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8.2.17

Prova de fé

O mundo não era digno deles!
Hebreus 11. 38


O que prova a fé de alguém? Se fizéssemos essa pergunta às igrejas de nossos dias teríamos, certamente, respostas as mais diversas. Na enorme diversidade das igrejas dos nossos dias, encontraríamos pessoas que, firmadas em suas diferentes crenças, definiram provas diferentes da fé dos cristãos.
A programação televisa cristã, especialmente forte aos sábados pela manhã, dá prova disso. São igrejas de matizes e teologias distintas defendendo conceitos absolutamente diferentes uns dos outros do que seja a fé e de como ela se prova.
Estava pensando nisso hoje ao refletir sobre o conhecido texto de Hebreus 11. Aquela galeria de homens dos quais o mundo não era digno. Ao ler essa lista de pessoas que descobriram que a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver (Hb. 11. 1) e que, descobrindo essa fé, acharam a salvação, me perguntei que provas elas obtiveram de sua fé. E que resultados visíveis elas tiveram.
Comecei a me questionar isso porque, a julgar pelo que pregam alguns hoje em dia, a fé se traduz em resultados visíveis, sempre. É uma cura, uma libertação, a prosperidade material. A fé se manifesta quando eu deixo de ser o caso perdido que eu era e encontro uma saída. A fé, nessa teologia, precisa de prova.
Não precisamos olhar com atenção aprofundada o texto para descobrir que essas idéias não se sustentam. A fé diz respeito a saber da existência de coisas que não podem ser vistas ou tocadas. Fundamentalmente é isso. É viver como quem vê um Deus que é invisível, como quem vive uma salvação que é improvável, como quem experimenta uma qualidade de vida impossível.
Boa parte de nossa geração de cristãos busca sinais. Busca resultados. Busca uma prova de fé. Milagres acontecem em resposta a nossa fé, mas a fé não é uma chave automática para milagres. A vontade de Deus é. Sua Glória e Sua Majestade são. Os milagres acontecem para honrar a Deus e não a nossa fé.
E eles acontecem. É só olhar a primeira parte do capítulo 11 de Hebreus para ver isso com clareza. Ou olhar para a minha e a sua vida. Temos muitos milagres para partilhar. Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era correto e receberam o que Deus lhes havia prometido. Fecharam a boca de leões, apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes. Foram poderosos na guerra e venceram exércitos estrangeiros. Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram (Hb. 11. 32 – 35).
O equívoco está em acreditar que milagres são as únicas conseqüências possíveis para a fé. O mesmo texto aponta o equívoco. Enquanto alguns foram libertados e viram tremendos milagres, outros foram torturados até a morte; eles recusaram ser postos em liberdade a fim de ressuscitar para uma vida melhor. Alguns foram insultados e surrados; e outros, acorrentados e jogados na cadeia. Outros foram mortos a pedradas; outros serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles! (Hb. 11. 35 – 38). A história da igreja e do testemunho de Cristo nos diz que na maior parte das vezes a fidelidade ao Senhor teve como resultado, não o milagre e a libertação do crente, mas a tortura, o sofrimento, a perseguição e a morte.
Jesus venceu, não descendo da cruz, mas morrendo na cruz. Por isso, eu penso que é muito fácil para mim afirmar a minha fé quando eu estou com minhas dívidas pagas em dia ou quando eu passo em um concurso da Petrobras, ou quando recebo o milagre de uma cura e, por isso, agradeço, feliz, ao meu Deus. Mas sei que minha fé seria, de verdade, provada, se uma arma fosse posta em minha cabeça sob a ameaça de morte, caso não renegue a minha fé em Jesus. Ou quando eu fosse desafiado a crer, ainda que não tivesse um teto ou comida para comer. Enquanto estava no Rio vi uma fé dessas: um homem se preparava para dormir sob uma marquise da avenida Presidente Vargas, lendo sua Bíblia apoiado na luz de uma agência bancária. Essa é a verdadeira prova de fé, pela qual ainda não passei.

31.1.17

Onde está Deus?

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus
Salmo 14. 1


Não são raras as ocasiões em que as pessoas se questionam, ou nos questionam, perguntando: Onde está Deus? Nas grandes tragédias, como na Tsunami do ano passado [2004]; nos momentos de dor e morte, como em chacinas em que se mata, de graça, 30 pessoas no Rio de Janeiro. Momentos de mal e dor, pratos cheios para o desafios dos incrédulos.
O mundo, boa parte das vezes, parece provar que a fé em um Deus bondoso e de amor não é outra coisa senão uma grande mentira. Qualquer piedade, quando sentimento religioso, é visto como tolice. O problema do mal, o problema da dor, o dilema da morte, parecem atentar contra a realidade da presença do Deus vivo no nosso meio. Um Deus que é Senhor do universo e tem todas as coisas nas Suas mãos.
Dizem os que duvidam de Deus, diante grandes dores e tragédias, que se há um Deus, ou Ele não é Todo-Poderoso, e, por isso, não pode evitá-las, ou não é Bondoso e Amoroso, por isso, as deixa acontecer.
Se o nosso olhar for um olhar puramente humano, será impossível não darmos certa razão a essas críticas. Mas a nossa visão não parte de qualquer ponto humano. Devemos olhar a vida sob o prisma da Palavra de Deus. Sob esse prisma, não é tolo o que crê em um Deus Poderoso e Bom no universo. Antes, ao contrário, o tolo, o insensato, é aquele que diz no coração que não há Deus. Mas afirmar isso é reafirmar o aparente contra-senso: Deus é bom e poderoso e o mal continua reinando no mundo.
Isso me faz pensar em dois relatos que se contam sobre os dias no Campo de Concentração de Auschwitz, onde os nazistas mais mataram gente. Conta-se que um grupo de judeus assistia enquanto um oficial alemão espancava uma criança judia no campo de concentração. Após certo tempo, ele a matou com um tiro. Nesse momento, ouviu-se alguém perguntar: "Onde está Deus?" Ao que foi respondido: "Estava ali, com aquela criança".
Um outro relato é de um fato ocorrido alguns anos depois da Segunda Guerra. Em um debate entre alguns teólogos e filósofos famosos, um dos teólogos debatedores parafraseou uma fala de um poeta e disse que era possível orar depoisde Auschwitz porque se orava em Auschwitz.
Não acredito em respostas para a questão do mal. Não acredito que qualquer um tenha uma resposta, nem que precisamos tê-las. Não acho que a fé em Cristo nos dá todas as respostas. Não consigo entender nem jamais poderei entender isso. Mas sei de uma coisa: o Cristo a quem amo está sempre comigo, sempre conosco, mesmo no meio das maiores tragédias. Essa é a grande coisa do que Deus faz por nós. E é a grande certeza que podemos ter de que, ao contrário do que pensa o tolo, há um Deus.
O evangelho de João está repleto de promessas a esse respeito: Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês ... A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela... Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês (Jo. 14. 18; 23 e 15: 4). E, estando com Cristo, poderemos entender que mesmo que não saibamos o porquê do mal, podemos passar por ele, porque Ele está conosco: Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem.Eu venci o mundo (Jo. 16. 33). Enfim, tolo é o que não se lembra que, quando subiu ao céu, Jesus não prometeu o fim do mal no mundo, mas que estaria conosco por todos os dias, até o fim dos tempos (Mt. 28. 20).
Jesus nunca nos prometeu que nos livraria da tragédia, do mal e da dor. Não. O cristianismo não é a mensagem de uma boa vida por todo o tempo. Mas a mensagem da Cruz de Cristo ensina que Ele sempre estará conosco. Ele pode não impedir que enfrentemos a dor, mas com certeza Ele estará conosco quando passarmos por ela, enxugando a nossa lágrima e fazendo com que a dor e o sofrimento sejam mais fáceis de suportar. Porque, sim, há um Deus. Houve um Deus em Auschwitz. Há um Deus na baixada fluminense. Há um Deus no meio das vítimas da Tsunami.

