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6.2.17

Amor e oração

Mas eles se prostraram com o rosto no chão.
Números 16.45


Vivemos tempos em que a raiva, a mágoa, o ressentimento, o ódio estão cada vez mais presentes nas relações sociais, potencializados pelo anonimato e distanciamento propiciado pelas redes sociais.
Recentemente, na morte de uma figura pública, o ódio grassou - inclusive da parte de médicos que, em vez de defenderem a vida, se colocaram pedindo a morte.
Essa espécie de relação já nos alcança pessoal e diretamente. Você não deve ter dificuldade em lembrar de seus relacionamentos que estão sendo alimentados e estão alimentando perdões não concedidos, desejos de vingança, raivas diversas. 
É da natureza humana, da natureza das relações, da natureza da sociedade.
Mas não significa que não possamos nos insurgir contra.
Essa é uma tarefa cotidiana para mim. Uma pessoa de minha família relatou há poucos dias que fora xingada no embarque de um vôo por causa da camiseta que vestia - sua resposta foi mandar a outra pessoa ao inferno. Eu sugeri que dissesse à pessoa que desejava que ela pudesse encontrar amor verdadeiro em sua vida. É algo que tenho tentado fazer: responder com paz e amor toda manifestação de raiva, mágoa ou ódio. Nem sempre consigo e nunca é fácil.
Números 16 começa com a revolta de Corá, Datã e Abirão contra Moisés e Arão. Debaixo de seus pés o chão se abre e os três morrem, em um ação divina para reforçar a autoridade de Moisés e Arão.
Mas no dia seguinte, o povo novamente começa a reclamar de seus líderes e quer depô-los - em reação, Deus quer destruir toda aquela gente e começar de novo com a família de Moisés. Moisés e Arão só fazem uma coisa:

Mas eles se prostraram com o rosto no chão.


A resposta de Moisés e Arão a mais uma tentativa de deposição do povo, com raiva pela morte de Corá, Datã e Abirão, é orar pelo povo que quer sua morte!
Orar pelo povo que quer sua morte!
No Sermão do Monte, Jesus nos desafia a não resistir ao perverso, oferecer a outra face a quem nos agride, dar a capa a quem pedir a túnica, andar a segunda milha a quem quiser nos forçar a andar uma (Mt. 5. 38-41).
O desafio é respondermos de forma pacífica e amorosa.
O desafio é orar por aqueles que querem nos derrubar.
O desafio é amar a quem nos odeia. É Jesus quem chama:

Vocês conhecem a antiga lei: “Amem seus amigos”, e seu complemento não escrito: “Odeiem seus inimigos”. Quero redefinir isso. Digo que vocês devem amar os inimigos. Deixem que tirem o melhor de vocês, não o pior. Se alguém fizer mal a vocês, reajam com a força da oração, pois assim agirão do fundo do seu verdadeiro ser, do ser que Deus criou.
Mateus 5. 43-45


Não imagine que isso seja fácil. Mas é a única forma de que não deixemos ninguém tirar o pior de nós, apenas o melhor.
Não é fácil, mas somente assim estaremos nos aproximando de nosso verdadeiro ser, de nossa essência. Uma essência que não derivará do pecado, de nossas relações adoecidas pela mágoa e pelo ódio, ou da opressão presente na sociedade.
Essa essência deriva de nossa relação com Aquele que descia na Tabernáculo na travessia do deserto e Tabernaculou entre nós na Encarnação de Jesus.
Essa essência deriva de nossa relação com o Amor - que na cruz, tortura, escarnecido e condenado à morte, foi capaz de orar:

“Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo”.
Lc. 23. 34






3.2.17

Sejam santos

Sejam santos porque eu sou santo.
Levítico 11. 45


Quando lemos o livro de Levítico encontramos um tipo de religiosidade e de fé peculiarmente relacionada ao rituais sagrados e as formas de tecnologias religiosas: o texto está repleto de orientações sobre como realizar o culto, que roupas os sacerdotes devem vestir, em que momentos devem se banhar, que animais podem ser sacrificados, quais não podem ser comidos, e segue.
Para os sacerdotes que escreveram o Levítico, ser santo é seguir o manual de vida espiritual, religiosa e os cultos conforme prescritos. Ser santo é viver de acordo com as leis e os ritos.
É nesse contexto que surge o chamado:

Sejam santos porque eu sou santo.

Quando os sacerdotes, os judeus religiosos liam esse chamado só podiam entender de uma forma: sigamos a lei, cada um de seus preceitos, obedeçamos a ordem do culto, ofereçamos cada sacrifício prescritos, então estaremos agradando a Deus e sendo santos.
Era assim nos dias de Jesus, mesmo que fariseus e saduceus tivessem interpretações teológicas distintas, ambos ainda vivenciavam um formato legalista de servir a Deus.
Jesus não nega a necessidade de sermos santos. Ele nega a forma como achavam que seríamos. Ele nega o rito estrito, a lei que estava acima das pessoas, o peso da letra sobre a vida.
Enquanto no mesmo livro de Levítico (15. 25 - 30) se afirma que uma mulher que tenha fluxo contínuo de sangue estaria impura enquanto sangrasse, tornando impuros todos e tudo que a tocasse, Jesus não se preocupa com isso quando cura uma mulher assim (Mt. 9, Mc. 5, Lc. 8).
Enquanto o Levítico 13-14 discorre sobre a lepra e sua impureza, inclusive delimitando quando e como o doente seria considerado curado e puro, Jesus não ligava para tais rituais quando curava os tantos leprosos que curou em seu ministério.
O ser santo, em Jesus, ia muito além da normatização do rituais e leis e do respeito a eles. Ser santo é muito mais que isso - a começar pela compreensão de que o ser humano não é definido pela lei, mas sim a lei se relativiza em favor do homem.
Foi assim com o sábado e com a mulher adúltera (Jo. 8).
Lembro, então, da parábola do samaritano (Lc. 10:30-37), na qual Jesus denuncia a religiosidade dos judeus (um levita e um sacerdote poderiam ter ajudado o homem ferido, mas passaram ao largo para não se contaminar com o sangue derramado) em favor daquilo que vale e que foi feito por um herege apóstata, o samaritano.
Sempre me chamou atenção uma coisa nesse texto: a pergunta que Jesus faz, no final da parábola, ao mestre da lei com quem conversa, me incomoda porque não era a que eu esperaria. Ela mudo enfoque - há um homem ferido e três passaram por perto, mas só um ajudou. Para mim, a pergunta deveria ser: “qual dos três considerou o homem ferido como seu próximo?” Mas a pergunta de Jesus inverte a ordem:

“O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?”
Lucas 10. 36


Em vez de olhar para os três homens, olha para o ferido. Qual dos três é o seu próximo?
Você lembra o que motiva Jesus a contar a parábola? Um mestre da lei se aproxima e pergunta o que era preciso fazer para herdar a vida eterna (Lc. 10. 25). Jesus responde questionando-o sobre o que ele pensa que diz a lei:

“Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”.
Lucas 10. 27


Jesus elogia a resposta e diz que ele tem de fazer aquilo mesmo para ser salvo. O mestre fica desconcertado e pergunta:

“Como saber quem é o próximo?”
Lucas 10. 29


É para responder essa pergunta que Jesus conta a parábola.
O próximo, no contexto, é alguém que devemos amar como a nós mesmos. Por isso, se eu olho a estória do ponto de vista do homem ferido (Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões?), ela não me diz apenas que o samaritano é o seu próximo que deve ser amado como si mesmo.
Ela diz também que os religiosos não são - e logo, não dever amados. Em outras palavras, Jesus diz que não devemos amar uma religião ou religiosos que passam ao largo de nós sem nos socorrer.
No fundo, também, toda essa história leva mais longe a questão do Levítico e da relativização da lei por Jesus.

Sejam santos porque eu sou santo.


