4.4.05

O rio

Debaixo da entrada, saía água que corria na direção do leste, pois o Templo dava para frente para esse lado.

Ezequiel 47. 1

Quantas vezes a gente já se espantou vendo, em tevê ou pessoalmente, a nascente de rios? De vez em quando, especialmente agora que se discute com mais freqüência o projeto para transposição do São Francisco, a televisão mostra como ele nasce lá na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Não sei quantos já não duvidaram de que aquele filetezinho de água se transforma, serra abaixo, no principal rio do Nordeste Brasileiro. É impressionante imaginar que um rio extenso e caudaloso surge como uma pequena e frágil nascente, que suas águas correntes se assemelham mais ao jorrar de uma torneira do que à fonte de vida e de energia para tantos milhões de brasileiros.

A visão que Ezequiel tem também vai nesse sentido. O rio nasce como uma fonte pequena que sai de detrás do templo e corre para o leste. O anjo leva o profeta até a margem do rio mais a frente. E o profeta vai constando o crescimento deste rio em força, extensão e volume. Onde se passava com águas nos joelhos, agora só se passa a nado. O rio vai crescendo.

Olhar para a nascente de um rio é perceber um pequeno e desprezível filete de água, que corre montanha abaixo e, crescendo e ganhando força, vira um gigantesco e caudaloso rio, como é o São Francisco, ou como é o Amazonas.

Pense, então, no que representa a imagem do rio e da água do ponto vista da revelação de Deus nas Escrituras. A partir disso, podemos pensar que, do mesmo modo que ocorre com um rio, um grupo pequeno e desprezível, mesmo uma só pessoa, pode dar início a um movimento revolucionário, orando e dando espaço para que flua no seu meio o rio do Senhor.

O rio do Senhor é o rio da presença do Senhor, o rio da Sua Água Viva, o rio de Seu Amor. A intercessão de um, a oração de poucos, a fome e sede de Deus que alguns possam manifestar e possuir, o seu mergulhar na presença de Deus, nos Seus rios, nas Suas águas de amor, têm potencial para se multiplicar, passando de um filete desprezível junto à nascente a um rio gigantesco, caudaloso.

O rio do Senhor, que pode nascer a partir de um minúsculo riacho, leva vida onde chega, faz brotar vida e renovo em toda parte, leva refrigério ao deserto. Transforma tudo por onde passa, fazendo a terra seca se tornar manancial de águas da vida.

Este rio é a presença amorosa do Senhor que jamais terá limites em Sua ação em nossas vidas. Por isso, lembre que a maior das revoluções, aquela que é promovida pelo próprio Deus, por Suas águas de vida e por sua presença de amor, pode começar a partir de um coração comprometido em buscá-lo, em dar lugar à Sua ação. Pode começar por um pequeno grupo. Pode começar por um, por alguns ou por muitos; pode começar por mim e por você. Não despreze os dias dos humildes começos, pois você não sabe que grande rio transformador por surgir daí (Zacarias 4. 10).

