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5.2.17

Silêncio

Arão ficou em silêncio.
Levítico 10. 3


Dois filhos do sacerdote Arão, irmão de Moisés, entraram na presença do Senhor na tenda da congregação de maneira inadequada e, por esse motivo, foram fulminados. De uma só vez, Arão perdeu dois filhos.
Você consegue imaginar o tamanho do seu luto?
As coisas ainda ficam mais difíceis com as ordens que Arão recebeu de não prantear seus filhos. Tudo o que lhe resta é ficar em silêncio com sua dor e seu sofrimento.
Quando as coisas são difíceis e tudo está doendo, você sabe, é muito difícil ficar em silêncio. Nosso desejo é chorar em alta voz, gritar por socorro, chamar os amigos para desabafar e mesmo orar de maneira honesta e dolorosa diante de Deus.
A Arão foi dito que ele não podia fazer nada disso. Só lhe restava ficar em silêncio.
Não posso imaginar quão dolorosa foi essa situação. Mas sei dizer como é duro encarar a dor e os sofrimento sozinho, em silêncio, sem um companheiro para estender o ombro para chorar ou a mão para auxiliar na caminhada, sem um amigo para desabafar, sem um conselheiro para orientar.
É extremamente doloroso e difícil. A solidão e o silêncio amplificam a dor. Não poder falar sobre o que lhe causa sofrimento é causa de mais sofrimento. É como se houvesse uma voz constante exigindo que não derramemos lágrimas, não choremos, não falemos dos nossos problemas.
O que nos resta, numa situação como essa, é aprender. Aprender no silêncio de um coração que sente. Aprender na reflexão e meditação dolorida diante de Deus. Aprender a suportar o que nos pesa para podermos, assim, caminhar para longe do lugar onde estamos - e que nos causa dor e silêncio.
Há silêncios que vemos como se nos fossem impostos, tal qual o de Arão.
Há silêncios que nos impomos por perceber que o melhor caminho é, ainda que doa, uma reflexão silenciosa. O silêncio pode nos auxiliar a entender já que não há vozes para se misturarem com aquela da nossa reflexão.
O silêncio pode ser sua opção diante da dor. Mas saiba que calar toda a dor o tempo todo faz muito mal para a alma.
Esta semana ouvi de uma psicóloga que determinada pessoa em sofrimento não queria mais falar sobre o assunto que lhe provocava dor - como se isso fosse bom. Você pode não querer falar, você pode querer enterrar a dor, o luto, o sofrimento no seu passado - mas se você não o encara, não lida com ele, ele vai condicionar o seu presente e o seu futuro. Se você não lida com a dor ela estará presente para sempre.
Há silêncios que nos fazem mal porque são fruto de nossa solidão. A solitude pode ser uma opção, mas a solidão resulta geralmente da nossa dificuldade de criar e manter laços.
Passar pela dor, sem amigos, pode ser insuportável.
Mas em todos os cenários, resta o amigo mais fiel, o ouvido mais preparado, o ombro mais largo para nosso choro, a mão mais delicada para as nossas lágrimas, a palavra mais poderosa para o nosso consolo.
É difícil passar pela dor em silêncio e solidão - seria quase impossível se, além disso, passássemos sem o cuidado e a proteção de Deus.
Ainda que tudo seja silêncio e dor, Jesus está conosco - Ele sabe muito bem o que é isso:

Cerca das três horas da tarde, Jesus gritou bem alto: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”.
Marcos 15.34


Na hora mais difícil, saber que o Senhor está conosco faz toda diferença. Lembre disso.

29.1.17

Impassível?

E o Eterno disse: “Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"
Êxodo 3. 7-8