Não é o ritual, a prática religiosa, as vestes, o culto, a norma, o seguimento estrito da letra que nos faz santos como o Senhor é santo.
Em Jesus, o Santo, o Senhor, ser santo é, simplesmente, amar. O seguimento estrito e legalista de ritos e leis nos afasta do próximo e da santida e nos torna indignos do amor.
O que importa, o que nos faz santos, o que nos aproxima de Deus, é aquilo que resume toda a lei e os profetas:

“Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”.








28.1.17

Mágoa

Passado o funeral, os irmãos de José começaram a falar: “E se José está guardando rancor e resolver nos devolver o mal que lhe fizemos?”
Gênesis 50. 15


Muitos anos atrás, ouvi uma pregação sobre esse texto. Jacó/Israel morreu após 17 anos morando no Egito. Embalsamado, foi levado por seus filhos para ser enterrado na Palestina.
Agora, os irmãos de José têm medo de que o agora governador do Egito decida se vingar pelo que lhe fizeram - ser vendido como escravo para uma caravana que o levou até o Egito.
Confesso que ao ouvir essa mensagem, me incomodei. Não porque não ache importante falarmos de rancor e mágoa. Mas porque o pregador assumiu a ideia, fácil, de que José, o sonhador, vendido como escravo, afastado de sua família, não guardou mágoa, não alimentou o rancor.
Os irmãos inventam que Israel pediu que José os perdoasse. José chora e diz que Deus estava naquilo para que todos pudessem, agora, ser protegidos e salvos da seca e da fome no Egito (Gn. 50. 16-21).
Lindo, não é?
Mas esse não é o José que o Gênesis mostra. Aliás, o Gênesis mostra um José que no fim do livro não precisa mais se vingar dos irmãos porque deu-lhes o troco antes.
O trecho que vai dos capítulos 42 a 44 mostra um José que, incógnito aos irmãos, vestido como governador egípcio, falando por meio de intérprete, aflige-os do mesmo modo como ele mesmo afligido: põe na cadeia, faz falsas acusações, ameaça com escravidão.
Esse, definitivamente, não é um homem que não guardou rancor, que não alimentou a mágoa. Ele é alguém que promoveu uma vingança, ainda que não fatal, fazendo sofrer os que lhe fizeram sofrer, antes de fazer as pazes com o passado.
Para mim, esse aspecto da narrativa de José não está ali para legitimar a vingança ou o troco. Ao contrário, mostra um José libertador que é humano o suficiente para deixar-se levar pela mágoa.
Serve para nos mostrar que a mágoa pode estar presente e ser guia das ações de qualquer um de nós. E que, ainda assim, quando erramos não se perde nada de bom que Deus fez ou faz por nosso intermédio.
Não é uma desculpa para ficar magoado mas um ensino de que não é impossível que a mágoa aconteça. E quando ela acontecer, lembre-se de que você é humano.
Ainda que saibamos que não somos culpados pelo mal que nos fazem, sabemos que a mágoa é nossa responsabilidade porque é resultado daquilo que fazemos com o mal que nos fazem. E isso é humano.
Deixar que a mágoa conduza nossas ações é deixar-se levar pelo mal. A raiva, o rancor são péssimos conselheiros. Fazem, por exemplo, confundir vingança e justiça. Mas isso é humano.
O caminho de livrar-se da mágoa é conhecido, ainda que nem sempre seja fácil: é o caminho mais excelente do amor (1 Co. 12. 27) e do perdão:

Então, Jesus orou: “Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo”.
Lucas 23. 34


Jesus perdoou os que o crucificavam. Não é fácil, mas é parte do caminho de deixar a mágoa de lado.

24.1.17

O amor

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.
1 Coríntios 13. 7 (NVT)

A parábola do filho pródigo (Lc. 15. 11-32) é provavelmente um textos mais conhecidos do Novo Testamento. A estória de dois filhos e seu pai, como diz Henri Nouwen, não apenas uma lição sobre legalismo farisaico e graça divina. É um belo relato de amor.
Stênio Marcius canta esse amor de maneira poética, um amor do fim de tarde no portão. Do Pai pelo seu filho perdido. Na Nova Versão Internacional, o versículo 20 diz:

Estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou.

O Pai viu seu filho regressando quando ainda estava longe. Por isso, Stênio Marcius pode imaginar um pai que, todas as tardes, repete o ritual de estar à porta, olhando o horizonte, em busca do filho perdido.

Fim de tarde no portão
A cabeça branca ao relento
Teimosia de paixão
Faz das cinzas renascer alento

Na estrada o seu olhar
Procurando um vulto conhecido
Espera um dia abraçar
Quem diziam já estar perdido

Esta parábola contada por Jesus reforça a ideia que Paulo expressa em 1 Coríntios 13. 7:

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.

Em primeiro lugar, podemos estar certos que, por pior que seja a situação, o amor de Deus nunca desiste de nós, sempre se mantém firme. O Pai da parábola é imagem do nosso Pai Celestial. Por mais que nos afastemos, por mais que lhe viremos as costas, por mais que a vida nos distancie do Pai, Ele está à porta, olhando o horizonte, esperando firme o nosso retorno. Ele não perde a fé e sempre tem esperança em nós.
Porém o mais fascinante é que o amor de Deus é modelo para o que Deus espera que seja nossa própria experiência de amor. Amamos porque primeiro fomos amados (1 Jo 4. 19) e o nosso amor é sempre resposta ao Seu amor. Por isso, quando Paulo escreve é sobre o mais excelente caminho para nós (1 Co 12. 31) - é sobre o nosso amor em resposta ao amor de Deus.
Assim como o amor de Deus não desiste, perde a fé ou a esperança em nós e sempre se mantém firme, nosso amor deve ter tais características.
Como o Pai que espera toda tarde à porta, que olha o horizonte, o nosso amor também não deve desistir - ainda que dever não combine com nenhuma ideia de amor, nem no sentido de obrigação, nem no sentido de dívida: o amor não é um dever nem uma dívida.
O amor é graça e é de graça. Espera contra a esperança. É firme e não desiste. Nunca perde a fé no ser amado.
Tais características do amor são um caminho certo para a dor, mas, por outro lado, garantem a gratificante experiência de conhecer, no profundo da alma, o mais profundo amor.

O amor nunca desiste, nunca perde a fé, sempre tem esperança e sempre se mantém firme.

O Pai amoroso permanecerá firme ao seu lado, jamais desistirá de você, nunca perderá a fé e sempre terá esperança em você.
Somente assim é possível que ao amarmos possamos estar firmes e nunca desistir do ser amado, nunca perder a fé e a esperança nele.
Como nós decepcionamos o Pai que nos ama, é certo que aqueles que amamos (pais, irmãos, amigos, filhos, cônjuges) também poderão nos decepcionar.
Que possamos aprender, nesses casos, a permanecermos sempre firmes no amor.

21.1.17

Amar a Deus

Se alguém se vangloria, dizendo: “Eu amo a Deus” mas odeia e despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo. Vocês precisam amar os dois.
1 João 4. 20-21


A religião sempre promoveu uma separação entre as relações verticais entre o fiel e seu deus e as relações horizontais do fiel com os outros. Essa separação por vezes tomou corpo como ação violenta e bárbara contra todo aquele que é ou era diferente.
E não é preciso pensar apenas em movimentos terríveis como os do Estado Islâmico. No mundo religioso cristão e ocidental vimos por diversas vezes tais práticas de ódio subsistirem: na Inquisição, nas Guerras Religiosas, nos conflitos entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha, no Apartheid sul-africano, nas políticas de segregação nos Estados Unidos.
Sempre foi fácil fugir do texto de João a partir da elasticidade interpretativa que define quem é o próximo, quem é o irmão. O outro sempre foi visto nesses casos como qualquer coisa, menos o próximo que deve ser amado. A parábola do samaritano foi contada por Jesus como forma de responder a essa pergunta: “quem é o meu próximo?” (Lc. 10. 29).
Quando Jesus responde, mostra que o próximo não é o religioso, não é o ortodoxo, mas é o estrangeiro herege, o samaritano que não segue a Deus como os judeus seguem.
Esse é o meu próximo: não o que é igual a mim, mas o que é absolutamente outro.
O mais radical dessa verdade do evangelho é que eu só posso a amar a Deus se amar esse outro, esse próximo, essa pessoa completamente diferente de mim.