3.4.05

O melhor lugar do mundo

Como eu amo o teu Templo, ó Senhor Todo-Poderoso!
Salmo 84. 1

Sei que é uma frase feita, mas, com certeza, o melhor lugar para se estar é o centro da vontade de Deus. O salmista trabalha de maneira muito bonita a idéia. Impressiona a força dos versos paralelos reforçando a mensagem do salmo: não há outro lugar que eu queira estar, não há ninguém mais feliz que aquele que está na presença do Altíssimo em Seu templo.
As saudades pelos átrios do Senhor, que se transformam em sede da alma, são uma outra maneira de manifestar o desejo de se estar e de andar na presença e na comunhão com Deus. O caminho para que isso estivesse disponível para nós foi comprado pela Cruz de Jesus. Através dela, podemos mergulhar diante de Deus para saciarmos a fome e sede que temos da Sua presença.
Não se comparam mil dias fora do centro da vontade de Deus com um dia que seja diante dEle. Andar com Ele, poucos instantes que sejam, é uma experiência tão marcante que nos transforma por completo, fazendo mudar, principalmente, as prioridades de nossa vida. Se eu vi Deus...se eu andei com Ele... se estou em Sua Presença... como poderei ser o mesmo? Como poderei querer as mesmas coisas? Como me agradarão as tantas coisas que me empolgavam e que, hoje reconheço, são a mais pura tolice? Como seria possível isso?
Quando nos deparamos com a presença transformadora do Deus vivo ficamos como aquele sujeito da parábola que encontrou um pérola de enorme valor, enterrou-a em uma área e vendeu tudo que tinha para adquirir aquele terreno. Aos olhos incautos, ele estava fazendo uma grande loucura. Mas ele sabia que lucro lhe estava reservado naquele negócio. Valia a pena trocar tudo na vida por aquela pérola.
Do mesmo modo, é o conhecimento do Senhor no Seu Reino, a presença dEle na nossa vida. Mas vale um dia na Sua presença... quando descobrimos a riqueza disso, nada pode nos segurar: abrimos mão de qualquer coisa que seja, qualquer riqueza, qualquer sonho, qualquer segurança, em troca da melhor coisa possível, da única realmente boa, a experiência de andar com o Senhor, de estar na Sua presença, de vivenciar a Sua Graça. Não existe nada melhor que a plena comunhão com Deus, coisa que alcançamos por meio unicamente de Jesus. Por isso, minha alma anseia pelas saudades de estar nos átrios do Senhor.
Quando o salmista se vê em perigo, ele sabe que não deve temer nada porque o Senhor é a sua luz e a sua salvação, livrando-o de todo perigo. Então, ele ora: A Deus, o Senhor, pedi uma coisa, e o que quero é só isto: que ele me deixe viver na sua casa todos os dias da minha vida, para sentir, maravilhado, a sua bondade e pedir a sua orientação. Em tempos difíceis, ele me esconderá no seu abrigo. Ele me guardará no seu templo e me colocará em segurança no alto de uma rocha (Salmo 27. 4 – 5).
O meu desejo é que esse sentimento possa sempre o nosso sentimento, que essa oração possa ser sempre a nossa oração: o desejo pela presença constante e ininterrupta do Senhor Jesus em nossas vidas e a nossa vivência para sempre na presença dEle.

2.4.05

Onde está Deus?

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus

Salmo 14. 1

Não são raras as ocasiões em que as pessoas se questionam, ou nos questionam, perguntando: Onde está Deus? Nas grandes tragédias, como na Tsunami do ano passado; nos momentos de dor e morte, como em chacinas em que se mata, de graça, 30 pessoas no Rio de Janeiro. Momentos de mal e dor, pratos cheios para o desafios dos incrédulos.

O mundo, boa parte das vezes, parece provar que a fé em um Deus bondoso e de amor não é outra coisa senão uma grande mentira. Qualquer piedade, quando sentimento religioso, é visto como tolice. O problema do mal, o problema da dor, o dilema da morte, parecem atentar contra a realidade da presença do Deus vivo no nosso meio. Um Deus que é Senhor do universo e tem todas as coisas nas Suas mãos.

Dizem os que duvidam de Deus, diante grandes dores e tragédias, que se há um Deus, ou Ele não é Todo-Poderoso, e, por isso, não pode evitá-las, ou não é Bondoso e Amoroso, por isso, as deixa acontecer.

Se o nosso olhar for um olhar puramente humano, será impossível não darmos certa razão a essas críticas. Mas a nossa visão não parte de qualquer ponto humano. Devemos olhar a vida sob o prisma da Palavra de Deus. Sob esse prisma, não é tolo o que crê em um Deus Poderoso e Bom no universo. Antes, ao contrário, o tolo, o insensato, é aquele que diz no coração que não há Deus. Mas afirmar isso é reafirmar o aparente contra-senso: Deus é bom e poderoso e o mal continua reinando no mundo.

Isso me faz pensar em dois relatos que se contam sobre os dias no Campo de Concentração de Auschwitz, onde os nazistas mais mataram gente. Conta-se que um grupo de judeus assistia enquanto um oficial alemão espancava uma criança judia no campo de concentração. Após certo tempo, ele a matou com um tiro. Nesse momento, ouviu-se alguém perguntar: Onde está Deus? Ao que foi respondido: Estava ali, com aquela criança.

Um outro relato é de um fato ocorrido alguns anos depois da Segunda Guerra. Em um debate entre alguns teólogos e filósofos famosos, um dos teólogos debatedores parafraseou uma fala de um poeta e disse que era possível orar depois de Auschwitz porque se orava em Auschwitz.

Não acredito em respostas para a questão do mal. Não acredito que qualquer um tenha uma resposta, nem que precisamos tê-las. Não acho que a fé em Cristo nos dá todas as respostas. Não consigo entender nem jamais poderei entender isso. Mas sei de uma coisa: o Cristo a quem amo está sempre comigo, sempre conosco, mesmo no meio das maiores tragédias. Essa é a grande coisa do que Deus faz por nós. E é a grande certeza que podemos ter de que, ao contrário do que pensa o tolo, há um Deus.

