27.1.05

Avivamento ou Fingimento?

Em muitos aspectos os dias do profeta Jeremias na Palestina se assemelham ao nosso tempo. Jeremias, filho do sacerdote Hilquias, era um profeta influente na corte de Jerusalém. Seu ministério se realizava na cidade, na capital. Anatote, onde nasceu, distava poucos quilômetros do templo. Profetizou nos reinados de Josias, Jeoaquim e Zedequias. Um extenso período de anúncio da Palavra de Deus.

Em que seu tempo se assemelha a nossos dias? Parte do ministério do profeta acontece em um tempo de Avivamento. O culto ao Deus de Israel está se fortalecendo diante dos cultos idólatras, especialmente o culto a Baal.

São os dias do Rei Josias. 2 Crônicas 34 nos conta a história de Josias:

1) Tornou-se rei aos oito anos de idade, após a morte de seu pai Amom;

2) Com dezesseis anos, começa a buscar a Deus e tentar acabar com todas as falsas religiões na terra de Israel;

3) Com vinte anos, Josias viaja pela terra e purifica Judá e Jerusalém, acabando com os cultos aos falsos deuses;

4) Aos vinte e seis anos ordena a Reforma do Templo de Jerusalém, de onde são retirados todos os elementos que faziam parte dos cultos idólatras;

5) Enquanto o Templo era Reformado, foi encontrado, pelo sacerdote Hilquias (provavelmente, o pai de Jeremias) o Livro da Lei, que é lido diante do Rei. “Quando ouviu o que o Livro da Lei dizia, o rei rasgou as suas roupas em sinal de tristeza”, diz o texto.

6) O resto do capítulo e o capítulo seguinte nos contam como Josias desenvolveu o seu projeto de Reforma Religiosa, como o rei levou o povo a renovar a Aliança com Deus, pondo fim a todo culto a falsos deuses, e como o rei realizou a maior Páscoa da história de Israel.

7) A Palavra de Deus se espalhou, sendo pregada em toda parte, tanto em Judá, quanto em Israel.

Certamente, o templo andava cheio. As pessoas estavam buscando refrigério para suas almas. A religião estava avivada. Como hoje, as multidões sedentas por respostas, por vida com Deus, corriam para o templo para ouvir o ensino e a pregação. Como hoje, a religião do Deus vivo se tornou religião da moda. As pessoas estavam abandonando o culto a Baal e toda idolatria. Os líderes diziam, com razão, que se vivia um Avivamento.

Mas qual a sua profundidade?

Nesse ponto, olhar o livro de Jeremias é inquietante.

Jr. 3. 6 e 9: “Durante o reinado do rei Josias (!), o Senhor me disse: ‘Você viu o que fez Israel, a infiel? Subiu todo monte elevado e foi para debaixo de toda árvore verdejante para prostituir-se. (...) Judá, a traidora, não voltou para mim de todo o coração, mas sim com fingimento’, declara o Senhor”.

A ilusão do crescimento da religião se desfaz em poucas palavras. Fingimento, não Avivamento. É assim que Deus vê as coisas.

O oráculo de Deus continua descrevendo a forma como o Senhor insistiu com a conversão do povo: “Voltem, filhos rebeldes! Pois eu sou o Senhor de vocês”, declara o Senhor” (14)

Talvez passasse pela cabeça do povo que conversão era ter o templo cheio, uma festa de Páscoa concorrida, mas a conversão real não é uma questão de culto. Por isso o Senhor diz que se o povo se converter “não dirão mais ‘A arca da Aliança do Senhor’. Não pensarão mais nisso nem se lembrarão dela; não sentirão sua falta nem se fará outra arca” (16), porque o próprio Senhor habitará no meio do povo.

A conversão real não se resolve com palavras bonitas, ou palavras religiosas impressionantes, mas vazias de poder e conteúdo concreto. A conversão real se resolve com a presença do Deus vivo e um Avivamento Genuíno que não é encenação religiosa.

Deus continua falando: “Voltem, filhos rebeldes! Eu os curarei da sua rebeldia” (22). O povo responde com um belo discurso de arrependimento: “Sim! Nós viremos a ti, pois tu és o Senhor, o nosso Deus. De fato, a agitação idólatra nas colinas e o murmúrio dos montes é um engano. No Senhor, no nosso Deus, está a salvação de Israel.” (22-24).