17.1.17

Problemas

Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
(…)
Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 3. 3; 5. 10



Você já deve ter visto por aí inúmeros televangelistas, igrejas e religiões prometendo uma vida sem dor e sem sofrimento. Basta seguir determinado ritual, certas regras, realizar certo sacrifício e, pronto, a vida a partir dali será de tranquilidade.
Se não deu certo para você, o problema é seu. Algum pecado escondido, a falta de fé, não realizou o ritual corretamente - não importa: o culpado pelo seu sofrimento é você mesmo e mais ninguém.
A ideia de que realizar certas práticas seria suficiente para garantir uma bênção sem fim da Divindade e uma vida sem sofrimentos não é nova e, infelizmente, aparece em muitos contextos do Antigo Testamento - que são, aliás, a base do discurso religioso que explora tais ideias hoje em dia.
Claro que há textos, como o livro de Jó, em que não restam dúvidas de que o sofrimento, a dor, os problemas não derivam de nada que o fiel fez. São contingências da vida que atacam, inclusive, um homem dito como justo por Deus duas vezes no início de seu livro.
Para nós é mais fácil acreditar que há uma fórmula mágica de se enfrentar a dor e o sofrimento. Tantas orações, quantos sacrifícios, tais palavras mágicas e, por um milagre, a dor e o sofrimento se foi.
Para mim, o pior efeito da dor, do sofrimento e dos problemas é a sensação de transitoriedade que termina por fazer com que nada na vida seja encarado como real. Como sabemos que nenhuma dor, sofrimento ou problema dura para sempre, podemos ter a tendência de suspender a vida pelo tempo de sua duração. E aí deixamos de viver todos os momentos de verdade - somente como uma etapa, passageira e provisória, na direção do mundo sem dor.
A dor, o sofrimento e os problemas não são alienígenas de nossa existência e, ainda não durem para sempre, não justificam que vivamos a vida como provisória.


Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
1 Tessalonicenses 3. 3



São parte da vida. Não uma parte fácil, não uma parte que seja natural saber lidar. Nada disso. A dor é parte da vida, mas não é fácil. Às vezes, vai nos sugar toda energia. Às vezes, vai nos deixar perdidos, sem saber como agir. Os problemas podem, inclusive, nos submergir. O sofrimento pode levar você ao fundo do poço.
Eles fazem parte da vida e Paulo nos informa que devemos estar prontos para quando eles acontecerem para não sermos surpreendidos.
Mas como é possível lidar com cada um deles?
Não vejo como ser possível afirmar que há somente um jeito de lidar com o sofrimento, mas podemos lidar com a dor a partir do momento que entendemos que ela faz parte da vida - não é uma intrusa que qualquer ritual vá fazer desaparecer e, nem sempre, ela emerge por culpa nossa.
Mas a fé em Jesus oferece um ponto de apoio fundamental para lidarmos com a dor, o sofrimento e com qualquer problema que nos sufoque:


Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 5. 10



Em qualquer situação, estamos vivos com Ele. A vida dEle vive em nós. A eternidade dentro de nosso ser.
Por pior que seja a dor, por maior que seja o problema, por incontrolável que seja o sofrimento, Ele está conosco. Nossa vida está nEle. É nEle que vivemos.


Mesmo que a estrada atravesse
o vale da Morte,
Não vou sentir medo de nada,
porque caminhas do meu lado.
Teu cajado fiel
me transmite segurança.
Salmo 23. 4






12.1.17

A morte foi derrotada

Finalmente foi a Morte derrotada pela Vida!
1 Coríntios 15. 54


O francés Michel Henry diz que a verdade do cristianismo não é o túmulo vazio, ou a encarnação, ou a morte de Jesus. Henry diz que a verdade do cristianismo é que homens e mulheres acreditaram que Jesus, morto na cruz no conluio entre religiosos e romanos, ressuscitou e está vivo. Há uma sutil diferença, mas uma diferença que pode impactar tudo: o fundamental não é o túmulo vazio mas a experiência de que Jesus está vivo.

Eu posso encontrar o túmulo vazio, posso comprovar a ressurreição e posso nunca ter a experiência de que Jesus está vivo.

Crer que a verdade do cristianismo é o fato histórico da ressurreição pode nos conduzir a uma desenfreada busca por encontrar provas de que ela houve. A possibilidade dessa busca racional me afastar da experiência espiritual com o Jesus vivo é concreta.

Crer que a verdade do cristianismo é a fé de que Jesus está vivo pode mudar nossas vidas. Sou cristão porque creio que Ele está vivo.

Ter a experiência de que Jesus está vivo é vencer a morte no dia a dia. Porque, “finalmente foi a morte derrotada pela vida!”

Impossível para mim não comparar tais questões ao meu recente quadro de saúde.

Pela quarta vez em oito anos eu vivenciei um ciclo depressivo - dessa vez, o mais grave, não apenas pela reincidência como também pelo enorme tempo que eu levei para iniciar um tratamento de verdade.

Entre setembro e novembro de 2016 a situação ficou ainda mais grave e eu confesso ter perdido as contas das minhas tentativas de morrer. Entrei em tratamento médico apenas no fim de outubro.

Sem muito esforço, ao esticar meus dedos, eu era capaz de tocar a morte naqueles dias. Sentia a minha vida frágil, por um fio, e foi muito difícil não sucumbir. A única imagem que me vinha como comparação da fragilidade de minha vida naqueles dias eram os últimos dias de vida de minha avó, em 2015, quando a gente via sua vida se esvaindo, e um pequeno fio cada vez mais frágil segurando-a por aqui.

A morte era vívida. E doía muito.

Como se sai desse cenário de morte?

O caminho é múltiplo (tratamento médico, psicológico, amor, amizade), mas todos eles apontam para o fato de que, em Jesus, a morte foi derrotada pela vida!

Lembro de um domingo, em um dos meus piores momentos, em que cheguei em uma igreja e escrevi um pedido de oração: Cura. Após o culto, fomos a uma lanchonete e comecei a me incomodar enormemente com aquela situação: tudo parecia muito vivo e divertido, mas para mim estava absolutamente sem graça. Sai de lá amaldiçoando a doença e dizendo a um amigo que não aguentava mais estar doente e achar sem graça momentos tão bons como aquele.

A vida estava chamando.

Dali por diante, a vida, e não mais a morte, me envolveu com seus braços amorosos.

A experiência de Jesus vivo, vencedor da morte, voltou a fazer sentido para mim.

Naquela noite, na minha vida, a morte foi derrotada.



A vida anuncia
que renuncia à morte
(Perdoando o Adeus, O Teatro Mágico)



11.1.17

Confiem em mim

Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim
João 14. 1



Minha filha de 7 anos, ao mesmo tempo que tem um fascínio, tem muito medo de animais domésticos. Em algum momento de seus primeiros anos de vida aquela admiração que toda criança tem por bichos foi substituída por um pânico desmedido.

Algum tempo atrás, quando eu estava morando e trabalhando em Fortaleza, ela sofria deveras na casa da família que nos apoiava por causa dos gatos. Era preciso que os pobres bichanos estivessem sempre trancados atrás de portas para que minha filha pudesse ter o mínimo de deslocamento no apartamento.

Certa ocasião, estimulamos seu contato com os animais. Uma das gatas é cega. Minha filha ficou sentada, segura, em um colo. A gata, cega e segura, em outro. Só assim a gata conheceu uma manifestação de afeto por parte de minha filha - num ambiente extremamente controlado e protegido por nós, adultos em quem ela confia.

Isso foi possível porque ela se sentia segura - tão segura que não fazia sentido ter medo nenhum. Só então pode enfrentar a situação.

É disso que fala Jesus:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim


Jesus nos convida a sentarmos em seu colo, a nos deixarmos ser protegidos por Ele, deixarmos que Ele nos envolva em seus braços e controle toda a situação. Nessa situação, como uma criança guardada no colo de seu pai, por que ficaríamos aflitos com quaisquer circunstâncias que nos envolvam?

Se vivenciarmos as piores circunstâncias, se formos ameaçados pelas piores aflições, se enfrentarmos as piores dores, se formos atacados das piores formas, se o pior acontecer conosco, o colo do Senhor fará enorme diferença.

Enfrentar o mal sozinho pode gerar aflições sem medida.

Enfrentar o mal estando nos braços do Senhor será como minha filha acariciando a gata cega de nossos amigos - não há mais motivo de ter medo porque toda a circunstância está sob controle, não por nós, mas pelo Senhor. E Ele é forte suficientemente para nos proteger.

Um dos passos para termos mais calma e condições de enfrentar as inevitáveis aflições que a vida nos traz é entender que estamos envoltos e protegidos pelo Senhor.

Nem sempre vamos perceber isso. Nem sempre vamos ver sua mão e seu colo a nos proteger.

Mas parte do nosso caminho de fé é saber disso mais e mais:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim

10.1.17

Não imponha seu relacionamento

Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros. 
Romanos 14. 22


Quando eu me tornei evangélico, duas décadas atrás, eu me tornei ainda mais chato do que já era. Não apenas pelo desejo de converter cada amigo e pessoa da família, mas pela forma de atuação que adotei para que isso acontecesse: "encontrei a verdade, logo você está no erro e precisa entender isso de uma vez, se não vai terminar no inferno”.

Agindo assim, eu ofendi amigos e familiares por mais de uma vez, inclusive minha própria mãe. De todos os modos, tentava impor a quem não queria meu modo de ver as coisas e de crer em Deus.

Eu, infelizmente, não era o único. Aliás, todos nós talvez conheçamos pessoas que seguem agindo de tal modo - e não apenas no âmbito evangélico. Conheço gente de diferentes formas de credo que se esforçam ao máximo para impor aos outros suas particulares formas de crença.

É provável que eu mesmo ainda me comporte assim.

Aos Romanos, Paulo diz


Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros.


Se é fundamental cultivar o relacionamento com Deus, também o é não impor a ninguém tal relacionamento. Podemos não agir como nos dias inquisitoriais em que a conversão forçada era condição de sobrevivência, mas fazemos parecido quando impomos a fé: “se não, você vai para o inferno”.

Cultive o relacionamento com Deus. O caminho é simples, ainda que possa não ser fácil: oração diária, meditação na Palavra de Deus, louvor e vida comunitária.

Ore diariamente porque a oração muda seu coração e é a oportunidade de estar mais perto diante do Eterno.

Leia e medite nas Escrituras, crendo que por meio delas o Senhor pode falar com você e instruir seu caminho.

Louve ao Criador, agradeça Suas obras, Seu cuidado, Sua presença, Sua santidade.

Mergulhe na vida com outros irmãos porque um amigo afia outro amigo (Pv. 27. 17)

Nenhum desses passos é fácil de dar, mas ninguém é capaz de cultivar relacionamento ou conhecer alguém sem gastar tempo com essa pessoa, até mesmo quando essa pessoa é o Eterno.

O que as Escrituras apontam é que esse relacionamento se estrutura no amor, vem do amor e conduz a mais amor. Por isso mesmo, não o imponham aos outros.

Aos Coríntios, Paulo deixa claro que o amor não combina com nenhum egoísmo - o que também significa que o amor nos conduz a nos preocuparmos primeiro com os outros.


O amor se preocupa mais com os outros que consigo mesmo.
1 Coríntios 13. 5



Quem se preocupa primeiro com os outros não pode pensar em impor nenhum tipo de padrão de pensamento ou comportamento individual a eles. Respeita-os e deixa-os livres, porque o amor é liberdade. “Ponham o interesse próprio de lado”, diz Paulo aos Filipenses (Fp. 2. 4).

Quando queremos impor nosso padrão de relacionamento com Deus aos demais provamos que fazemos isso por interesse próprio, egoísmo, porque nos consideramos a nós mesmos como superiores aos demais, nosso modo como correto, e convencer os outros é reforçar nossa posição egoísta.

O convite das Escrituras é simples: cultive o relacionamento com o Eterno e ame o próximo como a si mesmo. Quem ama não impõe, mas respeita a liberdade. Quem ama permite que o outro seja livre, tome suas decisões, faça suas escolhas. E quem ama importa-se com o real desejo do outro mais do que com sua própria vontade.

Cultive seu relacionamento com Deus e ame.

Deixe que ele cuida do resto.

9.1.17

Sem desistir

Não havia esperança, mas Abraão creu.
Romanos 4. 18



Harrison Odjegba Okene é nigeriano. Em 2013 ele foi o único sobrevivente do naufrágio da embarcação Jascon 4. Onze pessoas morreram.

Okene foi encontrado vivo 60 horas depois do naufrágio, tendo sobrevivido graças a um bolsão de ar em que ficou submerso.

Cozinheiro do barco, Okene orava: “Oh, Deus, pelo teu nome salva-me… sustenta a minha vida”.

Sua situação era, verdadeiramente, sem esperança.

A poesia do texto paulino, que vem de Abraão, que aponta para Okene e que nos estimula a cada um de nós, é que diante de situações sem esperança, ainda podemos crer na salvação de Deus. Como Abraão, Okene creu e soube prosseguir esperando e esperançando a libertação e a liberdade.

Duvido que você já não tenha estado neste lugar em que olha para todos os lados e não vê nenhuma saída, nenhuma possibilidade, que não se lhes apresente nenhuma esperança de salvação.

Será que você já se viu em um lugar tão apertado e sufocante quanto o que manteve Okene vivo por 60 horas? Você já sentiu que não poderia resistir mais e que, mesmo estando vivo até ali, mais cedo ou mais tarde aquele lugar seria sua tumba - ali você cairia morto?

Você já olhou para um cenário em que não havia nenhuma razão para continuar crendo, nenhuma esperança, que tudo apontava para a sua desistência?


