28.5.05

O caçador

Mas virá o tempo, e, de fato, já chegou, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e em verdade. Pois são esses que o Pai quer que O adorem.
João 4. 23

Alguns anos atrás, um amigo que é cantor evangélico realizou um culto para lançamento de seu novo CD no templo central da denominação da qual faz parte. Como boa parte de sua banda é composta por irmãos de outras igrejas e, mais que isso, suas músicas e ministração são extremamente bem recebidas por gente de diversas igrejas, naquele culto o templo estava lotado por pessoas que eram provenientes de outras denominações que não aquela que recebia a celebração.
No início do trabalho, um dirigente foi ao microfone saudar os visitantes, mas fez uma ressalva terrível. Destacou que era um prazer receber os irmãos, mas que, como não era costume naquela igreja louvar ao Senhor com palmas, os visitantes evitassem acompanhar as canções dessa forma. Ele acabou com a liberdade do culto. Liberdade que me faria ver, com clareza, que não seria conveniente cantar com palmas ali. Mas na hora em que isso se transformou em uma regra, quebrou-se a intimidade e comunhão de adoração. Eu não poderia mais louvar ali em liberdade, em espírito e em verdade, porque meu louvor estava condicionado a uma regra religiosa humana.
No diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, um dentre tantos temas tratados são as regras religiosas que condicionam os cultos e afastam os fiéis da real intimidade com Deus. A discussão era se era a religião de Jerusalém ou a religião de Samaria que estava correta. A resposta de Jesus nos direciona a entender que não era nenhuma das duas, ao mesmo tempo em que poderiam ser ambas. O essencial não é a forma do culto, o seu lugar, como se estabelece o templo, que regras são obedecidas. Tudo isso é superficial porque o culto real se fundamenta em dois princípios: integridade [em espírito] e sinceridade [em verdade]. A presença desses dois elementos transforma em secundária e desimportante qualquer busca religiosa humana. Não é a busca ou a sede religiosa que contam no culto verdadeiro. Nem a forma da religião. O que importa é que o adorador esteja integralmente e sinceramente envolvido na relação, comunhão, intimidade e adoração a Deus, mediadas por Jesus Cristo e Sua Cruz. Assim, não importa se batemos ou não batemos palmas, não importa se oramos em línguas ou em silêncio. O que importa é um coração quebrantado que se entrega inteiramente e sinceramente nas mãos do Ser Amado. Que se entrega a uma comunhão plena e absoluta com Ele, ouvindo-O e amando-O.
Deus está em busca de adoradores que não se conformem a limites humanos impostos por culturas, por religiões, por tradições, por autoridades. Ele está em busca de pessoas que queiram, acima de tudo, relação com Ele, e não discutir em que templo precisa acontecer o culto, em que forma, em que ordem, que nomes devem ser usados, se tais ou tais manifestações são ou não são santas. Ele busca adoradores que O adorem em liberdade, qualquer que seja a circunstância, adoradores que se importem mais com o Ser Amado do que com as estruturas de culto e religião.
Religião é a tentativa do homem de, desesperadamente, buscar a divindade a fim de se religar a ela. A diferença no processo que Jesus apresenta à mulher samaritana é que na relação com Deus que Ele media não é o homem que está em busca. Deus está buscando. Na relação com Jesus, as coisas mudam de figura porque, aqui, Deus é o caçador. Ele está caçando quem esteja, na terra, disposto a adorá-Lo. Adorá-Lo, acima de tudo, em liberdade, integridade e sinceridade. Disposto a entrar com Ele em uma relação de intimidade e adoração que seja total, absoluta e honesta. A busca, em Jesus, é ação exclusiva de um Deus que nos ama tanto que nos quer atrair a uma vida de profunda comunhão com Ele.
Não importam as regras. Não importam as formas. Disponha seu coração a se entregar totalmente e honestamente, em espírito e em verdade, ao Deus que se fez um de nós em Jesus Cristo, que veio ao mundo buscar o homem e resgatá-Lo do pecado e da morte. Que o amou de tal maneira que morreu numa Cruz para que tivesse vida. Ele está procurando gente que se entregue de verdade a Ele, para vivenciar uma verdadeira comunhão, intimidade e adoração real.

