e diz que Deus estava naquilo para que todos pudessem, agora, ser protegidos e salvos da seca e da fome no Egito (Gn. 50. 16-21).
Lindo, não é?
Mas esse não é o José que o Gênesis mostra. Aliás, o Gênesis mostra um José que no fim do livro não precisa mais se vingar dos irmãos porque deu-lhes o troco antes.
O trecho que vai dos capítulos 42 a 44 mostra um José que, incógnito aos irmãos, vestido como governador egípcio, falando por meio de intérprete, aflige-os do mesmo modo como ele mesmo afligido: põe na cadeia, faz falsas acusações, ameaça com escravidão.
Esse, definitivamente, não é um homem que não guardou rancor, que não alimentou a mágoa. Ele é alguém que promoveu uma vingança, ainda que não fatal, fazendo sofrer os que lhe fizeram sofrer, antes de fazer as pazes com o passado.
Para mim, esse aspecto da narrativa de José não está ali para legitimar a vingança ou o troco. Ao contrário, mostra um José libertador que é humano o suficiente para deixar-se levar pela mágoa.
Serve para nos mostrar que a mágoa pode estar presente e ser guia das ações de qualquer um de nós. E que, ainda assim, quando erramos não se perde nada de bom que Deus fez ou faz por nosso intermédio.
Não é uma desculpa para ficar magoado mas um ensino de que não é impossível que a mágoa aconteça. E quando ela acontecer, lembre-se de que você é humano.
Ainda que saibamos que não somos culpados pelo mal que nos fazem, sabemos que a mágoa é nossa responsabilidade porque é resultado daquilo que fazemos com o mal que nos fazem. E isso é humano.
Deixar que a mágoa conduza nossas ações é deixar-se levar pelo mal. A raiva, o rancor são péssimos conselheiros. Fazem, por exemplo, confundir vingança e justiça. Mas isso é humano.
O caminho de livrar-se da mágoa é conhecido, ainda que nem sempre seja fácil: é o caminho mais excelente do amor (1 Co. 12. 27) e do perdão:

Então, Jesus orou: “Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo”.
Lucas 23. 34


Jesus perdoou os que o crucificavam. Não é fácil, mas é parte do caminho de deixar a mágoa de lado.

27.1.17

Lutar com Deus

Jacó ficou sozinho do outro lado, e um homem começou a lutar com ele. A luta durou até o raiar do dia. Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.
O estranho disse: “Deixe-me ir embora, o dia já raiou!”.
Mas Jacó retrucou: “Não deixarei você ir sem que me abençoe”.
O homem perguntou: “Qual é o seu nome?”.
Ele respondeu: “Jacó”.
E o homem disse: “Não mais. Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”.
E Jacó perguntou: “Qual é o seu nome?”.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Gênesis 32. 24-29


Lutar com Deus é se agarrar com todas as forças ao Senhor diante das situações mais difíceis ou assustadoras pelas quais passamos. É agarrá-lo, dizer-lhe que não pretende ir enquanto não vier uma bênção. É persistir na presença dEle - não para mudá-lo, alterar sua vontade, mas para que Ele nos mude.
Jacó enganou seu irmão duas vezes para roubar seus direitos como primogênito. Depois, foi enganado 20 anos por seu tio Labão até conseguir fugir e voltar para a sua terra.
Nesse momento da narrativa, Jacó está apavorado pela possibilidade de encontrar seu irmão, Esaú, ferido e magoado como deixara.
Jacó luta com o homem. Reconhece nesse homem o próprio Deus. Não pode deixá-lo ir. Quer a benção - a chance de encontrar seu irmão em paz.
Provavelmente, seu desejo era de que Deus mudasse Esaú para que o encontro ocorresse sem luta entre os dois.
E o que Deus faz?

Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.

Jacó, depois de 20 anos, não podia saber nada acerca de seu irmão. Ele não controlava a vida de seu irmão, suas escolhas, seus sentimentos, sua mágoa, seu rancor. Jacó não podia impedí-lo de que viesse com 400 soldados ou com presentes e flores.
A única circunstância sobre a qual Jacó podia interferir era a sua própria vida.
Lutar com Deus não muda Esaú - muda Jacó.
Ao lutar com Deus em oração talvez você não possa mudar um centímetro da circunstância ou da vida do outro - mas ao lutar com Deus, esteja certo, a sua vida será mudada.

"Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”

Por isso, não queira controlar as circunstâncias nem os meios de luta. Eles não pertencem a você.
Também não encaixote Deus dentro dos limites e parâmetros que você definiu. Nem suas crenças, seu conhecimento, nem a sua teologia definem (dão fim) a Deus. Ele é maior.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Lutar com Deus muda você porque Deus está além do que você imagina e nomeia.
Ao orar, portanto, não espere a mudança das circunstâncias ou do outro. Reconheça a sua própria mudança. Assim, talvez, você seja a resposta à sua própria oração. Como Jacó ao se tornar Israel.

26.1.17

Abrir os olhos

Na mesma hora, Deus abriu os olhos dela. Hagar avistou um poço de água.
Gênesis 21. 19


Nem sempre vemos o óbvio, o evidente, aquilo que sempre esteve diante de nossos olhos. Boa parte das vezes, o que nos cega são nossos preconceitos ou emoções. Parece que quanto mais forte a emoção, menos a gente a vê o óbvio - tanto as emoções ruins (já ouviu o adágio de que a raiva é nossa pior conselheira?), como as boas (o amor é cego?).
Hagar está em sofrimento com seu filho Ismael. Acabaram de ser expulsos por Abraão e Sara. Sara expulsou sua escrava mesmo depois de ter-lhe feito de escrava sexual para que gerasse um filho para o marido. Agora, sentia Hagar e Ismael como ameaças.
Hagar e Ismael são mãe e filho extremamente humilhados - escrava convertida em barriga de aluguel, rejeitada após isso, filho abandonado pelo pai. A dor devia ser imensurável. Não consigo imaginar o quanto esses dois estão sofrendo - Ismael, uma criança ainda.
Some-se a isso a sede e a fome.
Hagar desistiu. Coloca seu filho sob uma árvore e vai mais adiante esperar pela morte. Dos dois.
Quem não desistiu dos dois foi Deus. O Senhor é sempre o Deus daqueles que estão em sofrimento, dos humilhados, abandonados - daqueles para quem as costas foram viradas. Deus é o Deus de Hagar e Ismael.
Na sua dor, Hagar é incapaz de ver saída para o sofrimento, para a fome e para a sede. Mas Deus com ela lhe mostra que tudo pode ser diferente.

“Hagar, o que aconteceu? Não fique com medo. Deus ouviu o menino e sabe que ele está numa situação difícil. Agora, levante-se, pegue seu filho e abrace-o! Vou fazer dele uma grande nação”.
Gênesis 21. 18


Deus está com a mulher violentada, com o filho abandonado, com todo aquele em sofrimento e dor.
Sua dor pode ser de outra ordem, mas Deus está com você, estimulando todo o tempo que você deixe o medo de lado - Ele vai cumprir o que prometeu.
Na dor, não desista, não deixe os que você ama de lado. Siga em frente e erga os olhos.

Na mesma hora, Deus abriu os olhos dela. Hagar avistou um poço de água.

A dor cegava Hagar ao ponto de que ela não era capaz de ver a salvação bem diante dos seus olhos. Mesmo uma salvação tão evidente só é possível de ser vista se Deus abrir seus olhos.
A situação pode não ser como a de Hagar. Você pode não estar em sofrimento. Mas é um alívio saber que Deus estará com você quando estiver caminhando no deserto, quando não parecer haver saída, quando o desejo for apenas de sentar e morrer - nesse momento, Ele abrirá seus olhos.
Sua salvação sempre estará perto de você.

25.1.17

Bênção

Você será uma bênção.
Gênesis 12. 2


O cristianismo de consumo nos ensinou o valor de buscarmos bênçãos que nos enriquecem. Buscamos satisfação dos problemas financeiros, buscamos operação de milagres familiares, buscamos a cura de doenças incuráveis, buscamos paz de espírito e felicidade.
Tais buscas muitas vezes parecem com a hercúlea tarefa de cavar com as mãos na areia molhada da praia para fazer uma grande “piscina" para brincar com os filhos - as paredes cedem pelo peso da areia ou quando as ondas avançam, nos forçando a começar tudo novamente. Buscar bênção para nós mesmos muitas vezes vai significar algo como essa experiência.
Não é a toa que, segundo o livro de Atos, Jesus afirmou que dar é muito melhor do que receber (At. 20. 35).
Nós não somos chamados por Deus para sermos depositários das suas bênção, como se fossemos gigantescos sumidouros de sua graça. Como Abrão em Gn. 12, as bênçãos que nos alcançam não são para morrer em nós:

Você será uma bênção.

Se a bênção de Deus nos alcança tem uma única finalidade: que possamos ser bênçãos. Somente abençoados unicamente para abençoar.
A oração atribuída a Francisco de Assis assume tal parâmetro. Não é um pedido de bênçãos, mas um pedido para abençoar.