Não havia esperança, mas Abraão creu.


Talvez seja esse o mais difícil dos exercícios de fé: crer contra todas as circunstâncias, crer mesmo que nada lhe dê motivo para acreditar, crer quando o cenário, as pessoas, o entorno dizem que isso é insensato, impossível, inviável.

Não cremos, nessas circunstâncias, porque nossa fé é uma crença imatura que funciona como pensamento positivo virando uma chave do universo para que o impossível aconteça.

Cremos, nessas circunstâncias, porque o único jeito de suportar a impossibilidade, a inevitabilidade, o fim certo é com fé. Cremos porque a fé é o que pode nos dar energia e força para lidar com tamanha dor. Cremos porque é a fé que nos liga à intimidade com Deus.

Não cremos porque estamos certos de que sempre seremos milagrosamente libertados, mas porque, como disseram os amigos de Daniel ao rei,


Sua ameaça não nos assusta. Se nos jogar na fornalha, o Deus a quem servimos pode nos salvar não só da fornalha como de qualquer outra coisa. E, mesmo que ele não o faça, não importa, ó rei. Ainda assim, não vamos servir aos seus deuses nem adorar a estátua de ouro que mandou erguer (Daniel 3. 16-18).


Mas por crermos, não desistimos. E, ao desistir, podemos ser surpreendidos porque as coisas não acabaram.

Já imaginou se Okene houvesse desistido na 59o hora de espera?

Quantos de nós já fomos alcançados por algo inesperado porque continuamos a crer?

E você imaginou o que teria perdido se tivesse desistido?

 

6.1.17

O sofrimento que acompanhará a tarefa

Mas o Senhor disse: “Não discuta! Eu o escolhi como meu representante pessoal entre judeus, outros povos e reis e agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa”.

Atos 9.15-16



Ainda que queiramos negar, o sofrimento faz parte da vida. Claro que isso não é bom nem é agradável, mas nenhum de nós pode passar incólume. As coisas quase nunca estão sob controle e fatalidades são parte de nosso dia a dia.

Lembro que em março de 2015 eu estava numa reunião de orientação com um aluno em uma livraria de Fortaleza quando o telefone tocou para me informar que minha filha sofrera uma queda na escola e tivera uma grave fratura no braço direito. Eu praticamente tive que largar tudo para voar para Natal a fim de acompanhá-la.

Fatalidades ocorrem em todos os níveis. Podemos procurar nos preparar para o sofrimento e a dor mas cada um de nós já aprendeu que seremos sempre surpreendidos, como o foi, por exemplo, o justo Jó.

O problema, no entanto, não é a dor e o sofrimento. O problema é toda uma sorte de receitas que estão disponíveis no mercado para convencer-nos que é possível fugir da dor e do sofrimento.

Essas receitas se encontram, especialmente, no mundo religioso e, infelizmente, também no ambiente cristão.

Há muito evangelho sendo pregado por aí que oferece a cura de toda dor e sofrimento, a fuga do que disfuncional, Há muita igreja na qual se chega e a promessa é de uma vida plenamente feliz o tempo todo, sem que nada possa dar errado. E se algo não funciona, a culpa é do fiel que pecou ou a quem foi faltou fé - ampliando o próprio sofrimento.

Dia desses um amigo me chamou atenção para esse trecho de Atos, no qual o Senhor conversa sobre Paulo récem-convertido com Ananias:


agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa.


A primeira promessa a Paulo não é aquela de uma vida tranquila. A primeira promessa a Paulo é que ele sofrerá. Experimentando a salvação, servindo a Deus com o seu ministério, anunciando o evangelho de Jesus: a tudo isso lhe acompanhará sofrimento.

Viktor Frankl diz que no sofrimento é nosso papel dar sentido a ele. Só assim poderemos sobreviver a ele. Isso não significa que vamos buscar o sofrimento de iniciativa própria ou que, podendo evitá-lo, não o faremos.

Ter certeza de que na vida sofreremos não pode significar nenhuma postura masoquista de busca desenfreada do sofrer, nem pode significar a negligência com o evitar a dor desnecessária.

Só precisamos saber: sofrer é parte da vida, mas não é o fim da vida.

Que não nos surpreendamos quando a vida doer e que saibamos que é justamente nessas horas que Jesus vai nos carregar no colo.

30.12.16

Vida e morte

Ele não está mais aqui

Mateus 28. 6



Quando Paulo, no relato do livro de Atos, chega à Atenas, se impressiona com a intensa religiosidade da cidade, repleta de altares para deuses diversos, inclusive um deus desconhecido, do qual o apóstolo se aproveita para anunciar Jesus.

De modo semelhante, quando chegamos a uma cidade como Salvador e suas centenas de igrejas históricas ficamos impressionados e sensibilizados. Em Salvador, a forte presença visual das religiões de matriz africana também deixam sua marca indelével em nossas almas.

O ser humano é religioso. Ele sente a necessidade de transcender a si e aos seus próprios limites.

Diante do limite extremo que é a morte, o ser humano precisa encontrar uma resposta que lhe possibilite seguir vivendo.

Diante de limites proporcionados pelo sofrimento, buscamos sentido e significado.

Quando sentimos as maiores dores, queremos saídas.

As saídas buscadas e encontradas podem não ser religiosas e, assim mesmo, darem conta das nossas necessidades. Ainda que sejam saídas espirituais - no sentido de transcender os limites, não na crença em Deus ou deuses -, podem ser saídas que abdiquem do metafísico, do que vai além do histórico e material.

As saídas, em geral, no entanto, são religiosas.

Lembro do dia que conheci um senhor que enfrenta um violento câncer e, no meio da dor, tem buscado seu alívio em um centro espírita, ao mesmo tempo que ouve a pregação de um padre no rádio e visita uma missa de cura em uma igreja de Natal. Ao falar sobre minha igreja, interessou-se em conhecer um de nossos cultos.

O fenômeno religioso é ancestral. Ele começou em tempos pré-históricos e foi adquirindo características e tecnologias cada vez mais complexas ao longo dos milênios. Para termos a religião como a temos no século XXI muita coisa evoluiu por toda a parte.

No entanto, nem toda religião responde às questões mais fundamentais da vida humana. Aliás, nem toda religião responde com vida às nossas demandas e, penso, essa é uma questão muito mais pessoal do que ligada a qualquer sistema de fé em que tenhamos nos enredado. É uma escolha nossa optar pela vida ou pela morte até em termos de fé.

Muitos religiosos fazem opção pela morte, mesmo entre os cristãos. Ou, antes, principalmente entre os cristãos. Só encontram um Jesus morto na cruz ou vão atrás de seu corpo no sepulcro. Só pensam naquilo que acham que lhes acontecerá depois de sua morte. Alienam-se da vida em busca de um Deus que não vive ou não tem o que lhes dizer acerca da vida. Gastam seu tempo pensando em tudo, menos vivendo. Vivem além da vida.

As mulheres foram no domingo de Páscoa ao sepulcro em busca de um Jesus morto, em uma fé morta, um Deus que não estava mais na vida.

O anjo lhes diz: “Ele não está mais aqui”. Ele não está morto.

Não encontramos Jesus em uma religião que diga muito sobre a morte. Não o encontramos em um sepulcro. Não vivenciamos uma fé viva na perspectiva de um Deus morto, de um Jesus enterrado.

“Ele não está mais aqui”.

A fé deve nos convidar à vida, nos conduzir a ela, nos fazer experimentar e mergulhar cada vez mais na vida. Jesus não está no sepulcro. Ele está vivo.

A nossa opção de fé pode ser pela vida. Pode ser para vivermos. Pode ser para que nossa intensidade se derrame em mais e mais vida e compromisso com o viver.

Porque, diante do sepulcro e da morte, podemos dizer de Jesus: “Ele não está mais aqui”.

Que Ele esteja em nossas vidas.

29.12.16

Poder

Quando desceram a montanha para se reunir aos outros discípulos, viram-se rodeados por uma multidão imensa, que debatia com os líderes religiosos. Assim que viu Jesus, o povo ficou animado. Correram para ele e o saudaram. Ele perguntou: “O que está acontecendo? Por que toda esta agitação?”.
Um homem da multidão respondeu: “Mestre, eu trouxe meu filho, que foi deixado mudo por um demônio. Toda vez que o demônio se apossa dele, joga-o ao chão. O menino baba, range os dentes e fica rígido como uma tábua. Falei com teus discípulos, esperando que o libertassem, mas não puderam”.
Jesus suspirou, inconformado: “Mas que geração! Vocês não conhecem Deus! Até quando vou ter de aguentar esse tipo de coisa? Quantas vezes ainda vou ter de passar por isso? Tragam o menino aqui!”. Eles o trouxeram. Quando o demônio viu Jesus, apossou-se do menino, que ficou babando e se contorcendo no chão.
Jesus perguntou ao pai do menino: “Há quanto tempo isso acontece?”.
“Desde que era pequeno. Muitas vezes o demônio o joga no fogo ou no rio para matá-lo. Se o senhor puder fazer alguma coisa, tenha misericórdia e nos ajude!”.
Jesus disse: “ ‘Se eu puder’? Tudo é possível para quem tem fé”.
Assim que Jesus disse essas palavras, o pai do menino exclamou: “Eu creio, mas me ajude a vencer as minhas dúvidas!”.
Percebendo que a plateia ficava cada vez maior, Jesus deu ordens expressas ao espírito maligno: “Espírito mudo e surdo, eu ordeno: sai dele e não volte!”. Com muito estardalhaço, o espírito saiu. O menino estava pálido como um defunto, de modo que as pessoas começaram a dizer: “Ele está morto”. Mas, tomando-o pela mão, Jesus o levantou. O menino ficou em pé.

Marcos 9. 14-27


Pensei sobre esse texto hoje.

Jesus desce do monte da transfiguração e se depara com uma confusão: um pai levou seu filho epiléptico para ser curado pelos discípulos, que não tiveram sucesso.

Independente do relato, Marcos constrói uma relação óbvia que é um desafio para nós. Ele estabelece dois pares paralelos que apontam direto para nós, no século XXI:


Poder ---------------------- Impotência

Fé --------------------------- Incredulidade


No texto é evidente: quem tem fé, pode. Quem não tem, não pode.

Se o senhor puder fazer alguma coisa, tenha misericórdia e nos ajude!”.

Jesus disse: “ ‘Se eu puder’? Tudo é possível para quem tem fé”.

Por isso, diz o pai: “Eu creio, mas me ajude a vencer as minhas dúvidas!”.

O que é mais desafiador nesse texto, a meu ver? A quem você acha que Jesus dirige essas palavras: “Mas que geração! Vocês não conhecem Deus! Até quando vou ter de aguentar esse tipo de coisa? Quantas vezes ainda vou ter de passar por isso?”?

Quem não pode fazer nada em favor do menino doente? Quem foi impotente por ser incrédulo?

Não foi a multidão: foram os discípulos.

É dos discípulos que Jesus está falando.

É de mim e de você.

Quantos deixamos de ajudar porque não cremos e, sem crer, não podemos?

Alguns domingos atrás, eu fui a Igreja e, pela primeira vez, escrevi um pedido de oração com duas questões - uma delas, a cura da depressão. Quem me conhece de perto sabe o que eu penso sobre pedidos de oração assim.

No entanto, eu cri: algo ia acontecer com o meu pedido.

Quando sai da igreja naquela noite e fui lanchar com uma turma de amigos, não senti nenhum prazer naquilo - o que me incomodou profundamente.

“Não aguento mais essa doença. Quero ficar bom”, disse.

Escrever o pedido de oração foi o primeiro passo - de lá para cá, tudo só fica mais claro, leve, luminoso. Em paz.

Por isso, faça como o pai, em resposta a Jesus:

“Eu creio, mas me ajude a vencer as minhas dúvidas!”.

19.12.16

Ressuscitem para a nova vida

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!
Portanto, olhem por onde andam. Usem a cabeça. Aproveitem ao máximo cada oportunidade. Vivemos tempos difíceis!

Efésios 5. 14-16


Não importa qual a sua compreensão sobre salvação, vida cristã ou vida com Deus. Independente do que você pensa acerca dessas noções fundamentais para a vida do que conhece e segue a Jesus, o texto da carta de Paulo aos Efésios é mais claro que qualquer de nossas diferenças de compreensão teológica.

Em primeiro lugar, conhecer a Deus por meio de Jesus equivale a um despertar, a um ressuscitar.

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!

Talvez seja necessário a cada um de nós passar várias vezes na vida por esse despertar, por essa ressurreição para uma vida nova. Talvez tenhamos que começar novas vidas muitas vezes ao longo de nossa existência. Talvez tenhamos que tomar consciência por mais de uma vez de que precisamos acordar para novas realidades ou verdades novas que até aqui não tínhamos percebido.

Seguir Jesus é estar disponível para acordar, disposto a várias ressurreições na vida.

A primeira vez que ouvi o chamado a acordar e ressuscitar para uma vida nova foi há pouco mais de 20 anos. Tinha 17 anos, passava por uma crise espiritual - sofria internamente porque, mesmo sendo kardecista, me questionava sobre a existência de um mundo espiritual, inclusive sobre a existência de Deus.

Além disso, no meio do ano de 1996 um colega de escola de minha idade faleceu em um acidente de carro. A morte de meu amigo serviu tão somente para reforçar a minha crise e minhas dúvidas.

Confesso que ao começar o segundo semestre letivo de 1996, a leitura de “O mundo de Sofia” começou a pavimentar meu caminho de retorno à crença na existência de Deus, mas não era suficiente.

Lembro de ter estado em um acampamento no início de setembro e lembro nitidamente como me sentia feliz naqueles dias - mas como se a felicidade não me pertencesse e ficasse tão-somente no meu exterior. Não havia felicidade ou alegria em meu coração - era um sentimento estranho do qual queria me livrar.

Ao tomar a decisão de me tornar seguidor de Jesus, no dia 8 de setembro de 1996, o fiz porque compreendi de uma maneira nova o que significava Jesus e sua morte na cruz.

Acho que nunca me senti tão feliz quanto naquele dia e nas semanas que se seguiram! Acordei, ressuscitei para uma nova vida!

Certamente essa foi a primeira vez que experimentei tão coisa, mas não a última. Ao longo desses 20 anos, ouvi o mesmo chamado do Senhor muitas outras vezes - a mais recente há não mais que algumas semanas.