O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo.
Afinal, como eu poderia dizer que amo a Deus, a quem não vejo, se desejo a morte de alguém? Como eu posso falar do meu amor a Deus, se faço o mal ao próximo? Como posso amar a Deus, se não amo o outro?
João não mede palavras: “é mentiroso”.
É mentiroso porque Deus só se ama no amor ao próximo. O amor a Deus não pode ser platônico, sentimento emocionante que nos toca a alma.
O amor só é possível porque Deus nos amou primeiro - e quando nos amou, fez-se um de nós e morreu por nós.
O amor a Deus, portanto, só pode ser real se for posto em prática, em ação. E esse ação, essa prática, essa realidade, não se dirige a um mundo etéreo: só se ama de verdade a Deus amando-se as pessoas.
Fazendo o bem a elas.
Socorrendo-as, como fez o bom samaritano.
Deixando a religião em segundo plano, em favor do amor.
Por isso, a importância da exortação da 2 Pedro 1. 5-7, que põe em questão, inclusive, uma certa posição de importância:

Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a devoção a Deus; à devoção a Deus a fraternidade; e à fraternidade o amor. (NVT)

A fraternidade é mais importante que a devoção - e o amor é mais importante que tudo e a tudo une.
Que aprendamos que amar a Deus é amar o próximo.

16.1.17

Mais importante que tudo

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.
Filipenses 3.8-9

Em setembro de 1996, aos 17 anos, eu enfrentava uma crise existencial, talvez típica da adolescência. A morte de um colega de escola em um acidente de carro fez a crise aprofundar. Tudo estava em crise para mim, a partir da fé e do modo de ver a vida. Ali eu era um adolescente espírita que colocava em xeque sua própria concepção de Deus.
No feriado de 7 de setembro, fui para um acampamento evangélico. Aquela foi a experiência arrebatadora e transformadora da minha vida - aquilo que costumamos chamar de conversão.
Lembro que na noite do sábado, 7, eu fui dormir me sentindo incomodado porque havia uma doce alegria no ar, ela me envolvia, eu me via alegre, mas parecia que ela não era capaz de entrar no meu coração. Todas aquelas experiências me faziam cantar, quando sozinho no acampamento, uma canção que aprendi na escola: “Meu Deus é bom para mim/ comigo vai/ tão forte brilha o sol e a chuva cai/ amor tão grande assim/ só Cristo tem por mim/ direi até o fim:/ Meu Deus é bom para mim”.
Na manhã do domingo, minha cabeça girava em mil ideias - mas todas elas me impulsionando a um desejo e uma vontade cada vez mais incontrolável: deixar tudo de lado para abraçar e seguir Cristo. Queria sentir aquela alegria entrar em mim e em meu coração!
Foi a primeira vez que tive em mim o mesmo sentimento que Paulo expressa aos Filipenses:

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.

Deparar-se com Jesus, com o Deus bom e amoroso, muda as prioridades de nossa vida. Experimentar o Deus vivo brilhando, vibrando, amando dentro de nós é um impulso incontrolável para que nos rendamos e mudemos as prioridades do nosso viver. Viver é Cristo e somente Cristo! Tudo o mais é esterco.
Falei que em 1996 aquela foi a minha primeira experiência. Houve outras. Isso para mim significou sempre que a decisão de "abraçar Cristo e ser abraçado por ele” não é única e de uma vez por todas.
Somos lembrados todos os dias para deixar a alegria entrar no coração, considerar Jesus como mais importante que tudo e, todos os dias, mais uma vez abraçá-lo e deixar-se abraçar por ele.
Além disso, há aqueles momentos em que diversas circunstâncias da vida nos afastam desse abraço. Eu tive alguns desses momentos na vida - seguidos de novas descobertas do amor sem fim de Jesus e do seu abraço carinhoso.
Um desses momentos ocorreu em 2013, na cidade de Fortaleza. No fundo de uma rede, eu me perguntava sobre o sentido da vida. A partir dali, comecei um novo processo de conversão. Converti-me novamente ao Senhor - entreguei meu coração a ele de novo. Pouco a pouco, voltei a entender que tudo o mais é esterco diante do amor de Jesus.
Esse é o meu momento de novo - após passar pela pior das crises pessoais, juntando os pedaços, redescobrindo que Jesus é mais importante do quaisquer outras coisas. Abraçá-lo e deixar-se abraçar por ele.
Quando estiver em pedaços, relembre que cada pedaço é esterco diante de Jesus, de seu amor, de sua vida em nós. Essa ressurreição está disponível para todos nós.

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.

14.1.17

O Amor que salva

Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.
2 Coríntios 8. 9


O nome do Amor é entrega.

François Varillon dizia que Deus é o Amor Todo-Poderoso e que Ele era capaz de fazer qualquer coisa que o Amor fosse capaz de fazer. O Seu Poder está restrito ao Seu Amor. Afinal, “Deus é amor” (1 Jo 4. 8), provavelmente a melhor definição conceitual de Sua Pessoa nas Escrituras.

Mas a melhor história de amor de Deus, que fatalmente confirma o Seu Amor Todo-Poderoso, é a Encarnação de Jesus.

Jesus é reconhecido pelos primeiros cristãos como Aquele em quem estava toda a plenitude da Divindade (Cl 2. 9), a perfeita semelhança de Deus (Hb. 1. 3) que montou sua tenda entre nós na pessoa de seu Filho (Jo. 1. 14). Deus só pode ser visto quando olhamos para Jesus.

Para viver essa história de Amor e de Entrega, Jesus se esvaziou de si mesmo (Fp. 2. 6-8). O seu esvaziar-se é sua entrega. Sua entrega é o Amor que salva.


Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.


A salvação começa no Amor que se entrega e que, para se entregar, se esvazia. Era rico, mas deu tudo por amor a nós. Tornou-se pobre para que, pela graça, fossemos ricos do seu amor.

O Amor que salva é o amor que se entrega integralmente ao ser amado.

O Amor que salva é o amor que não tem por seu nenhuma coisa, mas vive em função do outro, para resgatá-lo, transformá-lo.

O Amor que salva é o amor que vê o outro em primeiro lugar. É o que toca o outro e, ao tocá-lo, muda o outro.

O Amor que salva é o amor que relativiza as leis, as regras e a moral em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que risca a terra e liberta a adultera - não só do seu pecado, mas especialmente do destino a que lhe reservou a lei escrita.

O Amor que salva é o amor que se torna impuro, tocando a mulher do fluxo de sangue, o esquife do filho da viúva, a mão da filha de Jairo - torna-se impuro pela cura e salvação.

O Amor que salva é o amor que faz no sábado o que a lei proíbe porque o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado.

O Amor que salva é o amor que partilha a mesa com pecadores e a escória social, porque amor só é amor se amar aquele que ninguém mais ama.

O Amor que salva é o amor da entrega radical e absoluta, do esvaziamento completo, do empobrecimento em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que enche de graça o mundo. Enche de beleza, de paz, de liberdade, de inspiração, de amor.

O Amor que salva é o amor que nos impulsiona a irmos e fazermos coisas ainda maiores que essas.

O Amor que salva é o amor que nos faz amar - com entrega, esvaziamento, empobrecimento -, e, amando, vivermos mergulhados no Rio de Amor, que pode ser a nossa forma de conhecer a Deus.

