10.9.05

Vida no Espírito

Encham-se do Espírito de Deus.
Efésios 5. 18

Há uma verdade, entre tantas outras na vida, sobre a qual gostaria de pensar hoje. Todos temos uma escolha a fazer sobre o controle de nossa vida. Uma escolha simples, entre duas opções. A primeira delas é optar por conduzir a própria vida, por ser seu próprio senhor.
No entanto, imagino que tentar conduzir a própria vida – por mais que esse seja o sonho de todo adolescente – é como tentar subir uma ladeira acentuada, e que se torna mais acentuada a cada passo, puxando ainda, nas costas, um carro amarrado com rodas quadradas. Em uma situação assim, podemos até conhecer o caminho, saber onde queremos chegar e eventualmente alcançar o destino, mas será que terá valido a pena? E o cansaço? O preço pago é compensador? Qual o resultado disso tudo? Isso tudo é quase fatal.
A outra opção é se permitir ser conduzido totalmente pelo Espírito Santo. Encham-se do Espírito de Deus. Deixá-lo ser Senhor da vida, controlar nosso coração, dirigir nossas vontades rendidas aos Seus pés. Isto acontece unicamente quando, em Cristo, rendemo-nos ao Espírito, sendo cheios dEle.
Nesse caso, muito provavelmente a vida será uma aventura. Não conheceremos a estrada, não teremos qualquer possibilidade de controlar nossos passos. Saberemos onde vamos chegar, mas não como chegaremos lá. E tudo valerá a pena, porque não estaremos indo na nossa própria força, mas seremos conduzidos pelo Senhor.
Encham-se do Espírito de Deus. Essa não é uma escolha sem dificuldade. Para mim, a principal delas é abrir mão da ilusão da segurança de certeza por controlar a vida e entrar na esfera da ação do Espírito. Andar no Espírito é entrar na dimensão da incerteza, ao mesmo tempo em que significa mergulhar nos rios do amor de Deus, conhecer o Senhor em profundidade.
É disso que fala Jesus em João 3. 8: O vento sopra onde quer, e ouve-se o barulho que ele faz, mas não se sabe de onde ele vem, nem para onde vai. A mesma coisa acontece com todos os que nascem do Espírito. Gosto demais desse texto e tem se tornado aspiração constante na vida. O vento sopra onde quer. A vida no Espírito é vida de incerteza porque é totalmente rendida ao controle desse Vento Santo, que nos conduz, como uma pena, aonde Ele quer.
E é esse Vento Santo quem nos gera a vida: Homem mortal, profetize para o vento. Diga que o Senhor Deus está mandando que ele venha de todas as direções para soprar sobre esses corpos mortos a fim de que vivam de novo (Ez. 37. 9). No texto do vale de ossos secos, me chama atenção, sempre, o fato de que quando Ezequiel profetiza, os corpos se reconstituem, mas permanecem mortos, sem vida. São perfeitos, com tudo no lugar, mas não têm vida: Então profetizei conforme a ordem que eu havia recebido. Enquanto eu falava, ouvi um barulho. Eram os ossos se ajuntando uns com os outros, cada um no seu próprio lugar. Enquanto eu olhava, os ossos se cobriram de tendões e músculos e depois de pele. Porém não havia respiração nos corpos (Ez. 37. 7 – 8). São corpos semelhantes ao corpo de Adão, saído das mãos de Deus (Gn. 2. 7). Para que Adão tivesse vida, como também este exercito sobre quem profetiza Ezequiel, era preciso que o Senhor soprasse o Seu Vento nos corpos inertes: Então profetizei conforme a ordem que eu havia recebido. A respiração entrou nos corpos, e eles viveram de novo e ficaram de pé. Havia tanta gente, que dava para formar um enorme exército (Ez. 37. 10).
Essa é a vida que vale a pena. A vida de verdade. Vida na dimensão do Espírito, do Vento de Deus. Totalmente incerta, absolutamente segura, porque inteiramente dependente e guiada por Ele.

