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8.2.17

Prova de fé

O mundo não era digno deles!
Hebreus 11. 38


O que prova a fé de alguém? Se fizéssemos essa pergunta às igrejas de nossos dias teríamos, certamente, respostas as mais diversas. Na enorme diversidade das igrejas dos nossos dias, encontraríamos pessoas que, firmadas em suas diferentes crenças, definiram provas diferentes da fé dos cristãos.
A programação televisa cristã, especialmente forte aos sábados pela manhã, dá prova disso. São igrejas de matizes e teologias distintas defendendo conceitos absolutamente diferentes uns dos outros do que seja a fé e de como ela se prova.
Estava pensando nisso hoje ao refletir sobre o conhecido texto de Hebreus 11. Aquela galeria de homens dos quais o mundo não era digno. Ao ler essa lista de pessoas que descobriram que a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver (Hb. 11. 1) e que, descobrindo essa fé, acharam a salvação, me perguntei que provas elas obtiveram de sua fé. E que resultados visíveis elas tiveram.
Comecei a me questionar isso porque, a julgar pelo que pregam alguns hoje em dia, a fé se traduz em resultados visíveis, sempre. É uma cura, uma libertação, a prosperidade material. A fé se manifesta quando eu deixo de ser o caso perdido que eu era e encontro uma saída. A fé, nessa teologia, precisa de prova.
Não precisamos olhar com atenção aprofundada o texto para descobrir que essas idéias não se sustentam. A fé diz respeito a saber da existência de coisas que não podem ser vistas ou tocadas. Fundamentalmente é isso. É viver como quem vê um Deus que é invisível, como quem vive uma salvação que é improvável, como quem experimenta uma qualidade de vida impossível.
Boa parte de nossa geração de cristãos busca sinais. Busca resultados. Busca uma prova de fé. Milagres acontecem em resposta a nossa fé, mas a fé não é uma chave automática para milagres. A vontade de Deus é. Sua Glória e Sua Majestade são. Os milagres acontecem para honrar a Deus e não a nossa fé.
E eles acontecem. É só olhar a primeira parte do capítulo 11 de Hebreus para ver isso com clareza. Ou olhar para a minha e a sua vida. Temos muitos milagres para partilhar. Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era correto e receberam o que Deus lhes havia prometido. Fecharam a boca de leões, apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes. Foram poderosos na guerra e venceram exércitos estrangeiros. Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram (Hb. 11. 32 – 35).
O equívoco está em acreditar que milagres são as únicas conseqüências possíveis para a fé. O mesmo texto aponta o equívoco. Enquanto alguns foram libertados e viram tremendos milagres, outros foram torturados até a morte; eles recusaram ser postos em liberdade a fim de ressuscitar para uma vida melhor. Alguns foram insultados e surrados; e outros, acorrentados e jogados na cadeia. Outros foram mortos a pedradas; outros serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles! (Hb. 11. 35 – 38). A história da igreja e do testemunho de Cristo nos diz que na maior parte das vezes a fidelidade ao Senhor teve como resultado, não o milagre e a libertação do crente, mas a tortura, o sofrimento, a perseguição e a morte.
Jesus venceu, não descendo da cruz, mas morrendo na cruz. Por isso, eu penso que é muito fácil para mim afirmar a minha fé quando eu estou com minhas dívidas pagas em dia ou quando eu passo em um concurso da Petrobras, ou quando recebo o milagre de uma cura e, por isso, agradeço, feliz, ao meu Deus. Mas sei que minha fé seria, de verdade, provada, se uma arma fosse posta em minha cabeça sob a ameaça de morte, caso não renegue a minha fé em Jesus. Ou quando eu fosse desafiado a crer, ainda que não tivesse um teto ou comida para comer. Enquanto estava no Rio vi uma fé dessas: um homem se preparava para dormir sob uma marquise da avenida Presidente Vargas, lendo sua Bíblia apoiado na luz de uma agência bancária. Essa é a verdadeira prova de fé, pela qual ainda não passei.