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Teremos uma rica e doce experiência com Deus à medida que formos capazes de experimentar, diante dEle, a graça de abençoar; à medida que compreendermos que a graça de Deus não chega a nós para morrer em nós; à medida que nossas orações e preocupações visarem antes à solução dos problemas dos outros; quando formos luz brilhando e sal salgando (Mt. 5. 13-16, Mc 9. 50, Lc. 14. 34-35).


 

24.1.17

O amor

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.
1 Coríntios 13. 7 (NVT)

A parábola do filho pródigo (Lc. 15. 11-32) é provavelmente um textos mais conhecidos do Novo Testamento. A estória de dois filhos e seu pai, como diz Henri Nouwen, não apenas uma lição sobre legalismo farisaico e graça divina. É um belo relato de amor.
Stênio Marcius canta esse amor de maneira poética, um amor do fim de tarde no portão. Do Pai pelo seu filho perdido. Na Nova Versão Internacional, o versículo 20 diz:

Estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou.

O Pai viu seu filho regressando quando ainda estava longe. Por isso, Stênio Marcius pode imaginar um pai que, todas as tardes, repete o ritual de estar à porta, olhando o horizonte, em busca do filho perdido.

Fim de tarde no portão
A cabeça branca ao relento
Teimosia de paixão
Faz das cinzas renascer alento

Na estrada o seu olhar
Procurando um vulto conhecido
Espera um dia abraçar
Quem diziam já estar perdido

Esta parábola contada por Jesus reforça a ideia que Paulo expressa em 1 Coríntios 13. 7:

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.

Em primeiro lugar, podemos estar certos que, por pior que seja a situação, o amor de Deus nunca desiste de nós, sempre se mantém firme. O Pai da parábola é imagem do nosso Pai Celestial. Por mais que nos afastemos, por mais que lhe viremos as costas, por mais que a vida nos distancie do Pai, Ele está à porta, olhando o horizonte, esperando firme o nosso retorno. Ele não perde a fé e sempre tem esperança em nós.
Porém o mais fascinante é que o amor de Deus é modelo para o que Deus espera que seja nossa própria experiência de amor. Amamos porque primeiro fomos amados (1 Jo 4. 19) e o nosso amor é sempre resposta ao Seu amor. Por isso, quando Paulo escreve é sobre o mais excelente caminho para nós (1 Co 12. 31) - é sobre o nosso amor em resposta ao amor de Deus.
Assim como o amor de Deus não desiste, perde a fé ou a esperança em nós e sempre se mantém firme, nosso amor deve ter tais características.
Como o Pai que espera toda tarde à porta, que olha o horizonte, o nosso amor também não deve desistir - ainda que dever não combine com nenhuma ideia de amor, nem no sentido de obrigação, nem no sentido de dívida: o amor não é um dever nem uma dívida.
O amor é graça e é de graça. Espera contra a esperança. É firme e não desiste. Nunca perde a fé no ser amado.
Tais características do amor são um caminho certo para a dor, mas, por outro lado, garantem a gratificante experiência de conhecer, no profundo da alma, o mais profundo amor.

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.

O Pai amoroso permanecerá firme ao seu lado, jamais desistirá de você, nunca perderá a fé e sempre terá esperança em você.
Somente assim é possível que ao amarmos possamos estar firmes e nunca desistir do ser amado, nunca perder a fé e a esperança nele.
Como nós decepcionamos o Pai que nos ama, é certo que aqueles que amamos (pais, irmãos, amigos, filhos, cônjuges) também poderão nos decepcionar.
Que possamos aprender, nesses casos, a permanecermos sempre firmes no amor.

