19.2.03

Arão, porém, ficou em silêncio. (Lv 10. 3)

Confesso que esse é um texto muito difícil para mim. Chocante e difícil de responder, como aliás são difíceis e chocantes as perdas em nossas vidas.
Como deve ter sido duro para Arão. Os seus filhos mais velhos haviam acabado de serem mortos pelo Deus a quem ele serve, o Deus que o chamou para o sacerdócio. E que prometeu que esses mesmos filhos dariam continuidade à sua obra.
E o pior: seu sofrimento não pode ser externado. Toda a dor deve ser internalizada, calada. Arão deve sofrer calado. E sozinho.
Quantas vezes a dor do servo de Deus, por circunstâncias que lhe fogem ao controle, precisa ser curtida na solidão e no silêncio...
Quantas vezes não há ombro amigo para recostar a cabeça, mão caridosa para enxugar as lágrimas. Aliás, sequer podemos chorar!
Mesmo Deus lhe parece duro e impassível. Nem Ele parece se importar com o seu sofrimento e sua dor. Ele só parece se importar com o fato de que você é líder e exemplo. Não pode desapontá-Lo nem ao povo que se lhe acerca.
O sacerdócio é profissão solitária. Sem amigos. Sem mesmo a possibilidade de prantear seus mortos. Sem compaixão da parte de ninguém.
Exercício de fé. Entender que sua vocação é mais extrema que suas vontades pessoais. Mas esse processo é extremamente solitário.
Qual é a resposta de Deus a tudo isso?
Parece que o único (!) conforto é não sair da presença do Senhor. Não parece, no entanto, uma resposta muito prática. Como qualquer outra que nos empurra à resignação.
Mas é Deus quem transforma as sensações e as situações. Ele é capaz de transformar maldições em bênçãos (Rm 8. 28), sem que as maldições deixem de ser maldições. Ele nos lembra que somos incapazes de julgamento digno devido à incompletude dos dados que dispomos (Jo 13. 7). Ele nos lembra que o resultado de nossa escolha por Ele é plenamente compensador (Mc 10. 29-30). Pela fé.
Mesmo que temporariamente, devemos suportar a dor da solidão:
Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. (Rm 8. 18)
Ainda assim, confesso, para mim são respostas simplórias.
Assim, entendo que a solução desse paradoxo está em dois importantes aspectos.
1. O caráter: o nosso caráter deve ser forte, treinado para o sofrimento. Não um estóico, mas alguém que possa curtir a dor e sobreviver;
2. O amor: estamos tendo o nosso amor experimentado: até que ponto vai esse amor?
E estará a nossa relação com Deus firmada nesse compromisso de amor, ou em algo que não possa resistir ao teste?
Em outras palavras: Deus é visto como nosso Pai, ou como nosso Chefe?

16.2.03

Essa eu trouxe do Bibliaworld.

CRENTE SOFRE?
Como cristãos que somos, essa pergunta merece uma resposta bíblica. Portanto, não adianta "romantizar" a realidade e procurar uma resposta conveniente. O crente bem fundamentado não nega a realidade, mas a interpreta dentro de uma visão bíblica e espiritual. A bíblia nunca pretendeu mascarar a dor dos seus profetas, discípulos e apóstolos. Pelo contrário, mostra esse "sofrer" mas mostra também Aquele que sempre está ao lado do que sofre.

Jesus foi muito claro a respeito do sofrimento, e disse: "No mundo tereis aflições..." (Jo 16.33). Ou seja, a existência cotidiana está indelevelmente marcada pela dor. Paulo também admite o sofrimento, sem supervalorizá-lo, ao fazer uma comparação da glória futura com as "aflições do tempo presente" (Rm 8.18).

Normalmente relacionamos sofrimento com algum tipo de "pecado oculto" ou "falta de fé". Às vezes até culpamos as pessoas de estarem vivendo uma vida de aparente derrota, dizendo-lhes que "não têm fé". Nem sempre isso é verdade. Um dos capítulos da Bíblia mais lembrado quando se fala em "fé", sem dúvida alguma é o de Hebreus 11. Ali encontramos um resumo da vida vitoriosa de muitos servos de Deus e os seus feitos: Abraão, Gideão, Moisés, Jefté...