27.5.05

Prazer

A Tua presença me enche de alegria e me traz felicidade para sempre.
Salmo 16. 11

O ser humano vive em busca do prazer. Faz parte da nossa natureza, foi assim que Deus nos fez, homens e mulheres que querem e desejam experimentar o prazer na vida. A busca do prazer é uma pulsão na humanidade. Se não agirmos assim, deixamos de fazer parte da raça humana.
Claro que o prazer pode ser pervertido. Estes dias, por exemplo, assisti na universidade uma cinebiografia do Marquês de Sade – “Os contos proibidos do Marquês de Sade” – que mostra como a busca do prazer pode ser pervertida pelo coração do homem. O sadismo, nome que deriva do Marquês, é sentir o prazer no sofrimento do outro. Masoquismo é ter prazer no próprio sofrimento.
A sexualidade pode, assim, ser uma porta importante para a perversão da busca pelo prazer. Podemos fazer tudo errado e fora de hora, apenas por não resistirmos à sede de prazer que domina o nosso ser. A linha de separação é tão tênue que podemos ver na história bíblica muita gente sofrendo em conseqüência de sua perversão e pecado sexual. Sodoma e Gomorra foram destruídas. A espada entrou no seio da família de Davi.
Buscamos o prazer. Temos essa sede inata. Faz-nos bem, é gostoso e, claro, nos desafia. Queremos o prazer na nossa vida. Temos sede de uma alegria plena e interminável. Temos o desejo ardente de experimentarmos as mais inexplicáveis sensações em nosso coração, em nossa mente, em nosso ser inteiro. Queremos isso tanto quanto queremos o amor. A alegria contagiante e incontrolável, manifestações do prazer mais intenso.
O Senhor quer saciar nossa sede de prazer. Na presença dEle, temos delícias inimagináveis, prazeres inefáveis. A Tua presença me enche de alegria e me traz felicidade para sempre. Não foi apenas um homem de Deus que clamou a Ele por sentir este prazer tremendo que só a Sua presença pode conceder. É nEle que repousa a saciedade de nossa sede por alegria e mais prazer. O prazer da nossa alma, o prazer máximo que sequer podemos imaginar ser possível sentir, está na presença do Senhor. Está na comunhão com Ele. Está em ser tocado por Ele, amado por Ele. O maior prazer que pode sentir o homem, aquele para onde devia nos guiar nossa pulsão, é o prazer de andar com o Senhor, em comunhão com Ele, na Sua presença eterna. Experimentando Sua alegria, Seu amor e o prazer que Ele tem em nós.
Assim diz o salmista, falando do prazer da comunhão com o Senhor: Quão amáveis são os Teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo! (Sl. 84. 1 – 2). Essa sede pela presença e comunhão com Deus, por estar para sempre ao Seu lado, só pode ser resultado da descoberta do pleno prazer e alegria que podemos experimentar apenas com o Senhor nosso Deus. Quem conheceu o prazer da presença do Senhor não o trocará, em circunstância alguma, de maneira nenhuma, por nenhum outro prazer, nenhuma outra alegria, nenhum gozo que podemos fruir nesse mundo. O prazer de estar na presença do Senhor, sua alegria, são insuperáveis e inegociáveis.
Por isso, ainda, é feliz o homem que tem o seu prazer na Lei do Senhor e, mais que isso, na sua meditação diária (Sl. 1. 2). O prazer da comunhão com Deus só é pleno quando somos capazes de ouvir, diariamente, Sua voz falando a nós a Sua palavra por meio de nossa meditação.
É muito prazer. Prazer inimaginável, inexplicável, inconfundível, inegociável para quem o experimenta. Muita gente vive sua vida cristã sem, jamais, experimentar o prazer que é andar com Deus. Por isso, provavelmente, pode ir buscar o prazer de que tem sede, como ser humano, em qualquer forma pervertida, ou qualquer forma fora da comunhão e do centro da vontade de Deus. Mas podemos vivenciar, experimentar e gozar o prazer mais fantástico que jamais poderemos descrever: o prazer de uma comunhão íntima com o nosso Amado, nós, Seus amantes, resgatados pelo Amor da Cruz de Jesus. Por Jesus, através dEle, podemos saciar nossa sede de prazer intenso. Na Sua Palavra e na Sua comunhão.

26.5.05

Agindo no ordinário

Mas quem sabe? Talvez você tenha sido feita rainha justamente para ajudar numa situação como esta!
Ester 4. 14.

O livro de Ester é o único, em todo texto bíblico, em que não há referências explícitas a Deus, nem mesmo a citação de Seu Nome. Para alguns, isso se constitui em uma dificuldade. Na verdade, podemos tentar descobrir que implicações isso pode trazer para a nossa vida, nossa esperança e nossas expectativas.
Ester, jovem judia criada pelo primo Mordecai, se torna rainha da Pérsia. Cheia de simpatia, encantava todas as pessoas que entravam em relacionamento com ela. Inclusive o Rei Xerxes, que a faz rainha no lugar de Vasti.
Se você olha o livro superficialmente percebe uma série de acasos que vão construindo a história. Por acaso, Vasti recusa o chamado do rei para entrar na sua presença. Por acaso, o rei consulta os juristas que o aconselham, literalmente, a trocar de rainha. Por acaso, o rei manda buscar jovens belas de todo o império a fim de escolher a substituta. Por acaso, os eunucos que escolheram, entre outras, Ester, são envolvidos pela sua simpatia. A jovem, que por acaso era judia, ganha a preferência de todos. Inclusive, do próprio rei. Que a faz rainha.
Também por acaso, o rei indica Hamã, descendente de Agague, para primeiro ministro. Agague, por acaso, foi aquele rei que gerou a rejeição de Saul, séculos antes, a quem Samuel executou porque o rei não o fizera. Por acaso, dentre todos os moradores de Susã, apenas Mordecai, primo da rainha e judeu, não se curva em reverência ao primeiro ministro. Revoltado com a irreverência, Hamã decide comprar o extermínio do povo judeu. Lançando sortes, escolhe que a data do fim dos judeus será o final daquele ano que se inicia.
Muitos acasos conduzem essa história. Obviamente, aqui percebemos a primeira grande lição do livro de Ester. Não existem acasos. Por mais que não pareça, Deus tem o controle da história. Por mais que não apareça o nome dEle nos créditos, por mais que tendamos a atribuir tudo à força do acaso, é o Senhor quem tem a história nas mãos. É Ele quem guia todas as circunstâncias, quem constrói todas as histórias, quem conduz todas as vidas, quem faz todas as coincidências. Ele age no ordinário, realizando o Seu plano.
Ele faz assim com coisas grandes e coisas pequenas. Conduzindo a história de um Reino, conduzindo a nossa vida pessoal. Nas maiores e nas menores coisas. Mesmo quando somos incapazes de percebê-Lo em ação. Mesmo que não vejamos, literalmente, a assinatura dEle na obra. Dia desses, por exemplo, saí de casa para uma reunião em um lugar próximo. Sempre vou a pé para essa reunião semanal. Estava atrasado. Geralmente, tomo um caminho mais curto, mas naquele dia, mesmo atrasado, por acaso, esqueci e fui pelo caminho mais comprido. Por acaso, naquela hora, um primo passou na rua e me levou ao meu compromisso, de carro, bem mais rápido, compensando um pouco do meu atraso. Tudo porque, por acaso, esqueci de tomar o caminho de sempre. Deus guia os acasos nas circunstâncias mais simples do dia a dia. Na vida dos reinos, na nossa vida.
Uma outra coisa que penso a partir da história do livro de Ester é sobre libertação. Sobre a ação poderosa de Deus para libertar Seu povo. Sobre Seus milagres para transformar situações. Quando lemos o livro de Êxodo, vemos a ação extraordinária de Deus para livrar Seu povo. Pragas, morte, mar que se abre, comida sobrenatural, uma coluna de fogo que ilumina as noites, uma nuvem que protege do sol de dia, roupas que não se gastam. Enfim, muita ação poderosa e sobrenatural de Deus. Deus fez coisas inauditas para livrar o Seu povo do Egito.
Quando olhamos para frente, a ação de Deus descrita no Apocalipse aponta para um Deus que é capaz de agir extraordinária e sobrenaturalmente a fim de livrar Seu povo de todo sofrimento. Das ameaças de morte, da dor, da doença, do choro, da angústia. Nosso Deus age assim. Mas também age no ordinário. O livro de Ester conta uma história tremenda de libertação de Deus em favor do Seu povo. Uma libertação sem nenhuma nota de milagre extraordinário. Todas as coisas conduzidas por Deus na história, no ordinário, no comum. Mas todas as coisas conduzidas até uma maravilhosa libertação do povo de Deus. Mesmo que nem o Seu nome seja citado na história.
O nosso Deus opera maravilhas em favor do Seu povo. Mas não podemos esquecer que Ele também age no ordinário. Ele também livra e faz a Sua obra no aparente acaso, no circunstancial, no comum, no dia a dia. Seja maravilhoso, seja ordinário, saibamos que Deus guia a história, constrói as circunstâncias, conduz o Seu plano, realiza a Sua vontade. Mesmo quando não somos capazes de perceber, explicitamente, a presença dEle conduzindo tudo.