Quase ouvimos Deus lamentando em sua resposta: “Se você voltar, ó Israel, volte para mim!” (4. 1).

E a partir daí Jeremias profere uma das condenações mais veementes contra o povo de Deus e seus líderes. No capítulo 5, o profeta denuncia toda a falsidade e superficialidade de sua religião, de seus sentimentos, de sua vida espiritual. Seu Avivamento, anteriormente chamado de Fingimento, não tem melhorado a vida ou o testemunho do povo. Mas nada ficará sem castigo. “Não devo eu castigá-los? Não devo eu vingar-me de uma nação como essa?” (5. 29), refrão repetido inúmeras vezes.

Ele diz que o “povo tem coração obstinado e rebelde; eles se afastaram e foram embora” (5. 23). Eles não têm ousadia para viverem na presença do Deus vivo de maneira coerente. “O meu povo é tolo, eles não me conhecem. São crianças insensatas que nada compreendem. São hábeis para praticar o mal, mas não sabem fazer o bem” (4. 22).

Jeremias diz que procurou alertar a liderança sobre a fragilidade da vida que fingem viver. Mas eles quebraram o jugo de Deus, diz o profeta. O castigo os alcançará por isso.

“Irei aos nobres e falarei com eles, pois, sem dúvida, eles conhecem o caminho do Senhor, as exigências do seu Deus. Mas todos eles também quebraram o jugo e romperam as amarras. Por isso, um leão da floresta os atacará, um lobo da estepe os arrasará, um leopardo ficará à espreita, nos arredores das suas cidades, para despedaçar qualquer pessoa que delas sair. Porque a rebeldia deles é grande e muitos são os seus desvios” (5. 5 -6)

O Fingimento, a que chamamos de Avivamento tantas vezes, se propaga através de profetas que estão mais preocupados em manter a sensação de satisfação espiritual dos fiéis do que em anunciar-lhes a vontade e a Palavra do Deus vivo. Eles constroem uma estrutura de entretenimento religioso, de festa cúltica, que não desafia qualquer um a uma vida de santidade na presença do Deus vivo. E no nível superficial, a Igreja impressiona com seus números e sua pirotecnia. Se olharmos como Deus olha, não vemos mais que puro fingimento.

Levantar-se, profeticamente, para denunciar situação assim é correr sérios riscos. Jeremias foi preso, perseguido, jogado em uma cisterna seca. Tudo por ter sido fiel ao chamado que Deus lhe fez e não ter se deixado levar pela impressão bonita que a Reforma de Josias deixou. Não podemos apenas aplaudir o crescimento da Igreja sem refletirmos, de outra parte, sobre os seus significados, implicâncias e profundidade.

“Porque a comunidade de Israel e a comunidade de Judá têm me traído”, declara o Senhor. Mentiram acerca do Senhor, dizendo: “Ele não vai fazer nada! Nenhum mal nos acontecerá; jamais veremos espada ou fome. Os profetas não passam de vento, e a palavra não está neles; por isso aconteça com eles o que dizem”.(...) “Uma coisa espantosa e horrível acontece nesta terra: Os profetas profetizam mentiras, os sacerdotes governam por sua própria autoridade, e o meu povo gosta dessas coisas. Mas o que vocês farão quando tudo isso chegar ao fim?” (5. 11 – 13 e 30 – 31).

Mas vocês acham que falar assim agrada ao Senhor? Você acha que Ele tem prazer nessas coisas?

Jr. 13. 15 -17:

“Escutem e dêem atenção, não sejam arrogantes, pois o Senhor falou. Dêem glória ao Senhor, ao seu Deus, antes que Ele traga trevas, antes que os pés de vocês tropecem nas colinas ao escurecer. Vocês esperam a luz, mas Ele fará dela uma escuridão profunda; sim, Ele a transformará em densas trevas. Mas, se vocês não ouvirem, eu chorarei em segredo por causa do orgulho de vocês. Chorarei amargamente, e de lágrimas os meus olhos transbordarão, pois o rebanho do Senhor foi levado para o cativeiro”.