10.1.17

Não imponha seu relacionamento

Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros. 
Romanos 14. 22


Quando eu me tornei evangélico, duas décadas atrás, eu me tornei ainda mais chato do que já era. Não apenas pelo desejo de converter cada amigo e pessoa da família, mas pela forma de atuação que adotei para que isso acontecesse: "encontrei a verdade, logo você está no erro e precisa entender isso de uma vez, se não vai terminar no inferno”.

Agindo assim, eu ofendi amigos e familiares por mais de uma vez, inclusive minha própria mãe. De todos os modos, tentava impor a quem não queria meu modo de ver as coisas e de crer em Deus.

Eu, infelizmente, não era o único. Aliás, todos nós talvez conheçamos pessoas que seguem agindo de tal modo - e não apenas no âmbito evangélico. Conheço gente de diferentes formas de credo que se esforçam ao máximo para impor aos outros suas particulares formas de crença.

É provável que eu mesmo ainda me comporte assim.

Aos Romanos, Paulo diz


Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros.


Se é fundamental cultivar o relacionamento com Deus, também o é não impor a ninguém tal relacionamento. Podemos não agir como nos dias inquisitoriais em que a conversão forçada era condição de sobrevivência, mas fazemos parecido quando impomos a fé: “se não, você vai para o inferno”.

Cultive o relacionamento com Deus. O caminho é simples, ainda que possa não ser fácil: oração diária, meditação na Palavra de Deus, louvor e vida comunitária.

Ore diariamente porque a oração muda seu coração e é a oportunidade de estar mais perto diante do Eterno.

Leia e medite nas Escrituras, crendo que por meio delas o Senhor pode falar com você e instruir seu caminho.

Louve ao Criador, agradeça Suas obras, Seu cuidado, Sua presença, Sua santidade.

Mergulhe na vida com outros irmãos porque um amigo afia outro amigo (Pv. 27. 17)

Nenhum desses passos é fácil de dar, mas ninguém é capaz de cultivar relacionamento ou conhecer alguém sem gastar tempo com essa pessoa, até mesmo quando essa pessoa é o Eterno.

O que as Escrituras apontam é que esse relacionamento se estrutura no amor, vem do amor e conduz a mais amor. Por isso mesmo, não o imponham aos outros.

Aos Coríntios, Paulo deixa claro que o amor não combina com nenhum egoísmo - o que também significa que o amor nos conduz a nos preocuparmos primeiro com os outros.


O amor se preocupa mais com os outros que consigo mesmo.
1 Coríntios 13. 5



Quem se preocupa primeiro com os outros não pode pensar em impor nenhum tipo de padrão de pensamento ou comportamento individual a eles. Respeita-os e deixa-os livres, porque o amor é liberdade. “Ponham o interesse próprio de lado”, diz Paulo aos Filipenses (Fp. 2. 4).

Quando queremos impor nosso padrão de relacionamento com Deus aos demais provamos que fazemos isso por interesse próprio, egoísmo, porque nos consideramos a nós mesmos como superiores aos demais, nosso modo como correto, e convencer os outros é reforçar nossa posição egoísta.

O convite das Escrituras é simples: cultive o relacionamento com o Eterno e ame o próximo como a si mesmo. Quem ama não impõe, mas respeita a liberdade. Quem ama permite que o outro seja livre, tome suas decisões, faça suas escolhas. E quem ama importa-se com o real desejo do outro mais do que com sua própria vontade.

Cultive seu relacionamento com Deus e ame.

Deixe que ele cuida do resto.

7.1.17

No coração quebrantado

O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.
Salmo 51.17



Dizem que conhecer a opulência de Roma em seu tempo teve profundo impacto em Francisco de Assis. Havia um contraste imenso entre o que ele e sua ordem entendia do evangelho (como a necessidade de imitar a pobreza de Cristo) e a riqueza da corte do Vaticano.

Aquela riqueza era sinal de poder, mas manifestava também uma certa concepção de relacionamento com Deus. Basicamente, uma visão que atribui aos templos um lugar especial para nos encontremos com o Senhor, que lida com os bens como manifestação de sua graça e com a riqueza como demonstração de sua majestade.

Em suma, a meu ver, esse contraste atualiza a conversa entre Jesus e a mulher samaritana (Jo. 4). O debate é sobre onde e de que forma deve ser o culto e o relacionamento com Deus: na simplicidade ou na opulência? Na basílica ou na caverna? Com ouro ou com madeira?


O que conta para Deus é quem você é e como vive. Seu culto deve envolver o seu espírito na busca da verdade. Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser.

João 4. 22-23



Jesus esclarece definitivamente: a relação com Deus é espírito, não depende nem se relaciona a nenhuma forma exterior, nenhum templo, nenhuma regra - se relaciona unicamente ao coração. É no coração que nos encontramos com o Deus de Jesus.

E o caminho começa com aquilo que diz o Salmista:


O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.



O caminho começa com um coração que se quebranta, que não é orgulhoso, que conhece a si mesmo, que sabe suas próprias falhas, que reconhece sua fragilidade e sua ignorância. Um coração que chora porque dói, mas se alegra porque é grato. Um coração que reconhece e confessa os pecados, que aceita o perdão. Um coração, em suma, que abraça a humanidade sem discutir muitas coisas.

Esse é um coração disposto a amar porque é um coração que se sabe nenhum pouco melhor do que ninguém. Um coração que reconhece seu lugar, sua pessoa, que sabe de si e, sabendo de si, pode mergulhar em uma relação amorosa com Deus e com o próximo.

É esse coração que não pode se esconder do olhar amoroso de Deus, que não escapa de sua graça, de seu cuidado. É esse coração que Deus encontra. É nesse coração que a graça e a verdade se beijam. É aí que há culto, que há celebração, que há gozo, que há paz.

É no coração quebrantado e alcançado por Deus que Senhor mergulhar para se relacionar conosco, nos amar, nos tocar, promover a festa de um culto que seja verdadeira adoração e que nos impulsione, a cada instante, para a vida verdadeira - a vida que foi tocada e movida pela eternidade.

6.1.17

O sofrimento que acompanhará a tarefa

Mas o Senhor disse: “Não discuta! Eu o escolhi como meu representante pessoal entre judeus, outros povos e reis e agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa”.

Atos 9.15-16



Ainda que queiramos negar, o sofrimento faz parte da vida. Claro que isso não é bom nem é agradável, mas nenhum de nós pode passar incólume. As coisas quase nunca estão sob controle e fatalidades são parte de nosso dia a dia.

Lembro que em março de 2015 eu estava numa reunião de orientação com um aluno em uma livraria de Fortaleza quando o telefone tocou para me informar que minha filha sofrera uma queda na escola e tivera uma grave fratura no braço direito. Eu praticamente tive que largar tudo para voar para Natal a fim de acompanhá-la.

Fatalidades ocorrem em todos os níveis. Podemos procurar nos preparar para o sofrimento e a dor mas cada um de nós já aprendeu que seremos sempre surpreendidos, como o foi, por exemplo, o justo Jó.

O problema, no entanto, não é a dor e o sofrimento. O problema é toda uma sorte de receitas que estão disponíveis no mercado para convencer-nos que é possível fugir da dor e do sofrimento.

Essas receitas se encontram, especialmente, no mundo religioso e, infelizmente, também no ambiente cristão.

Há muito evangelho sendo pregado por aí que oferece a cura de toda dor e sofrimento, a fuga do que disfuncional, Há muita igreja na qual se chega e a promessa é de uma vida plenamente feliz o tempo todo, sem que nada possa dar errado. E se algo não funciona, a culpa é do fiel que pecou ou a quem foi faltou fé - ampliando o próprio sofrimento.

Dia desses um amigo me chamou atenção para esse trecho de Atos, no qual o Senhor conversa sobre Paulo récem-convertido com Ananias:


agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa.


A primeira promessa a Paulo não é aquela de uma vida tranquila. A primeira promessa a Paulo é que ele sofrerá. Experimentando a salvação, servindo a Deus com o seu ministério, anunciando o evangelho de Jesus: a tudo isso lhe acompanhará sofrimento.