25.5.05

Entendi...

Porém, quando fui ao teu Templo, entendi...
Salmo 73. 17.

Quando estamos sofrendo, muitas vezes, tudo o que procuramos é entender as coisas. Choramos, sentimos a nossa dor, nos angustiamos tantas vezes, mas temos a esperança que se entendêssemos, talvez as coisas fossem mais fáceis. Talvez doessem menos. Talvez causassem menos angústia. Se conseguíssemos entender tudo que está acontecendo!
A nossa dor é grande e inexplicável. Além disso, olhamos do lado e vemos tanta gente ruim prosperando. As pessoas roubam, as pessoas cometem as maiores injustiças e pecados, mentem e exploram, e, quando contemplamos, as suas vidas parecem perfeitas. Nenhum mal as aflige. Nenhuma dor as alcança. Tudo parece prosperar.
Aí a coisa fica complicada para nós. Tudo conosco vai mal. Dia a dia, o poço de dor aumenta. Quando achamos que as coisas estão melhorando, vem algo novo e muito pior. Tudo dói. E dói muito. Além disso, o que é pior, parece que para os injustos tudo vai às mil maravilhas. “Vale a pena ser justo?”, começamos a nos perguntar.
Esse sentimento, a inveja dos maus, não é exclusividade minha ou sua. Fundamenta-se na nossa incapacidade de entender tudo. Nós não entendemos a profundidade do que está acontecendo conosco. Nós não entendemos a profundidade do que acontece com os injustos. Não conseguimos perceber, enquanto estamos no meio da tormenta, o porto aonde vamos sendo conduzidos. Não conseguimos perceber o propósito de toda dor que sentimos. Por mais incompreensível que seja, podemos nos lembrar que há um propósito. E quando o mar se acalmar e a tempestade passar, nos surpreenderemos com o porto seguro aonde fomos levados. Seremos surpreendidos com o resultado de tudo aquilo. Nossa dor dói mais porque não conseguimos ver além do nevoeiro que nos envolve.
A inveja dos maus não é exclusividade nossa: Porém, quando vi que tudo ia bem para os orgulhosos e os maus, quase perdi a confiança em Deus porque fiquei com inveja deles (Sl. 73. 2 – 3). Então, o salmista descreve que caiu numa incompreensão tão grande do porquê da sua dor e do porquê de os maus prosperarem que desejou no seu coração se desviar do caminho dos justos: Parece que não adiantou nada eu me conservar puro e ter as mãos limpas de pecado. Pois tu, ó Deus, me tens feito sofrer o dia inteiro, e todas as manhãs me castigas (Sl. 73. 13 – 14). Ele estava a ponto de se desviar porque não parecia mais valer a pena confiar no Senhor. Por pouco, ele não pendeu para o lado dos maus atrás da prosperidade deles.
Mas o salmista diz que não desistiu. Antes se esforçou para tentar entender o que parecia incompreensível. Esforçou-se bastante porque sabia que não tinha sentido o que ele estava vendo. Deus não puniria o fiel a Ele e abençoaria o injusto. No fundo, ele sabia que não valia a pena ser mau. Mas como explicar isso? Como entender o que estava acontecendo, já que, por mais que ele soubesse, no fim ele via os maus prosperarem e os justos sofrerem?
Porém, quando fui ao teu Templo, entendi... O salmista precisava da mesma coisa que nós precisamos. Precisamos ir ao Templo da comunhão do Senhor. Precisamos elevar o nosso coração a Ele. Precisamos com ousadia entrar na Sala do Trono de Graça, para, assim, vermos o que nos acontece do ponto de vista de Deus. Do lugar em que Deus está. Tudo o que precisamos para entender as coisas é olhar do ponto de vista do Senhor. Olhando do alto, veremos o porto para aonde nos leva Jesus no meio da dor. Olhando do alto, veremos à frente o fim que espera os maus.
O salmista vê que o futuro dos maus é tenebroso. Percebe que seu coração estava cheio de amargura e incompreensão e, por isso, ele mesmo parecia um animal irracional. Então, ele pode louvar ao Senhor porque pode ver a história de Seu ponto de vista.
Podemos confiar em Deus, porque em todo tempo Ele nos guia pela mão. Podemos confiar em Deus, porque no fim Ele nos receberá em Sua glória. O fim que nos espera é esse: a redenção dos filhos de Deus. Mesmo que sejamos incapazes de compreender no presente todas as coisas, se buscarmos observá-las do ponto de vista do Senhor, entenderemos. As coisas só fazem sentido se olhadas do alto.
Por isso, podemos louvar o Senhor com o salmista: No céu, eu só tenho a Ti. E, se tenho a Ti, que mais poderia querer na terra? Ainda que a minha mente e o meu corpo enfraqueçam, Deus é a minha força, Ele é tudo o que sempre preciso (Sl. 73. 25 – 26).