Para Aristóteles, Deus é o Motor Imóvel do universo. Essa ideia penetrou na teologia cristã ainda na Idade Média - muitos teólogos a partir de Tomás de Aquino se valeram da filosofia de Aristóteles para desenvolverem suas construções de fé.
O Motor Imóvel não pode mudar e, por isso, é Impassível - diante da dor e do sofrimento, diante da paz e da alegria, o Motor Imóvel segue igual.
Além disso, muita gente crê em Deus como um Todo-Poderoso e Soberano que já escreveu toda a história passada, presente e futura - portanto, uma história sob Seu controle mas completamente imutável.
Muita gente faz de Deus imutável - ser o mesmo ontem, hoje e sempre, para tais pessoas, faz de Deus alguém Impassível - alguém cuja misericórdia e a compaixão se existirem, são ficções, porque não representam nenhuma mudança no Seu Ser e nas Suas ações.
No entanto, o resumo do chamado de Moisés no Êxodo é que o Eterno não é Impassível. Ele vê, Ele ouve, Ele conhece e Ele, por isso, é tocado e desce para socorrer.
O Eterno não é Impassível.
Diante de um Deus que se compadece podemos saber que nunca estamos sozinhos.
Ele vê sua aflição. Ele sabe o que você está passando. Sabe quanto dói. Sabe que, por vezes, você sente que não aguenta mais. Sabe que você tem vontade de sumir e esgotou suas forças na tentativa de escapar da dor e da aflição. Sabe que você pode estar no limite. Ele vê sua dor e sua angústia.
Ele ouve a sua oração, o seu clamor. Você não chorou sozinho. A dor não doeu só em você. Você não jogou palavras ao vento, mas falou para um Deus que ouve. Se ninguém mais ouviu você, Ele ouviu. Ele ouviu e ainda ouve seu clamor.
Ele desceu para socorrer você. Ele não é impassível. Ele se importa com o que você está passando. Ele desceu, Ele veio até você.
A revelação do Deus da Bíblia tem a ver com um Deus que desce até nós para se revelar e nos libertar - ao invés de uma religião em que os humanos constroem ritos e regras para que alcancemos, tal qual numa Torre de Babel, a Divindade.
A revelação que Deus faz a Moisés aponta para aquela que se manifestou plenamente em Jesus. Em Jesus, o Eterno se fez um de nós. Se Deus fosse um Motor Imóvel, um Deus imutável, nunca poderia ter sido um de nós em Jesus. Nunca haveria esvaziamento, nunca haveria Emanuel, Deus conosco. Nunca haveria vida verdadeira tocada pelo Eterno, cruz, ressurreição e Espírito Santo.
Deus desce para nos livrar finalmente se tornando um de nós.
Deus desce para nos livrar e morar em nós pelo Seu Espírito.
Não é fácil passar por sofrimentos como os hebreus passavam no Egito. Não deve ser fácil enfrentar a dor e as circunstâncias que você está enfrentando. Pode ser que no meio do sofrimento você ainda se sinta sozinho e abandonado por amigos e parentes.
Há um momento no relato de Êxodo 5 que as coisas pioram logo depois de Moisés e Arão falarem com o Faraó. Agora os escravos precisam fazer a mesma cota de tijolos diária, mas sem que os egípcios forneçam a palha necessária. Os castigos aumentaram, a dor aumentou, o sofrimento aumentou.

Moisés orou ao Eterno e perguntou: “Por que tratas tão mal este povo? E por que me enviaste? Desde o momento em que fui falar ao faraó em teu nome, as coisas só pioraram para o povo. Libertação? É essa a ‘libertação’ que pretendias?”
Êxodo 5. 22-23


Nessa hora, por mais que seja difícil, acredite que Deus não é impassível - Ele desceu a fim de livrar você. Se mais ninguém está ao seu lado, Ele está não apenas ao seu lado, mas o Emanuel habita em você por meio do Espirito Santo.
Ele nunca o deixará e nunca o abandonará. Ainda que você não saiba quanto tempo ainda haverá até a libertação, Ele está com você e será sua força para que você passar por tudo.
Ele levará você à terra prometida.

“Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"

19.1.17

Conosco

Agora, que já sabemos o que temos — Jesus, esse grande Sacerdote Principal com acesso imediato a Deus —, não podemos perdê-lo jamais. Não temos um sacerdote que não conhece nossa realidade. Ele experimentou fraqueza e provações e experimentou tudo, menos o pecado. Portanto, vamos andar direito e receber o que ele tem para nos dar. Recebam a misericórdia, aceitem a ajuda.
Hebreus 4. 14-16


