16.4.05

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Humilhando-se sob a mão de Deus

Portanto, sejam humildes debaixo da poderosa mão de Deus para que Ele os honre no tempo certo.
1 Pedro 5. 6

Eu olho para esse texto e penso em uma situação de injustiça que o povo de Deus tem enfrentado no tempo em que Pedro está escrevendo. No capítulo anterior, o apóstolo ensina que os cristãos não deveriam se admirar da prova de aflição que estão enfrentando, mas sim se alegrar por estarem tendo a oportunidade de sofrerem por amor de Cristo. Vocês serão felizes se forem insultados por serem seguidores de Cristo, porque isso quer dizer que o glorioso Espírito de Deus veio sobre vocês. Se algum de vocês tiver de sofrer, que não seja por ser assassino, ladrão, criminoso ou por se meter na vida dos outros. Mas, se alguém sofrer por ser cristão, não fique envergonhado, mas agradeça a Deus o fato de ser chamado por esse nome (4. 14 – 16).
O contexto em que Pedro escreve é, portanto, o contexto de perseguição injusta. E, quando somos injustiçados e sofremos por causa disso, nossa reação natural, instintiva até, é de auto-proteção, de defesa. Queremos reagir ao mal sofrido da maneira que for preciso. Mas não é isso que devemos fazer. Portanto, sejam humildes debaixo da poderosa mão de Deus para que Ele os honre no tempo certo. Se somos injustiçados, precisamos entregar o controle nas mãos de Deus, nos humilharmos sob Suas mãos.
Mas é aí que está o problema. Nós gostamos de ter o controle de nossas vidas. Gostamos de controlar os nossos passos, de entender o que está acontecendo conosco, de definir os lugares em que queremos chegar e controlar o nosso caminho até lá. Humilhar-se, no entanto, neste caso, é aceitar ceder o controle de tudo em nossa vida. É entregar a direção de tudo ao Senhor, esperando que, no momento apropriado, Deus corrigirá todas as distorções e nos honrará.
Enquanto isso não acontece, a ansiedade é algo praticamente inescapável. Não gostamos, como seres humanos, de sermos dependentes. Quando somos forçados a depender (ao entregar o controle das coisas nas mãos de Quem sabe) e quando a solução que esperamos demora, nasce em nossos corações a ansiedade. Ansiedade que é quase uma aflição degeneradora. Ansiedade que nasce porque não temos o controle de nossos passos.
Ano passado, nós fizemos uma viagem à Recife. Um dia só, todo o pessoal da igreja. Lá, fomos ao Veneza Water Park. Tinha um tobogã aquático chamado Anaconda. Obviamente, o seu formato era o de uma enorme cobra. Você entrava pelas escadas e quando escorregava pelos poucos segundos que levava a aventura, você não via nada. O Anaconda não tem nenhuma iluminação. Você não faz idéia de onde está, nem do que vem a seguir, nem quando chegará na piscina lá embaixo. Para alguns, passar por essa situação é profundamente aflitivo. Você não tem nenhuma possibilidade de controlar seus passos, seus caminhos. Você está rendido à Lei da Gravidade. E é essa impossibilidade de controle da vida que pode gerar ansiedade.
Do mesmo modo, pode acontecer quando você cede a direção de sua vida ao Pai Celeste, mesmo ciente de que Ele sabe o que é melhor, conhece todo o caminho e levará você à melhor situação possível. Ainda assim pode restar a ansiedade. Não sabemos ser dependentes. Quando você desce no Anaconda pode relaxar ao lembrar que sabe onde acaba a aventura, mesmo que não veja onde está no momento. Você pode se projetar para o futuro e pode experimentar certa tranqüilidade. Na vida, você tem uma saída: Entreguem todas as suas preocupações a Deus, pois Ele cuida de vocês (v.7). Nele, você sabe como acaba a aventura.

15.4.05

O melhor presente

Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai, que está no céu, dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!

Lucas 11. 13.

Como qualquer criança, adorava receber presentes de minha mãe. Como qualquer criança, também, detestava quando estes eram roupas. Pensem em uma frustração cada vez que desembrulhava um pacote e me deparava, não com aquele carrinho cujo comercial vira na televisão, mas com um conjunto para passear nos domingos.

Nem todas as coisas que eu gostaria de ter podiam ser compradas por minha mãe. Cedo me conscientizei disso. Então, nem criava expectativas, nem pedia por determinadas coisas. Sabia que algumas delas eram um tanto inalcançáveis. Com isso, nunca tive aquela bola de futebol que sempre sonhei. Mas ganhei grandes e bons presentes, porque minha mãe, acima de tudo, me amava. E amava muito. Ela sabia como me dar bons presentes, nos seus limites. E ela sabia que presentes eu não deveria ganhar por não serem adequados.

É disso que fala o nosso texto. Minha mãe, humana, podia saber de tudo isso. E não me negaria qualquer coisa, desde que não fosse arriscado para minha segurança, que eu lhe pedisse como presente de aniversário ou do dia das crianças. Se minha mãe sabia isso, imagine o que não sabe o meu Pai celeste. Com uma vantagem: o orçamento não é empecilho ou limite. Deus dá o que for o melhor para nós, e dá abundantemente, e dá gratuitamente.

No texto paralelo de Mateus, no lugar de Espírito Santo surge a expressão “boas coisas”. Isso implica, claramente, que a melhor coisa que o ser humano pode querer, que pode pedir a Deus e pode receber dEle é o Espírito Santo. E esse não nos é dado por medida, com limitações. Basta pedir. Basta clamar com um coração sedento. Basta suplicar ao Pai celestial. Se minha mãe, sendo humana, não podia me negar, por causa de seu amor, qualquer coisa que eu pedisse, quanto mais Deus não me dará o melhor presente, o Espírito, se eu Lhe pedir.

Se não vivemos uma vida plena, na plenitude do Espírito, tomados plenamente por Deus, é porque não aprendemos a pedir isso ao Pai.

Pedimos tudo, mas não nos lembramos de pedir o melhor, a melhor coisa: o Espírito Santo.

Pedimos tudo, mas pedimos mal. Pedimos bênçãos egoísticas para gastar em nossos próprios e particulares prazeres. Pedimos assim e não recebemos, porque deixamos de pedir a melhor coisa, aquela que mais nos abençoará e mais nos fará ser bênção para os outros.

Não pedimos para nos embriagarmos pelo Espírito Santo. Não pedimos que Ele nos encha. Que nos tome plenamente. E não sabemos, assim, o que temos perdido. Porque todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate... Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai, que está no céu, dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem! (Lc. 11. 10 e 13). Peça pelo Espírito, o melhor presente que o Melhor Pai quer lhe dar.


14.4.05

A graça na vida


Porque a Tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios Te louvam.

(Salmo 63. 3)

Eu serei totalmente redundante ao afirmar que o pior mal que aflige as pessoas na sociedade contemporânea é a depressão. Doença terrível, tem como conseqüência lógica, se não for tratada, a morte por suicídio. A depressão faz com que o individuo acredite que a vida perdeu a graça. A depressão é a doença da vida sem graça, sem sentido. E de uma vida sem graça se abre mão sem pestanejar.

Muita gente está vivendo vidas sem graça. Mergulham em seus traumas, em suas dores. São afogados por suas mágoas. E, gradativamente, vão se destruindo e vão destruindo toda a alegria de viver e toda graça da vida. Vão descendo cada vez mais até o fundo de um poço de perdição. De morte. Vida sem graça é morte certa.

O primeiro passo para sair dessa situação é reconhecer o problema e buscar formas de se livrar de tudo aquilo que só contribui para o próprio naufrágio no mar de dores. Cada mágoa, cada trauma, cada dor, se não for tratado, pesará como âncoras a nos empurrar para o fundo de morte das águas de nossas piores emoções. Vida sem graça.

Mas uma vida sem depressão também pode ser sem graça. A promessa de Jesus é de vida abundante. De vida plena. Essa mensagem tem sido deturpada de diversas maneiras, e temos perdido a chance desse nível diferenciado de vida. A vida, que não precisa ser levada pela depressão, também não precisa ser ordinária.

A maior descoberta que alguém pode fazer na vida é que a Graça do Senhor é maior que a vida. O maior impacto que nossas vidas podem sofrer é o impacto de descobrir que a Graça do Senhor é maior que a vida.

Quando mergulhamos no oceano de amor do Senhor, percebemos, pouco a pouco, que as coisas mais importantes para nós, e mesmo a nossa própria vida, se tornam secundárias diante do prazer de se estar na presença do Senhor. A vida de graça plena é aquela que descobre que nada é melhor que estar na presença graciosa de Deus, por meio de Jesus. Nada é melhor que experimentar a graça na vida, nem mesmo a própria vida.

A descoberta da graça na vida nos empurra para uma nova dimensão. Nosso maior prazer é a comunhão com o Senhor. Não nos importa o relógio, não nos importa as regras sociais, não nos importa o que os outros pensem. Nada que seja relevante na vida importa mais para aquele que descobre o prazer e o gozo da presença do Senhor. Quem descobre que a graça na vida é maior e mais plena e importante que o próprio viver, descobre que nem a morte pode destruir isso. Descobre que todos os pesos que possam, porventura, tentar rouba-lhe a vida, são sempre esmigalhados pela graça.

A graça na vida inverte nossos juízos de prioridade. Se há coisas importantes que merecem nossa atenção na vida, elas se deslocam imediatamente para o segundo plano. Se eu tenho aulas para preparar, se eu tenho pesquisa para realizar, se eu tenho contas para pagar, telefonemas para fazer, nada disso se interpõe entre mim e a minha maior prioridade da vida; nenhuma dessas coisas jamais será mais importante para mim do que experimentar a graça na vida por meio da comunhão com o Pai.

A descoberta da graça na vida faz ter sentido renovado, para nossos corações, as palavras da oração do salmista. A gente agora entende exatamente o que quer dizer: Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu Te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de Ti; o meu corpo Te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu Te contemplo no santuário, para ver a Tua força e a Tua Glória (Sl. 63. 1 – 2). A graça na vida faz as palavras perderem a capacidade de comunicar. Estes sentimentos e as nossas novas dimensões de vida plena não se traduzem em palavras humanas. Porque a Tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios Te louvam (v.3).

13.4.05

Paz sem voz é medo
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá.
(João 14. 27)
O conceito bíblico de paz é totalmente abrangente. O shalom envolve todas as dimensões da vida humana, no campo pessoal e social. Logo, quando Jesus nos promete deixar e dar a Sua paz, Sua promessa engloba toda uma série infinita de motivos, de ações, de vidas, de campos. Ele nos promete a paz plena. Paz com Deus. Paz com os homens.
Dessa maneira, Jesus nos oferece uma real paz social. Uma paz que todos nós queremos e precisamos. A paz que pode gerar o fim de todas as formas de opressão e violência. Uma paz que Marcelo Yuka provavelmente quereria, se pudesse contemplá-la e compreendê-la.
A minha alma (A paz que eu não quero)
A minha alma está armada
e apontada para a cara
do sossego
pois paz sem voz
não é paz é medo
às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu não quero
conservar
para tentar ser feliz
as grades do condomínio
são para trazer proteção
mas também trazem a dúvida
se não é você que está nessa prisão
me abrace e me dê um beijo
faça um filho comigo
mas não me deixe sentar
na poltrona no dia de domingo
procurando novas drogas
de aluguel nesse vídeo
coagido pela paz
que eu não quero
seguir admitindo
O Rappa afirma o grito de uma sociedade amedrontada pela violência. Uma sociedade que clama por paz. Mas uma paz que é diferente de grades que trazem proteção e a dúvida sobre quem é prisioneiro. Diferente de uma paz que executa crianças (e trabalhadores) da Baixada Fluminense apenas com a desculpa de que se precisa manter a ordem social. Uma paz indisfarçavelmente conivente e comprometida que nos conduz a ver o mundo pela tela de uma tevê, cada domingo consumindo os novos produtos entorpecentes oferecidos por Gugus e Faustões da nossa indústria cultural. Que nos põe distante das pessoas, por muros, grades e câmeras, de tevê e de segurança. Paz essa que é falsa paz, paz sem voz, não é paz, é medo.
Essa denúncia se assemelha àquela do profeta Jeremias, quando diz, sobre os profetas e sacerdotes do povo de Deus: Curam superficialmente a ferida de meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz (Jr. 6. 14).
O clamor de Marcelo Yuka é, e ele não sabe, por experimentar o shalom de Deus que Jesus veio nos dar. Uma paz ampla que possa perceber toda a dimensão do problema e trazer soluções que construam um novo futuro. E que não o mate pelas mãos do poder paralelo das drogas, pelo poder executor da polícia (e a conivência da sociedade) ou pelo poder subliminar midiático. Uma paz real, que promova a aproximação e reconciliação entre os homens e por toda a sociedade.
Isso aplica a todas dimensões de relacionamentos humanos, relacionamentos que precisam dessa paz, sejam em sociedade, sejam com o próximo, sejam, o mais importante, com Deus. A paz que essa música busca, e que está disponível em Jesus, é quem nos dá força para nos aproximar tanto do nosso próximo como de todo sujeito dessa sociedade em busca de reconciliação. Porque somente essa paz nos faz ter força para encarar a dor que esse processo de reconciliação traz.
Mas somos, como cristãos, embaixadores da reconciliação. Anunciamos a possibilidade de reconciliação com Deus, com o próximo e entre a sociedade. Anunciamos a possibilidade de vivermos uma paz real, com voz e sem medo. A paz do amor de Deus, que lança fora todo medo. Anunciamos a possibilidade de construirmos, todos juntos, por vínculos reais e concretos, um novo futuro, uma nova sociedade. A partir de novas espécies de relacionamento, onde reine o amor e a paz de Deus em Jesus Cristo.