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1.2.17

Ídolos

Ele derreteu todo aquele ouro e modelou, com uma ferramenta de escultor, a forma de um bezerro.
A reação do povo foi de entusiasmo: “São esses os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito!”.
Êxodo 32. 4


O capítulo 32 do livro de Êxodo tem uma mensagem muito clara para mim: mesmo diante da mais poderosa manifestação de Deus podemos construir uma religião, com nossas próprias mãos, que, mesmo se referindo a Ele, se afasta dEle. Uma religião que chama pelo nome de Deus um ídolo feito por mãos humanas.
O episódio me diz que não adianta estar diante de Deus: vamos sempre querer construir nosso próprio caminho religioso. A religião é, normalmente, um mecanismo humano que tenta ligar homens com homens para se aproximarem do Eterno, da Realidade Última da Existência.
Como em Babel (Gn. 11), construímos um edifício, uma torre, com tijolos que nós mesmos queimamos. Queremos chegar no céu, queremos alcançar Deus, queremos tornar nossos nomes conhecidos.
Mais que isso.
Se eu não sei o que aconteceu a Moisés, a tantos dias oculto na montanha enquanto conversa com Deus, se eu me sinto perdido, eu quero uma religião na qual eu controle as regras, os ritos, os processos e, se possível, o próprio Deus.
O bezerro é feito pelas ofertas dadas pelo povo. Feito pelo sacerdote. Nomeado pelo sacerdote:

“São esses os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito!”

É o sacerdote que anuncia que no dia seguinte haverá uma festa em honra ao Deus que os tirou do Egito - Yahweh. O sacerdote nomeia o Deus que ele mesmo fabricou: não é qualquer Deus, qualquer bezerro, mas é Yahweh, o Deus que os tirou do Egito.
Sinto que muito de nossa vida religiosa segue assim: mesmo diante do Deus vivo, somos incapazes de vê-lo e, assim, construímos ídolos que chamamos pelo nome desse Deus, mesmo que tenha pouco a ver com Ele.
Muito da nossa espiritualidade depende de uma imagem acerca de Deus que muitas vezes não corresponde àquela revelada nas Escrituras e em Jesus.
Muito da nossa espiritualidade depende de uma religiosidade que construímos com nossas próprias mãos, a partir daquilo que oferece o povo que crê, manipulado no fogo pelos sacerdotes.
Muito da nossa espiritualidade, diante do Deus vivo, caminha a passos largos para longe dEle.
Jesus tratou disso em outra região montanhosa, no meio do território dos samaritanos, ao lidar com um povo que, ele mesmo, se organizou em torno de uma proposta religiosa derivada do culto a Deus na forma de um bezerro (1 Rs 12. 29):

Mulher, acredite, está chegando a hora em que vocês, samaritanos, irão adorar o Pai, mas não neste monte nem em Jerusalém. Vocês adoram como que tateando no escuro. Nós, judeus, adoramos na clara luz do dia. O caminho de Deus para a salvação veio por meio dos judeus. Mas chegará o momento — na verdade, já chegou — em que não importará como vocês são chamados ou onde irão adorar.
O que conta para Deus é quem você é e como vive. Seu culto deve envolver o seu espírito na busca da verdade. Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser”.
João 4. 21-24


Que nossa adoração prescinda de qualquer ídolo ou imagem de Deus que construamos por nossa própria força. Que nossa adoração venha do espírito, do mais íntimo de nosso ser, sempre.

31.1.17

Onde está Deus?

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus
Salmo 14. 1


Não são raras as ocasiões em que as pessoas se questionam, ou nos questionam, perguntando: Onde está Deus? Nas grandes tragédias, como na Tsunami do ano passado [2004]; nos momentos de dor e morte, como em chacinas em que se mata, de graça, 30 pessoas no Rio de Janeiro. Momentos de mal e dor, pratos cheios para o desafios dos incrédulos.
O mundo, boa parte das vezes, parece provar que a fé em um Deus bondoso e de amor não é outra coisa senão uma grande mentira. Qualquer piedade, quando sentimento religioso, é visto como tolice. O problema do mal, o problema da dor, o dilema da morte, parecem atentar contra a realidade da presença do Deus vivo no nosso meio. Um Deus que é Senhor do universo e tem todas as coisas nas Suas mãos.
Dizem os que duvidam de Deus, diante grandes dores e tragédias, que se há um Deus, ou Ele não é Todo-Poderoso, e, por isso, não pode evitá-las, ou não é Bondoso e Amoroso, por isso, as deixa acontecer.
Se o nosso olhar for um olhar puramente humano, será impossível não darmos certa razão a essas críticas. Mas a nossa visão não parte de qualquer ponto humano. Devemos olhar a vida sob o prisma da Palavra de Deus. Sob esse prisma, não é tolo o que crê em um Deus Poderoso e Bom no universo. Antes, ao contrário, o tolo, o insensato, é aquele que diz no coração que não há Deus. Mas afirmar isso é reafirmar o aparente contra-senso: Deus é bom e poderoso e o mal continua reinando no mundo.
Isso me faz pensar em dois relatos que se contam sobre os dias no Campo de Concentração de Auschwitz, onde os nazistas mais mataram gente. Conta-se que um grupo de judeus assistia enquanto um oficial alemão espancava uma criança judia no campo de concentração. Após certo tempo, ele a matou com um tiro. Nesse momento, ouviu-se alguém perguntar: "Onde está Deus?" Ao que foi respondido: "Estava ali, com aquela criança".
Um outro relato é de um fato ocorrido alguns anos depois da Segunda Guerra. Em um debate entre alguns teólogos e filósofos famosos, um dos teólogos debatedores parafraseou uma fala de um poeta e disse que era possível orar depoisde Auschwitz porque se orava em Auschwitz.
Não acredito em respostas para a questão do mal. Não acredito que qualquer um tenha uma resposta, nem que precisamos tê-las. Não acho que a fé em Cristo nos dá todas as respostas. Não consigo entender nem jamais poderei entender isso. Mas sei de uma coisa: o Cristo a quem amo está sempre comigo, sempre conosco, mesmo no meio das maiores tragédias. Essa é a grande coisa do que Deus faz por nós. E é a grande certeza que podemos ter de que, ao contrário do que pensa o tolo, há um Deus.
O evangelho de João está repleto de promessas a esse respeito: Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês ... A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela... Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês (Jo. 14. 18; 23 e 15: 4). E, estando com Cristo, poderemos entender que mesmo que não saibamos o porquê do mal, podemos passar por ele, porque Ele está conosco: Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem.Eu venci o mundo (Jo. 16. 33). Enfim, tolo é o que não se lembra que, quando subiu ao céu, Jesus não prometeu o fim do mal no mundo, mas que estaria conosco por todos os dias, até o fim dos tempos (Mt. 28. 20).
Jesus nunca nos prometeu que nos livraria da tragédia, do mal e da dor. Não. O cristianismo não é a mensagem de uma boa vida por todo o tempo. Mas a mensagem da Cruz de Cristo ensina que Ele sempre estará conosco. Ele pode não impedir que enfrentemos a dor, mas com certeza Ele estará conosco quando passarmos por ela, enxugando a nossa lágrima e fazendo com que a dor e o sofrimento sejam mais fáceis de suportar. Porque, sim, há um Deus. Houve um Deus em Auschwitz. Há um Deus na baixada fluminense. Há um Deus no meio das vítimas da Tsunami.

27.1.17

Lutar com Deus

Jacó ficou sozinho do outro lado, e um homem começou a lutar com ele. A luta durou até o raiar do dia. Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.
O estranho disse: “Deixe-me ir embora, o dia já raiou!”.
Mas Jacó retrucou: “Não deixarei você ir sem que me abençoe”.
O homem perguntou: “Qual é o seu nome?”.
Ele respondeu: “Jacó”.
E o homem disse: “Não mais. Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”.
E Jacó perguntou: “Qual é o seu nome?”.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Gênesis 32. 24-29


Lutar com Deus é se agarrar com todas as forças ao Senhor diante das situações mais difíceis ou assustadoras pelas quais passamos. É agarrá-lo, dizer-lhe que não pretende ir enquanto não vier uma bênção. É persistir na presença dEle - não para mudá-lo, alterar sua vontade, mas para que Ele nos mude.
Jacó enganou seu irmão duas vezes para roubar seus direitos como primogênito. Depois, foi enganado 20 anos por seu tio Labão até conseguir fugir e voltar para a sua terra.
Nesse momento da narrativa, Jacó está apavorado pela possibilidade de encontrar seu irmão, Esaú, ferido e magoado como deixara.
Jacó luta com o homem. Reconhece nesse homem o próprio Deus. Não pode deixá-lo ir. Quer a benção - a chance de encontrar seu irmão em paz.
Provavelmente, seu desejo era de que Deus mudasse Esaú para que o encontro ocorresse sem luta entre os dois.
E o que Deus faz?

Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.

Jacó, depois de 20 anos, não podia saber nada acerca de seu irmão. Ele não controlava a vida de seu irmão, suas escolhas, seus sentimentos, sua mágoa, seu rancor. Jacó não podia impedí-lo de que viesse com 400 soldados ou com presentes e flores.
A única circunstância sobre a qual Jacó podia interferir era a sua própria vida.
Lutar com Deus não muda Esaú - muda Jacó.
Ao lutar com Deus em oração talvez você não possa mudar um centímetro da circunstância ou da vida do outro - mas ao lutar com Deus, esteja certo, a sua vida será mudada.

"Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”

Por isso, não queira controlar as circunstâncias nem os meios de luta. Eles não pertencem a você.
Também não encaixote Deus dentro dos limites e parâmetros que você definiu. Nem suas crenças, seu conhecimento, nem a sua teologia definem (dão fim) a Deus. Ele é maior.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Lutar com Deus muda você porque Deus está além do que você imagina e nomeia.
Ao orar, portanto, não espere a mudança das circunstâncias ou do outro. Reconheça a sua própria mudança. Assim, talvez, você seja a resposta à sua própria oração. Como Jacó ao se tornar Israel.

26.1.17

Abrir os olhos

Na mesma hora, Deus abriu os olhos dela. Hagar avistou um poço de água.
Gênesis 21. 19


Nem sempre vemos o óbvio, o evidente, aquilo que sempre esteve diante de nossos olhos. Boa parte das vezes, o que nos cega são nossos preconceitos ou emoções. Parece que quanto mais forte a emoção, menos a gente a vê o óbvio - tanto as emoções ruins (já ouviu o adágio de que a raiva é nossa pior conselheira?), como as boas (o amor é cego?).
Hagar está em sofrimento com seu filho Ismael. Acabaram de ser expulsos por Abraão e Sara. Sara expulsou sua escrava mesmo depois de ter-lhe feito de escrava sexual para que gerasse um filho para o marido. Agora, sentia Hagar e Ismael como ameaças.
Hagar e Ismael são mãe e filho extremamente humilhados - escrava convertida em barriga de aluguel, rejeitada após isso, filho abandonado pelo pai. A dor devia ser imensurável. Não consigo imaginar o quanto esses dois estão sofrendo - Ismael, uma criança ainda.
Some-se a isso a sede e a fome.
Hagar desistiu. Coloca seu filho sob uma árvore e vai mais adiante esperar pela morte. Dos dois.
Quem não desistiu dos dois foi Deus. O Senhor é sempre o Deus daqueles que estão em sofrimento, dos humilhados, abandonados - daqueles para quem as costas foram viradas. Deus é o Deus de Hagar e Ismael.
Na sua dor, Hagar é incapaz de ver saída para o sofrimento, para a fome e para a sede. Mas Deus com ela lhe mostra que tudo pode ser diferente.

“Hagar, o que aconteceu? Não fique com medo. Deus ouviu o menino e sabe que ele está numa situação difícil. Agora, levante-se, pegue seu filho e abrace-o! Vou fazer dele uma grande nação”.
Gênesis 21. 18


Deus está com a mulher violentada, com o filho abandonado, com todo aquele em sofrimento e dor.
Sua dor pode ser de outra ordem, mas Deus está com você, estimulando todo o tempo que você deixe o medo de lado - Ele vai cumprir o que prometeu.
Na dor, não desista, não deixe os que você ama de lado. Siga em frente e erga os olhos.

Na mesma hora, Deus abriu os olhos dela. Hagar avistou um poço de água.

A dor cegava Hagar ao ponto de que ela não era capaz de ver a salvação bem diante dos seus olhos. Mesmo uma salvação tão evidente só é possível de ser vista se Deus abrir seus olhos.
A situação pode não ser como a de Hagar. Você pode não estar em sofrimento. Mas é um alívio saber que Deus estará com você quando estiver caminhando no deserto, quando não parecer haver saída, quando o desejo for apenas de sentar e morrer - nesse momento, Ele abrirá seus olhos.
Sua salvação sempre estará perto de você.

21.1.17

Amar a Deus

Se alguém se vangloria, dizendo: “Eu amo a Deus” mas odeia e despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo. Vocês precisam amar os dois.
1 João 4. 20-21


A religião sempre promoveu uma separação entre as relações verticais entre o fiel e seu deus e as relações horizontais do fiel com os outros. Essa separação por vezes tomou corpo como ação violenta e bárbara contra todo aquele que é ou era diferente.
E não é preciso pensar apenas em movimentos terríveis como os do Estado Islâmico. No mundo religioso cristão e ocidental vimos por diversas vezes tais práticas de ódio subsistirem: na Inquisição, nas Guerras Religiosas, nos conflitos entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha, no Apartheid sul-africano, nas políticas de segregação nos Estados Unidos.
Sempre foi fácil fugir do texto de João a partir da elasticidade interpretativa que define quem é o próximo, quem é o irmão. O outro sempre foi visto nesses casos como qualquer coisa, menos o próximo que deve ser amado. A parábola do samaritano foi contada por Jesus como forma de responder a essa pergunta: “quem é o meu próximo?” (Lc. 10. 29).
Quando Jesus responde, mostra que o próximo não é o religioso, não é o ortodoxo, mas é o estrangeiro herege, o samaritano que não segue a Deus como os judeus seguem.
Esse é o meu próximo: não o que é igual a mim, mas o que é absolutamente outro.
O mais radical dessa verdade do evangelho é que eu só posso a amar a Deus se amar esse outro, esse próximo, essa pessoa completamente diferente de mim.

O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo.
Afinal, como eu poderia dizer que amo a Deus, a quem não vejo, se desejo a morte de alguém? Como eu posso falar do meu amor a Deus, se faço o mal ao próximo? Como posso amar a Deus, se não amo o outro?
João não mede palavras: “é mentiroso”.
É mentiroso porque Deus só se ama no amor ao próximo. O amor a Deus não pode ser platônico, sentimento emocionante que nos toca a alma.
O amor só é possível porque Deus nos amou primeiro - e quando nos amou, fez-se um de nós e morreu por nós.
O amor a Deus, portanto, só pode ser real se for posto em prática, em ação. E esse ação, essa prática, essa realidade, não se dirige a um mundo etéreo: só se ama de verdade a Deus amando-se as pessoas.
Fazendo o bem a elas.
Socorrendo-as, como fez o bom samaritano.
Deixando a religião em segundo plano, em favor do amor.
Por isso, a importância da exortação da 2 Pedro 1. 5-7, que põe em questão, inclusive, uma certa posição de importância:

Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a devoção a Deus; à devoção a Deus a fraternidade; e à fraternidade o amor. (NVT)

A fraternidade é mais importante que a devoção - e o amor é mais importante que tudo e a tudo une.
Que aprendamos que amar a Deus é amar o próximo.