Esteja pronto para que o Senhor o desperte, o chame a ressuscitar para uma nova vida, não importa há quanto tempo você seja seu discípulo, não importam suas crenças sobre Ele, não importa o que você conheça e esteja feliz sobre sua vida. "E Cristo mostrará a luz para vocês!”

A segunda coisa que se destaca nesse questão é que “vivemos tempos difíceis!”.

É verdade que Deus nos chama à renovação de nossa vida em Jesus e Ele, por isso, nos piores momentos, nos mostrará a luz, mas é verdade também que os tempos são difíceis.

Provavelmente somente você sabe quão difíceis estão sendo os seus dias. Só você e Deus sabem quando o coração aperta angustiado. Só você e Deus conhecem as lágrimas que você tem derramado. Só você e Deus sabem as suas dificuldades em honrar seus compromissos.

Só Deus sabe o quão difíceis são os dias. Vale muito para enfrentarmos tais momentos saber que fomos chamados a uma vida nova iluminada por Cristo. Essa é uma vida que nos energiza, nos capacita, nos habilita à nova vida.

Por isso, em terceiro lugar, devemos estar atentos por onde andamos, termos atenção e usarmos a cabeça, aproveitando ao máximo cada oportunidade.

Portanto, olhem por onde andam. Usem a cabeça. Aproveitem ao máximo cada oportunidade. 

Por que deixamos as oportunidades mais ricas de nossa vida passarem sem que sequer tomemos consciência delas?

Lembro da minha sensação nos estádios da Copa das Confederações, em 2013, e na Copa do Mundo, em 2014. Estava ali experimentando um sonho de criança (ver um jogo do Brasil em uma Copa do Mundo no estádio!), ao lado de gente do mundo todo em uma rica experiência cultural e esportiva, e, por vezes, eu sentia que não estava ali, que aquilo não era comigo. Era como se eu optasse em assistir o jogo pelo telão do estádio em vez de olhar para o campo e ver os dribles de Neymar.

Eu não estava ali, realmente aproveitando as oportunidades, e aquilo me incomodava profundamente.

Só há um jeito de que possamos pesar bem nossas decisões e aproveitar bem as oportunidades, por mais difíceis que sejam nossos dias: ouvindo e atendendo o chamado do Senhor.

Acordem!
Ressuscitem para a nova vida,
E Cristo mostrará a luz para vocês!

Que uma vez mais e sempre que seja necessário, você ouça seu chamado e ressuscite sempre de novo para uma nova vida, desperto e iluminado por Jesus.

13.12.16

Festa

Fazer algo para ti, levar algo para ti:
não é isso que procurar.
Ser religioso, agir com devoção: 
não é o que estás pedindo.
Então, abriste meus ouvidos
para que eu pudesse ouvir.
E logo respondi: “Estou indo.
Eu li na carta o que escreveste sobre mim.
E estou indo para a festa
que estás preparando para mim”.
Quando a Palavra de Deus entrou na minha vida,
ela se tornou parte do meu ser.

Sl 40. 6-8

Quando eu me converti, duas décadas atrás, queimei livros, discos e roupas que, aparentemente, tinham compromisso com as trevas em vez de com Deus.

Nessa leva foram embora obras-primas da música brasileira e da música pop.

Fiz isso porque acreditava que ser cristão era o mesmo que adotar tais práticas que estavam mais ou menos na moda. Afastar-se do mundo era o mesmo que abandonar a vida secular.

Lembro também do dia em que, pela primeira vez, bati palmas para acompanhar uma canção no louvor da igreja: os olhares recriminadores eram penetrantes e havia uma determinação de que não se podia usar as palmas nos cultos.

Naquela época, também, se faziam votos para conquistar as coisas com Deus. Minha tia fez um voto de sete semanas para que eu me convertesse, as pessoas jejuavam para conseguir as coisas com o Senhor, a quantidade de horas em oração determinava o sucesso de uma empreitada, quem não conseguia dizimar era vítima do demônio devorador.

Paulo diria que éramos todos vítimas de fábulas.

O Salmo 40 nos diz, no versículo 6, duas coisas incríveis sobre o Senhor para quem pensa em sua espiritualidade nos termos que referi acima: Deus não quer sacrifícios e ofertas nem espera de nós que sejamos religiosos. Estar com o Senhor é algo muito maior e muito mais sublime que uma espiritualidade religiosa ou uma prática de cultos e sacrifícios diários.

Deus é mais que religião e culto.

Na versão da Mensagem, a proposta é clara: em vez de religião e sacrifício, festa e celebração. Em vez de algo feito por mim mesmo, um momento sem igual preparado pelo próprio Deus.

Estar com o Senhor não é viver uma vida religiosa ou litúrgica. É andar em festa ao lado do próprio Deus, numa festa preparada por ele.

É celebração não sacrifício.

É a festa do pai do filho pródigo, que o vê se aproximando ainda à distância, não dá ouvidos às suas palavras de arrependimento e prepara uma festa para comemorar o seu retornar: “Vamos festejar! Vamos nos divertir!” (Lc. 15. 11-32).

Tal festa é possível para o fiel porque ele foi capaz de compreender o que realmente importa. E o que realmente importa resulta de seu prazer em guardar a lei no coração e conhecer sua vontade, ou, como diz a Mensagem, da percepção de que “quando a Palavra de Deus entrou na minha vida, ela se tornou parte do meu ser.”

A raiz da festa é mergulhar no Inefável e permitir-se ser tomado por sua revelação, sentindo o prazer de estar diante dele em sua vida.

Só assim a espiritualidade poderá ser liberdade, prazer, festa e celebração. Só assim não estaremos presos em uma religiosidade que destrói a beleza da vida.

9.6.15

Cruzes

A Cruz era a execução de um sujeito subversivo que se levantou contra o poder de Roma, afirmando-se Messias, e contra o poder do Templo, assumindo o amor e a comunhão com os excluídos (prostitutas, publicanos, pecadores). A cruz aponta um Deus que se fez um de nós encarnando-se no mais excluído dos seres humanos, denunciando a opressão, a violência, a morte e o poder - fosse da religião, fosse das estruturas estatais. 
A Cruz fez do Deus cristão o mais abjeto dos seres.
Por isso, a Cruz foi bem representada na crucificação da transexual.
Qualquer um que fale diferente não entendeu o evangelho do reino de Deus anunciado por Jesus. 
Mas, curiosa confirmação das palavras, são os religiosos opressores e repressores que mais se sentiram atingidos. Porque na analogia da cena bíblica, esses são os que gritam "crucifica-o"!

Conversões

A gente passa por algumas conversões na vida, que podem mexer um tanto mais ou um tanto menos conosco.
Uma radical se deu em 1996 comigo quando deixei de crer como um espírita e encontrei sentido em uma versão do evangelho de Jesus que ouvi, naquela ocasião, na Igreja Presbiteriana Independente.
Já disse aqui: hoje olho a forma como eu cri naqueles primeiros anos e me apiedo de tanta repressão, opressão, tradicionalismo. Nem acompanhar uma canção com palmas me era possível - imagine as coisas que hoje eu creio.
Outros momentos de conversão se deram: vim, pela primeira vez, para Fortaleza fazer seminário em 2001. Antes disso, estive alguns meses à frente da congregação da IPI em Pajuçara. Experiências de conversão.
Elas foram se tornando mais aprofundadas com o passar do tempo.
Em 2011, comecei uma paquera teológica com Ricardo Gondim e a Igreja Betesda. O processo se acentuou entre 2013 e 2014. Eu me reencontrei nesta comunidade de fé. Aqui em Fortaleza tenho tido ricas experiências andando com esse povo que pensa uma fé contemporânea de maneira adulta e em busca da maturidade e autonomia.
Estava lembrando isso por um fato que contava a um amigo no sábado. Em 1996, ao dizer que "queria receber Jesus como Salvador", optei por uma religião da qual desconhecia a teologia, formulações, crenças básicas. Fui doutrinado e até pensava, de vez em quando, que cria como um presbiteriano porque havia me convertido em uma igreja presbiteriana - como se me fosse possível crer de maneira diferente da que cria então.
Caminhei muitos anos até me reencontrar na comunidade onde estou hoje. Dessa vez, foi tudo absolutamente diferente: quase duas décadas de vida eclesiástica, muita leitura teológica, experiências em eventos de reflexão, mestrado, doutorado, seis anos de estudos de teologia. A minha escolha não foi afetivo-emocional. A minha escolha foi teológica: assumi a comunidade Betesda como a minha comunidade porque encontrei ali uma forma de viver e pensar a fé cristã de maneira que me pareceu relevante, significativa e extremamente valiosa.
Não foi um adolescente que encontrou a fé na vida da igreja: foi um adulto, homem, maduro. Tanto que primeiro essa foi a minha experiência. Mas veio a ser também a experiência de Kênia. Não cabemos em outro espaço. A fé em Cristo que compartilhamos, compartilhamos na forma, na crença, nas propostas, nos sonhos, nos planos, nas proposições da Betesda.
Não chegamos aqui como neófitos: chegamos aqui como buscadores de uma fé madura que julgamos ter encontrado entre as irmãs e os irmãos dessa comunidade.
(Se cria no passado na relevância de uma mensagem evangelística e na conversão pessoal através da confissão de Jesus, hoje creio no evangelho do Reino nos impulsionando à vida, vida verdadeira, intensa, desalienada, comprometida. Desse modo, compreendam, falo de ter recebido Jesus como Salvador apenas para ressaltar o modo como cria naqueles dias. Jesus é o Salvador independentemente se eu confesso isso ou não. Aliás, o confessar não significa nada no que se refere à minha vida e ao sentido do evangelho nela. Mas isso é outra conversa).

4.6.15

A vontade de Deus é amar

Como vejo a vontade de Deus hoje?
Para mim, uma possível analogia seria o impulso de uma energia empurrando o mundo na direção da vida. 
Desse modo, não determina, mas é um vetor que impulsiona mais vida no mundo. Você pode resistir, pode lutar contra, pode decepcionar.
Nesse sentido, é uma intenção, um projeto, um plano de vida para cuja realização depende de nossa ação. Somos livres para participar ou não porque o amor só é amor se os amados e o Amante são livres - se o amado puder frustrar o Amante, se o Amante estiver disponível para ser afetado pelos amados, se assim o Amante puder ver seus planos de amor serem frustrados pelos amados.
Mas há esse impulso pela vida. Como que gravado no código de programação do Universo e da Vida. Como meu genótipo que é capaz de definir elementos essenciais de minha vida, saúde, mente, ideias, mas que não é definidora absoluta de minhas escolhas e de quem eu sou. O que sou não é definido pela programação dos meus gens, ainda que eles sejam essenciais nisso. Sou condenado à liberdade de escolher e esse elemento é o que melhor me define como um sujeito que intenta ser livre e autônomo. 
De igual modo, há uma energia que faz a existência ser cada vez mais complexa. A vida inteligente existia potencialmente na singularidade de onde explodiu o Big Bang. Nossa existência inteligente só é possível porque existia potencialmente ainda antes mesmo da existência do cosmos.
Parece que a vida - e a vida inteligente, a consciência, é o intuito do vetor que conduz o universo até o seu fim.  Um vetor que orienta mas que não submete - o acaso explode, um feixe de raios Gama decorrente de uma explosão estelar pode vaporizar nosso mundo ou outros mundos pondo fim a um processo evolutivo que faria brotar vida e civilização ou destruir toda uma civilização como a nossa. E isso não porque fosse vontade de Deus, mas porque o acaso e o infortúnio são possibilidades na história desse cosmos.
Um cosmos que é caótico, mas que se reorganiza. Um cosmos onde consciências se dirigem umas a outras e que fazem brotar o amor. O Amante nos amou para que pudéssemos aprender a amar - ainda que tudo isso não seja mais que linguagem antropomórfica. 
Um dos filmes mais tocantes que vi recentemente foi "Interestelar". E ali há uma proposta: a energia mais poderosa do universo, aquela que é capaz de transpor as barreiras do espaço-tempo, é o amor. 
A vontade de Deus é o Amor.

22.5.15

Uma nova fé

"Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade, como forma de conter a rebelião, dar fim ao pecado, arrancar o crime pela raiz, estabelecer justiça para sempre, cumprir a profecia e ungir o Lugar Santíssimo" (Daniel 9. 24)

As Escrituras estão cheias de narrativas sobre um tempo desértico na vida os fiéis. Quarenta anos de um povo liberto pelo deserto a caminho da terra prometida até que toda uma geração teimosa morra, 20 anos na vida de um Jacó até que ele retorne para casa mudado em Israel, 40 dias de jejum e tentação para Jesus antes do ministério, Paulo sozinho no deserto da Arábia antes de se voltar para a igreja.
A ideia de um tempo de comprometimento a fim de experimentar um processo de, poderíamos dizer, conversão, é cara nas Escrituras. 
O texto de Daniel tenta reinterpretar a profecias de Jeremias acerca dos 70 anos de exílio babilônico que preconizou.
No fundo o que está em questão é a necessidade de um tempo de descida ao [fundo do] poço a fim de matar um determinado deus e religiosidade a fim de nos encontrarmos com uma nova espiritualidade que nos apresente um Deus mais vivo, relevante e misterioso para o nosso tempo.
Penso ter sido essa experiência de morte de deuses e espiritualidades datadas, comunitária e individualmente, que está por trás desses tantos relatos sobre tempos de deserto nas Escrituras. O tempo da dúvida, da crise, do poço parece ser uma constante na vida do povo e do fiel. Mais que isso: parece ser fundamental. A reinvenção de uma fé mais livre e relevante passa pela experiência de matar quaisquer formatos anteriores, quaisquer concepções de divindidade e religiosidade que não nos digam mais respeito. Antes de uma fé mais honesta precisamos da morte de uma fé que já não responde mais às angústias do tempo presente. 
Esse é o deserto.
Há quase três anos vivo dividido entre Fortaleza, onde trabalho, e Natal, onde mora minha família. Mesmo antes disso comecei a descida, mas ela foi ainda mais radical até me parecer ter tocado o fundo do poço depois de ter vindo a Fortaleza.
A caminhada de volta, em uma nova fé, começou a partir daí. O meu deus morreu bem morto e uma nova fé começou a emergir, aqui e em contato com os irmãos que me hospedaram e com a igreja que me abrigou. 
Agora que a possibilidade de retorno a Natal se evidencia (após vencermos na justiça federal em primeira instância processo que movemos por uma permuta com colega da UFRN), sinto que cheguei aqui um Jacó, lutei com Deus e com minhas incredulidades e posso voltar para a minha terra um Israel. 
Como foi a experiência de Jacó, como foi a experiência do povo no deserto ou no exílio, encontrei aqui, no meu deserto e exílio, um Deus pelo qual vale a pena viver.