9.9.05

No meu lugar

O que vou fazer não é por amor de vocês, israelitas, mas por amor do meu santo nome, que vocês profanaram em todas as nações para onde foram.
Ezequiel 36. 22

Nos últimos dias eu diria que Deus está me pondo em meu lugar. É como se a cada dia Ele precisasse me fazer ver como as coisas são de verdade na minha relação com Ele. É como se eu precisasse, cada manhã, me aperceber, de novo, de quem é o Senhor e do porquê eu posso andar com Ele. A cada dia, Deus tem sido misericordioso em me mostrar e abater meu orgulho.
É isso que faz comigo esse texto de Ezequiel. Deus coloca para o povo todas as coisas em seus devidos lugares. Expõe as prioridades que têm as coisas quando dizem respeito a Ele. O que vou fazer não é por amor de vocês, israelitas, mas por amor do meu santo nome, que vocês profanaram em todas as nações para onde foram. O povo no exílio está recebendo a promessa de que serão restaurados. Mas Deus precisa lhes dizer que o motivo dessa restauração não é nada de especial que o povo tenha, nem mesmo Deus vai fazer isso motivado pelo Seu enorme amor por Israel. Acima de tudo, sempre, está o nome do Senhor. É por amor do Seu próprio nome, que tem sido envergonhado por Israel, é por amor desse Nome que Deus vai agir para libertar e restaurar o povo.
Gosto de pensar nisso. Mais que isso: preciso pensar nisso por causa do orgulho de meu coração. Deus age, acima de qualquer coisa, para honrar, exaltar e glorificar o Seu próprio nome. A coisa mais importante, na escala de valores de Deus, é a Sua reputação, o Seu nome, o Seu poder. Se qualquer coisa se coloca como um risco de se envergonhar o nome do Senhor, ou se qualquer coisa se coloca em posição de quem quer roubar a glória que é devida unicamente a esse nome, Deus glorificará o Seu nome. Mais importante do que amor de Deus por nós está a glória do Seu nome.
Por isso, não podemos usar o amor de Deus como fuga para nossos atos. Muitas vezes nós, com nossos corações não convertidos, agimos segundo seus próprios interesses, cometemos os piores pecados, e corremos nos sentindo seguros porque acreditamos que, o amor de Deus por nós não tendo fim, estamos seguros. Sentimo-nos protegidos por uma promessa que Deus jamais fez. Porque do Gênesis ao Apocalipse, Deus se revela como um Deus que não divide Sua glória com ninguém e que tudo faz para que o Seu nome seja glorificado. Logo, o amor de Deus por nós nunca será desculpa para ações que envergonhem e desonrem o nome do Senhor. Ele vai agir sempre para a glória do Seu nome.
Por outro lado, Ele cuida do Seu povo por amor do Seu nome. Se estamos guardados, é porque temos o nome do Senhor em nós. Somos conhecidos pelo Seu nome. E Sua graça infindável nunca desiste daqueles que se chamam por Seu nome. Por isso, Deus vem ao Seu povo no exílio para libertá-lo. Ele vem para livrar o Seu povo que leva o Seu nome para que esse nome não seja mais envergonhado. E vem mudar esse povo com Seu poder. Vai converter os seus corações endurecidos e pecadores: Borrifarei água limpa sobre vocês e os purificarei de todos os seus ídolos e de todas as coisas nojentas que vocês têm feito. Eu lhes darei um coração novo e porei em vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra, desobediente, e lhes darei um coração bondoso, obediente. Porei o meu Espírito dentro de vocês e farei com que obedeçam minhas leis e cumpram todos os mandamentos que lhe dei (Ez. 36. 25 – 27).
Esse texto me ensina a me colocar em meu lugar. Acima de tudo, Deus age por causa da Santidade do Seu nome, que precisa ser preservada. Mesmo que nos ame desesperadamente como nos ama, o Senhor não reverte essa ordem de prioridades: antes, em primeiro lugar, está a Sua glória. Em favor dela é que Deus age prioritariamente. E ainda quando age em nosso favor, ainda quando promete converter os nossos corações, mudar a nossa vida e a nossa relação com Ele, é porque somos o povo que se chama pelo Seu nome. É porque temos o Seu nome em nós. O Seu compromisso, antes de qualquer coisa, é honrar o Seu nome. Por isso, ser de Jesus, andar com Ele e ter com Ele comunhão deve significar ter como principal compromisso honrar o Seu nome. Quando Deus me usa ou me abençoa, devo lembrar que faz isso, não porque sou especial, mas porque Ele quer honrar o Seu nome e me quer honrando-o também. Espero que, como eu, estejamos todos aprendendo esta lição no dia a dia com o Senhor.