O curioso é que nunca ouvimos alguém exaltar aqueles heróis anônimos da fé mencionados ao final do capítulo. É como se aquele tipo de "vida" que eles tiveram não fosse a verdadeira vida cristã. Preferíamos constar o nosso nome na galeria da fé por derrotar a espada, o fogo, as potestades, a ira do inimigo, mas ter "aquela" vida relatada nos versículos finais, jamais. E o que está escrito lá, que tanto tememos e até negamos?

"outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas, e prisões, foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada, necessitados, afligidos, maltratados" (Hb 11.36-37)

O que diriam hoje sobre esses homens os que prometem prosperidade e saúde a qualquer tempo? Certamente afirmariam que quem vive assim ou está em pecado, ou há uma maldição a ser quebrada, ou não tem fé!

Dou glória a Deus porque a vida desses homens está descrita no "capítulo da fé". É impossível dizer que eles não criam no Deus Todo Poderoso. É impossível dizer que viveram assim por causa do pecado em suas vidas. É impossível dizer que eles estavam debaixo de qualquer espécie de maldição. O texto é muito claro - a fé os levou ao desprezo que o mundo lhes dedicou, às necessidades, às aflições e maltratos.

O apóstolo Paulo, ao receber o espinho na carne, "mensageiro de Satanás para o esbofetear", não se deixou abater por aquele mal, mas o transformou em vitória. E ele também não saiu por aí, dizendo: "Tá amarrado, não aceito, etc. etc.". Pelo contrário, ele aprendeu pelo sofrer uma lição que todos nós precisamos conhecer - "a Tua Graça, Senhor, nos basta!".

Um argumento muito comum utilizado pelos pregadores da saúde plena a todo o tempo, é Isaías 53.4-5: "certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si... e pela suas pisaduras fomos sarados". Essa palavra profética sobre o Messias é verdadeira e já vige entre nós. Entretanto, é bom lembrar que a obra Redentora de Cristo ainda não cessou, e Paulo, em 1Co 15.26 diz que "o último inimigo a ser destruído é a morte".

O mundo em que vivemos não é um mundo perfeito, mas decaído, e todos nós sofremos as conseqüências dessa queda. Os hospitais recebem crentes acidentados, crianças, filhas de pais crentes, nascem com defeitos congênitos, homens e mulheres de Deus sofrem de doenças crônicas e agudas, e podem ou não receber a cura que vem de Deus.

A morte, a dor, a injustiça, a doença, a miséria, só terminarão no Céu, pois só ali completará a obra Redentora de Cristo Jesus. Então, Deus "lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram" (Ap 21.4). Ali, junto a Deus, pais não separarão mais de seus filhos, esposas não verão mais seus esposos partir, o corpo já não será mais corruptível, e a guerra e a fome não terão lugar.

Daniel Rocha, pastor da Igreja Metodista em Itaberaba, S.Paulo e Psicólogo
E-Mail: dadaro@uol.com.br


3.2.03

Sei que para além das nuvens
O sol não deixou de brilhar
Só porque a terra escureceu

Kléber Lucas

Eu e você já passamos por uma situação assim. Isto é, se não estivermos passando agora. O tempo está fechado. É impossível vermos o sol. A terra escureceu.
Como se densas nuvens nos cercassem e impedissem nossa visão. Não vemos muito além de nossos narizes. Por isso, nossos planos são vacilantes. Não vemos o caminho. Sentimo-nos perdidos.
Jó é melhor exemplo de alguém para quem o tempo fechou. No último capítulo de seu livro, lemos uma passagem muito conhecida:

Sei que podes fazer todas as coisas;
Nenhum dos teus planos pode ser frustrado.
...
Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito,
Mas agora os meus olhos te viram.
Por isso menosprezo a mim mesmo
E me arrependo no pó e na cinza.