20.1.17

À espera do socorro

Se você ficar calada numa situação como esta, do Céu virão socorro e ajuda para os judeus e eles serão salvos...
Ester 4. 14.

No meio do ano de 2001, de férias em Natal, vi uma apresentação do grupo de dança de minha igreja que marcou profundamente. Ainda hoje me emociono ao ouvir a canção que dançaram naquela noite – “Elevo meus olhos”, na voz de Ana Paula Valadão e Paul Wilbur. A música tocou pelo ritmo e melodia, mas principalmente pelo impacto que aquela letra – bíblica – provocou naquele momento específico de minha vida. O texto do salmo era tudo o que eu precisava ouvir. Geralmente é assim mesmo: quando a gente menos espera, Deus traz a nós uma palavra apropriada que volta a nos dar a força e a esperança. Naquela noite, a conjunção de letra, melodia, ritmo e dança marcou a minha vida. Renovou a esperança de sair de uma situação intimamente difícil. E havia razão para isso: do Céu me viria o socorro!
É assim que muitas vezes as circunstâncias da vida nos deixam: a espera do socorro. Por isso, tantas vezes nos identificamos com personagens como Daniel e seus amigos. Jogados às feras para sermos devorados ou lançados em uma fornalha ardente, esperamos o milagre em nosso socorro. Aguardamos ansiosamente a intervenção do Céu para nos livrar. Sofremos, ansiamos, esperamos com fé. E sabemos que do Céu nos virá o socorro.
Às vezes, no entanto, nos vemos na situação de Mordecai. E essa é uma situação difícil porque nos fere. Estamos ameaçados. Porém, somos cientes que existem pessoas em posição de nos ajudar, de nos socorrer, de transformar as coisas. No entanto, tais pessoas escolhem não se envolver – por medo ou opção – deixam-nos sós com nossos problemas. E eu sei o quão duro é levar esse peso – o da dificuldade – somado à indiferença de quem pode nos ajudar.
Se você ficar calada numa situação como esta, do Céu virão socorro e ajuda para os judeus e eles serão salvos... Mordecai demonstrou uma fé que acho difícil de encontrar em mim mesmo, mas que é a mensagem de Deus para mim e para você. Se aquela pessoa que está em posição de socorrer – como a rainha Ester – não quiser se envolver, Deus proverá uma outra saída, um outro caminho, um socorro vindo de outra parte. Mas é preciso ter fé e esperar: ainda que quem possa nos ajudar não queira, Deus no Céu ouve o nosso clamor e desce para nos livrar.
Isso, para mim, é esperar contra a esperança. Quando não mais parece haver ajuda ou saída, ainda podemos esperar a ajuda do céu. Ainda que venha no último instante. Ainda que surja como um anjo andando conosco no meio da fornalha. Ainda que seja um anjo que fecha a boca do leão faminto diante de nós. Deus não nos desamparará, mesmo que o homem desampare. Do céu virá o socorro.

Observação: Em virtude da necessidade de lidar com questões particulares, hoje não foi possível elaborar uma reflexão inédita. Recupero, por isso, texto publicado em 20 de dezembro de 2005.

14.1.17

O Amor que salva

Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.
2 Coríntios 8. 9


O nome do Amor é entrega.

François Varillon dizia que Deus é o Amor Todo-Poderoso e que Ele era capaz de fazer qualquer coisa que o Amor fosse capaz de fazer. O Seu Poder está restrito ao Seu Amor. Afinal, “Deus é amor” (1 Jo 4. 8), provavelmente a melhor definição conceitual de Sua Pessoa nas Escrituras.

Mas a melhor história de amor de Deus, que fatalmente confirma o Seu Amor Todo-Poderoso, é a Encarnação de Jesus.

Jesus é reconhecido pelos primeiros cristãos como Aquele em quem estava toda a plenitude da Divindade (Cl 2. 9), a perfeita semelhança de Deus (Hb. 1. 3) que montou sua tenda entre nós na pessoa de seu Filho (Jo. 1. 14). Deus só pode ser visto quando olhamos para Jesus.

Para viver essa história de Amor e de Entrega, Jesus se esvaziou de si mesmo (Fp. 2. 6-8). O seu esvaziar-se é sua entrega. Sua entrega é o Amor que salva.


Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.


A salvação começa no Amor que se entrega e que, para se entregar, se esvazia. Era rico, mas deu tudo por amor a nós. Tornou-se pobre para que, pela graça, fossemos ricos do seu amor.

O Amor que salva é o amor que se entrega integralmente ao ser amado.

O Amor que salva é o amor que não tem por seu nenhuma coisa, mas vive em função do outro, para resgatá-lo, transformá-lo.

O Amor que salva é o amor que vê o outro em primeiro lugar. É o que toca o outro e, ao tocá-lo, muda o outro.

O Amor que salva é o amor que relativiza as leis, as regras e a moral em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que risca a terra e liberta a adultera - não só do seu pecado, mas especialmente do destino a que lhe reservou a lei escrita.

O Amor que salva é o amor que se torna impuro, tocando a mulher do fluxo de sangue, o esquife do filho da viúva, a mão da filha de Jairo - torna-se impuro pela cura e salvação.

O Amor que salva é o amor que faz no sábado o que a lei proíbe porque o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado.

O Amor que salva é o amor que partilha a mesa com pecadores e a escória social, porque amor só é amor se amar aquele que ninguém mais ama.

O Amor que salva é o amor da entrega radical e absoluta, do esvaziamento completo, do empobrecimento em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que enche de graça o mundo. Enche de beleza, de paz, de liberdade, de inspiração, de amor.

O Amor que salva é o amor que nos impulsiona a irmos e fazermos coisas ainda maiores que essas.

O Amor que salva é o amor que nos faz amar - com entrega, esvaziamento, empobrecimento -, e, amando, vivermos mergulhados no Rio de Amor, que pode ser a nossa forma de conhecer a Deus.

10.1.17

Não imponha seu relacionamento

Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros. 
Romanos 14. 22


Quando eu me tornei evangélico, duas décadas atrás, eu me tornei ainda mais chato do que já era. Não apenas pelo desejo de converter cada amigo e pessoa da família, mas pela forma de atuação que adotei para que isso acontecesse: "encontrei a verdade, logo você está no erro e precisa entender isso de uma vez, se não vai terminar no inferno”.

Agindo assim, eu ofendi amigos e familiares por mais de uma vez, inclusive minha própria mãe. De todos os modos, tentava impor a quem não queria meu modo de ver as coisas e de crer em Deus.

Eu, infelizmente, não era o único. Aliás, todos nós talvez conheçamos pessoas que seguem agindo de tal modo - e não apenas no âmbito evangélico. Conheço gente de diferentes formas de credo que se esforçam ao máximo para impor aos outros suas particulares formas de crença.

É provável que eu mesmo ainda me comporte assim.

Aos Romanos, Paulo diz


Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros.


Se é fundamental cultivar o relacionamento com Deus, também o é não impor a ninguém tal relacionamento. Podemos não agir como nos dias inquisitoriais em que a conversão forçada era condição de sobrevivência, mas fazemos parecido quando impomos a fé: “se não, você vai para o inferno”.

Cultive o relacionamento com Deus. O caminho é simples, ainda que possa não ser fácil: oração diária, meditação na Palavra de Deus, louvor e vida comunitária.

Ore diariamente porque a oração muda seu coração e é a oportunidade de estar mais perto diante do Eterno.

Leia e medite nas Escrituras, crendo que por meio delas o Senhor pode falar com você e instruir seu caminho.

Louve ao Criador, agradeça Suas obras, Seu cuidado, Sua presença, Sua santidade.

Mergulhe na vida com outros irmãos porque um amigo afia outro amigo (Pv. 27. 17)

Nenhum desses passos é fácil de dar, mas ninguém é capaz de cultivar relacionamento ou conhecer alguém sem gastar tempo com essa pessoa, até mesmo quando essa pessoa é o Eterno.