8.9.05

Testemunho

Por isso, profetize para o meu povo de Israel e diga-lhes que eu, o Senhor Deus, abrirei as sepulturas deles, e os tirarei para fora...
Ezequiel 37. 12

Eu nasci em um lar tipicamente envolto nos sincretismo brasileiros. Se, por um lado, a família de meu pai, com quem não tive muito contato até anos recentes, era toda de origem evangélica, por outro, a família de minha mãe, o ambiente em que cresci, era uma mescla de espiritismo kardecista e catolicismo formal.
Logo na minha infância me encantei com a lógica do espiritismo. Passei anos lendo as obras de Allan Kardec todas as noites, antes de dormir. A noção de que o espiritismo não é religião, mas filosofia e ciência arrastava meu pensamento a acreditar em tudo aquilo. Tudo aquilo que podia ser “comprovado” em diversas experiências em meu lar. A mais marcante aconteceu quando eu, em torno dos quatro anos de idade, “vi” meu avô, a quem não conhecia, na porta do meu quarto.
Com sete anos de idade, fui estudar em uma das mais conhecidas escolas católicas de Natal, o Colégio das Neves. Ali, no início da adolescência, me envolvi com o grupo de jovens católicos do colégio. E foi assim até o fim da escola.
Em 1995, minha avó e minha tia tiveram um encontro pessoal com Jesus. E passaram a me evangelizar. Mas, como todo espírita, eu era firme e inabalável. Lembro que um dia me levaram para conversar com o homem que hoje é meu pastor. E ali eu o tentei converter ao espiritismo. Mas Deus já estava atuando em meu coração.
Passei no vestibular e comecei a faculdade. No início do ano de 1996, eu comecei a duvidar da existência de Deus. Por mais que ainda fizesse minhas preces antes de dormir, lesse a Bíblia e os livros de Kardec, eu não tinha mais muita fé em Deus. E se eu morresse e isso significasse o fim de tudo? Comecei a ficar desesperado.
Ao mesmo tempo, em decorrência de estar envolvido com o movimento estudantil das escolas particulares de Natal, entrei para a equipe de Relações Públicas do “Bicho Papão”, bloco de Carnatal levado pelo baiano Ricardo Chaves. O bloco costumava realizar, a cada sexta-feira 13, festa temática em alguma boate de Natal. 13 de setembro de 1996 foi uma sexta-feira. E, para promover essa festa, comecei a andar para cima e para baixo nessa cidade com uma roupa inteiramente preta, com desenhos sinistros em meu peito. Ia aos bares, às escolas, enfim, a todo canto para divulgar a festa. Era o fim de agosto.
Nesse processo, eu fui a um culto de ações de graça pela recuperação de um câncer na próstata de meu tio-avô. Naquela que é hoje a minha igreja. Os jovens da igreja insistiram para que eu fosse a um acampamento que aconteceria no feriado de 7 de setembro. Meu coração estava amolecido. Eu sentia muita vontade de servir a Deus, mas algo me impedia. Terminei comprometendo-me a ir para o retiro. Eu não sabia, mas minha tia havia feito um compromisso de oração por mim, por sete semanas, em um círculo de oração da Assembléia de Deus de meu bairro.
No primeiro fim de semana de setembro aconteceu uma coisa que me perturbou. Um colega dos tempos de escola estava andando de bugre nas dunas de Genipabu e morreu. O carro em que ia capotou e o santo antônio quebrou-lhe o pescoço. Fizemos uma homenagem a ele na escola. E aquilo me abalou. Eu comecei a me perguntar: e se fosse eu? Se tivesse sido comigo? Se eu tivesse morrido? Para onde eu iria?