Imagine qualquer problema.
Pense em qualquer situação à qual você está enfrentando.
Projete o tamanho de qualquer sofrimento que aflija você - menor ou mais, mais simples ou mais grave.
Quaisquer dessas circunstâncias se tornam mais facilmente suportáveis quando temos a ajuda adequada.
E não falo aqui sobre ajudas técnicas ou profissionais - que são imprescindíveis. Mas falo de uma ajuda à alma que é capaz de fazer novas todas as energias, abrir os caminhos para as restauração, construir os passos para a paz.
Falo que qualquer problema é mais facilmente suportável se experimentamos a misericórdia e a ajuda de Deus, que é dada de graça em Jesus.
A melhor posição que temos para enfrentar as lutas é ao lado e protegido por Jesus. É sob suas mãos, debaixo do seu olhar, mergulhado em sua graça e misericórdia. É estarmos no Santo dos Santos do tabernáculo dos céus, como diz o autor da carta aos Hebreus - esse é o melhor lugar e o mais apropriado para enfrentarmos a luta do dia a dia.
Você pode estar enfrentando uma doença, incurável - pode ter certeza de que será mais fácil lidar com ela e com as circunstâncias da vida sob o cuidado de Jesus.
Você pode estar passando por problemas familiares incrivelmente dolorosos - Jesus pode não diminuir sua dor ou resolver seu problema, mas debaixo de sua atenção graça e misericórdia lhe darão forças para enfrentar tudo isso.
Seu problema pode ser desemprego - ainda que Jesus não lhe dê um emprego, você pode saber que sua graça é suficiente para que você possa suportar a situação: o Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12. 9).
Não importa o seu problema: o melhor modo de enfrentá-lo é recebendo misericórdia de Jesus, sua ajuda.

Agora, que já sabemos o que temos — Jesus, esse grande Sacerdote Principal com acesso imediato a Deus —, não podemos perdê-lo jamais. Não temos um sacerdote que não conhece nossa realidade. Ele experimentou fraqueza e provações e experimentou tudo, menos o pecado. Portanto, vamos andar direito e receber o que ele tem para nos dar. Recebam a misericórdia, aceitem a ajuda.

Ele pode nos ajudar a enfrentar a dor, segundo o autor de Hebreus, porque ele experimentou na pele todo o sofrimento possível. Não podemos jamais perder um sacerdote que conhece a nossa realidade, "experimentou fraqueza e provações e experimentou tudo”.
Ele nos ajuda porque se fez um de nós - até mesmo na dor e no sofrimento. Seu esvaziamento e sua empatia são perfeitos.
Ele está conosco quando dói. Ele sustenta nossos braços quando falta força. Ele segura nossa mão quando temos medo. Ele nos estimula quando falta coragem. Ele nos consola quando choramos.
Ele está conosco até o fim. Emanuel.

17.1.17

Problemas

Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
(…)
Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 3. 3; 5. 10



Você já deve ter visto por aí inúmeros televangelistas, igrejas e religiões prometendo uma vida sem dor e sem sofrimento. Basta seguir determinado ritual, certas regras, realizar certo sacrifício e, pronto, a vida a partir dali será de tranquilidade.
Se não deu certo para você, o problema é seu. Algum pecado escondido, a falta de fé, não realizou o ritual corretamente - não importa: o culpado pelo seu sofrimento é você mesmo e mais ninguém.
A ideia de que realizar certas práticas seria suficiente para garantir uma bênção sem fim da Divindade e uma vida sem sofrimentos não é nova e, infelizmente, aparece em muitos contextos do Antigo Testamento - que são, aliás, a base do discurso religioso que explora tais ideias hoje em dia.
Claro que há textos, como o livro de Jó, em que não restam dúvidas de que o sofrimento, a dor, os problemas não derivam de nada que o fiel fez. São contingências da vida que atacam, inclusive, um homem dito como justo por Deus duas vezes no início de seu livro.
Para nós é mais fácil acreditar que há uma fórmula mágica de se enfrentar a dor e o sofrimento. Tantas orações, quantos sacrifícios, tais palavras mágicas e, por um milagre, a dor e o sofrimento se foi.
Para mim, o pior efeito da dor, do sofrimento e dos problemas é a sensação de transitoriedade que termina por fazer com que nada na vida seja encarado como real. Como sabemos que nenhuma dor, sofrimento ou problema dura para sempre, podemos ter a tendência de suspender a vida pelo tempo de sua duração. E aí deixamos de viver todos os momentos de verdade - somente como uma etapa, passageira e provisória, na direção do mundo sem dor.
A dor, o sofrimento e os problemas não são alienígenas de nossa existência e, ainda não durem para sempre, não justificam que vivamos a vida como provisória.


Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
1 Tessalonicenses 3. 3



São parte da vida. Não uma parte fácil, não uma parte que seja natural saber lidar. Nada disso. A dor é parte da vida, mas não é fácil. Às vezes, vai nos sugar toda energia. Às vezes, vai nos deixar perdidos, sem saber como agir. Os problemas podem, inclusive, nos submergir. O sofrimento pode levar você ao fundo do poço.
Eles fazem parte da vida e Paulo nos informa que devemos estar prontos para quando eles acontecerem para não sermos surpreendidos.
Mas como é possível lidar com cada um deles?
Não vejo como ser possível afirmar que há somente um jeito de lidar com o sofrimento, mas podemos lidar com a dor a partir do momento que entendemos que ela faz parte da vida - não é uma intrusa que qualquer ritual vá fazer desaparecer e, nem sempre, ela emerge por culpa nossa.
Mas a fé em Jesus oferece um ponto de apoio fundamental para lidarmos com a dor, o sofrimento e com qualquer problema que nos sufoque:


Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 5. 10



Em qualquer situação, estamos vivos com Ele. A vida dEle vive em nós. A eternidade dentro de nosso ser.
Por pior que seja a dor, por maior que seja o problema, por incontrolável que seja o sofrimento, Ele está conosco. Nossa vida está nEle. É nEle que vivemos.


Mesmo que a estrada atravesse
o vale da Morte,
Não vou sentir medo de nada,
porque caminhas do meu lado.
Teu cajado fiel
me transmite segurança.
Salmo 23. 4






11.1.17

Confiem em mim

Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim
João 14. 1



Minha filha de 7 anos, ao mesmo tempo que tem um fascínio, tem muito medo de animais domésticos. Em algum momento de seus primeiros anos de vida aquela admiração que toda criança tem por bichos foi substituída por um pânico desmedido.

Algum tempo atrás, quando eu estava morando e trabalhando em Fortaleza, ela sofria deveras na casa da família que nos apoiava por causa dos gatos. Era preciso que os pobres bichanos estivessem sempre trancados atrás de portas para que minha filha pudesse ter o mínimo de deslocamento no apartamento.

Certa ocasião, estimulamos seu contato com os animais. Uma das gatas é cega. Minha filha ficou sentada, segura, em um colo. A gata, cega e segura, em outro. Só assim a gata conheceu uma manifestação de afeto por parte de minha filha - num ambiente extremamente controlado e protegido por nós, adultos em quem ela confia.

Isso foi possível porque ela se sentia segura - tão segura que não fazia sentido ter medo nenhum. Só então pode enfrentar a situação.

É disso que fala Jesus:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim


Jesus nos convida a sentarmos em seu colo, a nos deixarmos ser protegidos por Ele, deixarmos que Ele nos envolva em seus braços e controle toda a situação. Nessa situação, como uma criança guardada no colo de seu pai, por que ficaríamos aflitos com quaisquer circunstâncias que nos envolvam?

Se vivenciarmos as piores circunstâncias, se formos ameaçados pelas piores aflições, se enfrentarmos as piores dores, se formos atacados das piores formas, se o pior acontecer conosco, o colo do Senhor fará enorme diferença.

Enfrentar o mal sozinho pode gerar aflições sem medida.

Enfrentar o mal estando nos braços do Senhor será como minha filha acariciando a gata cega de nossos amigos - não há mais motivo de ter medo porque toda a circunstância está sob controle, não por nós, mas pelo Senhor. E Ele é forte suficientemente para nos proteger.

Um dos passos para termos mais calma e condições de enfrentar as inevitáveis aflições que a vida nos traz é entender que estamos envoltos e protegidos pelo Senhor.

Nem sempre vamos perceber isso. Nem sempre vamos ver sua mão e seu colo a nos proteger.

Mas parte do nosso caminho de fé é saber disso mais e mais:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim

6.1.17

O sofrimento que acompanhará a tarefa

Mas o Senhor disse: “Não discuta! Eu o escolhi como meu representante pessoal entre judeus, outros povos e reis e agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa”.

Atos 9.15-16



Ainda que queiramos negar, o sofrimento faz parte da vida. Claro que isso não é bom nem é agradável, mas nenhum de nós pode passar incólume. As coisas quase nunca estão sob controle e fatalidades são parte de nosso dia a dia.

Lembro que em março de 2015 eu estava numa reunião de orientação com um aluno em uma livraria de Fortaleza quando o telefone tocou para me informar que minha filha sofrera uma queda na escola e tivera uma grave fratura no braço direito. Eu praticamente tive que largar tudo para voar para Natal a fim de acompanhá-la.

Fatalidades ocorrem em todos os níveis. Podemos procurar nos preparar para o sofrimento e a dor mas cada um de nós já aprendeu que seremos sempre surpreendidos, como o foi, por exemplo, o justo Jó.

O problema, no entanto, não é a dor e o sofrimento. O problema é toda uma sorte de receitas que estão disponíveis no mercado para convencer-nos que é possível fugir da dor e do sofrimento.

Essas receitas se encontram, especialmente, no mundo religioso e, infelizmente, também no ambiente cristão.

Há muito evangelho sendo pregado por aí que oferece a cura de toda dor e sofrimento, a fuga do que disfuncional, Há muita igreja na qual se chega e a promessa é de uma vida plenamente feliz o tempo todo, sem que nada possa dar errado. E se algo não funciona, a culpa é do fiel que pecou ou a quem foi faltou fé - ampliando o próprio sofrimento.

Dia desses um amigo me chamou atenção para esse trecho de Atos, no qual o Senhor conversa sobre Paulo récem-convertido com Ananias:


agora estou prestes a mostrar a ele o que o aguarda — o sofrimento que acompanhará a tarefa.


A primeira promessa a Paulo não é aquela de uma vida tranquila. A primeira promessa a Paulo é que ele sofrerá. Experimentando a salvação, servindo a Deus com o seu ministério, anunciando o evangelho de Jesus: a tudo isso lhe acompanhará sofrimento.

Viktor Frankl diz que no sofrimento é nosso papel dar sentido a ele. Só assim poderemos sobreviver a ele. Isso não significa que vamos buscar o sofrimento de iniciativa própria ou que, podendo evitá-lo, não o faremos.

Ter certeza de que na vida sofreremos não pode significar nenhuma postura masoquista de busca desenfreada do sofrer, nem pode significar a negligência com o evitar a dor desnecessária.

Só precisamos saber: sofrer é parte da vida, mas não é o fim da vida.

Que não nos surpreendamos quando a vida doer e que saibamos que é justamente nessas horas que Jesus vai nos carregar no colo.

26.12.16

A procura

Jesus disse: “Mulher, por que você está chorando? A quem procura?”.

João 20. 15



A vida é uma constante busca. Buscamos satisfazer nossos desejos e interesses desde recém-nascidos, ainda que não sejamos capazes de compreender, nesse momento, o mundo que nos rodeia.

Muito cedo, passamos a buscar a compreensão do que nos ocorre na vida - o que nem sempre é fácil de alcançar.

Cedo também tentamos encontrar o sentido das dores, frustrações e, finalmente, da morte. Lembro, por exemplo, que tinha sete anos quando encarei a morte pela primeira vez - a morte de minha prima, Elisabete, que partiu aos 17 anos. Lembro, também, de termos levado Alice ao velório de uma vizinha nossa com cinco anos, explicando a ela o significado daquilo. Desse modo, Alice encarou com muita tristeza mas naturalidade a morte de minha avó um ano depois.

Procuramos satisfações. Procuramos fugir da dor. Procuramos companhia, amizade, carinho. Procuramos respostas. Procuramos paz, tranquilidade. Procuramos vida.

Nem sempre vamos encontrar e, ao não encontrar, vamos precisar lidar com as frustrações e com a dor. Viktor Frankl diz que nós só conseguimos sobreviver ao sofrimento se formos capazes de dar sentido a ele: o sofrimento tem que significar algo para que possamos passar por ele. "Quem tem porque viver pode suportar quase qualquer como”, já disse Nietzsche.

A vida, então, é uma busca, principalmente, por sentido e significado.

Jesus foi julgado, morto e sepultado na Páscoa. Segundo João deixa claro, por razões eminentemente políticas - Jesus foi julgado e morto como um subversivo revolucionário, um inimigo de César.

Os discípulos ficaram arrasados - em sofrimento e buscando o sentido de tudo aquilo que lhes permanecia oculto. No domingo pela manhã, um grupo de mulheres vai à sepultura para cuidar de um cadáver de dois dias que foi enterrado às pressas por causa do sábado, com apenas o mínimo de ritual.