20.12.16

Solidariedade

Quando estava anoitecendo, os discípulos aproximaram-se dele e aconselharam: “Estamos no meio do nada, e está ficando tarde. Despede o povo, para que eles saiam e consigam o que comer nas cidades”.
Jesus, porém, respondeu: “Não há necessidade de despedi-los. Vocês é que vão dar comida a eles”.
“Mas tudo que temos são cinco pães e dois peixes!”, disseram.
Jesus ordenou: “Tragam-nos aqui”. Em seguida, mandou o povo assentar-se na grama. Ele tomou os cinco pães e os dois peixes, olhou para o céu, orou, abençoou o pão, partiu-o e entregou tudo aos discípulos. Eles repartiram com o povo, e todos comeram e ficaram satisfeitos. Os discípulos recolheram doze cestos de sobras. E os que participaram da refeição foram cerca de cinco mil, fora mulheres e crianças.

Mateus 14. 15-21


Suponho que você conheça os relatos dos evangelhos que narram os episódios das multiplicações de pães e peixes - em João, apenas um episódio, nos outros evangelhos, dois.

O texto de Mateus, por exemplo, coloca os discípulos em posição central diante da ordem de Jesus: Vocês é que vão dar comida a eles. É como se Jesus dissesse que só poderia haver milagre se os discípulos assumissem seu papel e sua responsabilidade. Ou, no dizer do poeta Sérgio Vaz, é como se Jesus afirmasse que “milagres acontecem quando a gente vai à luta”. É preciso se envolver, é preciso participar, é preciso lutar.

Mas é possível que você nunca tenha pensado esse texto sob outro prisma de solidariedade. Uma interpretação possível para o milagre é que ele, antes de ser o de uma geração espontânea de alimentos do nada a partir da ação de Jesus, foi um maravilhoso milagre de solidariedade.

Convido você a suspender suas crenças sobre o evento do milagre e imaginar a cena por uma outra ótica.

São mais de cinco mil pessoas no deserto. O Mestre, então, dá graças a Deus pelo pouco alimento que conseguiu: cinco pães e dois peixes. E o distribui. O altruísmo e a solidariedade de Jesus o fazem entregar toda comida que tinham e que era pouca diante daquela multidão.

Não seria possível que o ato solidário de Jesus tenha estimulado a solidariedade em todos aqueles que, no meio da multidão, tinham sua particular porção de pão, seus poucos peixinhos, para se alimentar quando chegasse o jantar? A partir daí, cada um e todos passaram a compartilhar com os vizinhos do lado, da fila de trás, com as mulheres e as crianças em volta, o pouco que tinham - mas quando cada um deu o pouco que tinha em solidariedade, "todos comeram e ficaram satisfeitos. Os discípulos recolheram doze cestos de sobras”.

O que acontece quando nos entregamos à solidariedade?

Outro dia uma comunidade religiosa de Natal se dispôs a fazer uma ação assistencial junto a sete entidades filantrópicas diversas da cidade e ao presídio feminino. A solidariedade foi tão intensa, que a quantidade de alimentos doados e entidades assistidas foi o dobro do previsto anteriormente. Multiplicação.

Espero que você já tenha sido alvo de solidariedade com eu já fui. Uma rede de amigos socorrendo, dando o ombro, estendendo a mão, apoiando nos maus momentos, incentivando nos bons.

E solidariedade se multiplica. Quando a solidariedade nos alcança somos impulsionados a sermos solidários com outros.

Para mim, imaginar a cena da multiplicação de pães e peixes sob a ótica da solidariedade amplifica a dimensão do milagre. É vivenciar a sugestão de Dietrich Bonhoeffer de que Deus se manifesta no mundo somente através de nossas ações.

É, por fim, reconhecer que Sérgio Vaz, afinal, tem razão: “milagres acontecem quando a gente vai à luta”.