Viktor Frankl diz que no sofrimento é nosso papel dar sentido a ele. Só assim poderemos sobreviver a ele. Isso não significa que vamos buscar o sofrimento de iniciativa própria ou que, podendo evitá-lo, não o faremos.

Ter certeza de que na vida sofreremos não pode significar nenhuma postura masoquista de busca desenfreada do sofrer, nem pode significar a negligência com o evitar a dor desnecessária.

Só precisamos saber: sofrer é parte da vida, mas não é o fim da vida.

Que não nos surpreendamos quando a vida doer e que saibamos que é justamente nessas horas que Jesus vai nos carregar no colo.

31.12.16

Médico

Jesus escutou a crítica e reagiu: “Quem precisa de médico: quem é saudável ou quem é doente?"
Marcos 2.17



Quem pede ajuda é quem reconhece que não é capaz de fazer algo ou mudar uma situação sozinho ou, especificamente, sem o auxílio daquele a quem se demanda a ajuda.

Pedir ajuda é, portanto, um duplo reconhecimento. De um lado, ao pedir ajuda reconheço minha fragilidade.

Por outro, reconheço que o outro tem, sobre mim, um poder que eu não tenho. Peço ajuda de quem pode ou sabe mais que eu.

Na época que estudava para o vestibular, há duas décadas, montamos um grupo de estudo em que nos ajudávamos mutuamente - naquilo que eu era mais forte que meus colegas, eu os ajudava. No que eu era mais fraco, recebia ajuda. Lembro que uma amiga me ensinava biologia, matéria em que eu me via pior.

Ajudar é um ato de amor, carinho, atenção, ainda que possa ser mobilizado por motivações as mais toscas ou egoístas. No entanto, em geral, ajudo porque me importo com o outro.

E quem não precisa de ajuda? Quem se sente bem, autossuficiente, saudável, forte. Não precisa de ajuda aquele que olha para si e para o outro e não vê, no outro, nada que lhe possa ajudar.

Jesus era constantemente criticado por andar ao lado da escória da sociedade. No texto de Marcos 2, ele foi à casa de um cobrador de impostos e os representantes do sistema religioso o criticam por isso.

A resposta de Jesus é de uma riqueza de graça e vida ímpar. Ele está ali para ajudar pessoas doentes. E naquela casa, cada um e cada uma, sabe que é alguém que precisa de ajuda. Reconhece sua fragilidade, sua culpa, sua dor, seu pecado - sabe que Jesus pode ajudá-lo e curá-lo.

A esses Jesus pode socorrer - os que sabem que precisam de socorro, aqueles que carregam o peso de dor do sofrimento em que se encontra, quem entendeu que não vai se livrar do mal que o aflige sozinho.

Mas Jesus não pode ajudar quem não sabe que não precisa de ajuda. Não existe ninguém tão saudável que dispense o socorro do Senhor - mas existe gente tão arrogante que se sinta tão saudável que não precise do Mestre.

Na cena de Marcos, os líderes religiosos assumem uma postura crítica contra Jesus e os cobradores de impostos. Ao agirem assim, se colocam como moralmente superiores àqueles pecadores. Os moralmente superiores são salvos, santos, curados, saudáveis. Ao avaliar daquela forma aqueles com quem Jesus anda, é como quem dissessem: “Somos perfeitos, tão superiores a vocês que podemos julgá-los”.

Quem não se sente doente, não procurará um médico porque não precisa.

Quem se sabe enfermo reconhece tal necessidade.

Aí reside a diferença entre andar ou não com Jesus. Quem se sente espiritualmente perfeito, santo e saudável, andará sempre para mais longe de Jesus. Quem sabe de sua própria fragilidade saberá que somente em Jesus há cura e restauração para a sua vida.

Quem sabe que é frágil, sabe que não pode abrir mão de andar com o Médico dos Médicos. Quem não se reconhece doente, é autossuficiente demais para fazer algum movimento na direção de Jesus. Sua autossuficiência será uma barreira entre ele e o Mestre.

Que em 2017 nos saibamos todos doentes em busca do Médico.

24.12.16

Significado

Ele fez deles seu povo,
os filhos de Deus.
Filhos nascidos de Deus,
não nascidos do sangue,
não nascidos da carne,
não nascidos do sexo.

João 1. 12-13



Nos últimos dois anos tenho pensado muito sobre o sentido da vida. Em um primeiro momento, percebi de uma maneira inteiramente única na vida (mesmo nas duas décadas de vida como evangélico), como o evangelho de Jesus constitui-se no melhor projeto para vida, dando sentido a ela.

Lembro da riqueza das emoções que, ainda presentes, tomaram meu coração quando comecei a entender que para o evangelho ter sentido na vida, ele não podia ser necessário, mas uma escolha.

Algo que é necessário não enriquece ninguém nem ajuda a que as coisas tenham sentido. Se é necessário, não posso fazer nada e nada ganho em vivenciar aquela experiência.

A riqueza do evangelho passou a ser, para mim, a convicção de que ele não é necessário, um projeto de vida a que adiro. E esse projeto dava um sentido único à vida, não à morte. Diferente de uns tantos movimentos religiosos que pregam mensagens que falam daquilo que se dará conosco após morrermos, encontrar a riqueza do evangelho como projeto e sentido passou a significar um comprometimento único com a vida, independentemente da morte.

Era Natal para mim a todo momento: Jesus estava nascendo.

Mas pensar no sentido não me era suficiente. Sentido, mesmo sendo sinônimo de significado, tem em si implicada a ideia de movimento. Sentido é algo que me ajuda a entender em movimento, por causa de algo que faço. É como um vetor que aponta uma direção e me põe em movimento e em ação naquela direção. Ter sentido na vida é compreendê-la em ação, em movimento, por algo que eu preciso fazer.

Hoje é Natal: Jesus nasceu.

Então, percebi que precisava de algo mais que sentido. Precisava encontrar meu significado.

Entre tantos significados possíveis para mim e para minha vida, o Natal de Jesus nos traz o mais importante:

Ele fez deles seu povo,
os filhos de Deus.
Filhos nascidos de Deus,
não nascidos do sangue,
não nascidos da carne,
não nascidos do sexo.


Mais do que sentido, precisamos de significado. Nós significamos algo. O Natal de Jesus nos faz significar algo fundamental: somos povo de Deus e, mais importante ainda, somos seus filhos.

Independente do que fazemos, dos sentidos que damos à vida, das direções que seguimos, dos caminhos que trilhamos, temos significado: somos seus filhos, e não foi nada contingente ou humano que nos fez seus filhos.

Independente do pai e da mãe que você teve na vida concreta, somos filhos de Deus.

Independente de qualquer traição ou sofrimento sentido, somos filhos de Deus.

Independente de sua incapacidade de agir ou dar sentido à vida, somos filhos de Deus.

Nascemos dele. Nosso sentido está em Seu Evangelho, suas boas notícias. Nosso significado é sermos Seus filhos amados.

Ele é o Pai, Amor Todo-Poderoso.

Somos filhos amados.

É quem Ele é. É quem nós somos.

 

21.12.16

Pai Nosso

Nosso Pai do céu,
Revela-nos quem tu és.
Dá um jeito neste mundo.

Mateus 6. 9


Hoje eu acordei pela madrugada impressionado com um pesadelo que tivera. O pesadelo, de verdade, não me assustou porque eu tinha consciência de que estava dormindo, mas me impressionou a riqueza de detalhes da narrativa até o momento em que acordei.

O mal momento trazido por um sonho ruim mexe integralmente com o espírito com o qual a gente encara o dia que nasce. A vida é frágil, nem sempre temos controle e acesso a todos os aspectos que a envolvem e isso tem de nos ensinar a lidar com nossas ansiedades e nossas angústias.

O caminho de saída do fundo dos nossos poços pode refluir por uma ansiedade mal colocada ou mal resolvida, por uma situação angustiante sobre a qual não temos nenhum controle.

Também nos faz mal a percepção de que nos falte amor - porque o amor é o vínculo da perfeição e o melhor suporte possível para a nossa estabilidade na vida.

As vezes, é somente aquela dor que você sabe que ainda não curou que aparece de novo para lembrar sua fragilidade - seu espinho na carne.

Ou por vezes o que nos fragiliza é a consciência dos erros que cometemos, os pecados que fizemos e que ainda sofremos suas consequências.

Nem toda manhã é fácil.

Quando ela não é fácil, o que nos resta fazer?

Eu oro.

A oração pode nos ajudar com as nossas necessidades mais básicas - e nem estou falando sobre pedidos sendo respondidos, clamores alcançando a misericórdia divina.

Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, suas palavras foram simples. E aqui não quero nem destacar o Pai Nosso em sua inteireza:

Nosso Pai do céu,
Revela-nos quem tu és.
Dá um jeito neste mundo.


Amanheci o dia sofrendo por causa do amor? Deus é o nosso Pai! Podemos nos refrigerar no seu Amor Todo-Poderoso, Amor de Pai.

Não sei bem o que está acontecendo na vida porque há coisas que vão além do meu controle? “Revela-nos quem tu és”: podemos, em oração, conhecer em profundidade de intimidade quem é o Deus a quem servimos.

Um Pai que nos ama, um Deus que revela a Si a cada um de nós.

E como a ansiedade pode sobreviver diante de um Deus que pode dar “um jeito neste mundo”?

Quando o dia começa mal, quando a ansiedade dói, quando a incerteza corrói, quando o amor é uma ausência, derramar o coração diante de Deus em oração é o melhor caminho. Não porque Ele possa responder nossa oração e resolver as questões que nos afligem, mas por quem Ele é e porque podemos, em oração, conhecê-lo bem e melhor.

17.12.16

O Tesouro

Tu foste minha primeira e única escolha, ó Eterno.
E, agora, descubro que sou tua escolha!

Salmo 16.5



O que é importante em nossa vida? O que vale a pena acima de tudo? Em favor de que você é capaz de entregar tudo?

Há diversos projetos de vida e ideologias na existência que, de alguma maneira, justificariam sua entrega total e absoluta.

A entrega total é manifesta na história por meio dos mártires. E não falo só de mártires cristãos, como equivocadamente você possa ter entendido.

Imagine um homem como Che Guevara, capaz de ir até a morte, executado pela CIA e pelo Exército Boliviano, em fidelidade às suas crenças e à sua ideologia de revolução.

Lembre de gente como Mahatma Gandhi, morto pela sua Índia e por sua fidelidade ao pacifismo.

Pense no pastor Martin Luther King, Jr, executado em Memphis por sua fidelidade à luta de libertação dos negros norte-americanos.

Cada um desses, e outros, deixaram um legado eterno e inesquecível por terem se entregado de corpo e alma à sua luta, à sua crença e arcado com todas as inimagináveis consequências de sua entrega total e absoluta.

Eles assumiram um projeto pelo qual valia a pena viver. E todo projeto pelo qual vale a pena viver é suficiente também para que morramos por ele.

O Reino de Deus deveria ser vivenciado por nós na mesma dimensão - ou em uma dimensão ainda mais radical.

É como disse Jesus na Parábola do Tesouro (Mateus 13. 44):

O Reino de Deus é como um tesouro escondido num campo por muitos anos, até ser acidentalmente encontrado por uma pessoa. Ela fica eufórica com a descoberta e vende tudo que possui a fim de reunir a quantia necessária para comprar aquele campo.

O encontro com o Eterno, com Jesus e com Seu Projeto de Reino provocam uma mudança tão intensa que não é possível permanecer o mesmo. Encontramos em Jesus um motivo pelo qual viver em intensidade - e sendo um motivo suficiente para mobilizar nossa vida, é um motivo para nos entregarmos a ele até o fim.

Vale a pena trocar tudo da vida por esse tesouro escondido - o mais precioso dos tesouros.

Esse mais precioso tesouro que faz valer a pena a entrega total e absoluta, esse tesouro há de ser a minha primeira escolha. Esse tesouro é a mais importante e mais prioritária escolha de nossas vidas. Vale a pena abrir mão de tudo o mais para estar com o tesouro, mergulhar no rio da vida, no Eterno, experimentar ao máximo a relação com a Realidade Última da Existência, o Deus Inefável e Inominável que se revela integralmente em Jesus.

O que surpreende o salmista - e que deveria nos surpreender - não é a obviedade de termos em Deus nossa escolha prioritária.

E, agora, descubro que sou tua escolha!

Se parece inexorável que escolhamos o Tesouro escondido, trocando tudo por ele, a surpresa é descobrir que o Tesouro também nos escolhe.

Não uma escolha genérica, qualquer, vazia de propósito, como um produto qualquer retirado de uma prateleira de supermercado.

O Tesouro tem em mim e em você a sua escolha.

Ele me escolheu, pessoalmente e amorosamente. Assim como eu daria tudo por aquele tesouro escondido, o Eterno também daria tudo para me ter com Ele, em Suas mãos, na sua casa, em sua intimidade.

Ele escolheu você, pessoalmente e amorosamente. Ele fará qualquer coisa para ter você com Ele, em sua intimidade.

Ele é o Pai que ama você e você é o filho amado por esse Pai. Esse Pai fará qualquer coisa para ter você em sua casa.

O pai nem quis escutar. Chamou os empregados e ordenou: ‘Rápido, tragam uma roupa decente para ele! Tragam também o anel da família e um par de sandálias. Depois vão buscar uma novilha bem gorda e preparem um churrasco. Vamos festejar! Vamos nos divertir! Meu filho está aqui — vivo! Não está mais perdido: foi achado!’. E a festa começou.

Lucas 15.22-24

14.12.16

Não moderes tua paixão

Preguei a respeito de ti para toda a congregação;
não omiti nada, ó Eterno, sabes disso.
Não fiz segredo das notícias sobre os teus caminhos, 
não guardei nada sobre mim. 
Falei tudo: sobre tua fidelidade e tua perfeição.
Não retive parcelas de amor nem de verdade
Para meu consumo. Eu disse tudo que sabia;
a congregação conheceu a história toda.
Agora, ó Eterno, não resistas a mim,
não moderes tua paixão.
Teu amor e tua verdade
é que me mantém de pé.
Quando os problemas conspiraram contra mim,
uma multidão de pecados foi enumerada.
Fiquei tão impregnado de culpa
que mal conseguia enxergar o caminho.
Mais culpa havia em meu coração que cabelos na cabeça.
O peso era tanto que meu coração desfaleceu.

Salmo 40.9-12


Meu reencontro com Deus através desses textos de reflexão bíblica aconteceu no pior momento possível de minha vida. Não há o que eu possa esconder.

Foi do fundo do poço, no meio do sofrimento por um grave quadro de depressão e com inúmeros problemas pessoais que rasguei o coração e a vida diante do Eterno e, diante dEle, iniciei o caminho de volta. E nesse caminho recuperar parte do chamado de ajudar as pessoas por meio da reflexão sobre as Escrituras foi irresistível.

Para fazer isso, não havia nada que eu pudesse omitir - nem de minhas dores e sofrimentos, nem de minhas culpas e falhas. Como o salmista, mergulhado na vida real, percebia o tamanho da dor e somava inumeráveis os meus pecados e culpas.

Não fiz segredo de meus sentimentos e não fiz segredo de minhas culpas.

Diante de Deus, os expus e por expô-los com honestidade me coloquei em posição de experimentar o cuidado, o amor e a paixão de Deus. Não escondi o que vivi, nem pretendo esconder o que fez o amor de Deus.

