14.2.05

Temor e intimidade

A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a Sua aliança.

Salmo 25. 14

Imagine uma casa. Uma casa não. Uma mansão. Cada quarto, uma suíte confortável. Nada de calor, nada de dispersão, nada de dúvida, nada de insegurança. Puro conforto, puro prazer. Vida pura.

Você caminha por essa casa. A cada cômodo, você se impressiona com a tranqüilidade, a paz e a beleza do lugar. Todas as coisas arrumadas, tudo organizado. E o lugar é seu. Todo seu. Você não precisará dispor de um real para usufruir desse lugar, para entrar nele, para estar em seus cômodos, para viver em seus quartos. O lugar é seu de graça, mesmo você percebendo o seu enorme valor. O lugar é seu. Lugar de intimidade e comunhão.

É desse modo que Deus nos mostra a sua comunhão e seu convite à intimidade. A casa da intimidade com Deus é extremamente aprazível e confortável. É belíssima. É rica. É de graça. O preço dessa aliança foi pago totalmente por Jesus na Cruz do Calvário.

Os quartos estão vazios porque nos esperam para entrar e viver a intimidade e o temor do Senhor. Disse Jesus: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mt. 6. 6). Os quartos ainda estão aí, com as portas abertas, esperando corajosos que se disponham a entrar e trancar a porta da comunhão em secreto.

Cada vez mais me convenço da necessidade que temos de viver na intimidade do Senhor. Sendo capazes de ouvir a Sua voz maravilhosa, entender aquilo que Ele tem para nós. E obedecer, como diz um cântico do Koinonya: Se eu quiser adorar a Deus, tenho que entender Seu Filho/ Se eu quiser adorar a Deus, tenho que ouvir do Espírito/ E obedecer...

A intimidade do Senhor não é exclusividade de uns poucos santos privilegiados. A intimidade do Senhor é o melhor lugar do mundo para que cada cristão esteja. É a casa maravilhosa que Deus tem preparado para todos os que O servem. Para aqueles que O buscam e O adoram. Para os que O temem. Não é uma mansão exclusiva nem exclusivista. Os quartos, confortáveis, estão vazios porque estão esperando os seus ocupantes. Cada um de nós.

A intimidade do Senhor é um lugar espiritual que o próprio Deus preparou e tem preparado para cada um de nós, Seus filhos. É o lugar onde Ele deseja que estejamos. É o lugar onde deveríamos desejar estar.

A intimidade do Senhor é para aqueles que O temem. Jesus disse isso na Sua última noite: Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer (Jo. 15. 14-15).

Conhecer o Senhor intimamente é um privilégio disponível a cada um de nós. Aos que se dispuserem a entrar na casa da intimidade com Deus e usufruir de um de seus quartos de comunhão com o Pai, Deus dará a conhecer os mistérios de Sua aliança. Seremos conhecidos como amigos de Deus. Como Abraão. E a quem estiver nessa casa, Deus possivelmente repetirá palavras como as que disse a Abraão: Ocultarei a Abraão o que estou para fazer? (Gn. 18. 17).

É interessante olhar para a tradução na Linguagem de Hoje do versículo 14 do Salmo 25: O Senhor Deus é amigo daqueles que O temem e lhes ensina as condições da aliança que fez com eles. Deus está convidando você a entrar na casa da Sua intimidade, tomar posse do quarto que Ele preparou ali especialmente para você e se tornar amigo íntimo e conhecedor fiel dEle mesmo. Não perca tempo. A porta está aberta.

O preço do discipulado: calculando o valor (final)