Há ainda um caminho para sairmos do fingimento e experimentarmos o amor de Deus, o Avivamento Genuíno. Nos dias de Jeremias, depois que o castigo veio e o povo foi levado para o exílio na Babilônia, o profeta escreve uma carta aos exilados, em nome do Senhor. E na carta Deus diz:

“Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro. Então vocês clamarão a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procuraram e me acharão quando me procurarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês, declara o Senhor, e restaurarei a sorte de vocês” (Jr. 29. 11 -14)

2.2.04

Sobre sermos, simplesmente

Tenho me surpreendido com o número de pessoas que a cada dia encontro procurando identificar seu próprio eu. Pessoas que simplesmente estão desejando ser na vida. Pessoas que tem entendido que viver não se resume a realizar algumas funções fisiológicas, ou acadêmicas, ou intelectuais, ou profissionais, ou qualquer coisa que se opere fora de si mesmas.
Do mesmo modo tenho visto pessoas, como eu, que estão insatisfeitas com seus pensamentos e as respostas que encontram por aí. Sabem o que não significa ser alguém, mas ainda não sabem o que significa ser. O que nos constitue como ser humano.
É claro que esta é uma discussão filosófica antiga demais, recorrente, que reitero, também, quase sempre, neste blog. E qual a resposta? Não sei se ela há, ou se cada um de nós precisa encontrar a sua. Só sei que provavelmente o significado de nossos questionamentos a respeito devem estar nos dizendo que tanto a nossa sociedade quanto as nossas posturas filosóficas de vida não nos satisfazem mais. Não nos garantem nada. Não nos fazem sermos alguém, ou sermos felizes.
Eu proponho um caminho, também antigo. Um caminho místico. Um caminho espiritual. Se é verdade que fora de nós mesmos não encontraremos felicidade, é verdade também que sozinhos também não. Você já pensou em Jesus dessa forma? Você já pensou que provavelmente a fonte de seu ser humano se encontra nele?
Veja o que diz Paulo, quando escreve aos Gálatas (2: 19 e 20):
Pois, quanto à lei, estou morto, morto pela própria lei, a fim de viver para Deus. Eu fui morto com Cristo na cruz. Assim já não sou quem vive, mas Cristo é quem vive em mim. E esta vida que vivo agora, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se deu a si mesmo por mim.

24.1.04

Mais um texto que me foi enviado por Raquel Nocrato:

Os sonhos de Deus

Você pode estar se perguntando: “Mas, como saber qual é o sonho de Deus para mim? Como saber qual é a vontade de Deus para a minha vida? Como saber se os meus sonhos são de Deus ou são só meus?” Talvez você esteja agora totalmente frustrado, ferido, sem sonhos. Mas eu quero convidar você a receber de Deus a cura e a restauração dos sonhos do seu coração. Ele é poderoso para ressuscitar os sonhos que morreram na sua vida.

Antes de você nascer, Deus sonhou com a sua vida; ele mesmo lhe formou com um propósito e uma missão (Salmo 139.13-18). A Bíblia afirma, em Filipenses 2.13 que o querer, o sonhar, vem de Deus e é ele mesmo quem realiza, quem concretiza estes sonhos. Desde a sua infância, mesmo antes de você conhecer Jesus, Deus estava semeando os sonhos dele para sua vida. Ele os estava plantando dentro do seu coração. E ao longo dos anos, na medida em que você foi crescendo, estes sonhos também foram crescendo.

Você brincava de boneca ou de carrinho, e sonhava em se casar, ter filhos. Eu mesma, desde criança, brincava de desenhar o meu vestido de noiva. Talvez você goste de computadores, de vídeo games, e desde cedo sonha em trabalhar com isso. Ou, quem sabe, você admira o seu pastor e pensa: “Quando crescer eu vou ser um pastor assim.” Talvez assistia a programas na TV que mostravam imagens de outros países, de pessoas de diferentes, culturas, e isso lhe atrai. São sementes dos sonhos de Deus em seu coração. Se você tem um compromisso com Deus, ele vai compartilhar muito mais sonhos para você.