24.5.05

Resposta

Eu, o Senhor, o Deus do seu antepassado Davi, escutei a sua oração e vi as suas lágrimas. Eu vou curá-lo, e daqui a três dias você irá ao Templo. Vou deixar que você viva mais quinze anos.
2 Reis 20. 5 – 6.

A história do Rei Ezequias é particularmente diferente no contexto do Antigo Testamento. A começar, e talvez principalmente por isso, pelo fato de que se repete em três diferentes livros. Além de 2 Reis e 2 Crônicas, o rei é personagem no livro do profeta Isaías, seu conselheiro espiritual. Provavelmente é o rei, depois dos três soberanos da época de Reino Unido de Israel, que conhecemos mais a vida.
Ezequias era um rei fiel, o que era uma raridade naquela época da vida do povo de Deus. Muito de sua fidelidade, certamente, se devia à influência espiritual de um profeta da estatura de Isaías. Muito por isso, algumas lições bem distintas podem ser tomadas de diversos momentos da vida deste rei. Uma delas é sobre oração e seus efeitos.
Quando eu penso em oração e em como Deus a responde, me lembro de pelo menos três textos. O primeiro está no livro de Tiago: Não conseguem o que querem porque não pedem a Deus. E, quando pedem, não recebem porque os seus motivos são maus. Vocês pedem coisas a fim de usá-las para os seus próprios prazeres (Ti. 4. 2 – 3). Aqui, eu aprendo que devemos pedir o que queremos a Deus. Porém, tem uma coisa a mais. Às vezes podemos dirigir nossas orações ao nosso Pai, mas não receber as respostas que queremos porque nossos pedidos são maus: são para os nossos próprios prazeres e não segundo a vontade de Deus nem para a Sua glória. Se vamos pedir coisas que vão de encontro ao que Deus quer, vamos pedir e ter nada em resposta.
O segundo texto é palavra de Jesus sobre a bondade de Deus: Por acaso algum de vocês, que é pai, será capaz de dar uma pedra ao seu filho, quando ele pede pão? Ou lhe dará uma cobra, quando ele pede um peixe? Vocês, mesmo sendo maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos. Quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará coisas boas aos que lhe pedirem! (Mt. 7. 9 – 11). Aqui eu aprendo que Deus, por Sua bondade, nunca vai frustrar o meu pedido em oração. Pode até ser que Sua resposta me seja “não”, mas ainda assim estarei certo que Ele me reserva as melhores coisas a esse respeito. Se Ele não me dá o que peço é porque um Pai, extrapolando um pouco o sentido do que fala Jesus, é incapaz de dar a Seu filho alguma coisa que, no final, vai lhe trazer prejuízo. Minha mãe sempre teve o juízo de não me dar brinquedos perigosos, mesmo que eu chorasse bastante para ganhá-los. Ela sabia que aquilo me faria mal e me preservava. E sempre procurou me dar as melhores coisas. De igual modo, o Pai do Céu, diz Jesus, sabe dar boas coisas aos que lhe pedirem!
A terceira história, antes de voltarmos a Ezequias, é de insistência com Deus. Mas uma maldita insistência. Números 22 começa a contar a história de Balaque e Balaão. Balaque, rei de Moabe, envia mensageiros oferecendo dinheiro ao profeta Balaão para que ele amaldiçoe o povo de Israel no caminho para Canaã. A primeira atitude de Balaão é perfeita. Diz aos enviados que, antes, precisa consultar a Deus sobre o que Ele quer. Quando Deus lhe diz que não deve ir com os enviados, Balaão vê seus presentes indo embora. Por causa da ganância, continua insistindo com Deus até que Ele permite que o profeta vá. Deus não mudou de idéia, mas parece que queria ver até onde Balaão ia na sua rebeldia. Até uma mula fala para dissuadir o profeta. Por três vezes, mesmo ciente de qual era a vontade de Deus – abençoar, e não amaldiçoar -, Balaão sobe para se encontrar com o Senhor. Insiste, mas por fim só consegue abençoar, porque não podia amaldiçoar um povo a quem Deus abençoa. Não satisfeito, e a Bíblia cala, mas lemos isso nas entrelinhas, Balaão, de olho nos presentes de Balaque, ajuda o rei de Moabe a armar ciladas para que Israel