Lc. 14. 28-32

É muito bom ser crente. Seguir a Jesus tem suas vantagens. Mas todo esse texto que trata acerca da vocação para o discipulado é um alerta para os discípulos e os pretensos discípulos de Jesus: meçam bem as conseqüências e as exigências antes que se tornem cristãos. Calculem o preço do discipulado.
Eu acredito que muitos dos nossos problemas com o testemunho da igreja e com a qualidade da vida espiritual dos crentes derivam do fato de que as pessoas estão vindo para a igreja, mas não calculam os custos de ser discípulo. Acham lindo seguir Jesus, mas não percebem o enorme valor que está implicado no discipulado.
Jesus, em outras palavras, está dizendo: “Muito bem. Agora vocês conhecem as minhas exigências. E aí? Estão dispostos a atendê-las?”
Antes que você me diga que não se recorda quais são as exigências, vou lembrá-las. Primeiro, quem não tiver Jesus como prioridade, não pode ser Seu discípulo. Em seguida, quem quiser seguir seu próprio caminho, não pode ser Seu discípulo. E, também, quem não renunciar a tudo, não pode ser Seu discípulo.
Para demonstrar a necessidade de calcular o preço, Jesus usa primeiro o exemplo da construção de uma torre (v. 28-30). O construtor deve calcular o quanto vai gastar e se tem os recursos necessários, para que não venha a parar a obra no meio do caminho, incapaz de concluí-la. O texto diz que as pessoas começam a zombar do construtor da torre incompleta (v. 30). É como quando a gente ouve frases como: Mas... e não era crente? Como pôde fazer isso? Uma vergonha para o Evangelho, resultado da dificuldade em calcular o valor do discipulado.
A comparação de Jesus continua com a história de um exército pequeno que vai enfrentar um exército bem maior. Dez mil homens podem enfrentar 20 mil em igualdade de condições? Se não, o exército menor precisa evitar o conflito, precisa chegar a um acordo. O desafio imposto por essa estória ao nosso discipulado é saber se temos condições de assumir os compromissos do discipulado. O Jesus que nos chama a sermos discípulos radicais dEle mesmo, ao mesmo tempo nos desafia a calcularmos o preço, a termos ciência se podemos assumir os compromissos implicados.
Jesus está estimulando os seus possíveis discípulos a que pesem bem a situação na qual vão entrar. É preciso amar mais Jesus que à família, que à própria vida. É preciso amar mais Jesus que a liberdade de escolhermos os nossos caminhos. É preciso amar mais a Jesus que os recursos e bens desse mundo. Ser discípulo é viver uma vida nessa dimensão.
Grandes multidões acompanhavam Jesus naqueles dias. Mas não tinham muito compromisso com Ele. Do mesmo modo, grandes multidões têm acompanhado Jesus hoje em dia. Mas com que grau de compromisso? Será que calcularam o custo do discipulado? Jesus é a sua maior prioridade na vida?
Este texto de Lucas me faz lembrar o trecho de João 6, quando muitos deixaram Jesus após um discurso desafiador do Mestre. Acredito que algo assim aconteceria em nossas igrejas se mais gente prestasse atenção à Palavra de Jesus: as pessoas terminariam deixando as igrejas porque não estariam dispostos ao compromisso radical com Cristo.
Grandes multidões acompanhavam Jesus. O desafio dEle para nós é que não sejamos mais um na multidão, e sim, sejamos verdadeiros discípulos.

13.2.05

O preço do discipulado (parte 3)

Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.

Lc. 14. 33

Você lembra da história do jovem rico (Lc. 18. 18 – 30). O chamado de Jesus para o discipulado acontece antes de seu encontro com o jovem rico. Ali, naquele relato, Jesus diz que é impossível que um rico se salve, mas que o que é impossível para os homens é possível para Deus. E poucos versículos depois, Zaqueu surge em cena (Lc. 19. 1 – 10) provando o que Jesus acabara de dizer. A salvação entra na sua casa quando o publicano abre mão de seus bens.

É preciso despojar-se dos bens materiais para se tornar discípulo de Cristo. Precisamos amar mais a Jesus que aos nossos bens. Mas a avareza é um dos pecados mais presentes em nosso meio. Teologias têm sido escritas para defender a avareza, para que os crentes acreditem que ser avaro é sinal de ser abençoado por Deus. Mas Jesus deixou uma coisa muito clara: Quem não renunciar a tudo, não pode ser seu discípulo.

Disse Jesus que os campos de um homem rico produziram com abundância. Ele sentou, pensou e disse que destruiria tudo para fazer celeiros maiores para recolher toda a sua produção e riqueza. Depois, se sentaria e diria à sua alma: “tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te”. Qual a Palavra do Senhor para esse homem? “Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?”. De que vale a riqueza? De que vale a avareza? Ou, como disse Jesus, de que vale o homem entesourar para si mesmo e não ser rico para Deus? (Lc. 12. 13 – 21).

Se for preciso, por amor a Cristo, podemos perder tudo e não nos fará falta nada. Deveria, pelo menos, ser assim. Lutero, após o martírio de dois de seus alunos, disse:

Se temos de perder

Família, bens, poder,

E, embora a vida vá,

Por nós Jesus está e

Nos dará Seu reino

Quem não renunciar a tudo o que tem não pode ser discípulo de Cristo. Se o que temos não for consagrado a Deus, estamos sendo infiéis e corremos o risco de estarmos nos afastando da presença do Senhor.

12.2.05

O preço do discipulado (parte 2)

E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.

Lc. 14. 27

No fim do evangelho de João, Jesus tem um diálogo interessante após a restauração de Pedro. Jesus diz a Pedro que haverá um momento na sua vida, mais precisamente sua morte, em que ele será levado contra a vontade: “quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (Jo. 21. 18). João, que escreve após a morte de Pedro, pode nos explicar o sentido das palavras de Jesus: “Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus” (Jo. 21. 19). Jesus diz a Pedro, em outras palavras, que ele deve abrir mão do “direito” de escolher seu próprio caminho na vida.

Para ser discípulo de Jesus é necessário abrir mão de seus “direitos” de escolha, especialmente quando a escolha diz respeito aos seus caminhos na vida. O discípulo deve estar disposto a seguir o mesmo caminho que Jesus trilhou. É um caminho de cruz e de morte. Um caminho de total consagração aos propósitos de Deus.

O caminho de Jesus, para o qual ele convida aqueles que querem ser seus discípulos, terminou na Cruz do Calvário. Jesus nos convida a irmos com Ele até o Calvário. O radical chamado de Jesus para nós deve nos levar a uma disposição até a morte por Ele. Paulo falava disso quando disse que o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fp. 1. 21).