Infelizmente, porém, a Bíblia diz que o diabo veio para matar, roubar e destruir. Ele é inimigo de Deus, e assim, inimigo dos sonhos de Deus. Portanto, ele é nosso inimigo e adversário dos sonhos de Deus para nós. A Bíblia também diz que a nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Mas como é que ele age para matar, para assassinar os nossos sonhos? Será que ele aparece “de chifre” para nos assustar e frustrar nossas esperanças?

Certamente não. Ele usa a boca das pessoas que estão perto de nós. Ele usa olhares. Ele usa as pessoas que mais amamos e admiramos para nos ferir e desencorajar. Meu pai sempre me disse que as pessoas que mais nos ferem são aquelas que mais amamos, porque elas estão perto de nós. Se alguém que eu nem conheço direito fala algo contra mim, não me importo. Mas se alguém da minha casa ou do meu ministério fala contra mim, isso dói, isso desencoraja.

Jesus também passou por isso. Ele veio ao mundo com uma missão. Ele tinha um grande sonho, que era reconciliar o ser humano com o Pai. Ele veio para morrer na cruz em nosso lugar e ressuscitar, vencendo tudo por nós. Ele sabia que ia para Jerusalém para ser crucificado. Em Marcos 8.31-33 vemos Pedro chamando Jesus à parte para tentar convencê-lo de não ir a Jerusalém. E a resposta de Jesus ao seu discípulo foi: “Arreda, satanás, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens!” Quando entendemos que é o diabo quem usa a boca das pessoas para nos ferir e matar nossos sonhos, fica mais fácil perdoar essas pessoas. Você precisa perdoar as pessoas que foram instrumento de Satanás para te ferir e frustrar.

8.12.03

O texto abaixo me foi enviado por minha amiga Lívia:

O cristão é cheio de contradições

O cristão crê que morreu em Cristo, porém está mais vivo que antes e alimenta a esperança de viver plenamente para sempre. Caminha na terra enquanto assentado no céu e, conquanto nascido na terra, vê que, depois da sua conversão, não se sente em casa aqui. Como o falcão da noite, que nos ares é a essência da graça e da beleza, mas no chão é desajeitado e feio, vê-se o cristão em sua melhor forma nos lugares celestiais, mas não se adapta bem aos modos da própria sociedade em que nasceu.
O cristão logo vem a compreender que, para ser vitorioso como filho do céu entre os homens da terra, terá que seguir, não o padrão comum da humanidade, mas o contrário. Para ter segurança, arrisca-se; perde a vida para salvá-la, e corre o perigo de perdê-la, se procura preservá-la. Desce para subir. Se se recusa e descer, já está embaixo, mas quando começa a descer, está subindo.
É mais forte quando está mais fraco, e mais fraco quando está mais forte. Embora pobre, tem o poder de enriquecer a outros, mas quando fica rico, desaparece a sua capacidade de enriquecer a outros. Possui mais quando distribui mais, e possui menos quando mais podde retém.
Ele pode ser superior, e muitas vezes o é, quando se sente inferior, e mais sem pecado quando tem maior consciência de pecado. É mais sábio quando sabe que não sabe, e sabe menos quando adquire a maior soma de conhecimento. Às vezes faz mais, nada fazendo, e vai mais longe quando fica parado. Na prostração ele consegue manobrar para regozijar-se, e mantém alegre o coração mesmo na tristeza.
Ele crê que já está salvo e, no entanto, espera ser salvo mais tarde e aguarda ansiosa e jubilosamente a salvação futura. Teme a Deus, mas não tem medo dEle. Sente-se dominado e nulo na presença de Deus e, contudo, não prefere nenhum outro lugar a estar em Sua presença. Sabe que já foi purificado se seu pecado e, todavia, está penosamente ciente de que em sua carne não habita bem algum.
Ama supremamente a Alguém que ele nunca viu e, apesar de pobre e de baixa condição, conversa familiarmente com Aquele que é Rei de todos os reis e Senhor de todos os senhores, e o faz consciente de que não há incongruência em agir assim. Está certo de que seus direitos são menos que nada, e, entretanto, crê sem nenhuma dúvida que ele é a menina dos olhos de Deus e que por ele o Filho Eterno fez-se carne e morreu na cruz da infâmia.
O cristão é cidadão do céu e admite que a sua lealdade prioritária é a essa cidadania; mas pode amar a sua pátria terrena com a intensidade e dedicação que levou John Knox a orar: "Ó Deus, dá-me a Escócia, ou morro".
Espera jubilosamente entrar logo no fulgente mundo além, mas não tem pressa de deixar este mundo e está plenamente disposto a aguardar a convocação do seu Pai Celeste. E não pode entender por que o incrédulo crítico deva condená-lo por isso; tudo lhe parece tão natural e certo, dentro das circustâncias, que ele não vê nisso nada de incoerente.
Além do mais, o cristão, que leva a sua cruz, é tanto um pessimista declarado como um otimista sem rival na terra.
Quando olha para a cruz é pessimista, pois sabe que o mesmo julgamento que caiu sobre o Senhor da glória condena, naquele ato, a natureza inteira e todo o mundo dos homens. Ele rejeita toda esperança humana fora de Cristo porque sabe que o mais nobre esforço do homem é apenas pó edificando sobre o pó.
Todavia, ele é serena e confiantemente otimista. Se a cruz condena o mundo, a ressureição de Cristo garante a vitória final do bem no universo todo. Através de Cristo, tudo estará bem no final, e o cristão aguarda a consumação.
A. W. Tozer