caía em pecado. O capítulo 27 de Números conta a história da idolatria orgiástica do povo no culto a Baal-Peor. Balaão não podia amaldiçoar um povo santo, mas podia construir uma situação para que o povo pecasse. E assim se tornasse passível de ser amaldiçoado. Uma história que começou com uma insistência com Deus por uma causa pela qual o Senhor já tinha manifestado um veredicto, termina como um plano sórdido para fazer cair toda uma nação. O fim de Balaão é trágico por isso. Números 31 narra a batalha contra os midianitas e fala laconicamente sobre o profeta: Também mataram à espada Balaão, filho de Beor (Nm. 31. 8).
Agora podemos voltar a pensar em Ezequias. Deus enviou Isaías para lhe dar notícias de que aquela doença que enfrentava seria fatal. A única reação do rei foi virar-se contra a parede, chorar e clamar a Deus: Ó Senhor Deus, lembra que eu tenho te servido com fidelidade e com todo o coração e sempre fiz aquilo que querias que eu fizesse (2 Rs. 20. 3). O pedido parecia justo, os motivos corretos. O rei se quebrantou na presença do Senhor pedindo uma nova chance. Pedindo a Deus, não a ninguém mais, que pudesse permanecer vivo. Um pedido que parecia a melhor coisa. Mas o rei não pensou no que fosse o melhor projeto de Deus para a sua vida e a vida do povo. Se olhássemos apenas a cena descrita no capítulo, especialmente quando Deus manda Isaías retornar da porta do palácio, poderíamos achar que o caso do rei se encaixa em uma das primeiras situações. Mas eu não acredito nisso. Acredito que Deus concedeu o que pedia o rei como que lhe fosse provar o seu coração, como que para mostrar a nós que nem sempre os nossos pedidos de oração atendidos redundam em bênção.
Ezequias pediu e viveu mais quinze anos. Quando morreu, foi sucedido por seu filho Manasses, de apenas doze anos. Quer dizer, filho nascido no período de vida que lhe foi dado por Deus em resposta à sua oração. Nem sempre nossos pedidos representam as melhores alternativas de futuro. Manasses foi um dos piores reis que Judá teve, ao contrário de seu pai. E mais que isso, diz o Senhor: O rei Manasses, de Judá, tem feito essas coisas nojentas, coisas muito piores do que aquelas que os amorreus fizeram, e com os seus ídolos levou o povo de Judá a pecar. Por isso, eu, o Senhor, o Deus de Israel, vou fazer cair sobre Jerusalém e sobre Judá uma desgraça tão grande, que todos aqueles que ouvirem contar a respeito dela ficarão espantados (2 Rs. 21. 11 – 12).
Parecia tudo certo no pedido de Ezequias. Mas preste atenção: por causa de sua oração, por causa da resposta dada por Deus, surgiu um rei tão terrível, que chegou a sacrificar seu próprio filho aos ídolos, rei tão terrível que foi a causa final da desgraça de Judá. Por causa de Manasses Deus castigou o povo com a destruição de Jerusalém, do templo e com o exílio. Tudo começando, é claro, na oração de Ezequias.
O que isso ensina? Que devemos tomar bastante cuidado com nossos pedidos, com nossas razões e com as intenções de nosso coração. Às vezes, Deus poderá até atender ao pedido, como que a provar que não temos idéia do que está implicado no que pedimos. Às vezes, Deus permitirá que aquilo que desejamos, mesmo não sendo a vontade dEle, nos aconteça só para que depois nos reste a lição aprendida. A lição de que é sempre melhor deixar com Deus a tarefa de sonhar, planejar e realizar a nossa vida. Ele é o nosso Pai amoroso. Senhor soberano. Ele é quem sabe os pensamentos que tem a nosso respeito, sonhos das melhores coisas, inimagináveis, que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram e está além de qualquer compreensão humana. O nosso Deus, se deixarmos a direção de nossa vida, de nossos planos, nas Suas mãos, é poderoso para fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos. E sempre as melhores coisas. Devemos tomar, então, cuidado com o que pedimos e sonhamos, e render essas coisas nas mãos do Senhor.