Os apóstolos de Jesus entenderam isso perfeitamente. O primeiro a ser martirizado por causa da fé em Jesus foi Tiago, a quem Herodes cortou a cabeça. Ainda podemos lembrar de Estevão, Paulo e tantos mais. Pedro, que seria crucificado em Roma, pediu para que o crucificassem de cabeça para baixo porque, diz a tradição, não se achava digno de morrer do mesmo modo que o seu Senhor. O século XX foi o período da história da Igreja em que mais cristãos foram mortos por causa de sua fé. Essa é ainda a realidade de nossos dias. E ainda deve ser a radicalidade do discipulado de Cristo. Cristo nos chama a uma vida de compromisso tal que precisamos estar dispostos à morte, se preciso for.

Alguns anos atrás, a Bandeirantes fez uma série de reportagens em acampamentos das Farc´s colombianas. As reportagens mostravam especialmente jovens fazendo treinamento de guerrilha na selva e manifestando a entrega total à ideologia que move aquela luta. Todos, sem exceção, expressavam a disposição ao martírio. Sua fé na luta era tamanha que eles entendiam que suas vidas não poderiam ser tomadas em maior conta. Ao ver aquilo, fiquei me questionando se nós, cristãos, que temos a mais perfeita mensagem, a melhor idéia pela qual poderíamos morrer – Jesus - teríamos disposição semelhante. O chamado ao discipulado de Cristo é um chamado para seguí-Lo até a Cruz. Até a morte, se preciso for. Quem dirá sim?

11.2.05

O preço do discipulado (parte 1)

Grandes multidões o acompanhavam....

Lc. 14. 25

Durante todo o ministério de Jesus, multidões o acompanhavam, diz o texto bíblico, ainda que poucos fossem seus discípulos verdadeiramente. Hoje em dia, isso ainda é real. Atualmente, grandes multidões ainda acompanham Jesus. Mas, muitas vezes, a qualidade da fé e, muito mais, do compromisso dessas pessoas é bastante superficial. Como nos dias de Jesus.

Vemos hoje multidões em nossas igrejas que não aprenderam o valor do discipulado de Jesus, multidões que são incapazes de assumir esse discipulado completamente. Muita gente está acompanhando Jesus, mas sem mudança de vida, sem compromisso e sem discipulado. Estão na igreja, têm comportamento religioso, oram, conhecem a Bíblia, estão ativos na obra, mas não têm Jesus como sua maior prioridade.

São essas pessoas, que desconhecem o preço do discipulado de Cristo, que causam vergonha ao Evangelho pela qualidade de vida espiritual que levam. Refiro-me aos “famosos” que se convertem, mas nós mesmos podemos ser essas pessoas que se declaram cristãos, freqüentam nossas igrejas, mas não conhecem a intimidade do Senhor e não buscam a Sua face e santidade.

Grandes multidões acompanhavam Jesus. Ele as conhecia mais que pudessem imaginar. Naqueles dias, na Palestina, muitos seguiam Jesus sem entender que o discipulado de Jesus é radical e custoso. Muitos seguiam Jesus sem compromisso real.

É diante dessa multidão que o seguia que Jesus faz um radical chamado ao discipulado. Um chamado que deveria ressoar profundamente ainda hoje, em nossos dias. Urgentemente precisamos prestar atenção ao desafio de Jesus.

A primeira e mais essencial coisa que Jesus fala é que quem não o tiver como prioridade na vida não pode ser seu discípulo (v. 26). A família não pode ser mais amada que Jesus. Os amigos não o podem, nem os bens, nem os afazares. Coisa alguma pode ser mais importante ou mais amada por nós do que Jesus.

Nem ainda a própria vida. Anos atrás, em uma época de intensos conflitos religiosos na Indonésia (a maior nação muçulmana do mundo), uma história emocionou cristãos de todo mundo. Muçulmanos atacaram a minoria cristã em toda parte do país. Um desses lugares foi um acampamento de “King´s Kids” da Jocum (Jovens com uma Missão). Vários jovens, adolescentes e missionários foram martirizados. Alguns sobreviveram, trepados em coqueiros, escondidos, para poderem contar o testemunho. Um dos garotos que foi martirizado era desafiado a cada instante a negar a Cristo para sobreviver. Cada vez que ele reafirmava sua fé em Jesus, seus atacantes decepavam uma parte de seu corpo: pernas, braços; até que, por fim, tiram-lhe a vida. Mas aquele jovem foi fiel até a morte, amou Jesus até o fim, sem o negar. Porque ele entendeu que nada pode ser mais prioritário que Jesus, nem mesmo a nossa vida.

Jesus não amou a própria vida, antes a entregou por nós. Não podemos por a nossa vida em maior grau de importância e interesse que Jesus e a Sua vontade. Não podemos por nossos próprios interesses em proeminência frente àquilo que é a vontade de Deus.

Aqui está Jesus instigando a multidão que O segue a tê-lo como prioridade absoluta na vida. Jesus é mais importante que tudo, até nós mesmos. Quem não entender e viver isso não pode ser Seu discípulo.

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal