18.4.05

Agarrado ao barco

Mas, já agora, vos aconselho bom ânimo, porque nenhuma vida se perderá entre vós, mas somente o navio.

Atos 27. 22

Nos últimos três anos eu vivi alguns dos momentos mais difíceis de minha vida. Não podia imaginar, antes disso, que alguma coisa pudesse provocar tamanho sofrimento, muito menos que eu poderia suportar tamanha dor. Foram momentos muito dolorosos, muito difíceis.

Em 2002, na parte do final do ano, eu me vi morto. Era uma sensação estranha. Não havia nenhum risco imediato à minha vida biológica. Não se tratava de qualquer situação de morte física, mas a vida que eu tinha até ali estava morrendo. Várias vezes a gente passa por momentos difíceis mas sabe ainda, lá no fundo, que o Deus que cuida de nós pode e vai nos trazer livramento. A gente sabe que nada é definitivo e ainda nos resta um tanto de fé que nos alimenta. Várias vezes eu havia experimentado isso na vida. Mas aqueles dias foram diferentes. Por mais eu buscasse lá dentro de mim, não sobrava nada. Não havia nada. Eu não tinha nenhuma esperança de salvação. Nenhuma mesmo. O poço em que estava era muito fundo, tão fundo que seria impossível mesmo ver qualquer luz, contemplar qualquer saída. É incrível esse tipo de sentimento. O tamanho da tempestade, a constância da luta, todas essas coisas geram um sentimento pleno de morte total. Morte. Fim de tudo. Não pensei, enfatizo, em nenhum momento na morte física. Mas não restava nada em mim. Nem desejos, nem sonhos, nem prazer. Qualquer sensação de vida fôra embora. O que restava era uma morte pior que a física. Fisicamente vivo, estava emocionalmente morto. Era o fim de tudo.

Pouco menos de um ano depois, quando parecia que as coisas se encaminhavam para uma resolução, tudo foi posto abaixo de novo. E, de novo, não me restava nada. Nem fé, nem amor, nem vida, nem paz, nem sonhos, nem desejos. Não me restava nada. Não esperava mais nada. Somente seguia, rotineiramente, com a vida.

Atos 27 conta uma história interessante. Paulo sabe que deve ir à Roma testemunhar de Jesus ao César. Desse modo, ele deixa-se ser preso e vai conduzido de navio até a capital do império. Antes de uma nova etapa da viagem, ele alerta que a viagem não seguirá bem. Deus lhe havia mostrado isso. Mas os homens não lhe dão atenção. Então começa uma tempestade terrível. Tufão. Dias e mais dias de escuridão, de água arremessando o barco de um lado a outro. Todas as esperanças de salvação se esvaíram. O fim era certo. Depois de tanto tempo, nenhum daqueles homens certamente conseguiria escapar. Mas Deus queria levar Paulo a Roma. E, em função disso, avisa que todos serão preservados, mas o navio será perdido.

Para serem salvos, no entanto, eles deviam permanecer no barco. Isso é um absurdo. O navio está sendo partido pelas ondas. Não existe mais carga, os mastros cederam, não há como içar velas. O pior lugar para se estar naquela tempestade é naquele navio. Qualquer um pode perceber isso. Mas a Palavra de Deus foi muito clara: se todos quiserem sobreviver, todos devem permanecer no navio. Se agarrar a cada parte que puderem, mas manter-se no navio. Mesmo diante da morte certa.

Nos dois momentos que eu vivi, experimentei a necessidade de me agarrar ao navio, mesmo que não significasse nada para mim, mesmo que eu não tivesse mais fé nem qualquer esperança. Não fazia sentido para mim manter meus momentos devocionais, porque Deus me parecia muito longe, quando ainda pensava que Ele estava em algum lugar. Não fazia sentido ir aos cultos de minha igreja, ou de qualquer outra, porque não era confortável para mim. Chegava depois de começar, saía antes de acabar, porque não queria falar com ninguém. Mas algo me fazia acreditar que a única chance que eu tinha de sobreviver era me agarrando no navio, mesmo que tudo fosse sem sentido. Mesmo que não significasse mais nada. Eu persistia, apesar da minha falta de fé, apesar de me sentir morto. Eu não acreditava que pudesse ressuscitar. Eu não acreditava em nada. Não possuía nenhuma fé. Mas nos dois momentos, permaneci agarrado ao barco porque sabia que tinha de fazê-lo, mesmo que não quisesse.

O fim dessas histórias é basicamente o mesmo. Depois de todo processo, restaurado por Deus, percebi que tinha morrido mesmo. Aquela vida que eu tinha até então, os sonhos, os planos, os projetos e os prazeres que eu tive até ali foram desfeitos por Deus. Porque Ele desejava me levar a salvo até uma praia, um projeto e uma vida melhor. Se eu não tivesse experimentado tudo aquilo, possivelmente hoje não teria qualquer vida de verdade.

Atos 27 termina com a melhor notícia, relatada em uma frase simples e direta: E foi assim que todos se salvaram em terra. A mensagem é simples, apesar de complicada de viver. Cada um e todos puderam sobreviver porque se agarraram ao barco, mesmo quando parecia a pior a coisa a ser feita. Sobreviveram fazendo uma coisa que lhes parecia completamente sem sentido. Perseveraram, mesmo quando estavam sem esperança. Como eu, que continuei fazendo aquelas coisas que não me pareciam ter sentido. Até que Deus fez uma nova vida em mim. Eu realmente morri naqueles dias, mas revivi em uma nova vida porque tive coragem de seguir fazendo o que não me parecia certo. Tive coragem de me agarrar ao barco.

Firmeza e aperfeiçoamento

Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o Diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar. Fiquem firmes na fé e enfrentem o Diabo porque vocês sabem que no mundo inteiro os seus irmãos na fé estão passando pelos mesmos sofrimentos. Mas, depois de sofrerem por um pouco de tempo, o Deus que tem por nós um amor sem limites e que chamou vocês para tomarem parte na sua eterna glória, por estarem unidos com Cristo, Ele mesmo os aperfeiçoará e dará firmeza, força e verdadeira segurança.

1 Pedro 5. 8 - 10

Muita gente deve lembrar de uma série que a Rede Globo exibiu em meados dos anos 90, O toque de um anjo. Esta série está em exibição contínua de reprises no canal fechado Warner Channel, tendo sido cancelada desde 2003. Os horários de exibição não são muito convenientes então não é sempre que eu consigo assistir, mas a série conta as aventuras de alguns anjos, cujo principal chama-se Mônica, que são enviados para socorrer as pessoas nos momentos mais diversos de luta.

Houve um episódio de O toque de um anjo em que os anjos foram alertados por Deus de que iriam enfrentar Satanás pessoalmente. Eles passaram o tempo inteiro tentando identificá-lo, até que, afinal, ele se revelou travestido na forma de um garoto. Pouco depois, Satanás apareceu na forma assustadora de um leão que queria tragar uma criança que estava para nascer. Mônica encara o leão olhos nos olhos. Ele estava andando ao redor o tempo todo, mesmo que escondido e passando despercebido.

Na continuação do texto em que meditamos ontem, Pedro traz uma série de alertas para a igreja. Mais uma vez a Palavra de Deus nos instiga a estarmos alertas e vigilantes o tempo todo, justamente porque o Diabo, nosso adversário, está andando por aí, como um leão, procurando alguém para devorar. Esse é o alerta para sobriedade e vigilância a fim de que não cedamos às pressões do mundo. As lutas, a perseguição, a injustiça podem nos abater, nos entristecer, podem nos derrubar. Inclusive, podem nos levar a pecar. É preciso estar sempre precavido, por isso, com o Diabo que nos rodeia e espera pela nossa falha. Ele não tem piedade e quer nos devorar. É preciso resistir.

Por isso, também, a exortação do apóstolo é para que permaneçamos firmes na fé. Essa é a chance que temos de resistir a este leão faminto. Nossa firmeza na fé é condição sem a qual não há nem pode haver qualquer chance de escapatória.

É interessante que o fundamento para que estejamos firmes, mesmo parecendo muito estranho, é deixado claro por Pedro: em toda parte, os cristãos têm enfrentado as mesmas lutas, sofrido as mesmas dores, mas passam por isso na certeza de que Deus é um Deus de Graça. Nada disso durará indefinidamente. Nossa herança está reservada por Cristo e em Cristo no céu. Nosso sofrimento é passageiro, por um pouco de tempo, principalmente quando comparado à eterna glória de Cristo. O nosso futuro é um livramento eterno de tudo isso por meio de Jesus Cristo e Sua Cruz.

Por fim, o texto explica que os nossos sofrimentos, nossas lutas e nossos enfrentamentos contra Satanás têm um propósito, não são sem razão, sem sentido. O nosso sofrimento, quando estamos em comunhão com Cristo, serve para nos aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. Como se fôssemos um edifício, que dia a dia, minuto a minuto, é erguido gradativamente para a Glória de Deus. Que tem o próprio Deus como principal Arquiteto, Engenheiro e Construtor.

16.4.05

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Humilhando-se sob a mão de Deus

Portanto, sejam humildes debaixo da poderosa mão de Deus para que Ele os honre no tempo certo.
1 Pedro 5. 6

Eu olho para esse texto e penso em uma situação de injustiça que o povo de Deus tem enfrentado no tempo em que Pedro está escrevendo. No capítulo anterior, o apóstolo ensina que os cristãos não deveriam se admirar da prova de aflição que estão enfrentando, mas sim se alegrar por estarem tendo a oportunidade de sofrerem por amor de Cristo. Vocês serão felizes se forem insultados por serem seguidores de Cristo, porque isso quer dizer que o glorioso Espírito de Deus veio sobre vocês. Se algum de vocês tiver de sofrer, que não seja por ser assassino, ladrão, criminoso ou por se meter na vida dos outros. Mas, se alguém sofrer por ser cristão, não fique envergonhado, mas agradeça a Deus o fato de ser chamado por esse nome (4. 14 – 16).
O contexto em que Pedro escreve é, portanto, o contexto de perseguição injusta. E, quando somos injustiçados e sofremos por causa disso, nossa reação natural, instintiva até, é de auto-proteção, de defesa. Queremos reagir ao mal sofrido da maneira que for preciso. Mas não é isso que devemos fazer. Portanto, sejam humildes debaixo da poderosa mão de Deus para que Ele os honre no tempo certo. Se somos injustiçados, precisamos entregar o controle nas mãos de Deus, nos humilharmos sob Suas mãos.
Mas é aí que está o problema. Nós gostamos de ter o controle de nossas vidas. Gostamos de controlar os nossos passos, de entender o que está acontecendo conosco, de definir os lugares em que queremos chegar e controlar o nosso caminho até lá. Humilhar-se, no entanto, neste caso, é aceitar ceder o controle de tudo em nossa vida. É entregar a direção de tudo ao Senhor, esperando que, no momento apropriado, Deus corrigirá todas as distorções e nos honrará.
Enquanto isso não acontece, a ansiedade é algo praticamente inescapável. Não gostamos, como seres humanos, de sermos dependentes. Quando somos forçados a depender (ao entregar o controle das coisas nas mãos de Quem sabe) e quando a solução que esperamos demora, nasce em nossos corações a ansiedade. Ansiedade que é quase uma aflição degeneradora. Ansiedade que nasce porque não temos o controle de nossos passos.
Ano passado, nós fizemos uma viagem à Recife. Um dia só, todo o pessoal da igreja. Lá, fomos ao Veneza Water Park. Tinha um tobogã aquático chamado Anaconda. Obviamente, o seu formato era o de uma enorme cobra. Você entrava pelas escadas e quando escorregava pelos poucos segundos que levava a aventura, você não via nada. O Anaconda não tem nenhuma iluminação. Você não faz idéia de onde está, nem do que vem a seguir, nem quando chegará na piscina lá embaixo. Para alguns, passar por essa situação é profundamente aflitivo. Você não tem nenhuma possibilidade de controlar seus passos, seus caminhos. Você está rendido à Lei da Gravidade. E é essa impossibilidade de controle da vida que pode gerar ansiedade.
Do mesmo modo, pode acontecer quando você cede a direção de sua vida ao Pai Celeste, mesmo ciente de que Ele sabe o que é melhor, conhece todo o caminho e levará você à melhor situação possível. Ainda assim pode restar a ansiedade. Não sabemos ser dependentes. Quando você desce no Anaconda pode relaxar ao lembrar que sabe onde acaba a aventura, mesmo que não veja onde está no momento. Você pode se projetar para o futuro e pode experimentar certa tranqüilidade. Na vida, você tem uma saída: Entreguem todas as suas preocupações a Deus, pois Ele cuida de vocês (v.7). Nele, você sabe como acaba a aventura.

15.4.05

O melhor presente

Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai, que está no céu, dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!

Lucas 11. 13.

Como qualquer criança, adorava receber presentes de minha mãe. Como qualquer criança, também, detestava quando estes eram roupas. Pensem em uma frustração cada vez que desembrulhava um pacote e me deparava, não com aquele carrinho cujo comercial vira na televisão, mas com um conjunto para passear nos domingos.

Nem todas as coisas que eu gostaria de ter podiam ser compradas por minha mãe. Cedo me conscientizei disso. Então, nem criava expectativas, nem pedia por determinadas coisas. Sabia que algumas delas eram um tanto inalcançáveis. Com isso, nunca tive aquela bola de futebol que sempre sonhei. Mas ganhei grandes e bons presentes, porque minha mãe, acima de tudo, me amava. E amava muito. Ela sabia como me dar bons presentes, nos seus limites. E ela sabia que presentes eu não deveria ganhar por não serem adequados.

É disso que fala o nosso texto. Minha mãe, humana, podia saber de tudo isso. E não me negaria qualquer coisa, desde que não fosse arriscado para minha segurança, que eu lhe pedisse como presente de aniversário ou do dia das crianças. Se minha mãe sabia isso, imagine o que não sabe o meu Pai celeste. Com uma vantagem: o orçamento não é empecilho ou limite. Deus dá o que for o melhor para nós, e dá abundantemente, e dá gratuitamente.

No texto paralelo de Mateus, no lugar de Espírito Santo surge a expressão “boas coisas”. Isso implica, claramente, que a melhor coisa que o ser humano pode querer, que pode pedir a Deus e pode receber dEle é o Espírito Santo. E esse não nos é dado por medida, com limitações. Basta pedir. Basta clamar com um coração sedento. Basta suplicar ao Pai celestial. Se minha mãe, sendo humana, não podia me negar, por causa de seu amor, qualquer coisa que eu pedisse, quanto mais Deus não me dará o melhor presente, o Espírito, se eu Lhe pedir.

Se não vivemos uma vida plena, na plenitude do Espírito, tomados plenamente por Deus, é porque não aprendemos a pedir isso ao Pai.

Pedimos tudo, mas não nos lembramos de pedir o melhor, a melhor coisa: o Espírito Santo.

Pedimos tudo, mas pedimos mal. Pedimos bênçãos egoísticas para gastar em nossos próprios e particulares prazeres. Pedimos assim e não recebemos, porque deixamos de pedir a melhor coisa, aquela que mais nos abençoará e mais nos fará ser bênção para os outros.

Não pedimos para nos embriagarmos pelo Espírito Santo. Não pedimos que Ele nos encha. Que nos tome plenamente. E não sabemos, assim, o que temos perdido. Porque todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate... Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai, que está no céu, dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem! (Lc. 11. 10 e 13). Peça pelo Espírito, o melhor presente que o Melhor Pai quer lhe dar.