O que as Escrituras apontam é que esse relacionamento se estrutura no amor, vem do amor e conduz a mais amor. Por isso mesmo, não o imponham aos outros.

Aos Coríntios, Paulo deixa claro que o amor não combina com nenhum egoísmo - o que também significa que o amor nos conduz a nos preocuparmos primeiro com os outros.


O amor se preocupa mais com os outros que consigo mesmo.
1 Coríntios 13. 5



Quem se preocupa primeiro com os outros não pode pensar em impor nenhum tipo de padrão de pensamento ou comportamento individual a eles. Respeita-os e deixa-os livres, porque o amor é liberdade. “Ponham o interesse próprio de lado”, diz Paulo aos Filipenses (Fp. 2. 4).

Quando queremos impor nosso padrão de relacionamento com Deus aos demais provamos que fazemos isso por interesse próprio, egoísmo, porque nos consideramos a nós mesmos como superiores aos demais, nosso modo como correto, e convencer os outros é reforçar nossa posição egoísta.

O convite das Escrituras é simples: cultive o relacionamento com o Eterno e ame o próximo como a si mesmo. Quem ama não impõe, mas respeita a liberdade. Quem ama permite que o outro seja livre, tome suas decisões, faça suas escolhas. E quem ama importa-se com o real desejo do outro mais do que com sua própria vontade.

Cultive seu relacionamento com Deus e ame.

Deixe que ele cuida do resto.

8.1.17

Que eu possa dançar

Põe uma música alegre para mim,
conserta meus ossos quebrados, para que eu possa dançar.
Salmo 51. 8



Com razão, boa parte das pessoas imaginam os religiosos, particularmente os cristãos, como pessoas sem graça, com dificuldades para se divertir, alienados da vida e do mundo.

Para muita gente, ser religioso é ser sério e severo, é ter pouco espaço para o sorriso, para o lúdico, para a celebração festiva. É ter a face rígida de Bento XVI e não o sorriso festivo de Francisco.

No mundo protestante isso talvez fique ainda mais evidente. Desde a Reforma, a severidade como característica da religiosidade cristã está em disputa. Parte da Reforma, por exemplo, abdicou da música, qualquer música, nos cultos e na vida.

Os protestantes norte-americanos que evangelizaram o Brasil impuseram às igrejas certas tradições completamente alheias aos nossos trópicos festivos. Até hoje parece muito anacrônico deparar-se com um púlpito repleto de ternos e gravatas, sem cor, sem brilho e sem ludicidade em nossas igrejas.

Parece anacrônica ainda haver gente que encara a festa e a dança como pecados.

O Salmo 51 é um cântico de confissão de pecados e pedido de restauração. A tradição o atribui a Davi, logo depois do adultério com Bate-Seba e o homicídio de Urias.

É no contexto de confissão de pecados que o salmista pede a Deus:

Põe uma música alegre para mim,
conserta meus ossos quebrados, para que eu possa dançar.


Enquanto as igrejas investem na severidade, no terno cinza, no rosto sem sorriso, o salmista pede a Deus que o perdoe (“conserta meus ossos quebrados”), ponha no som uma música alegre para que ele dance. O salmista reconhece em Deus a fonte do lúdico, da festa, da música, da dança, da celebração.

Tive grandes experiências com Deus reconhecendo minha cultura, a música que mexe no meu íntimo, a festa que diz respeito a mim.

Lembro de um divisor de águas em um dos tradicionais forrós que encerravam as reuniões da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Ao som de “Espumas ao vento”, dancei com minha amiga Gidália. Deus tocou-me fundo: “esse é você e não fuja disso: você é do Nordeste, é do Forró, é da Festa”. Eu senti como se meu sangue pulsasse ao som da zabumba e do triângulo, uma experiência que mudou a minha vida.

O salmista vem da tristeza do pecado e pede a Deus que toque uma canção para que Ele dance. O perdão enche o coração de alegria, a restauração nos leva à festa, a cura nos faz dançar.

O DJ é o próprio Deus.

Fantástico isso, não?

7.1.17

No coração quebrantado

O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.
Salmo 51.17



Dizem que conhecer a opulência de Roma em seu tempo teve profundo impacto em Francisco de Assis. Havia um contraste imenso entre o que ele e sua ordem entendia do evangelho (como a necessidade de imitar a pobreza de Cristo) e a riqueza da corte do Vaticano.

Aquela riqueza era sinal de poder, mas manifestava também uma certa concepção de relacionamento com Deus. Basicamente, uma visão que atribui aos templos um lugar especial para nos encontremos com o Senhor, que lida com os bens como manifestação de sua graça e com a riqueza como demonstração de sua majestade.

Em suma, a meu ver, esse contraste atualiza a conversa entre Jesus e a mulher samaritana (Jo. 4). O debate é sobre onde e de que forma deve ser o culto e o relacionamento com Deus: na simplicidade ou na opulência? Na basílica ou na caverna? Com ouro ou com madeira?


O que conta para Deus é quem você é e como vive. Seu culto deve envolver o seu espírito na busca da verdade. Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser.

João 4. 22-23



Jesus esclarece definitivamente: a relação com Deus é espírito, não depende nem se relaciona a nenhuma forma exterior, nenhum templo, nenhuma regra - se relaciona unicamente ao coração. É no coração que nos encontramos com o Deus de Jesus.

E o caminho começa com aquilo que diz o Salmista:


O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.



O caminho começa com um coração que se quebranta, que não é orgulhoso, que conhece a si mesmo, que sabe suas próprias falhas, que reconhece sua fragilidade e sua ignorância. Um coração que chora porque dói, mas se alegra porque é grato. Um coração que reconhece e confessa os pecados, que aceita o perdão. Um coração, em suma, que abraça a humanidade sem discutir muitas coisas.

Esse é um coração disposto a amar porque é um coração que se sabe nenhum pouco melhor do que ninguém. Um coração que reconhece seu lugar, sua pessoa, que sabe de si e, sabendo de si, pode mergulhar em uma relação amorosa com Deus e com o próximo.

É esse coração que não pode se esconder do olhar amoroso de Deus, que não escapa de sua graça, de seu cuidado. É esse coração que Deus encontra. É nesse coração que a graça e a verdade se beijam. É aí que há culto, que há celebração, que há gozo, que há paz.

É no coração quebrantado e alcançado por Deus que Senhor mergulhar para se relacionar conosco, nos amar, nos tocar, promover a festa de um culto que seja verdadeira adoração e que nos impulsione, a cada instante, para a vida verdadeira - a vida que foi tocada e movida pela eternidade.

6.1.17

O sofrimento que acompanhará a tarefa

Mas o Senhor disse: “Não discuta! Eu o escolhi como meu representante pessoal entre judeus, outros povos e reis e agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa”.

Atos 9.15-16



Ainda que queiramos negar, o sofrimento faz parte da vida. Claro que isso não é bom nem é agradável, mas nenhum de nós pode passar incólume. As coisas quase nunca estão sob controle e fatalidades são parte de nosso dia a dia.

Lembro que em março de 2015 eu estava numa reunião de orientação com um aluno em uma livraria de Fortaleza quando o telefone tocou para me informar que minha filha sofrera uma queda na escola e tivera uma grave fratura no braço direito. Eu praticamente tive que largar tudo para voar para Natal a fim de acompanhá-la.

Fatalidades ocorrem em todos os níveis. Podemos procurar nos preparar para o sofrimento e a dor mas cada um de nós já aprendeu que seremos sempre surpreendidos, como o foi, por exemplo, o justo Jó.

O problema, no entanto, não é a dor e o sofrimento. O problema é toda uma sorte de receitas que estão disponíveis no mercado para convencer-nos que é possível fugir da dor e do sofrimento.

Essas receitas se encontram, especialmente, no mundo religioso e, infelizmente, também no ambiente cristão.

Há muito evangelho sendo pregado por aí que oferece a cura de toda dor e sofrimento, a fuga do que disfuncional, Há muita igreja na qual se chega e a promessa é de uma vida plenamente feliz o tempo todo, sem que nada possa dar errado. E se algo não funciona, a culpa é do fiel que pecou ou a quem foi faltou fé - ampliando o próprio sofrimento.

Dia desses um amigo me chamou atenção para esse trecho de Atos, no qual o Senhor conversa sobre Paulo récem-convertido com Ananias:


agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa.


A primeira promessa a Paulo não é aquela de uma vida tranquila. A primeira promessa a Paulo é que ele sofrerá. Experimentando a salvação, servindo a Deus com o seu ministério, anunciando o evangelho de Jesus: a tudo isso lhe acompanhará sofrimento.

Viktor Frankl diz que no sofrimento é nosso papel dar sentido a ele. Só assim poderemos sobreviver a ele. Isso não significa que vamos buscar o sofrimento de iniciativa própria ou que, podendo evitá-lo, não o faremos.

Ter certeza de que na vida sofreremos não pode significar nenhuma postura masoquista de busca desenfreada do sofrer, nem pode significar a negligência com o evitar a dor desnecessária.

Só precisamos saber: sofrer é parte da vida, mas não é o fim da vida.

Que não nos surpreendamos quando a vida doer e que saibamos que é justamente nessas horas que Jesus vai nos carregar no colo.

3.1.17

Próximo a Deus

Então, vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça. Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas passarão na frente de vocês em direção ao Reino de Deus. Vocês verão estrangeiros, vindos de todas as partes do mundo, sentados à mesa do Reino de Deus, enquanto vocês vão estar do lado de fora, espiando pela janela — tentando descobrir o que aconteceu.

Lucas 13. 28-29



O que nos aproxima de Deus?

As respostas humanas são variadas e historicamente diversas, mas resumem-se, em geral, no mesmo sentimento de religiosidade e espiritualidade - dos tempos primitivos até aqui.

No Gênesis, a religião se inicia com Enos: “Foi nessa época que as pessoas começaram a orar e a prestar culto ao Eterno” (Gn.4. 26).

A religião é um movimento humano na tentativa de encontrar relação com a Realidade Última da Existência, o Eterno, a Divindade. Desde que se deparou com o seus limites, o principal deles a morte, o ser humano estabeleceu tentativas de rituais e cerimônias para apaziguar Deus ou para que houvesse com Ele algum tipo de relacionamento.

Com o tempo, os modos religiosos politeístas foram sendo suplantados por formas monoteístas de relacionamento religioso.

Até que surge uma nova modalidade de crença em Deus, talvez inédita. Os hebreus passaram a acreditar que, mais do que um movimento humano na direção do Eterno, a religião era um movimento do Eterno na direção do humano.

Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito, tirá-los daquele país e levá-los para uma terra boa, ampla, cheia de leite e mel, hoje habitada por cananeus, hitititas, amores, ferezeus, heveus e jebuseus (Ex. 3. 7-8)

Como esse povo não iria se achar especial? Como não pensaria que nascer hebreu era suficiente para ter relacionamento íntimo com Deus? Como não estabelecer a regra de que seus rituais e seus cultos eram os únicos possíveis para que o ser humano pudesse conhecer o Eterno?

Tal processo de institucionalização da fé e da religião é uma realidade até os dias atuais - agora, talvez, outras religiões se arvoram também como as únicas possíveis e corretas.

Era assim nos dias de Jesus e a sua parábola denuncia tal questão.

Então, vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça. Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas passarão na frente de vocês em direção ao Reino de Deus. Vocês verão estrangeiros, vindos de todas as partes do mundo, sentados à mesa do Reino de Deus, enquanto vocês vão estar do lado de fora, espiando pela janela — tentando descobrir o que aconteceu.

Os religiosos de Israel acreditavam que o que lhes garantiria um lugar no Reino de Deus era o pertencimento étnico ao povo judeu e o seguimento de suas regras e condutas religiosas.

Jesus alerta, no entanto, que o acesso ao Reino de Deus é a graça e é de graça - não existe garantia étnica ou religiosa: "vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça”.

Pelo contrário: até os mais inesperados convidados estarão à mesa do Reino de Deus. Os que se fiam na religião tentarão descobrir o que aconteceu, enquanto aqueles que a religião desprezaria sentarão ao lado de Jesus.

A relação íntima com Deus por meio de Jesus está aberta a quem deseja, para além das circunstâncias e regras religiosas.

Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser (Jo. 4. 23-24).
Religião alguma supera o coração como instrumento adequado para que estabeleçamos uma relação íntima com o Eterno.

2.1.17

Maturidade

Diferentemente da cultura dominante, que sempre os arrasta para baixo, ao nível da imaturidade, Deus extrai o melhor de vocês e desenvolve em vocês uma verdadeira maturidade.
Romanos 12. 2



Sou professor e, como professor, tenho um objetivo principal em sala de aula, independente de qual seja a disciplina que esteja ministrando - e esse objetivo nada tem a ver com o conteúdo ou desempenho acadêmico da turma, com notas, com aprovação ao fim do semestre.

Meu objetivo, aliás, também não tem nada a ver com a receptividade e aprovação dos estudantes ou dos colegas ao meu trabalho.

Como professor meu propósito principal é que, ao fim do semestre, cada estudante possa sair como um ser humano melhor, mais maduro e mais pronto para a vida.

Logo, cada conteúdo que eu tenho de ministrar por causa da estrutura curricular e ementa das disciplinas é abordado na perspectiva de saber como aquilo pode impactar - e de que forma - na nossa vida.

Antes de formar jornalistas, meu objetivo é ajudar pessoas a alcançarem sua maturidade.

Sei que nem sempre é possível e sei que, como professor, sou falho inclusive na maturidade, humildade e nas minhas condições em sala de aula.

Exemplo disso foi-me relatado por um amigo na universidade que, falando sobre um determinado aluno meu, me disse que insatisfeito com minhas brincadeiras tal estudante pensou em me processar. Eu que sempre procuro respeitar os limites que os estudantes me põem, aprendi da necessidade de cuidar disso mais atentamente.

Sou consciente, portanto, que por mais que tente arrastar os meus estudantes a um nível mais alto e maduro, provavelmente algumas vezes estarei arrastando-os para baixo e, na maior parte do tempo, não serei capaz de levá-los tão alto assim. Porque esse é o papel de Deus.


Deus extrai o melhor de vocês e desenvolve em vocês uma verdadeira maturidade.


O mundo à nossa volta, às vezes até os nossos amigos, sempre nos arrastará para baixo. E experimentaremos aquela frustrante sensação de nos esforçarmos muito para sermos alguém melhor, para sairmos do lugar em que estamos, do nosso passo empacado, e, de repente, sermos abatidos em pleno voo pelo petardo de alguém que, conscientemente ou não, quer nos ver no chão.

De um lado, isso devia nos fazer preocupar com aqueles amigos, parentes ou profissionais que elevamos à categoria de conselheiros, e afastar do papel todos aqueles que não ajudam a vida a fluir mais alto, mais perto de Deus.

De outro, podemos nos render diante de Deus. Não há ninguém melhor que Ele para cuidar de nós. Ele extrairá de nós o melhor que nós somos. Ele nos fará maduros. Essa é sua vontade perfeita, boa e agradável.

Se o perfeito Deus tem uma vontade boa e agradável e ela inclui extrair o melhor de vocês e desenvolver em você uma verdadeira maturidade, não há ninguém mais a quem você deveria confiar a vida.

Não se deixe arrastar-se ao nível da imaturidade, mas abra seu coração ao perfeito cuidado do Senhor.

1.1.17

Aflição

Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.
Marcos 13. 20


Talvez porque 2016 tenha sido, provavelmente, o pior ano de minha vida, chamou minha atenção a quantidade de pessoas nas redes sociais e em outros espaços falando de quão ruim o ano que passou foi.

Não apenas por causa das crises (econômica, política, social) que enfrentamos em nosso cotidiano - e que, infelizmente, não foram magicamente resolvidas quando o relógio bateu a primeira meia-noite de 2017. Parece que todos nós passamos por crises pessoais intensas, por sofrimentos, por dores. Doenças graves, rupturas, brigas, inconstâncias, tragédias, mortes: ninguém, com raras exceções, pareceu feliz com 2016 nos últimos instantes do ano.

Foi um ano aflitivo até o fim.

Mas a palavra de Jesus nos ajuda a perceber o cuidado de Deus:


Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.



Quando passamos por uma forte aflição é possível considerar que não dá mais para suportar. No enfrentamento de uma doença grave em 2016 vários amigos e parentes me ouviram vaticinar que eu não tinha mais como suportar. E era a mais pura verdade: eu não teria suportado se dependesse unicamente de mim.

Como destaca Rob Bell, Deus é o nosso Pai que sabe o caminho seguro e nos protege em seus braços - como Ele, no rumo de casa, estamos seguros. Vai chover, vão cair tempestades, vamos ter frio, medo, aflição, podemos até nos machucar, mas a certeza que podemos ter é o cuidado e a proteção do Senhor em todo tempo.

Se 2016 foi um ano difícil, podemos estar certos que, se não sucumbimos, foi devido à ação amorosa de Deus.


Se o Eterno não tivesse nos socorrido
— todos juntos agora, Israel, cantem! —;
Se o Eterno não tivesse nos socorrido
quando todos foram contra nós,
Teríamos sido engolidos vivos
por uma onda de violência,
Afogados pela enchente da ira,
arrastados pela correnteza.
Teríamos perdido a vida
naquelas águas agitadas e violentas.

Salmo 124. 1-5



Em suma: 2016 foi um péssimo ano, mas poderia ter sido pior não fosse o cuidado do Senhor conosco - cuja constância podemos contar em 2017.

Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.


30.12.16

Vida e morte

Ele não está mais aqui

Mateus 28. 6



Quando Paulo, no relato do livro de Atos, chega à Atenas, se impressiona com a intensa religiosidade da cidade, repleta de altares para deuses diversos, inclusive um deus desconhecido, do qual o apóstolo se aproveita para anunciar Jesus.

De modo semelhante, quando chegamos a uma cidade como Salvador e suas centenas de igrejas históricas ficamos impressionados e sensibilizados. Em Salvador, a forte presença visual das religiões de matriz africana também deixam sua marca indelével em nossas almas.

O ser humano é religioso. Ele sente a necessidade de transcender a si e aos seus próprios limites.

Diante do limite extremo que é a morte, o ser humano precisa encontrar uma resposta que lhe possibilite seguir vivendo.

Diante de limites proporcionados pelo sofrimento, buscamos sentido e significado.

Quando sentimos as maiores dores, queremos saídas.

As saídas buscadas e encontradas podem não ser religiosas e, assim mesmo, darem conta das nossas necessidades. Ainda que sejam saídas espirituais - no sentido de transcender os limites, não na crença em Deus ou deuses -, podem ser saídas que abdiquem do metafísico, do que vai além do histórico e material.

As saídas, em geral, no entanto, são religiosas.

Lembro do dia que conheci um senhor que enfrenta um violento câncer e, no meio da dor, tem buscado seu alívio em um centro espírita, ao mesmo tempo que ouve a pregação de um padre no rádio e visita uma missa de cura em uma igreja de Natal. Ao falar sobre minha igreja, interessou-se em conhecer um de nossos cultos.

O fenômeno religioso é ancestral. Ele começou em tempos pré-históricos e foi adquirindo características e tecnologias cada vez mais complexas ao longo dos milênios. Para termos a religião como a temos no século XXI muita coisa evoluiu por toda a parte.

No entanto, nem toda religião responde às questões mais fundamentais da vida humana. Aliás, nem toda religião responde com vida às nossas demandas e, penso, essa é uma questão muito mais pessoal do que ligada a qualquer sistema de fé em que tenhamos nos enredado. É uma escolha nossa optar pela vida ou pela morte até em termos de fé.

Muitos religiosos fazem opção pela morte, mesmo entre os cristãos. Ou, antes, principalmente entre os cristãos. Só encontram um Jesus morto na cruz ou vão atrás de seu corpo no sepulcro. Só pensam naquilo que acham que lhes acontecerá depois de sua morte. Alienam-se da vida em busca de um Deus que não vive ou não tem o que lhes dizer acerca da vida. Gastam seu tempo pensando em tudo, menos vivendo. Vivem além da vida.

As mulheres foram no domingo de Páscoa ao sepulcro em busca de um Jesus morto, em uma fé morta, um Deus que não estava mais na vida.

O anjo lhes diz: “Ele não está mais aqui”. Ele não está morto.

Não encontramos Jesus em uma religião que diga muito sobre a morte. Não o encontramos em um sepulcro. Não vivenciamos uma fé viva na perspectiva de um Deus morto, de um Jesus enterrado.

“Ele não está mais aqui”.

A fé deve nos convidar à vida, nos conduzir a ela, nos fazer experimentar e mergulhar cada vez mais na vida. Jesus não está no sepulcro. Ele está vivo.

A nossa opção de fé pode ser pela vida. Pode ser para vivermos. Pode ser para que nossa intensidade se derrame em mais e mais vida e compromisso com o viver.

Porque, diante do sepulcro e da morte, podemos dizer de Jesus: “Ele não está mais aqui”.

Que Ele esteja em nossas vidas.

29.12.16

Apenas um carpinteiro

Não demorou, porém, já estavam falando mal dele: “Ora, ele é apenas um carpinteiro — o filho de Maria. Nós o conhecemos desde menino. Conhecemos também seus irmãos, Tiago, José, Judas e Simão, e suas irmãs. Quem ele pensa que é?”. Mesmo sem conhecê-lo direito, eles o desprezavam.

Marcos 6. 3


Nós somos preconceituosos.

Lembro de ter chegado ano passado em São Paulo, no aeroporto de Guarulhos. Enquanto esperava o ônibus da companhia aérea que me levaria até Congonhas, um moço se aproximou da fila pedindo ajuda. Levava nas costas um saco plástico com suas coisas.

Era uma segunda pela manhã e na noite anterior ele dormira sob a marquise de uma igreja em Guarulhos. Envolvido com tráfico de drogas, alguns meses antes, com a vida ameaçada, pegou os últimos lucros e se internou numa clínica evangélica de recuperação de dependentes químicos. Era tudo o que tinha - e tudo o que sobrou quando saiu da clínica estava naquele saco.

Saiu de lá, também, convertido, mas ainda passando apertos com a fome e, às vezes, com a abstinência.

Na noite do domingo, participou do culto naquela igreja, sendo relativamente bem recebido. Ao fim do culto, porém, ninguém se importou de verdade com ele e suas necessidades. Todos se foram e ele foi ficando. Ajeitou-se para dormir ali mesmo.

Tudo o que queria era conseguir retornar à sua cidade natal para rever a mãe.

Em menos de dez minutos de conversa com o rapaz, eu fui abençoado. A minha sensação era de que diante de mim estava Jesus em pessoa.

Nós somos preconceituosos.

Olhamos para alguém na situação daquele rapaz e o desprezamos no ato. No que seriamos abençoados em contato com ele? Eu fui muito abençoado.

Lembro de uma época em que numa das igrejas das quais fui membro, todo domingo à noite um fedido morador de rua sentava-se em um dos bancos para assistir o culto. Ninguém sentava-se ao seu lado e, algumas vezes, ainda havia um movimento para retirá-lo do templo. Não perguntávamos seu nome, não o apresentávamos como visitante.