(42. 2 e 5-6)

Mas essa é a conclusão de uma história que começa com Satanás recebendo autorização de Deus para tentar Jó. Então o diabo tira-lhe os bens, a família, a saúde, esperando que Jó volte as costas a Deus.
No entanto, apesar de Jó demonstrar um grau de orgulho espiritual em todo o livro, a ponto de admitir no fim que seu grau de conhecimento do Senhor era insuficiente, ele permaneceu crendo que “além da nuvens, o sol não deixou de brilhar”. Por isso, podia estar certo que o seu Redentor vivia e que se levantaria na terra para livrá-lo.
Jó sofreu. E sofreu muito. Se sofremos, temos alguma noção do que isso signifique.
Quando Deus se revela a Jó, destroça todo o seu orgulho e o desnuda diante de Si. Jó afirma, surpreendentemente, que percebe, então, que sua dor fazia parte do projeto do Senhor em sua vida.
Eu já sofri, mas hoje não trocaria passo algum da minha dor por alguma forma que eu pudesse considerar liberdade, se isso comprometesse a formação do meu caráter.
O céu estava fechado. O sol, escondido. O caminho, escuro. O sofrimento, insuportável. Mas tudo isso era plano de Deus! “Nenhum dos teus planos pode ser frustrado”.
Deus está mais preocupado com sua pessoa do que com a sua satisfação. Se tiver que permitir a dor, Ele permitirá para fazer cumprir Seu projeto na sua vida.
Sei que na hora que dói, muito dificilmente poderemos entender isso. Mas procure exercitar a fé, crendo que além das nuvens ainda há um sol brilhando.

2.2.03

Deus usará todos os obstáculos para cumprimento de Seus propósitos.
Meyer
Este texto está no libro "Mananciais no Deserto":
Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm. 8. 18)

Há um fato curioso a respeito da mariposa imperial: ela sai do casulo por uma abertura que nos parece pequena demais para o seu corpo. E, interessante, não deixa vestígio de sua passagem: um casulo vazio é tão perfeito quanto um casulo ocupado. Vim a saber que, segundo se supõe, a exígua abertura desse casulo é uma provisão da natureza para forçar a circulação dos humores nas asas da mariposa, asas que ao tempo da eclosão são menores que as dos outros insetos congêneres.
Certa vez guardei por um bom tempo um desses casulos, que têm interessante forma cilíndrica. Estava ocupado. Eu anelava por ver chegar o dia da saída do inseto. Finalmente o dia esperado chegou: e lá fiquei eu uma manhã inteira, interrompendo a todo momento o meu serviço, para observar a trabalhosa saída da mariposa.
Mas, no meu entender, aquela saída estava trabalhosa demais! Pensei que talvez fosse por ter o casulo ficado tanto tempo fora de seu habitat, quem sabe se em condições desfavoráveis. Podia ser que suas fibras se tivessem ressecado ou enrijecido. E agora o pobre inseto não teria condições de sair dali.
Depois de muito pensar, arvorando-me em mais sábio e compassivo que seu Criador, resolvi dar-lhe uma pequena ajuda. Tomei uma tesoura e dei um pique no fiozinho que lhe embaraçava a saída. Pronto! Sem mais dificuldade, lá saiu a minha mariposa, arrastando um corpo intumescido. Fiquei atento e curioso para ver a expansão de suas asas encolhidas, o que é um espetáculo admirável aos olhos do observador. Olhava curiosamente aqueles minúsculos pontos coloridos ansioso por vê-los dilatarem-se, formando os desenhos que fazem da mariposa imperial a mais bela de sua espécie. Mas, nada ... E o fenômeno nunca se deu!
Em minha presa de ver o inseto em liberdade, eu havia, sem o saber, impedido que se completasse o laborioso processo que estimularia a circulação nos minúsculos vasos de suas asas! E a minha mariposa, criada para voar livremente pelos ares, atravessou sua curta existência arrastando um corpo disforme, com asas atrofiadas.
Muitas e muitas vezes tenho me lembrado dessa mariposa quando observo, com olhos compassivos, pessoas que se estão debatendo em meio a sofrimento, angústias e dores. Eu de bom grado lhes cortaria a disciplina e daria liberdade. Homem sem visão! Qual dessas dores poderia sem dano ser poupada? A perfeita visão, o perfeito amor, que deseja a perfeição de seu objeto, não recua por uma fraqueza sentimental diante do sofrimento presente e transitório. O amor de nosso Pai é muito verdadeiro para fraquejar. Porque ele ama a seus filhos, ele os corrige, a fim de fazê-los participantes da sua santidade. Com esse glorioso fim em vista, ele não nos poupa o pranto. Aperfeiçoados através do sofrimento, como seu Irmão mais velho, os filhos de Deus são exercitados na obediência e trazidos à glória, através de muita tribulação.