23.1.17

Guarda-roupa e Leão

Em tempos difíceis, Ele me esconderá no Seu abrigo.
Salmo 27. 5


Anos atrás eu passei por uma experiência que ainda hoje, quando penso nela, falta-me ar e as mãos suam frio. Praticava natação na faculdade como educação física e, uma tarde, não consegui terminar um trecho que me havia sido pedido pelo professor. A piscina da UFRN não dava pé para mim. Cabeça fora d´água, flutuava sem conseguir respirar. Desesperei-me ao perceber que ia me afogar, mesmo estando flutuando e nadando bem. Por mais que tentasse puxar o ar, não conseguia. Estava em uma crise de pânico. Em um último esforço, tentei chamar por socorro e me joguei com o resto de minhas forças na margem. Parte da sensação terrível que senti naquela tarde me aflige enquanto digito essas palavras. Terminei deixando a educação física incompleta, mas consegui aproveitar os créditos complementares através de um acordo com o professor. Não consegui mais entrar naquela piscina depois de quase me afogar.
As vezes, é assim que a gente se sente, como se estivesse se afogando sob o peso de tanta pressão.
Quando assisti a primeira vez As crônicas de Nárnia ainda não havia lido a obra de C.S. Lewis.  Além de meu encanto com a menininha Georgie Henley, que faz Lucy, o filme me fez pensar.
Todos nós, quando no meio de lutas que nos sufocam, queremos fugir para outros lugares. Isso é natural. Ninguém que não seja masoquista vai querer ficar para sofrer, para se afogar. E quando a gente vê em um filme como aquele a existência de um escape, um guarda-roupas que nos leva a um Reino mágico onde somos reis, talvez queiramos ainda mais descobrir uma forma de fugir de nossas lutas e problemas. Quem sabe fugir para Nárnia.
Quando a gente se vê desprotegido e, talvez, sem amigos muito leais, quem sabe que efeito provoca em nossos sonhos a figura imponente do leão Aislam. Doce e forte, delicado e corajoso. Amigo que protege, que entrega a vida – inocente – por um traidor culpado. Alguém que tem a palavra certa para cada ocasião. Alguém que inspira cuidado e amor. Confesso que enquanto via o leão se deslocar na tela e lembrava de meus problemas, desejava eu mesmo acariciar a sua juba e sentir o cuidado de sua proteção. Vendo o filme e pensando nas minhas lutas diárias, desejei demasiadamente que aquilo fosse real e houvesse um guarda-roupa que me transportasse, desde uma vida que me afoga e mata pouco a pouco para um mundo mágico sob a proteção de Aslam, o leão ressuscitado.
Quer saber o que é melhor? Algo que a gente corre o risco de esquecer? Existe o guarda-roupa. Aislam é real. Você pode viver – eu posso viver – sob Seu cuidado e proteção. Podemos sentir o Seu carinho e amor. Sua doçura e fortaleza. Sua vida, Sua morte e Sua ressurreição. Podemos escapar para o Reino de Nárnia para recuperar as forças. A vida mais real é a que corre em Nárnia. A que ocorre do lado de cá do guarda-roupa, na terra da “salavazia”, é reflexo do mundo espiritual.
Nárnia não é metáfora; é a própria verdade bíblica. E me fez recuperar a porta de escape para a sua dimensão que eu havia esquecido. A oração e a comunhão com o Pai são os nossos guarda-roupas que abrem o portal mágico para o contato íntimo com Aislam/Jesus Cristo. Se a vida nos afoga, se nos sufoca – podemos contar com o socorro e o abrigo de Jesus. Durante o filme eu pensei em um momento como seria ótimo ter um leão como Aislam ao nosso lado, para nos proteger. Por um instante esqueci que Ele – Jesus – está de verdade ao nosso lado. De verdade podemos tocar-lhe, ouvir Sua voz carinhosa e sentir Seu amor infinito. Se queremos escapar para o Reino do amor precisamos da força da oração e da comunhão com o Pai e com o Leão. Só assim podemos suportar o peso da vida sem nos afogar.

Observação:  Mais uma vez, a necessidade de tratar de questões pessoais me impediu de escrever uma reflexão inédita. Adaptei, portanto, texto já publicado em 13 de dezembro de 2005.

22.1.17

Frágil

Chorei muito porque ninguém era capaz de abrir o livro para lê-lo. Mas um dos Anciãos disse: “Não chore. Olhe — o Leão da Tribo de Judá, a Raiz da Árvore de Davi, venceu. Ele pode abrir o livro e romper os selos”.
Então olhei para o trono, com os Animais e Anciãos à volta dele, e vi o Cordeiro, abatido, mas ainda de pé.
Apocalipse 5. 4-6

A manhã deste domingo (22/1) começou bastante chuvosa. Raios e trovões rasgavam os céus de Natal, assustando e fascinando uma cidade que não costuma ser habituada a tanto barulho de chuva.
Raios e trovões sempre fascinaram a humanidade pelo que representam de poder e energia. O fogo que cai do céu ainda hoje mata muita gente, mas nos tempos antigos, inclusive bíblicos, era visto como a manifestação poderosa da divindade. Em 1 Reis 18, é um raio que consome a oferta de Elias para provar que só Iahweh é Deus, não Baal.
Costumamos, pela majestade, relacionar o grande poder, as grandes manifestações, raios e trovões, a Deus. É por isso que a visão de João em Apocalipse 5 é tão impressionante.
João chora porque não se vê no céu ninguém que seja capaz de desatar os selos que envolvem o livro - que entendemos se referir ao desenrolar da história. Um Ancião destaca, no entanto:

“Não chore. Olhe — o Leão da Tribo de Judá, a Raiz da Árvore de Davi, venceu. Ele pode abrir o livro e romper os selos”

Há um vencedor que pode abrir o livro: Ele é um Leão, é da Descendência de Davi, Ele venceu, Ele é Jesus. Poderoso para romper os selos.
João ergue os olhos. Não vê um Thor que manda raios e trovões com seu martelo. Não vê uma nuvem assustadora. Não vê fogo correndo em forma de lava. Não sente um vento impetuoso. Não olha para um luz ou glória capaz de cegar. Não vê nada que lhe dê medo.

Então olhei para o trono, com os Animais e Anciãos à volta dele, e vi o Cordeiro, abatido, mas ainda de pé.

Ele viu um Cordeiro como que tivesse sido morto. Existe algo mais dócil, frágil que um cordeiro morto?
Quem venceu, quem merece a adoração de homens e anjos, não é um violento leão, um emissor de raios, um guerreiro vistoso. Quem venceu foi um Cordeiro morto.
A força da vitória que encontramos em Jesus é a força da fragilidade de um Cordeiro oferecido em sacrifício voluntariamente.
A vitória, na dimensão de Jesus, passa por assumir a mansidão, a suavidade, a fragilidade de quem, como cordeiro, se oferece voluntariamente a ser sacrificado por amor.
Vence o frágil, não o poderoso.
Vence o que se entrega, não o que combate.
Vence o que ama, não o que guerreia.
Vence o Cordeiro: a história pertence a Ele e aos que entenderam que a sua força é ser frágil.

21.1.17

Amar a Deus

Se alguém se vangloria, dizendo: “Eu amo a Deus” mas odeia e despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo. Vocês precisam amar os dois.
1 João 4. 20-21


A religião sempre promoveu uma separação entre as relações verticais entre o fiel e seu deus e as relações horizontais do fiel com os outros. Essa separação por vezes tomou corpo como ação violenta e bárbara contra todo aquele que é ou era diferente.
E não é preciso pensar apenas em movimentos terríveis como os do Estado Islâmico. No mundo religioso cristão e ocidental vimos por diversas vezes tais práticas de ódio subsistirem: na Inquisição, nas Guerras Religiosas, nos conflitos entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha, no Apartheid sul-africano, nas políticas de segregação nos Estados Unidos.
Sempre foi fácil fugir do texto de João a partir da elasticidade interpretativa que define quem é o próximo, quem é o irmão. O outro sempre foi visto nesses casos como qualquer coisa, menos o próximo que deve ser amado. A parábola do samaritano foi contada por Jesus como forma de responder a essa pergunta: “quem é o meu próximo?” (Lc. 10. 29).
Quando Jesus responde, mostra que o próximo não é o religioso, não é o ortodoxo, mas é o estrangeiro herege, o samaritano que não segue a Deus como os judeus seguem.
Esse é o meu próximo: não o que é igual a mim, mas o que é absolutamente outro.
O mais radical dessa verdade do evangelho é que eu só posso a amar a Deus se amar esse outro, esse próximo, essa pessoa completamente diferente de mim.

O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo.
Afinal, como eu poderia dizer que amo a Deus, a quem não vejo, se desejo a morte de alguém? Como eu posso falar do meu amor a Deus, se faço o mal ao próximo? Como posso amar a Deus, se não amo o outro?
João não mede palavras: “é mentiroso”.
É mentiroso porque Deus só se ama no amor ao próximo. O amor a Deus não pode ser platônico, sentimento emocionante que nos toca a alma.
O amor só é possível porque Deus nos amou primeiro - e quando nos amou, fez-se um de nós e morreu por nós.
O amor a Deus, portanto, só pode ser real se for posto em prática, em ação. E esse ação, essa prática, essa realidade, não se dirige a um mundo etéreo: só se ama de verdade a Deus amando-se as pessoas.
Fazendo o bem a elas.
Socorrendo-as, como fez o bom samaritano.
Deixando a religião em segundo plano, em favor do amor.
Por isso, a importância da exortação da 2 Pedro 1. 5-7, que põe em questão, inclusive, uma certa posição de importância:

Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a devoção a Deus; à devoção a Deus a fraternidade; e à fraternidade o amor. (NVT)

A fraternidade é mais importante que a devoção - e o amor é mais importante que tudo e a tudo une.
Que aprendamos que amar a Deus é amar o próximo.