A esta altura, o espiritismo já estava sem sentido para mim. Por dois motivos: primeiro, porque se dispõe a ter resposta a todas as questões possíveis, mas eu já estava descobrindo que há respostas que não dizem nada em certas situações. Na morte de meu colega, qualquer resposta que o espiritismo quisesse trazer não serviria de nada. Além disso, eu descobri que a lógica fundamental do espiritismo, quando se trata de Jesus, é uma falácia: é verdade que cada um é responsável por seus atos e que eu não posso pagar pelos erros de ninguém, além de mim mesmo – o que é o fundamento da idéia de karma e reencarnação –, mas eu já estava descobrindo que Jesus podia ter feito exatamente isso, pagando pelos meus e seus pecados, porque Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele é o Cordeiro de Deus, perfeito, que tira o pecado do mundo. Eu não podia fazer isso, mas Jesus fez. Isso já estava aparecendo com clareza em minha mente e coração.
Fui para o acampamento. No segundo dia, o sábado 7, fui dormir com uma sensação estranha: era como se houvesse uma enorme nuvem de alegria ao meu redor, mas que não conseguia entrar em meu coração. Na manhã seguinte, a Palavra pregada falou profundamente ao meu coração. O pregador começou a fazer um apelo e dizia, entre outras coisas, que havia um jovem que se converteria naquele dia, mas que existia um demônio que estava segurando suas mãos. Quando me toquei, eu estava com os braços cruzados, mãos sob as axilas, e não me movia. Por dentro, eu incendiava. Suava, nervoso. A única coisa que consegui fazer foi relaxar os braços, mas tinha certeza de que era de mim que o pregador falava. Acabou o culto, minha tia foi falar com o pastor. Tudo o que eu esperava era que ele me perguntasse se eu queria aceitar Jesus naquela hora... mas ele me jogou um balde de água fria, me perguntando sobre o que me impedia de me decidir por Jesus.
Sai daquele conversa frustrado. Imediatamente, pensei em voltar atrás em todas as decisões que havia tomado, entre elas, sair do “Bicho Papão” e esquecer a festa da próxima sexta. No entanto, eu repreendi esses pensamentos.
À noite, dia 8 de setembro de 1996, eu fui à igreja, morrendo de sono. Cansado, eu ainda hoje não sei porque eu resolvi ir àquele culto. Quero dizer, não sei o que estava na minha mente quando fiz aquilo. Após o culto, minha tia correu até a porta para falar com o pastor e não sei o que ela lhe disse, mas sei que ele veio a mim e me perguntou se eu queria aceitar Jesus. E eu disse sim. E fui inundado pela alegria mais doce que já senti até hoje na vida. Estava leve quando voltei para casa. Feliz demais. Naquela noite, eu mal dormi. Estava em festa por minha libertação.
Mas as coisas não pararam aí. Na sexta-feira haveria aquela festa temática e eu tinha uma idéia de que o diabo ia tentar algo contra a minha vida até aquele dia. Na madrugada da quinta para a sexta, eu tinha estado louvando a Deus com um caderno de cânticos de minha tia e fui dormir após todos em casa. E, ao ir apagar a luz do banheiro, vi uma horrenda figura de um demônio sob o chuveiro. Logicamente, me assustei, mas pensei: Isso deve ser uma alucinação, coisa da minha cabeça. Imediatamente, ao pensar isso, ouvi o som de batidas. Corri para o quarto da minha tia assustado. Ela orou por mim, repreendeu aquele demônio que, discerni no momento, era o mesmo que eu tinha visto aos quatro anos, na forma de meu avô, e que havia se responsabilizado por me manter no espiritismo todos aqueles anos. Agora, eu sabia, era um inimigo derrotado.
Por isso, profetize para o meu povo de Israel e diga-lhes que eu, o Senhor Deus, abrirei as sepulturas deles, e os tirarei para fora... Hoje faz nove anos que tomei a decisão de seguir a Jesus. Nove anos que fui liberto pelo Senhor. Que Ele me tirou com Suas mãos poderosas do império das trevas e tem me conduzido cada vez mais ao Seu Reino de Amor. Faz nove anos que Ele abriu me sepultura e me tirou para fora. Por isso, eu quis partilhar um pouco dessa história neste dia.