14.5.15

O lugar da esperança e da incredulidade

“Se podes?”, disse Jesus. “Tudo é possível àquele que crê”. Imediatamente o pai do menino exclamou: “Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!” (Marcos 9:23-24 NVI)

Estava pensando sobre a reflexão de Tomás Halík acerca do ateísmo e da [falta de] fé e me veio à mente o relato do menino epiléptico que Jesus encontra logo que desce do monte da transfiguração.
Como os discípulos não conseguiram curá-lo, o pai se aproxima de Jesus para pedir que, caso possa, cure seu filho.  E o diálogo segue conforme cito acima.
Esse texto inteiro, frise-se, pode nos ensinar sobre o lugar da incredulidade, da incompreensão e da incapacidade na nossa vida de seguidor de Cristo. Mas queria destacar esse aspecto da incredulidade.
Ontem conversava com uma amiga sobre [mais] um modelo de ganhar dinheiro derivado de pirâmides. Ela comentou: "Melhor que doar para campanhas políticas". Retruquei. Em resumo, disse o que penso: "A gente só investe no que acredita".
Aquele pai decide investir o pouco que crê naquele em quem acredita, esperando que Ele possa ajudar com sua falta de fé.
O que esse relato me fez pensar é que ao investirmos no que cremos não o fazemos fundados em certezas. O investimento é feito na dimensão da incerteza, repleto de dúvidas, cheio de insegurança e medo. A crença aqui não se baseia em uma fé triunfante, uma fé que é certeza. Cremos com base na esperança. Ao afirmar que cremos estamos dizendo de nossa esperança de que tudo dará certo - mesmo que seja, como Paulo diz acerca de Abraão, um esperar contra a esperança.
Só investimos no que acreditamos - isto é, no que temos esperança de que funcionará. É como o casamento, por exemplo. Não temos, nem podemos ter, nenhuma certeza de que dará certo. Nossa expectativa é a esperança de sucesso. É essa esperança que justifica todo meu investimento em uma relação.
A esperança, portanto, abre o espaço para a dúvida, para a descrença, para a incredulidade.  Não somos super-homens e super-mulheres que têm absoluta certeza de que serão capazes de tudo em nome de sua fé. A fé titubeia, ela fraqueja, ela falta. Chega aquele momento em que a alma se encontra sem fé. A única chance de seguir em frente, a única coisa que motiva nosso investimento na vida, é a esperança. 
Aquele pai esperava, ainda que sua fé fosse pequena ao ponto de pedir ajuda quanto a sua falta. Ele esperava de Jesus e esperava em Jesus.
Algumas outras coisas me despertam atenção neste texto. Primeiro, e mais importante, é que todas aquelas pessoas - e, em particular, os discípulos - estavam ao lado de Jesus. Mais que isso: Jesus e três deles acabaram de passar pela experiência da transfiguração no alto do monte. É, portanto, natural que nós tenhamos, como leitores, a expectativa que todas aquelas pessoas estivessem repletas de uma fé que fosse certeza absoluta. No entanto, todo o relato é o relato sobre a falta da fé: Jesus esbraveja contra, pasme, os discípulos que foram incapazes de curar o menino: "Respondeu Jesus: 'Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?'. (Marcos 9:19 NVI) 
O texto é sobre falta de fé: dos discípulos, do pai. Nossa. A falta de fé, a incredulidade, o ateísmo é parte de nossa vida. 
Em "Paciência com Deus" diz Halík: "A fé só poderá vencer a descrença abraçando-a".  Ele diz ainda que ateísmo deve ser visto não como uma mentira mas como uma verdade incompleta.  E complementa: "O ateísmo constitui uma útil antítese do ingênuo e vulgar teísmo - mas é necessário dar mais um passo para a síntese e para a fé madura".
Enquanto isso, caminhamos na esperança. É ela que nos motiva a investir em nossas crenças - entre elas, de que a fé vale a pena, de que o amor é o melhor caminho.
“Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!”

12.5.15

Matar o Pai

Para a psicanálise, a partir da análise do mito do Édipo Rei, quem não matar o pai simbolicamente permanecerá infantil a vida toda. 
Lembrei-me disso na leitura da parábola do filho pródigo em Lucas:
"E Jesus disse ainda: — Um homem tinha dois filhos. Certo dia o mais moço disse ao pai: “Pai, quero que o senhor me dê agora a minha parte da herança.” — E o pai repartiu os bens entre os dois". (Lucas 15:11-12 NTLH)
Quando pede sua parte na herança do pai, o filho, simbolicamente, mata o pai. Herança é algo que é dado como testamento, após a morte. É, então, como se o filho dissesse ao pai que a partir daquele momento vai considerá-lo como morto.  Isso ajuda, na parábola, a explicar toda a relutância que o filho tem, após gastar todos os bens, para voltar à casa do pai. Aliás, isso também ajuda a explicar porque ele acha que o único papel que lhe caberia ali, no retorno, seria o de um empregado.
Mas pensemos na morte simbólica do pai como ato fundamental para que o sujeito alcance a maturidade. O pai representa a lei. Sob seu domínio, não podemos ser outra coisa que não heterônomos: ou seja, somos guiados pela lei de outro. Ser maduro, ser adulto é o mesmo que ser autônomo: ou seja, é reconhecer em si a lei, o princípio ético para a sua ação no mundo. E se responsabilizar - quer dizer, ser capaz de dar resposta - por isso.
Ai eu volto para a parábola, na qual o pai é uma figura de Deus. É preciso matar o pai. É preciso matar Deus. O filho só consegue experimentar a realidade de uma vida autônoma com Deus, uma vida plena da graça e do amor perdoador do Pai, depois que O mata, usufrui de sua herança. É nesse retorno para o Pai, já morto simbolicamente, que o filho encontra sua fé e uma nova e revigorante relação com o Pai.
Interessante também pensar que a parábola foi contada, como sabemos no início do capítulo 15 de Lucas, contra os fariseus porque estes criticavam Jesus por andar com pecadores.
Os fariseus estavam sob a Lei. Sua fé era infantilizada como a do irmão que ficou - aquele que não matara simbolicamente o pai, ou seja, a Lei. Infantis, chateiam-se enormemente contra aquele irmão que, matando o pai e vivendo dissolutamente, reecontrou-se com ele em uma nova forma de relacionamento, fundado no amor, com liberdade e autonomia, como convém a adultos.
Na minha experiência de fé tenho aprendido que, como o filho pródigo, temos de matar o Pai para encontrarmos uma nova fé madura e autônoma. Tenho encontrado muitos irmãos e irmãs que, passando pela mesma experiência, ressignificaram sua fé longe de heteronomia escravizante. Ousaram romper com a fé infantil como a dos fariseus denunciados por Jesus.