27.11.03

Sinais e Maravilhas


Apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho para o lado ocidental do deserto, chegou ao monte de Deus, a Horebe. Apareceu-lhe o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia. Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima? Vendo o Senhor que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui! Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa. Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, o Deus de Isaque e os Deus de Jacó. Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus.
(Êxodo 3. 1-6).

Introdução.
Se nós temos algumas chance de conhecermos a Deus é devido à Sua extrema solicitude e graça para conosco.

Mesmo sendo o Alto e o Sublime, o Eterno, Ele desce até o homem por amor, se revela a ele e o livra.

Dessa forma, para se fazer conhecido, o Senhor faz uso de sinais, instrumentos usados em nosso socorro. Isso porque o nosso conhecimento de Deus não pode ser imediato. Lembra que no capítulo 33 de Êxodo Moisés pede ao Senhor que lhe permita ver a Sua glória: Rogo-te que me mostres a tua glória (33. 18). Deus então lhe diz que fará passar a Sua bondade por Moisés e lhe proclamará o Seu nome, mas completa: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá (20). Moisés, então, vê a Deus pelas costas! O conhecimento, a visão de Deus não pode ser imediata.

Isso nos leva a perguntar: O que são sinais? São isso mesmo: sinais que nos apontam Deus. São meios que Deus utiliza para se revelar.

Não podemos nos concentrar nos sinais sob pena de criarmos amuletos no lugar de crermos nAquele que é nosso Refúgio e Fortaleza; sob pena de crermos eu um ídolo em vez de crermos em Deus. Há um ditado que nos vale aqui: precisamos tomar cuidado para que as copas das árvores não nos impeçam de ver a beleza da floresta inteira. Para encontrarmos a Deus, precisamos olhar a realidade que cada evento, cada sinal manifesta e precisamos transcender até a visão de Deus. Aqui voltamos ao nosso texto. Moisés está apascentando o rebanho de seu sogro quando vê um espetáculo: uma sarça está envolta pelo fogo mas não se consome. Quando Moisés se aproxima, o Senhor lhe dirige a palavra e se apresenta como o Deus de Israel que desceu a fim de livrá-lo.

O versículo 3 nos diz: Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima?

Moisés foi tentado a se concentrar no sinal. Mas a voz do Senhor chamou sua atenção para o maravilhoso Deus que se revelava e a sarça cumpriu seu papel: ser sinal. Daí em diante, ela não será mais mencionada no texto. Deus tirou o foco de Moisés da maravilha da sarça e pôs sua atenção na maravilha exata: o Deus vivo que desce para livrar o Seu povo. Moisés é um exemplo de uma postura correta diante do sinal que revela Deus.

Mas a Bíblia tem exemplos negativos do trato do povo do Senhor com Seus sinais. Sobre três desses exemplos gostaria de falar agora.

1. O texto de 1 Samuel 4. 1-11 nos diz que por ocasião de uma batalha com os filisteus, os israelitas foram derrotados. Sem entender a causa do ocorrido, Israel decide trazer para o campo de batalha a arca do Senhor:

Voltando o povo ao arraial, disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o Senhor, hoje, diante dos filisteus? Tragamos de Siló a arca da Aliança do Senhor, para que venha no meio de nós e nos livre das mãos de nossos inimigos (3).

Eles criam que a simples presença da arca lhes garantia a vitória. Vieram a arca e os dois filhos do sacerdote Eli, Hofni e Finéias. A princípio, os filisteus temeram: Os deuses vieram ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! Que tal jamais sucedeu antes (7). Mas eles decidem se por lutar varonilmente. A conseqüência dessa batalha se descreve no fim do nosso texto: Então, pelejaram os filisteus; Israel foi derrotado, e cada um fugiu para a sua tenda; foi grande a derrota, pois foram mortos de Israel trinta mil homens de pé. Foi tomada a arca de Deus, e mortos os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias (10-11). O que era a arca? Era o instrumento, o testemunho da revelação de Deus.

Com o tempo, adquiriu o caráter de amuleto. Os israelitas passaram a acreditar que a simples presença da arca garantiria a presença de Deus e Sua bênção Esse tipo de atitude para com o sinal de Deus faz com que a religiosidade do povo se degenere em puro culto supersticioso.

2. Jeremias 7. 1-7 diz: Palavra que da parte do Senhor foi dita a Jeremias: Põe-te à porta da Casa do Senhor, e proclama ali esta palavra, e dize: Ouvi a palavra do Senhor, todos de Judá, vós, os que entrais por estas portas, para adorardes ao Senhor. Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Emendai os vossos caminhos e as vossas obras, e eu vos farei habitar neste lugar.

Não confieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este. Mas, se deveras emendardes os vossos caminhos e as vossas obras, se deveras praticardes a justiça, cada um com o seu próximo; se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses para o vosso próprio mal, eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, desde os tempos antigos e para sempre.


O que era o templo? Era o local escolhido por Deus para se manifestar a Seu povo.

No entanto, não passava de um meio. O próprio Salomão, quando consagrou o templo, reconheceu que o Deus que criou o universo não poderia habitar em uma casa feita por homens. No tempo de Jeremias o templo tinha se tornado um meio de aplacar a consciência, em uma religiosidade sem conversão. Essa religiosidade sem conversão, nessa atitude errada diante do templo, era manifestação de um culto hipócrita.

3. Por fim, a história contada em Números 21. 4-9 é bastante conhecida. Devido ao pecado do povo, Deus enviou serpentes que começaram a ferir e matar Israel. Então, o Senhor disse a Moisés que construísse uma serpente de bronze; todo aquele que mordido por uma serpente, olhasse para aquela feita de bronze, seria curado, seria salvo.

A serpente de bronze era sinal da salvação de Deus. Quando Jesus fala a respeito de sua morte, ele a liga à serpente: E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna (João 3. 14-15). No entanto, a serpente, sinal da salvação de Deus, foi tornada em objeto de culto idólatra. Você pode ler em 2 Reis 18 sobre o rei Ezequias, que promoveu uma grande reforma religiosa e política em Judá. No versículo 4 está escrito que Ezequias: Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã.

Conclusão.

Quanto mais corrermos atrás dos sinais (e nos concentrarmos neles) por si mesmos, mais distantes vamos estar daquele que eles revelam e de quem são instrumentos: Jesus. Centralizar nossa fé nos sinais é uma tentativa nossa de controlar o Soberano Deus. Nossa idolatria é criar um Deus que funcione a nosso bel-prazer; um amuleto que garanta a bênção divina independente do culto verdadeiro.

Nos exemplos, Israel transformou os meios da revelação de Deus em amuletos, garantia da presença divina. O Senhor continua usando meios para se fazer conhecido a nós. Não se concentre nos sinais. Os sinais servem para nos apontar Deus, mas podem nos fazer cultivar uma vida religiosa sem conhecimento, um culto supersticioso. Podem nos fazer cultivar uma vida religiosa sem responsabilidade pessoal e compromisso, um culto hipócrita. Podem transformar o sinal ou meio em um deus manipulável, manifestação de um culto idolátra. Cuidado para que as copas das árvores (os sinais) não o impeçam de ver a beleza da floresta inteira (o Deus vivo).