O corpo era um sentido para o qual a vida podia seguir - ao menos naquela manhã. Elas tinham de fazer algo com o seu sofrimento.

O corpo, no entanto, não estava lá.

Penso que toda dor e todo sofrimento tenham se tornado mais amplos e significativos para aquelas mulheres enfrentando um luto de dimensão inimaginável.

Depois que o evangelista e Pedro passaram pelo sepulcro, Maria ficou no jardim sozinha para chorar suas dores. Imersa em sua imensa dor e sofrimento, ela se depara com Jesus, mas não o reconhece.

As perguntas do Mestre são decisivas:

“Mulher, por que você está chorando? A quem procura?”

A quem nós procuramos? Por que choramos?

O que nos faz sofrer? Onde temos encontrado os sentidos e significados de nossa vida?

Jesus estava ali no jardim. Ele era a resposta que Maria tinha a dar ao seu sofrimento e à sua busca. Mas ela o procurava morto e, morto, nunca o encontraria. Sua busca por um morto não aliviaria jamais seu sofrimento e sua procura constante.

Para encontrar o que procurava, Maria precisava entender que Ele estava vivo.

A experiência fundante da fé não é o Natal, não é a Cruz nem o túmulo vazio. A experiência fundante da fé é encontrar o Jesus Ressurrecto, é saber que Ele está vivo.

A melhor resposta ao nosso sofrimento e o melhor significado da nossa busca estão no Deus que se encarnou, se tornou um de nós e, mesmo tendo sido julgado, torturado e executado, está vivo. A melhor resposta à nossa procura é Jesus vivo.

22.12.16

Diante da instabilidade

Levanto os olhos para os montes:
será que é de lá que vem a minha força?
Não, minha força vem do Eterno,
que fez o céu, a terra e as montanhas.

Salmo 121. 1-2


Apesar de nosso desejo de que a vida siga sem atropelos, uma das poucas coisas que podemos ter certeza é que a nossa caminhada nunca será tão estável quanto desejaríamos.

Erraremos e vacilaremos, as circunstâncias da vida nem sempre nos serão agradáveis e positivas, temeremos: vez por outra tudo isso ocorrerá. Teremos ciclos em que nos sentiremos virtuosos e teremos outros em que a dor nos visitará.

Cada um pode encontrar seu caminho para encarar tais momentos. Estou lendo a obra de Viktor Frankl, “Em busca de sentido”, e ele se preocupa em descrever como os prisioneiros dos campos de concentração nazistas eram capazes de resistir e encontrar sentido para as suas vidas. Apesar de representar um momento único e terrível na história humana, percebo que muitos dos processos assumidos pelos internados em Auschwitz podem nos ajudar em nossas pequenas e sensíveis dores diárias.

Quando tudo o mais é instável, qual o seu melhor caminho para encontrar estabilidade para enfrentar as circunstâncias e as dores?

O salmista assume uma postura única em busca da força e da estabilidade necessárias:

Levanto os olhos para os montes:
será que é de lá que vem a minha força?
Não, minha força vem do Eterno,
que fez o céu, a terra e as montanhas. 


Nada melhor que entregar a vida, as fraquezas, a instabilidade e toda dor nas mãos do Eterno. A eternidade é estável, firme, forte, constante.

Se há algo ou alguém em que podemos confiar para vivermos de maneira estável e segura esse alguém é o Eterno.

Se há algo em que podemos confiar é na segurança e força que nos vem do Eterno. Ele nos tomará em Suas mãos. Ele nos dirá Sua Palavra consoladora. Ele nos erguerá do ordinário e nos protegerá em Seu colo.

O salmista sente-se perdido. Olha em volta e não vê saída ou socorro. Está frágil, inseguro, sofrendo. De onde poderia vir o seu socorro?

O salmista entende a resposta: é o Eterno, vem do Eterno. Somente o Eterno poderia cuidar dele e protege-lo, nos melhores e nos piores momentos.

Você pode se ver no lugar do salmista - em seus melhores e em seus piores momentos. Perdido, saiba que o Eterno cuida de você. Achado, veja nEle a sua força para suportar a cada momento de sua vida.

Render-se a Ele é o melhor remédio para encarar a dor e a instabilidade da vida.

Canto, então, a canção:

“Senhor, temos tanta fome de ti, temos tanta sede de ti”
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