Uma noite recebemos um deputado federal no culto. Toda honra foi dada àquele visitante, contrastando com aquele pobre andrajoso que estava no mesmo templo, no mesmo culto.

Jesus era de Nazaré - uma vila de artesãos tão desprezível que somente depois do ano 100 da era cristã constou nos mapas do Império Romano. Literalmente um vilarejo tão periférico que estava fora dos mapas.

A profissão de artesão, carpinteiro, só estava acima dos mendigos na escala social da Palestina nos dias de Jesus, lado a lado com os pescadores.

Um vila periférica na periferia do mundo. Uma profissão subalterna.

São os moradores dessa vila que desprezam Jesus - “apenas um carpinteiro”.

Esse homem, “apenas um carpinteiro”, é em quem “habita em corpo humano toda a plenitude de Deus” (Cl. 2. 9, NVT).

Preconceituosos, os conterrâneos de Jesus desprezaram o próprio Deus encarnado por seus preconceitos, seus esquemas de mundo, suas concepções teóricas e conceituais acerca da vida, que enquadravam o seu viver, não permitiam reconhecer nada relevante em um carpinteiro nazareno. “Quem ele pensa que é?”

Será que você já foi desprezado desta maneira? Já foi enquadrado e classificado assim? É ruim, não é?

Acho que nada pode apagar a dor e o constrangimento de ser vítima assim de preconceito, mas a experiência de Jesus pode nos ajudar a significar de uma maneira nova tal sofrimento.

Jesus de Nazaré, o Deus encarnado, Salvador do mundo, sofreu o mesmo que nós.

Quando nos sentirmos assim, quando fizerem o mesmo conosco, sabemos que o temos ao nosso lado. Ele nos conhece e à nossa dor. Seu cuidado, seu amor, seu carinho, nos ajudarão a entender: somos mais do que aquilo que o preconceito, que o enquadramento dos outros, dizem de nós. Somos mais do que a figura que pintaram da gente. Somos mais do que aquilo a que nos querem submeter.

Jesus é mais do que “apenas um carpinteiro” de Nazaré.

Somos mais que os rótulos dizem.

23.12.16

Primavera

Ele sopra sobre o inverno, e de repente é primavera!

Salmo 147. 18


Em geral, as avaliações sobre o ano que se encerra, 2016, não têm sido positivas. As redes sociais estão cheias de pessoas lamentando tudo o que se deu nesse ano e, desse modo, buscam renovar as esperanças sobre o ano que virá em breve.

Muitos de nós devem considerar que 2016 deve ter sido o pior ano de suas vidas, seja por crises pessoais, familiares, pela crise econômica, pela crise política, pelas guerras ou acidentes trágicos. Um ano infernal. Ou invernal.

O cenário descrito nesse trecho do Salmo 147 é de um rigoroso e sofrível inverno:


Ele espalha a neve como lã branca
e esparrama a geada como cinzas.
Ele espalha granizo como alpiste:
quem pode sobreviver ao seu inverno?
Então, ele dá uma ordem, e tudo derrete.

Salmo 147. 16-18



Faz lembrar, mais uma vez, os relatos de Viktor Frankl (“Em busca de sentido”). Frankl descreve o inverno no campo de Auschwitz. Os prisioneiros iam para os campos de trabalho pressionados por soldados,  com temperaturas de até 20 graus negativos, vestindo parcos agasalhos, com calçados velhos, amarrados com arames e que, na maior parte do tempo, não cambiam os pés inchados e feridos dos prisioneiros. Por vezes, a dor era insuportável, quando não forçava os internados a caminharem no gelo e na neve se pés descalços. Frankl descreve momentos de ver os pés feridos dos companheiros que chegavam, inclusive, a perderem dedos que simplesmente fragmentavam-se, congelados.

É esse o inferno. É esse o inverno.

Entre abril e maio de 1945, o sol brilhou: a frente de batalha chegou ao campo e os prisioneiros sobreviventes se viram livres.


Ele sopra sobre o inverno, e de repente é primavera!


Podemos estar vivendo debaixo do mais rigoroso inverno, com agasalhos insuficientes, pés feridos e descalços, poucas calorias para nos alimentar e ajudar a resistir. Podemos, no entanto, estar certos: Ele vai soprar, derreter a neve e o gelo e “de repente é primavera!”

O jardim florescerá novamente. As flores perfumarão mais uma vez. O sol brilhará de novo. Os animais correrão livres. Nós estaremos nas ruas experimentando toda a beleza, todo o aroma e toda a riqueza da primavera.

O céu não mais estará cinzento. Não mais estaremos presos. O inverno não dura para sempre, ainda que não consigamos enxergar, por vezes, nem a saída, nem o fim, nem cinco dedos a frente do nosso nariz.

Eu já experimentei isso: o inverno não é eterno, por mais tempo que pareça durar.

"O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa", uma das Crônicas de Nárnia, apresenta uma boa imagem desta situação. Nárnia está mergulhada em um inverno que as pessoas pensam ser eterno porque, aparentemente, Aslam deixou o Reino derrotado pela Feiticeira Branca.  

A estória é uma ilustração do evangelho de C.S. Lewis. 

Quando o Leão ruge, a neve derrete.


Ele sopra sobre o inverno, e de repente é primavera!

22.12.16

Diante da instabilidade

Levanto os olhos para os montes:
será que é de lá que vem a minha força?
Não, minha força vem do Eterno,
que fez o céu, a terra e as montanhas.

Salmo 121. 1-2


Apesar de nosso desejo de que a vida siga sem atropelos, uma das poucas coisas que podemos ter certeza é que a nossa caminhada nunca será tão estável quanto desejaríamos.

Erraremos e vacilaremos, as circunstâncias da vida nem sempre nos serão agradáveis e positivas, temeremos: vez por outra tudo isso ocorrerá. Teremos ciclos em que nos sentiremos virtuosos e teremos outros em que a dor nos visitará.

Cada um pode encontrar seu caminho para encarar tais momentos. Estou lendo a obra de Viktor Frankl, “Em busca de sentido”, e ele se preocupa em descrever como os prisioneiros dos campos de concentração nazistas eram capazes de resistir e encontrar sentido para as suas vidas. Apesar de representar um momento único e terrível na história humana, percebo que muitos dos processos assumidos pelos internados em Auschwitz podem nos ajudar em nossas pequenas e sensíveis dores diárias.

Quando tudo o mais é instável, qual o seu melhor caminho para encontrar estabilidade para enfrentar as circunstâncias e as dores?

O salmista assume uma postura única em busca da força e da estabilidade necessárias:

Levanto os olhos para os montes:
será que é de lá que vem a minha força?
Não, minha força vem do Eterno,
que fez o céu, a terra e as montanhas. 


Nada melhor que entregar a vida, as fraquezas, a instabilidade e toda dor nas mãos do Eterno. A eternidade é estável, firme, forte, constante.

Se há algo ou alguém em que podemos confiar para vivermos de maneira estável e segura esse alguém é o Eterno.

Se há algo em que podemos confiar é na segurança e força que nos vem do Eterno. Ele nos tomará em Suas mãos. Ele nos dirá Sua Palavra consoladora. Ele nos erguerá do ordinário e nos protegerá em Seu colo.

O salmista sente-se perdido. Olha em volta e não vê saída ou socorro. Está frágil, inseguro, sofrendo. De onde poderia vir o seu socorro?

O salmista entende a resposta: é o Eterno, vem do Eterno. Somente o Eterno poderia cuidar dele e protege-lo, nos melhores e nos piores momentos.

Você pode se ver no lugar do salmista - em seus melhores e em seus piores momentos. Perdido, saiba que o Eterno cuida de você. Achado, veja nEle a sua força para suportar a cada momento de sua vida.

Render-se a Ele é o melhor remédio para encarar a dor e a instabilidade da vida.

Canto, então, a canção:

“Senhor, temos tanta fome de ti, temos tanta sede de ti”
.


21.12.16

Pai Nosso

Nosso Pai do céu,
Revela-nos quem tu és.
Dá um jeito neste mundo.

Mateus 6. 9


Hoje eu acordei pela madrugada impressionado com um pesadelo que tivera. O pesadelo, de verdade, não me assustou porque eu tinha consciência de que estava dormindo, mas me impressionou a riqueza de detalhes da narrativa até o momento em que acordei.

O mal momento trazido por um sonho ruim mexe integralmente com o espírito com o qual a gente encara o dia que nasce. A vida é frágil, nem sempre temos controle e acesso a todos os aspectos que a envolvem e isso tem de nos ensinar a lidar com nossas ansiedades e nossas angústias.

O caminho de saída do fundo dos nossos poços pode refluir por uma ansiedade mal colocada ou mal resolvida, por uma situação angustiante sobre a qual não temos nenhum controle.

Também nos faz mal a percepção de que nos falte amor - porque o amor é o vínculo da perfeição e o melhor suporte possível para a nossa estabilidade na vida.

As vezes, é somente aquela dor que você sabe que ainda não curou que aparece de novo para lembrar sua fragilidade - seu espinho na carne.

Ou por vezes o que nos fragiliza é a consciência dos erros que cometemos, os pecados que fizemos e que ainda sofremos suas consequências.

Nem toda manhã é fácil.

Quando ela não é fácil, o que nos resta fazer?

Eu oro.

A oração pode nos ajudar com as nossas necessidades mais básicas - e nem estou falando sobre pedidos sendo respondidos, clamores alcançando a misericórdia divina.

Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, suas palavras foram simples. E aqui não quero nem destacar o Pai Nosso em sua inteireza:

Nosso Pai do céu,
Revela-nos quem tu és.
Dá um jeito neste mundo.


Amanheci o dia sofrendo por causa do amor? Deus é o nosso Pai! Podemos nos refrigerar no seu Amor Todo-Poderoso, Amor de Pai.

Não sei bem o que está acontecendo na vida porque há coisas que vão além do meu controle? “Revela-nos quem tu és”: podemos, em oração, conhecer em profundidade de intimidade quem é o Deus a quem servimos.

Um Pai que nos ama, um Deus que revela a Si a cada um de nós.

E como a ansiedade pode sobreviver diante de um Deus que pode dar “um jeito neste mundo”?

Quando o dia começa mal, quando a ansiedade dói, quando a incerteza corrói, quando o amor é uma ausência, derramar o coração diante de Deus em oração é o melhor caminho. Não porque Ele possa responder nossa oração e resolver as questões que nos afligem, mas por quem Ele é e porque podemos, em oração, conhecê-lo bem e melhor.

19.12.16

Ressuscitem para a nova vida

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!
Portanto, olhem por onde andam. Usem a cabeça. Aproveitem ao máximo cada oportunidade. Vivemos tempos difíceis!

Efésios 5. 14-16


Não importa qual a sua compreensão sobre salvação, vida cristã ou vida com Deus. Independente do que você pensa acerca dessas noções fundamentais para a vida do que conhece e segue a Jesus, o texto da carta de Paulo aos Efésios é mais claro que qualquer de nossas diferenças de compreensão teológica.

Em primeiro lugar, conhecer a Deus por meio de Jesus equivale a um despertar, a um ressuscitar.

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!

Talvez seja necessário a cada um de nós passar várias vezes na vida por esse despertar, por essa ressurreição para uma vida nova. Talvez tenhamos que começar novas vidas muitas vezes ao longo de nossa existência. Talvez tenhamos que tomar consciência por mais de uma vez de que precisamos acordar para novas realidades ou verdades novas que até aqui não tínhamos percebido.

Seguir Jesus é estar disponível para acordar, disposto a várias ressurreições na vida.

A primeira vez que ouvi o chamado a acordar e ressuscitar para uma vida nova foi há pouco mais de 20 anos. Tinha 17 anos, passava por uma crise espiritual - sofria internamente porque, mesmo sendo kardecista, me questionava sobre a existência de um mundo espiritual, inclusive sobre a existência de Deus.

Além disso, no meio do ano de 1996 um colega de escola de minha idade faleceu em um acidente de carro. A morte de meu amigo serviu tão somente para reforçar a minha crise e minhas dúvidas.

Confesso que ao começar o segundo semestre letivo de 1996, a leitura de “O mundo de Sofia” começou a pavimentar meu caminho de retorno à crença na existência de Deus, mas não era suficiente.

Lembro de ter estado em um acampamento no início de setembro e lembro nitidamente como me sentia feliz naqueles dias - mas como se a felicidade não me pertencesse e ficasse tão-somente no meu exterior. Não havia felicidade ou alegria em meu coração - era um sentimento estranho do qual queria me livrar.

Ao tomar a decisão de me tornar seguidor de Jesus, no dia 8 de setembro de 1996, o fiz porque compreendi de uma maneira nova o que significava Jesus e sua morte na cruz.

Acho que nunca me senti tão feliz quanto naquele dia e nas semanas que se seguiram! Acordei, ressuscitei para uma nova vida!

Certamente essa foi a primeira vez que experimentei tão coisa, mas não a última. Ao longo desses 20 anos, ouvi o mesmo chamado do Senhor muitas outras vezes - a mais recente há não mais que algumas semanas.

Esteja pronto para que o Senhor o desperte, o chame a ressuscitar para uma nova vida, não importa há quanto tempo você seja seu discípulo, não importam suas crenças sobre Ele, não importa o que você conheça e esteja feliz sobre sua vida. "E Cristo mostrará a luz para vocês!”

A segunda coisa que se destaca nesse questão é que “vivemos tempos difíceis!”.

É verdade que Deus nos chama à renovação de nossa vida em Jesus e Ele, por isso, nos piores momentos, nos mostrará a luz, mas é verdade também que os tempos são difíceis.

Provavelmente somente você sabe quão difíceis estão sendo os seus dias. Só você e Deus sabem quando o coração aperta angustiado. Só você e Deus conhecem as lágrimas que você tem derramado. Só você e Deus sabem as suas dificuldades em honrar seus compromissos.

Só Deus sabe o quão difíceis são os dias. Vale muito para enfrentarmos tais momentos saber que fomos chamados a uma vida nova iluminada por Cristo. Essa é uma vida que nos energiza, nos capacita, nos habilita à nova vida.

Por isso, em terceiro lugar, devemos estar atentos por onde andamos, termos atenção e usarmos a cabeça, aproveitando ao máximo cada oportunidade.

Portanto, olhem por onde andam. Usem a cabeça. Aproveitem ao máximo cada oportunidade. 

Por que deixamos as oportunidades mais ricas de nossa vida passarem sem que sequer tomemos consciência delas?

Lembro da minha sensação nos estádios da Copa das Confederações, em 2013, e na Copa do Mundo, em 2014. Estava ali experimentando um sonho de criança (ver um jogo do Brasil em uma Copa do Mundo no estádio!), ao lado de gente do mundo todo em uma rica experiência cultural e esportiva, e, por vezes, eu sentia que não estava ali, que aquilo não era comigo. Era como se eu optasse em assistir o jogo pelo telão do estádio em vez de olhar para o campo e ver os dribles de Neymar.

Eu não estava ali, realmente aproveitando as oportunidades, e aquilo me incomodava profundamente.

Só há um jeito de que possamos pesar bem nossas decisões e aproveitar bem as oportunidades, por mais difíceis que sejam nossos dias: ouvindo e atendendo o chamado do Senhor.

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!

Que uma vez mais e sempre que seja necessário, você ouça seu chamado e ressuscite sempre de novo para uma nova vida, desperto e iluminado por Jesus.