O fundo do poço começou a ficar distante em uma noite quando visitei uma igreja de Natal - não apenas porque pedi oração pela minha saúde como também porque percebi quão sem graça era a vida em que nada me dava prazer. Naquele instante bradei que não aguentava mais aquele poço escuro, fétido e enlameado em que eu estava.

Senti o amor de Deus e a sua mão começando a me puxar para fora.

Foi sua mão amorosa que me impulsionou para fora. Para fora da dor e da culpa. O amor esconde a multidão de pecados.

Além disso, eu escrevi minha história, sem omitir nenhuma parte. Um modo de confessa-la aos poucos amigos que leram-na.

Parte do processo de deixar de lado tudo o que pesava na alma e na vida para me deixar preso no poço. Sair do poço era também contar honestamente a minha história.

Eu disse tudo que sabia;
a congregação conheceu a história toda.


Diante disso tudo, posso ter certeza de que nem o amor, nem a verdade, nem a paixão de Deus por mim serão escondidos ou moderados: sua paixão, seu amor e sua verdade são derramados sem medida e percebidos assim por todo coração de que se humilha e se prosta diante dele.

Sair do fundo do poço também significa experimentar de maneira nova, rica e plena a paixão do Senhor por nós, seu amor e sua verdade.

Agora, ó Eterno, não resistas a mim,
não moderes tua paixão.
Teu amor e tua verdade
é que me mantém de pé.


A história não acabou porque você se sente soterrado por toneladas de dor, sofrimento ou pecado.

Ainda há espaço na história para o derramar do amor e do perdão de Deus, para o resgate amoroso do fundo do poço, para que você conte uma nova e ainda mais bela história de sua vida.

Não apenas uma história de sobrevivência ou resgate, mas uma história rica de encontro, reencontro e transformação na paixão, no amor e na verdade do Senhor.

9.12.16

A depressão de Jó

Finalmente, Jó quebrou o silêncio. Em voz alta, amaldiçoou a si mesmo:
“Apaguem o dia em que nasci. Esqueçam a noite em que fui concebido! Que aquele dia seja transformado em trevas, e que Deus, lá em cima, esqueça o que aconteceu. Apaguem-no dos livros! Que a escuridão mais sombria se apodere do dia do meu nascimento, seja envolto pela neblina e engolido pela noite.
Que as trevas dominem a noite em que fui concebido. Risquem-na do calendário, e que nunca mais seja contada como qualquer outro dia! Que aquela noite seja reduzida a nada. Que nenhum grito de alegria daquela noite jamais seja ouvido. Que os mestres em maldição amaldiçoem aquele dia. Que seja engolido pelo monstro do mar, o Leviatã. Que suas estrelas da manhã perco o brilho, e fiquem à espera da luz do dia que nunca vem! Que nunca mais vejam a luz do amanhecer, porque não impediu que eu saísse do ventre da minha mãe, que eu vivesse esta vida cheia de aflições”
Jó 3. 1-10

Há diversas formas possíveis de se abordar o livro de Jó. Gosto de muitas delas.

Gosto de pensar, por exemplo, que Jó é um servo de Deus irrepreensível, íntegro, que evita o mal (Jó 1. 8; 2. 3), nas palavras ditas pelo próprio Deus, mas não é israelita! É como se o Senhor estivesse dizendo, ao inserir seu livro no meio de muitos outros, exclusivistas e defensores de que somente aos israelitas cabia conhecer a Deus, que o conhecimento de Deus ultrapassa as barreiras nacionais, raciais, culturais e religiosas.

Você pode olhar para o texto, também, a partir do capítulo 42 e entender que não somos capazes de compreender todas as coisas a respeito do Senhor e de sua ação no mundo.

O mais comum é olharmos para o texto sob o viés do sofrimento: Jó sofreu - e muito. Perdeu bens, família, saúde. Recebeu três amigos que queriam convencê-lo que se ele sofria era por sua própria culpa - adeptos da teologia da retribuição. No entanto, o leitor do livro sabe que isso não faz sentido, uma vez que é o próprio Deus quem diz, por duas vezes, que Jó é um servo íntegro, fiel, irrepreensível. O livro nos ensina que o sofrimento é parte da vida humana e não culpa de nenhum pecado necessariamente. E no sofrimento é melhor se livrar de amigos que parecem saber de tudo e se aproximar daqueles que podem só oferecer um ombro para você chorar.

Mas eu passei a olhar para o livro de Jó sob a perspectiva da depressão.

Depois de tanta dor, sofrimento e fatos inexplicáveis da vida, Jó se torna alguém depressivo. Ao lado de outros personagens bíblicos, Jó pede a morte. E de uma maneira bem radical - ele queria eliminar o dia em que foi concebido, a data em que nasceu, deseja ter sido um aborto que nunca tivesse chegado à luz.

É a expressão do mais profundo vazio existencial, da mais profunda incompreensão com os fatos da vida, da dor mais insuportável.

O seu luto e sua perda são de dimensão inconcebível e penso que seriam devastadores para qualquer um de nós. Não apenas perdeu bens e saúde, mas viu a morte dos seus sete filhos. Qual mesmo a razão de continuar vivendo? Qual mesmo a graça da vida nessas circunstâncias?

Jó não superou o limite sugerido por sua esposa: "Então sua mulher lhe disse: 'Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!’" (Jó. 2. 9). Jó não se tornou suicida, mas pedia a Deus que o excluísse do mundo.

O depressivo não deseja morrer - tudo o que ele quer é ter seu sofrimento aliviado. No início do capitulo 3, Jó tem clareza que só tem um caminho de ter sua dor aliviada: deixando de existir. Sua dor é de uma dimensão existencial incomensurável e começa a se manifestar na forma de desabafo. A Deus e aos amigos da onça que o cercaram.

Os seus amigos só podiam fazer sua situação piorar, enquadrando a situação de sofrimento nas suas teorias e ideologias. Teorias, ideologias e teologias enquadram fatos da vida, mas não são capazes de dar conta da própria vida. A coisa mais importante que uma pessoa pode fazer para ajudar um depressivo é se despir de suas certezas, manuais, crenças e juízos. Os amigos de Jó foram capazes de transformar a religião em elemento opressivo que ampliava o impacto da depressão - e não como forma de espiritualidade que lhe ajudasse a lidar com a dor e encontrar o caminho de saída dela.

Entre várias possibilidades de construirmos saídas para a dor da depressão, Jó investiu num caminho de fé e confiança em Deus. É a Ele que se dirige. É dele que quer resposta. É diante dele que deseja estar. É a Ele que quer ouvir.  Ele sabe que seu Redentor vive e se levantará sobre a terra (Jó. 19. 25).

Certamente, estava em dor, sofrimento e confuso, mas havia uma honesta e sincera busca espiritual em Jó. Era a Deus que ele buscava no meio de sua dor. Era dele que esperava uma solução, nem que fosse a morte.

Entregar a dor aos cuidados de Deus é fundamental. Não podemos ter certeza de que Deus curará a nossa dor, mas podemos ter certeza de que Ele nos ajudará a caminhar com a dor, sustentando-nos nas suas mãos, carregando-nos quando necessário. Podemos não ver a cura da dor, mas podemos estar certo que será uma dor muito mais suportável se estivermos conscientes de que Deus nos leva, vai conosco, conforta o nosso coração. Talvez não vejamos ainda a cura, mas veremos o cuidado amoroso de Deus - um passo fundamental, cuidado e amor, para sermos restabelecidos de nosso sofrimento.

"Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pe 5. 7).

Saber que há um Pai amoroso que cuida de nós é extremamente importante para conseguirmos nos livrar da dor do vazio existencial depressivo.

Alguns domingos atrás visitei uma igreja aqui em Natal. O louvor me apresentou uma canção, versão, que me ajudou a enfrentar minha própria situação de sofrimento: “Bom, bom Pai” (“Good, good Father”).