Do lado de fora

Então vocês ficarão do lado de fora, batendo na porta e dizendo: “Senhor, nos deixe entrar!” E ele responderá: “Não sei de onde são vocês”.
Lucas 13. 25

Estar integrado em uma religião cristã não é garantia de ter relacionamento com Cristo. Fazer parte de uma igreja não garante a ninguém conhecer e ser conhecido por Jesus. O relacionamento com Cristo acontece na interação entre o nosso coração, humilde e quebrantado, e o coração santo e amoroso do Senhor.
A comunhão entre o Amado e os Seus amantes se dá em uma dimensão muito mais profunda, séria e íntima do que a dimensão da vida religiosa. É por isso que estar ativamente na vida da Igreja, pregar o evangelho, manifestar sinais e prodígios, fazer as coisas levando o nome de Jesus não nos garantem nada. E Jesus nos fala algumas vezes sobre muitos que terão feito muito por Ele, mas não tomarão parte do Reino Vindouro: Não é toda pessoa que me chama de “Senhor, Senhor” que entrará no Reino do Céu, mas somente quem faz a vontade do meu Pai, que está no céu. Quando aquele dia chegar, muitas pessoas vão me dizer: “Senhor, Senhor, pelo poder do Seu nome anunciamos a mensagem de Deus e pelo Seu nome expulsamos demônios e fizemos muitos milagres!” Então eu direi claramente a essas pessoas: “Eu nunca conheci vocês! Afastem-se de mim, vocês que só fazem o mal!” (Mt. 7. 21 – 23). É terrível perceber que existem muitos dentre nós – talvez até mesmo nós – que falamos em nome de Jesus, pregamos, realizamos milagres... mas nunca conhecemos Jesus nem fomos conhecidos por Ele. Podemos parecer cristãos fiéis, ao ponto de nos enganarmos a nós mesmos. Mas o resultado final de nossa vida, sem conversão, é a rejeição do Pai.
Às vezes a gente não percebe, talvez por comodidade, mas o certo é que alguns dos textos mais duros das Escrituras são dirigidos contra o Povo de Deus. São textos que expressam rejeição àqueles que mantém apenas um compromisso e comportamento formal, mas cujos corações andam longe e não foram jamais imergidos nas fontes de Água Viva: O dono da casa vai se levantar e fechar a porta. Então vocês ficarão do lado de fora, batendo na porta e dizendo: “Senhor, nos deixe entrar!” E ele responderá: “Não sei de onde são vocês”. Aí vocês dirão: “Nós comemos e bebemos com o Senhor. O Senhor ensinou na nossa cidade”. Mas Ele responderá: “Não sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, vocês que só fazem o mal” (Lc. 13. 25 – 27). A vida daqueles que mantém seu compromisso apenas aparente e formal com Cristo é repleta de hipocrisia: na aparência, andam com Jesus, mas no fundo, no íntimo só fazem o mal. Escondidos, são daqueles que sempre ouvirão as duras palavras do Senhor: Afastem-se de mim, vocês que só fazem o mal.
É disso que fala Jesus um pouco mais à frente no evangelho de Lucas quando expõe a hipocrisia dos fariseus: Para as pessoas vocês parecem bons, mas Deus conhece o coração de vocês. Pois aquilo que as pessoas acham que vale muito não vale nada para Deus (Lc. 16. 15).
E então? O que Deus vê quando o olha o seu coração? Ele é um coração quebrantado e sedento, sempre, por um relacionamento mais íntimo e pessoal com Ele? Ele contempla um coração que se humilha porque sabe que não existe nenhum bem mais precioso do que a integral e efetiva comunhão com o coração do Pai? Ele percebe alguém disposto a se pôr na dimensão da intimidade do Senhor, se pôr como eterno canal de Seu fluir e Suas bênçãos?
Ou será que Deus vê um coração seco? Um coração que conduz uma vida de eterna aparência diante dos olhos dos homens? Será que você tem centrado sua vida com Jesus na dimensão da pura religiosidade? Ou seja: será que toda a comunhão que você tem tido com o Pai é aquela que é mediada a cada semana pela instituição religiosa? Será que você desconhece o valor de se pôr todos os dias na presença Santa do Deus de Amor? Será que você não entende que a única vida verdadeira que pode brotar em nós nasce da imersão de nosso coração, todo dia, a cada instante, nos rios do Senhor, na presença do Deus vivo?
Se a sua vida com Deus é assim, nesse nível de pura formalidade, ainda há tempo de se voltar e quebrar seu coração na presença dEle, para que você aprenda a viver com Ele na dimensão da mais pura intimidade e amor.
Deus quer trazer você para um nível de comunhão e intimidade mais real, por meio de Jesus Cristo. Ele não quer manter você do lado de fora, como alguém que não O conhece e nem é conhecido por Ele. Deus deseja derramar da Sua plena vida em seu coração, quebrantando-o e transformando-o dia a dia: Eu porei a minha lei na mente deles e no coração deles a escreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Sou eu, o Senhor, quem está falando. Ninguém vai precisar ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer a Deus, o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais importantes como as mais humildes. Pois eu perdoarei os seus pecados e nunca mais me lembrarei das suas maldades. Eu, o Senhor, estou falando (Jr. 31. 33 – 34).

7.9.05

Por quê?

