10.3.05
Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.
Filipenses 2. 12
Tem gente que se converte, assume uma vida com Deus, certos compromissos com a Igreja, mas se põe em uma preocupante e delicada situação de total inércia. Para essas pessoas, o seu grau de comprometimento com a vida cristã se esgota na freqüência aos cultos e demais serviços da igreja, na prática de algumas virtudes e gestos cúlticos. E basta. Não há mais nada que almejam, nem outra coisa que seja necessária. Sua vida se resume a esse filme. E não lhe cobrem muito porque acredita que já faz mais que o suficiente.
Mas uma olhada na Bíblia vai nos mostrar o quão longe da verdade está essa postura. A vida cristã é uma vida dinâmica. O marco inicial da igreja foi o derramar do poder (dinamis) do Espírito Santo. Ser cristão e ter o Espírito é ser dinâmico, porque a dinamite do Espírito não pode nos deixar parados, quietos, estagnados. Por isso, a verdadeira vida espiritual cresce. Nossa espiritualidade nunca terá hoje a maturidade de ontem, nem amanhã a de hoje, se aprendermos a viver na dimensão do poder/dinamite do Espírito.
A verdadeira espiritualidade cresce. Não é estagnada nem se dá por satisfeita com o que já alcançou ou com que já tem. Cresce e busca ainda mais do Senhor e do Seu Poder. É preciso crescer e estar disposto para isso. É preciso, então, desenvolver a nossa salvação.
Dizer que é preciso desenvolver a salvação não significa, em absoluto, colocar nas mãos do cristão a responsabilidade por sua condição de salvo. Não significa que o homem possa fazer qualquer coisa ou que haja qualquer coisa em si que possa conduzir à salvação. Desenvolver a salvação é expressão que traduz a necessidade de crescimento na vida cristã. A verdadeira espiritualidade não se conforma em estar parada, mas quer sempre mais de Deus, quer sempre estar mais perto dEle, quer sempre maior intimidade. Quer crescimento.
A verdadeira espiritualidade deixa de lado as coisas que para trás ficam e caminha sempre na direção do alvo, em busca do prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Desse modo, crescer, desenvolver a salvação, significa pôr em prática a natureza de nova criatura salva. Há uma ênfase comunitária nesse processo: crescer na vida espiritual é viver de modo digno da vocação para que a igreja continue saudável.
O caminho da salvação foi traçado: Jesus morreu pelos nossos pecados. Quem nele crer será salvo. Aquele que crer e for feito nova criação em Deus buscará sempre uma vida de aprofundamento na santidade do Senhor. Se você se sente satisfeito com o que é e com o que tem, há algo errado. Mas há jeito e tempo para mudança.
Deus não definiu essas coisas para fazermos sozinhos. É Ele quem age através de nós. Porque é Deus quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp. 2. 13). Deus faz isso, criando em nós o desejo (tanto o querer) e agindo para torná-lo prático em nossas vidas (como o realizar). Ele nos deixa desejosos de crescer e obedecer e nos capacita para tanto. E age de acordo com a sua sempre boa vontade.
É da vontade de Deus que desenvolvamos a nossa salvação porque a verdadeira espiritualidade sempre cresce e sempre buscará o crescimento.
9.3.05
A injustiça da Graça
Aquela senhora não conseguia aceitar isso de modo nenhum. Primeiro, ela começava a achar que esse conceito de Graça é injusto, porque permite ao pior criminoso que se depare com ela ser restaurado e regenerado, passando a viver uma nova vida. Mais que isso: permite a esse sujeito ser salvo da morte eterna. Eu confirmei que, em certo sentido, a graça é profundamente injusta, já que preserva a todos nós que somos criminosos diante do Pai.
Nossa conversa foi ficando mais difícil quando eu lhe mostrei que nenhum ser humano é menos indescupável diante de Deus. Nenhum de nós é perfeito e a perfeição é o padrão exigido por Deus. Mostrei o que Tiago fala: Porque quem quebra um só mandamento da lei é culpado de quebrar todos (Ti. 2. 10). Desse modo, dizia eu, do ponto de vista de Deus eu e o pior dos criminosos que ela pudesse imaginar estávamos no mesmo patamar. Ela tentou argumentar, mas eu lhe mostrei ainda que Paulo, um homem reconhecidamente santo, um apóstolo, costumava se classificar como o mais miserável dos homens, o pior dos pecadores.
Essa conversa me fez pensar em algumas coisas. Mas a principal delas é a convicção de que uma verdadeira espiritualidade se admira com a Graça de Deus. Quando conhecemos o Senhor e olhamos para dentro de nós mesmos, é impossível não ficar repleto de admiração com a Graça do Senhor.
A nossa noção de justiça é retributiva. Por isso, quando vemos os nossos erros, muitas vezes, temos no coração a convicção de que a coisa certa que deveria acontecer era sermos punidos em nós mesmos pelas nossas faltas. Olhamos o que fizemos e ainda fazemos, e percebemos que cada falha, cada erro, cada pecado nos torna criminosos diante de Deus. Cada pecado nosso clama por justiça. Clama por punição. É impossível passar, nessas horas, sem se sentir absorto pela Graça. Mesmo que eu mereça a condenação pelos meus pecados, toda a condenação já foi cumprida por Jesus. Desse modo, não há mais condenação possível. Como posso aceitar passivamente isso? Os que não conhecem a Jesus vão, então, pagar penitências ou, se forem espíritas, esperar a purgação dos seus erros em uma outra vida.
Diversas vezes, em diversos momentos, cresce em meio peito um sentimento indignado de injustiça. Como Deus pode ser tão amoroso comigo? Como Ele pode me amar, apesar de quem eu sou? Como Ele pode me perdoar, a mim, tão pecador? Mas é assim. E eu não posso fazer nada, graças a Deus. Deus me ama de tal maneira que foi capaz de entregar Seu Único Filho, Jesus, para que morresse a minha morte a fim de que eu tivesse vida. Essa é a Graça Imensurável do Senhor.
A verdadeira espiritualidade se admira com a (injusta) Graça de Deus. Se deparar com o Senhor e experimentar a sua Graça, o seu Amor gratuito, o perdão imerecido, o seu toque de vida, leva-nos a uma vida de real espiritualidade. Um viva comunhão com o Senhor de toda terra. Firmada na Graça.
8.3.05
Somente da Cruz
Gálatas 6. 14.
Mas Paulo tem uma resposta incisiva e inquietante para essa pregação: Mas eu me orgulharei somente da Cruz do nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, por meio da Cruz, o mundo está morto para mim, e eu estou morto para o mundo.
A primeira coisa que Paulo diz é que tem alguma coisa por que se orgulhar. Mas é algo muito diferente do orgulho e da vanglória manifestos pelos pregadores judaizantes. Se há alguma coisa pela qual Paulo pode sentir orgulho é pela Cruz. Para entender a profunda implicação disso, precisamos pensar no que significava morte de Cruz.
A crucificação era a forma mais cruel e torturante de execução promovida pelo Império Romano. Ao ponto de que cidadãos romanos, por pior que fossem seus crimes, não poderiam ser condenados à morte de Cruz. A Cruz era o tipo de morte daquelas pessoas que não eram consideradas gente por Roma. Era a morte de gente desqualificada. Após dias de agonia, a pessoa terminava morrendo sufocado pelo próprio peso que o impedia de respirar. Era uma forma humilhante de morte. Também do ponto de vista religioso, já que as Escrituras diziam que era maldito o que ficava pendurado no madeiro.
Há algum sucesso humano na Cruz? Há alguma glória e orgulho? De jeito nenhum. Na Cruz só se vê a derrota humana. Do ponto de vista do homem, nada podia ser mais humilhante e desqualificante do que a crucificação. Na Cruz há derrota do homem e há o pecado do homem. Para Paulo, a Cruz representa a morte de qualquer anseio por sucesso ou reconhecimento mundano.
A degradante e humilhante Cruz não é lugar para vanglória, mas nela se revela o nosso pecado e o quanto não somos merecedores de qualquer coisa que venha de Deus. A glória da Cruz de Cristo está na vitória de Cristo. Jesus venceu na humilhação e no abandono da Cruz. Diante da Cruz do Senhor, o homem é humilhado e Jesus é exaltado. Não há espaço para vanglória.
Paulo vai mais fundo ainda. Muito mais do que se orgulhar da Cruz de Cristo, ele se identifica com essa Cruz. Aquela não é apenas a Cruz do Senhor, mas é agora também a Cruz de Paulo, por meio da qual o mundo está morto para mim, e eu estou morto para o mundo.
Os judaizantes pregavam o sucesso mudano, como muitos pregadores eletrônicos de nossos dias. Paulo nega isso a tal ponto que se põe crucificado com Cristo, morto com Ele. Paulo se identifica com a humilhação de Cristo para poder participar da Sua vitória: Tudo o que eu quero é conhecer a Cristo e sentir em mim o poder da sua ressurreição. Quero também tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte, com a esperança de que eu mesmo seja ressuscitado da morte para a vida (Fp. 3. 10 – 11). O caminho da glória e da vitória de Deus passa pela Cruz.
A mensagem da Cruz tem perdido adeptos em nossos dias. Ninguém quer saber mais de desafios e compromissos da comunidade do Crucificado. Vitória e sucesso são as únicas coisas que muitos de nós buscamos. Vitória e sucesso do ponto de vista mundano, traduzido em bênção, bens e boa vida.
Na perspectiva de Deus, vitória é, antes de tudo, realização através da comunhão com Deus. É realização antes de tudo, não bênçãos. É comunhão com o Senhor, não galardões. É o Reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm. 14. 17).
7.3.05
Na dimensão correta
Romanos 8. 2.
O temor casto, ao contrário, se fundamentaria no amor e na essência do caráter. Enquanto o primeiro faria o que é certo pelo temor de ser punido e sofrer as duras penalidades, o segundo age da maneira correta porque é a única que conhece. Este tem um temor casto que se firma no amor.
Agostinho aplica isso falando de nossa relação com Deus. De um lado, teríamos homens que vivem vidas corretas apenas pelo temor do castigo. Assumem a vida cristã porque temem o inferno. Se este não existisse, sua vida seria outra. Do outro lado, pessoas assumem seu compromisso unicamente por amor. Temem a Deus e O honram porque descobriram que não há nada mais precioso do que isso.
Essa reflexão sempre me faz pensar na relação entre moral e ética. Do ponto de vista da Cruz, a relação entre moral e ética estabelece três tipos de homens. O primeiro é o que vive na dimensão da moral. A Lei de Deus é algo que, externamente, lhe cobra um comportamento digno. Moralista e formalista, este homem leva, na aparência, uma vida correta. Faz tudo de acordo com os preceitos morais que regem a vida em sociedade e que, cremos, vêm da Lei de Deus. Mas sua vida é superficial. Não teve uma experiência pessoal que tenha transformado o seu interior. É cristão, mas muito provavelmente nem sabe o que isso significa no fundo de sua alma. Seu compromisso é moral. Faz as coisas que julga corretas motivado pelo medo. Nem só o medo da punição de Deus, mas principalmente por medo da punição da Igreja. Ouve a voz da Igreja dizendo o que fazer, porque não sabe ouvir a voz de Deus.
O segundo tipo de sujeito é o que faz a sua própria ética. Não se preocupa com leis morais, nem ouve ninguém. Seu único árbitro é a própria consciência. Faz o que julga o melhor para si, sem importar com suas conseqüências para outros. É o sujeito autônomo. Sua única Lei é a consciência. Não ouve a moral, mas também não ouve a Deus. O autônomo pode ser alguém que a sociedade julgue que vive uma vida correta, como também pode ser que não, já que ele não julga ter a responsabilidade de prestar contas com ninguém. Pode entrar na Igreja, mas mesmo aí nem ouvirá a Igreja nem muito menos ouvirá a voz de Deus. Só ouvi a si mesmo. Este é aquele de quem Paulo fala: Por isso as pessoas que têm a mente controlada pela natureza humana se tornam inimigas de Deus, pois não obedecem a Lei de Deus e, de fato, não podem obedecer a ela. As pessoas que vivem de acordo com a sua natureza humana não podem agradar a Deus (Rm. 8. 7 – 8).
O terceiro sujeito é o que foi alcançado pela graça transformadora de Deus. Não pauta sua vida nem pela moral, nem pela própria consciência apenas. Esse sujeito é aquele, que alcançado pela salvação de Cristo, vive na dimensão da qual fala Paulo: Pois a Lei do Espírito de Deus, que nos trouxe vida por estarmos unidos com Cristo Jesus, livrou você da lei do pecado e da morte (Rm. 8. 2). Esse tem a vida interior transformada pela Palavra de Deus. Ele não pode ouvir sua consciência apenas porque a sua consciência está marcada pela Lei do Senhor, a Lei do Espírito e da Vida. A Palavra de libertação e de serviço. A Lei de Deus não é externa a si, mas foi impressa com letras de fogo no Seu coração. Agora, Ele mesmo é conduzido pelo Senhor. Quando esse tempo chegar, farei com o povo de Israel esta aliança: eu porei minha lei na mente deles e no coração deles a escreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Sou eu, o Senhor, quem está falando. Ninguém precisará ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer a Deus, o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais importantes como as mais humildes (Jr. 31. 33 – 34).
Esse sujeito transformado fica sem opção. A vontade, a Lei, a Palavra de Deus foi impressa na sua consciência. Ele conhece o Seu amor. Seu caráter está sendo transformado. Santificado, vive sua vida na dimensão da vontade de Deus. A Lei de Deus não lhe é exterior, por isso não vive na dimensão moral. Não dá ouvidos ao seu coração, marcado pelo pecado, mas a transformação interior de coração promovida pela Lei do Espírito da Vida, que imprime em sua consciência a Palavra do Senhor lhe dá uma dimensão de vida cristã diferenciada. É real. É transformada. Está na intimidade do Senhor.
O desafio do Senhor para nós é escaparmos das garras do moralismo e da autonomia. Lamentavelmente muitos dentre nós vivem na dimensão desse temor servil ou da independência total de tudo e de todos, como se não houvesse um Deus a Quem prestar contas. Mesmo dentro das igrejas cristãs. O desafio do Senhor é que abramos o coração, rasguemo-lo em arrependimento, e clamemos para que o Espírito nos marque a mente, o coração e a consciência com a Sua Lei e Palavra. Para que vivamos vidas libertas, na dimensão da intimidade do Senhor, conhecendo-O pessoalmente, buscando-O cada dia mais, se servindo com alegria e liberdade. Assim, ninguém precisará ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer a Deus, o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais importantes como as mais humildes. O desafio é descobrir e viver no temor casto, regido pelo amor, do Senhor. Que é princípio da sabedoria.
6.3.05
A Cruz
Mateus 10. 34.
O problema é outro. Jesus não veio ao mundo para outra coisa senão a Cruz. A Cruz é espada, é divisão. A Cruz revela que a fé em Cristo é exclusivista. A relação com Deus unicamente acontece por meio da Cruz de Cristo. Não há outra possibilidade, não existem outros caminhos. A Cruz é divisão, separando a fé em Cristo de qualquer sentimento religioso. A Cruz transforma o discipulado do cristão e qualquer religião em opções auto-excludentes. Na Cruz, o cristão se distingue de qualquer fiel de qualquer outra religião. A Cruz é espada.
A hora de Jesus chegou na Cruz. A Cruz de Cristo é o julgamento do pecado humano. É a radicalidade do ministério dEle. Por isso, até concordo que perceberíamos que o ensino de Cristo se repete em outras religiões, mas o centro do ministério de Cristo e da revelação de Deus não estão aí: Essas coisas a gente encontra na Cruz. O mistério, do qual Paulo fala, está na Cruz. A Cruz é o centro de tudo, mais do que qualquer palavra. Ali, na Cruz, Ele levou sobre Si as nossas dores, os nossos pecados, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele.
Isso não está disponível a todo homem. A Cruz faz separação, divide, é espada. Jesus mesmo disse: Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele CRÊ não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo. 3. 16). O que Paulo explica, escrevendo aos Romanos: Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm. 10. 9).
O problema do homem não é ensino, nem é moral. O problema do homem é teológico. O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à destruição eterna. Deus proveu um meio de redenção: Jesus Cristo, o Seu Filho. Para isso, é preciso crer e confessar. Não adianta viver de maneira correta, sem tomar parte do sacríficio de Jesus, que é o Caminho único. Só se toma parte desse Caminho, desse sacrifício, crendo nEle e confessando a Ele.
Por isso, a Cruz e fé em Cristo são espada. Dividem os homens. Separam os discípulos de Jesus de todo e qualquer religioso. Quem assume o Caminho da Cruz se distingue e se exclui dentre os outros. O Caminho de Cristo é Caminho de separação e de divisão.
Por isso, pregamos esse Evangelho, que se resume em Cristo e este crucificado. Porque é a única esperança do homem de andar com Deus. Não é religião, mas o centro da vida e ministério de Jesus: a Cruz.