És o bom, bom pai
É quem tu és, é quem tu és, é quem tu és
Sou amado por ti
É quem eu sou, é quem eu sou, é quem eu sou

Reconhecer em Deus um bom Pai e reconhecer em mim mesmo um filho que é amado por Ele - esta identidade - foi, talvez, o passo mais importante que dei no rumo de me livrar do sofrimento e dor que carregava por causa da depressão.

Por isso mesmo, podemos lançar sobre Ele.

Por isso mesmo, o Deus encarnado, o que podemos conhecer de Deus, nos desafiou:

“Vocês estão cansados, enfastiados de religião? Venham a mim! Andem comigo e irão recuperar a vida. Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. Caminhem e trabalhem comigo! Observem como eu faço! Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza” (Mt. 11. 28-30).

22.7.15

A vida é breve

Eu tenho uma causa pela qual viver e tenho urgência porque a vida é breve.
Há alguns poucos anos, encarei o desafio de ser coerente, ainda que não imutável, com o que penso, creio, defendo. Assumo a cada dia o compromisso de não permitir que normas de conduta, cláusulas de estilo ou etiqueta, conduzam minha prática mais que minhas crenças e minhas ideias.
Falo-as com urgência. A vida que vale a pena pode se acabar a qualquer momento e não quero ir sem ter dito tudo o que poderia.
Escolho as palavras que melhor traduzem o que analiso, creio ou penso - ainda que a linguagem, lugar do deslize, reserve lugares importantes ao inconsciente.
Mas não espere de mim um silêncio condescendente ou a fuga da disputa. Importa menos ser querido ou ter o prazer do debate do que deixar claro o que defendo.
Encontrei uma ideia pela qual vale a pena viver. Vivo por ela.
Ela motiva minhas escolhas.
Ela se alimenta de meu amor ou, antes, do Amor.
Você vai me ver discutindo justiça social e ideias de revolução porque o Amor para mim impulsiona um mundo mais justo que afasta de seu centro ideias de domínio, controle e poder. O Amor se opõe ao mundo que se organiza em torno desses centros de poder e você vai me ver nessa disputa. A vida vale a pena e ela é breve.
Você vai me ver lutar por um Amor que abdica de ser o deus-nas-alturas. O que tive foi um encontro libertador com esse Amor personificado em Jesus; quero dizer aos outros que eles podem ter também. Quero partilhar aos demais uma ideia pela qual vale a pena viver. E vocês me verão fazendo isso.
Não tenho um prazer especial na polêmica.  Mas tenho prazer em deixar claro que vale a pena viver com liberdade e autonomia no encontro com o Deus que se encarna na vida!
Se disputo a questão LGBT, já disse isso, é porque ela aponta para questões muito mais importantes na fé que dizem respeito à leitura da Bíblia e a teologia que nos move como cristãos. Desejo ardentemente que nos livremos das formas fundamentalistas!
Um ideia pela qual vale a pena viver. Um Amor mais real que qualquer amor. 
Espere de mim a luta e a coerência. Urgente. Porque sinto ter perdido muito tempo submetido a regras que escravizam. Tenho 36 anos e a vida é breve. Não sei quanto tempo mais terei para viver movido por tais ideias!

4.6.15

A vontade de Deus é amar

Como vejo a vontade de Deus hoje?
Para mim, uma possível analogia seria o impulso de uma energia empurrando o mundo na direção da vida. 
Desse modo, não determina, mas é um vetor que impulsiona mais vida no mundo. Você pode resistir, pode lutar contra, pode decepcionar.
Nesse sentido, é uma intenção, um projeto, um plano de vida para cuja realização depende de nossa ação. Somos livres para participar ou não porque o amor só é amor se os amados e o Amante são livres - se o amado puder frustrar o Amante, se o Amante estiver disponível para ser afetado pelos amados, se assim o Amante puder ver seus planos de amor serem frustrados pelos amados.
Mas há esse impulso pela vida. Como que gravado no código de programação do Universo e da Vida. Como meu genótipo que é capaz de definir elementos essenciais de minha vida, saúde, mente, ideias, mas que não é definidora absoluta de minhas escolhas e de quem eu sou. O que sou não é definido pela programação dos meus gens, ainda que eles sejam essenciais nisso. Sou condenado à liberdade de escolher e esse elemento é o que melhor me define como um sujeito que intenta ser livre e autônomo. 
De igual modo, há uma energia que faz a existência ser cada vez mais complexa. A vida inteligente existia potencialmente na singularidade de onde explodiu o Big Bang. Nossa existência inteligente só é possível porque existia potencialmente ainda antes mesmo da existência do cosmos.
Parece que a vida - e a vida inteligente, a consciência, é o intuito do vetor que conduz o universo até o seu fim.  Um vetor que orienta mas que não submete - o acaso explode, um feixe de raios Gama decorrente de uma explosão estelar pode vaporizar nosso mundo ou outros mundos pondo fim a um processo evolutivo que faria brotar vida e civilização ou destruir toda uma civilização como a nossa. E isso não porque fosse vontade de Deus, mas porque o acaso e o infortúnio são possibilidades na história desse cosmos.
Um cosmos que é caótico, mas que se reorganiza. Um cosmos onde consciências se dirigem umas a outras e que fazem brotar o amor. O Amante nos amou para que pudéssemos aprender a amar - ainda que tudo isso não seja mais que linguagem antropomórfica. 
Um dos filmes mais tocantes que vi recentemente foi "Interestelar". E ali há uma proposta: a energia mais poderosa do universo, aquela que é capaz de transpor as barreiras do espaço-tempo, é o amor. 
A vontade de Deus é o Amor.

20.5.15

Tão profundo

Ontem dei uma entrevista a Nathanael, cujo conteúdo em geral deixarei privado. 
Mas, acho, foi uma das primeiras vezes que verbalizei alguns aprendizados recentes sobre meu amor por meu pai e minha relação com ele.
Já disse algumas vezes que o ter me tornado pai mudou a minha compreensão acerca de meu pai. Em resumo, se antes eu me lamentava por ter perdido tantos momentos de intimidade com meu pai por sua ausência, depois de Alice passei a lamentar por meu pai ter perdido tantos momentos de paternidade comigo. 
Outra coisa que entendi nos últimos anos é que, para alguém do tempo e da luta de meu pai, amar era ser clandestino. Quer dizer: fazia parte das consequências de sua luta contra a ditadura e por mais justiça manter as pessoas mais importantes e frágeis de sua vida afastadas - assim como ele fez ao optar pela clandestinidade em 69 e, depois, quando nem todo mundo sabia ou soube de suas ações no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. A clandestinidade protege quem realmente importa na vida do revolucionário.
Essas percepções ajudam no meu atual mergulho na dimensão espiritual da vida porque me ajudam a compreender de uma maneira nova minhas relações com o Deus que é Pai.
Se eu aprendo que o Pai representa a Lei e os limites dados aos filhos na infância, aprendo que seu objetivo é que esses filhos não aprendam a obedecer cegamente, mas encontrem amor e saibam pensar. Esse é o meu desejo como pai de Alice. E vejo ser essa a caminhada de Deus, o Pai, conosco.
Se há infância da fé, se somos crianças espirituais, precisamos de um Pai que seja legislador de nossas vidas. Até que passemos por aquela experiência de matar o Pai sobre a qual falei outro dia.
A partir desse momento, a gente volta a uma experiência com o Pai, mas que é bem diferente daquela de antes. 
Assim como posso reencontrar meu pai em uma relação de amor, amizade, companheirismo, que me impacta e me marca de uma maneira ainda mais profunda, depois de abandonar essa fé infantil e legalista, matar o Pai, encontro uma espiritualidade ainda mais rica e profunda, uma relação mais amorosa e honesta, um coração mais inflamado e experiências mais marcantes e [e]ternas.
Mais poesia, mais beleza e amor.
"É tão profundo, tão imenso e cobre-nos
É furioso, poderoso e abraça-nos
Só Ele pode devolver a vida aos corações"
https://youtu.be/zOc855DIZyk