O Senhor Deus os amou e escolheu, não porque vocês são mais numerosos do que outros povos; de fato, vocês são menos numerosos do que qualquer outro povo.
Deuteronômio 7. 7

Imagino que cada um de nós, um dia ou outro, já se questionou acerca do porquê Deus não desistiu ainda da gente. Imagino que eu não sou único que vez por outra se olha no espelho e constata que mereço qualquer coisa de Deus, menos Seu amor incondicional ou grança salvadora. Imagino que todo ser humano, por menos que tenha conhecimento de Deus, não consegue, vez por outra, encarar com facilidade a injustiça de uma graça que não leva em conta os pecados do coração arrependido. Eu não mereço isso. Meus pecados são terríveis. Como pode o Deus santo não desistir de um pecador resoluto como eu?
Em geral pensamos assim quando vemos os nossos delitos e pecados, que tantas vezes já confessamos e nos prometemos abandonar, voltarem com força à nossa prática diária. Mentimos, somos cínicos, hipócritas, grosseiros, arrogantes, vaidosos, soberbos. E quando percebemos a gravidade de todas essas coisas imaginamos que chegou o nosso fim. Deus não pode nos perdoar, nós que conhecemos tão bem a verdade e a necessidade de sermos santos. Deus não pode nos perdoar porque não conseguimos ser santos e sem santidade ninguém pode ver o Senhor (Hb. 12. 14). Somos reincidentes tantas vezes. Por que Deus ainda não desistiu de alguém como eu?
Nos dias de Jesus eram muitas as pessoas que se sentiam dessa forma, eu suponho. A pressão de uma sociedade extremamente religiosa servia muito para aumentar a intensidade dos sentimentos de culpa perturbadores. O pior do sentimento de culpa é gerar em nós a sensação de que somos imperdoáveis.
Imagino que fosse um sentimento assim que dominava o coração daquela mulher, que vivia em pecado, e invadiu a casa de Simão, o fariseu, quando Jesus jantava ali. Ela soube que Jesus estava jantando na casa do fariseu. Então pegou um frasco feito de alabastro, cheio de perfume, e ficou aos pés de Jesus, por trás. Ela chorava e as suas lágrimas molhavam os pés dele. Então ela os enxugou com os seus próprios cabelos. Ela beijava os pés de Jesus e derramava o perfume neles (Lc. 7. 37 – 38). Uma mulher da vida, desvalorizada, estigmatizada, sofrida e humilhada. Além do que naturalmente carregava na consciência de sofrimento, dor, culpa e pecado, ainda era esmagada pelo preconceito social e pela pressão que essa sociedade moralista lhe impunha. Que ousadia a dela invadir a casa do fariseu! Esse é um sinal do desespero da sua situação, ao mesmo tempo em que nos mostra que somente esses desesperados que sabem que não têm mais jeito são capazes de entender a profundidade do amor e da missão de Jesus. Simão não entendeu, porque repreendeu em sua mente a atitude de aceitação que Jesus demonstrou à mulher. Você está vendo esta mulher? (...) Eu afirmo a você, então, que o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados. Mas onde pouco é perdoado, pouco amor é mostrado (Lc. 7. 44 e 47). Se Jesus é capaz de transformar assim a história de uma mulher da vida, aceitando-a, perdoando-a e amando-a, sem desistir dela por qualquer razão, especialmente preconceitos sociais e sentimentos de culpa moralistas, Ele não desistirá de nenhum de nós em situação alguma e estará sempre disposto a restaurar a nossa história. Mas quer persistir a pergunta: por quê?
Deus não nos escolheu amar, em momento algum, porque houvesse algo de especial em nós. Ele, simplesmente, decidiu fazer de nós alvos constantes desse amor infinito. Ninguém pode nos afastar desse amor. E esse amor não depende do que somos, do que fomos, ou do que fazemos. Apesar de nós, Deus nos ama em Cristo desesperadamente.
O Senhor Deus os amou e escolheu, não porque vocês são mais numerosos do que outros povos; de fato, vocês são menos numerosos do que qualquer outro povo. Mas o Senhor os amou e com a sua força os livrou do poder de Faraó, o rei do Egito, onde vocês eram escravos (Dt. 7. 7 – 8). O que o texto nos fala sobre o amor de Deus por Israel e a libertação promovida por este amor no Egito ainda responde o nosso por que hoje. Não temos como saber o motivo pelo qual Deus decidiu que nos amaria e jamais desistiria de nós. Só podemos ter certeza que esse amor não passa porque ele não depende de nós: ele nasce em Deus, nutre sua força no Senhor mesmo e nada do que possamos fazer ou sofrer pode destruí-lo. Não tenho como entender por que é assim, mas posso saber e crer que é assim porque Deus assim o decidiu. Ele nos ama e não desiste de nós.