O evangelho de João está repleto de promessas a esse respeito: Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês ... A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela... Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês (Jo. 14. 18; 23 e 15: 4). E, estando com Cristo, poderemos entender que mesmo que não saibamos o porquê do mal, podemos passar por ele, porque Ele está conosco: Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo (Jo. 16. 33). Enfim, tolo é o que não se lembra que, quando subiu ao céu, Jesus não prometeu o fim do mal no mundo, mas que estaria conosco por todos os dias, até o fim dos tempos (Mt. 28. 20).

Jesus nunca nos prometeu que nos livraria da tragédia, do mal e da dor. Não. O cristianismo não é a mensagem de uma boa vida por todo o tempo. Mas a mensagem da Cruz de Cristo ensina que Ele sempre estará conosco. Ele pode não impedir que enfrentemos a dor, mas com certeza Ele estará conosco quando passarmos por ela, enxugando a nossa lágrima e fazendo com que a dor e o sofrimento sejam mais fáceis de suportar. Porque, sim, há um Deus. Houve um Deus em Auschwitz. Há um Deus na baixada fluminense. Há um Deus no meio das vítimas da Tsunami.

1.4.05

Sobre morrer e viver

Ele foi pai de outros filhos e filhas, e morreu...

Gênesis 5. 4 e 5; 10 e 11; 13 e 14; etc.

A iminência da morte do Papa João Paulo II me remeteu a este capítulo fascinante do livro de Gênesis. Contando a história de personagens como Adão, Sete, Enos, Matusalém, o autor pontua o fim de cada biografia com a frase simples e profunda: e morreu.

A repetição dessa constatação parece servir para que o leitor fixe, com muita clareza e com muita certeza, que há uma coisa na vida que é inescapável: cada um desses patriarcas, mesmo tendo vivido centenas de anos, um dia, morreu. Nós morreremos também porque a morte é certa.

Mas a morte certa aponta para nós a importância da vida. De vivermos uma vida que faça toda diferença.

Morremos sós, diz a sabedoria popular. Mesmo tendo tido filhos e filhas incontáveis, cada um dos personagens dessa capítulo se distingue por duas coisas: longa vida e morte certa. Certa e solitária.

Todas biografias são iguais, à exceção de uma. Enoque é, dentre estes, quem viveu menos anos na terra. E é o único que não experimenta a morte. Enquanto Cainã, por exemplo, morre com novecentos e dez anos de idade, Enoque fica na terra até os trezentos e sessenta e cinco anos. E, ainda assim, não experimenta a morte.

O que é diferente na vida de Enoque? Enoque viveu em comunhão com Deus durante trezentos anos... Ele viveu sempre em comunhão com Deus e um dia desapareceu, pois Deus o levou (Gn. 5. 22 e 24). Ele viveu sempre em comunhão com Deus. A vida de intimidade com Deus fez toda a diferença.

A certeza da morte deve nos empurrar a uma vida que valha a pena e faça diferença. E essa vida só pode ter lugar a partir do instante em que o ser humano se dispõe a andar em comunhão com Deus.

O caminho para essa comunhão foi traçado por Jesus. O preço foi pago por Ele. Viver uma vida que valha a pena, uma vida intensa, por menor que seja, é caminhar na comunhão com Deus por meio de Jesus. É pôr o Senhor como prioridade mais absoluta de cada passo e de cada coisa na vida. Para que a morte, mesmo que venha (e virá) não nos apanhe de surpresa e não se torne um momento difícil, mas seja o cume de uma caminhada com Deus em que Ele fez diferença em nós e através de nós. A morte certa deve nos inspirar a viver com intensidade cada momento e vivê-lo sempre na presença do Deus vivo.

Isso me conduz a duas passagens biográficas dos escritos de Paulo. Primeiro, ele diz aos filipenses algo radical e tremendo. Que deveria estar nos umbrais de nossas portas, nos instigando e desafiando a cada dia. Ele diz: Para mim viver é Cristo, e morrer é lucro (Fp. 1. 21). Viver uma vida de comunhão com Deus, na intimidade, implica não ter a própria vida como prioridade, como coisa mais preciosa, mas entender que tudo de importante existe apenas em Cristo. Por isso, uma vida de comunhão com Deus vale a pena e nos leva a experimentar a morte como lucro.

Uma outra passagem biográfica de Paulo que nos deveria empurrar para uma vida diferente da que estamos vivendo – empurrar a uma vida a tal ponto diferente que Deus teria o desejo de nos levar ao Seu colo como fez com Enoque – está em sua carta a Timóteo: Quanto a mim, a hora já chegou de eu ser sacrificado, e já é tempo de deixar esta vida. Fiz o melhor que pude na corrida, cheguei até o fim, conservei a fé. E agora está me esperando o prêmio da vitória, que é dado para quem vive uma vida correta, o prêmio que o Senhor, o justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos os que esperam, com amor, a sua vinda (2 Tm. 4. 6 – 8).

A certeza da morte deve nos inspirar a uma vida de comunhão íntima com o Senhor, através de Jesus Cristo. Um dia, vamos morrer. Mas podemos fazer tudo valer a pena, como fez Enoque, priorizando as coisas mais importantes.

Um dia, vamos morrer. Mas se a nossa vida tiver feito diferença, se tivermos vivido com Deus, teremos a tranqüilidade e a paz daquele que chega ao fim da jornada com a alegria do dever cumprido: fiz o melhor que podia e sei que agora minha comunhão com Deus continua, porque o viver é Cristo e o morrer é lucro.

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

Saudades do não vivido

Como gostaríamos que Tu rasgasses os céus e descesses, fazendo as montanhas tremerem diante de Ti!

Is. 64. 1.

É estranho, mas apostaria que a maioria de nós já experimentou um sentimento de saudades por fatos ainda não vividos. Em geral, é saudade do futuro ou saudade de sonhos, das coisas que desejamos. Desejamos com tanta intensidade que elas se tornam reais e fazem falta quando não se concretizam. Tornam-se tão reais em nossos sonhos que quando não se fazem concretas em nosso mundo sentimos a sua falta como a pior das saudades.

Quando olho para esse texto, um de meus preferidos, sinto essa saudade das coisas que não vivi. É como se meu coração desejasse com tanta intensidade que essa manifestação de Deus se realizasse, mesmo que eu não tenha muita idéia de tudo que ela envolve, que a angústia do sonho não concretizado, o sonho de ver o Senhor descer dessa maneira maravilhosa, se transforma em uma espécie de nostalgia.

A gente pode ler na história momentos em que Deus fez isso por que clama o profeta. Esses momentos costumamos denominar avivamentos. Poucos de nós não gostariam de vivenciar essas experiências. Poucos de nós não gostariam de ver o Senhor rasgando os céus e descendo, fazendo montes tremerem e se derreterem na Sua Presença. Poucos de nós não gostariam de vivenciar aquela chuva maravilhosa da presença do Senhor que transformando tudo, revoluciona as coisas, fazendo sempre brotar a vida abundante. Vida abundante como resultado das águas de amor de Deus que vivificam cada coração alcançado pela manifestação de Deus.

Eu jamais vi a ação de Deus na dimensão pela qual clama o profeta. Mas tenho saudades dela em minha vida. Meu coração tem saudades dessa ação do Senhor. Meu coração tem saudades das coisas maravilhosas que Deus fez e eu não vi, coisas que não esperávamos, quando Ele desceu do céu e toda a terra tremeu ante o fulgor de Sua Glória e Sua Presença.

Quando leio histórias, biografias, minha saudade aumenta. Em 1730, um grupo de jovens alunos da Universidade de Oxford (na Inglaterra) começou a se reunir para orar, estudar a Bíblia e buscar a santidade, em uma época em que a Igreja estava profundamente corrompida. Eles, em tom de zombaria, foram chamados de “Clube Santo” pelos colegas. Em 1735, o grupo se dissolveu, mas três amigos continuaram a semear a santidade: os irmãos John e Charles Wesley e George Whitefield.

No dia do ano novo de 1739, os três e mais quatro membros do Clube Santo se reuniram em Londres. O próprio John Wesley conta o que aconteceu: “Cerca de três da manhã, enquanto estávamos orando, o poder de Deus caiu tremendamente sobre nós, a tal ponto que muitos gritaram de alegria e outros caíram ao chão (vencidos pelo poder de Deus). Tão logo nos recobramos um pouco dessa reverência e surpresa na presença de Sua Majestade, começamos a cantar a uma voz: ‘Nós te louvamos, ó Deus; Te reconhecemos como Senhor’”.

Eu tenho saudades disso que não vivi. Como gostaríamos que Tu rasgasses os céus e descesses, fazendo as montanhas tremerem diante de Ti!

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal