Ninguém vai precisar ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais humildes como as mais importantes.
Hebreus 8. 11
O autor de Hebreus entende uma coisa muito claramente a respeito do povo que vive a dimensão da Nova Aliança firmada em Jesus: o povo da Nova Aliança conhece o Senhor e não precisa ser desafiado a conhecê-Lo no seu dia a dia. Conhecer ao Senhor será uma coisa natural para o povo de Deus. Mais que isso: o povo de Deus deve ser reconhecido como composto pelas pessoas que conhecem ao Senhor a ponto de poder torná-lo plenamente conhecido.
Obviamente, nos colocamos em uma situação difícil. Porque não é raro você se deparar com um monte de gente em nossas igrejas que, por mais cargos que ocupe ou por mais tempo que conviva nas comunidades religiosas, tem nitidamente estampado em seus rostos o profundo desconhecimento do Deus de Israel. Quantos de nós estamos nas igrejas sem conhecer, verdadeiramente, o Deus que se revela em Jesus Cristo? O fato de que Deus convoca tantas e tantas vezes o Seu povo para conhecê-Lo melhor testemunha de que são poucos os que realmente O conhecem entre os que levam o Seu nome.
As causas desse desconhecimento e desconexão entre nós e o nosso Pai – a nossa falta de relacionamento íntimo e profundo com Ele – não são difíceis de constatar. Quantos de nós reservamos a oração e a comunhão com Ele por meio da Palavra – formas praticamente únicas de nos aproximarmos e conhecermos o Pai – a um plano eminentemente secundário em nossas vidas? Quantos de nós não fazemos parte do grupo que não conhece a Deus verdadeiramente – sendo incapaz de ouvir a Sua voz e orientação – e nem se esforçam, pouco que seja, para conhecê-lo? Será que vivendo assim somos, realmente, povo de Deus?
Ninguém vai precisar ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais humildes como as mais importantes. O texto me diz que o povo da Nova Aliança em Jesus não precisa ser lembrado ou ensinado sobre conhecer a Deus porque todos O conhecem. Mas sabemos que isso não traduz a mais profunda realidade de nossas comunidades. E, provavelmente, esse será um fator para a pouca efetividade que temos, como cristãos, no enfrentamento dos problemas do mundo e na proclamação da transformação pela pregação do Reino. Não temo afirmar que influenciamos pouco nas questões decisivas de implementação da vontade de Deus no mundo porque somos muitos crentes, mas poucos dispostos a conhecer a Deus e fazer parte do povo da Nova Aliança em nossas igrejas. Conhecemos pouco ao Deus que dizemos seguir e manifestamos menos ainda a Sua graça e presença ao mundo.
É um quadro preocupante quando olhamos para nossas vidas e nosso coração e constatamos que lugar o desejo de comunhão e vida íntima com Senhor ocupa. É muito difícil imaginarmo-nos conhecendo alguém com quem não convivemos. Mas é essa a opção que temos escolhido. A oração tem sido deixada de lado, como se fosse privilégio de uns poucos chamados à vida de intercessão. A leitura e meditação na Palavra, que caracteriza o homem feliz do Salmo 1, é tão negligenciada por nós que muitos têm chamado a atual geração de cristãos de analfabetos bíblicos. Como alguém poderá se sentir um feliz, segundo os termos do Salmo 1, se não é alguém que se dedica à constante leitura e meditação da Lei?
Essa é uma acusação primeiramente contra mim mesmo. Como posso querer ser conhecido como povo da Nova Aliança se, tantas vezes, sinto o Senhor Jesus um profundo desconhecido a mim? Mas sei que tomar parte dessa aliança de vida implica em conhecê-Lo em profundidade. Por isso o meu desejo máximo na vida tem sido esse. Acima de tudo, quero conhecer ao Senhor. Acima de tudo, quero ser reconhecido como alguém que O conhece e dedica a sua vida a conhecê-Lo mais. Sei que é uma geração assim que Deus quer ver brotar no meio do Seu povo. Ninguém vai precisar ensinar o seu patrício nem o seu parente, dizendo: “Procure conhecer o Senhor”. Porque todos me conhecerão, tanto as pessoas mais humildes como as mais importantes.
25.10.05
24.10.05
Minha história
Ele [Jesus] fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte.
Hebreus 2. 14
Há alguns meses eu já sabia que, independente do resultado da votação de ontem, era isso que escreveria neste 24 de outubro. Entrei na campanha do desarmamento em maio e, desde o início, independente dos motivos sociais que me deixavam profundamente convicto da escolha correta, tive a mais pura convicção de que estava envolvido com aquilo muito mais de uma perspectiva ministerial. Deus me vocacionara para a tarefa. E, dia a dia, Ele foi me guiando em toda a caminhada, mesmo na campanha pela votação derrotada de ontem.
No dia 20 de maio deste ano, enquanto estava em uma reunião de minha base de pesquisa na universidade, um irmão querido me ligou. Era o fim da tarde daquela sexta-feira quando ele me chamou para uma reunião na manhã seguinte, em uma igreja. Como já tinha, por motivos diversos, dito não em algumas ocasiões a ele, me senti compelido a aceitar e ir para a reunião, que trataria sobre o desarmamento. Eu hoje posso dizer que não tinha a menor idéia do que se tratava a reunião.
No sábado pela manhã, Deus me pegou pela palavra. Antes de sair de casa, comentei com minha família que lamentava não ter tomado parte das lutas pela democratização do Brasil. Ao terminar de falar, disse que ainda restava uma luta na qual ainda podia me envolver: a luta contra a desigualdade social. Deus me pegou por essa palavra, porque quando cheguei à reunião percebi que a questão do desarmamento era muito mais do que simplesmente recolher armas da sociedade – coisa que poucos brasileiros entenderam na votação de ontem. Eu me vi naquela manhã no meio de pessoas que, por anos, têm lutado contra a desigualdade, por um país mais justo. Pessoas que têm perspectiva de que precisam enfrentar as causas da violência. Imediatamente percebi que a questão do desarmamento era muito mais ampla que jamais podia ter imaginado. Muitas outras questões a perpassavam. Mais que isso: Deus me falou nitidamente ao coração que aquela oportunidade respondia às minhas palavras de mais cedo. Não podia fugir ao Seu chamado. Tu és mais forte do que eu e me dominaste (Jr. 20. 7).
Ao mesmo tempo em que percebi a questão social mais ampla envolvida no desarmamento – e que era clara na mente de todos os religiosos e militantes que ali estavam – comecei a discernir a questão espiritual envolvida. Sobre ela, eu jamais discorri em qualquer debate ou em outra circunstância. Mas os meses só foram me confirmando a certeza de que essa era uma luta, não contra seres humanos simplesmente, mas contra poderes espirituais do mal nas regiões celestes (Ef. 6. 12). Afinal, nossa luta era contra uma indústria que lucra com a morte dos outros: Ele [Jesus] fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte. Nossa luta era para salvar vidas contra forças espirituais que se esforçam por destruí-las. Nossa luta era para manifestar a vitória de Jesus contra as forças da morte do diabo.
Um dos momentos mais marcantes para mim nessa caminhada foi numa manhã de segunda-feira no mês de junho. Eu voltava de uma reunião do comitê quando, por incrível que pareça, escorreguei em uma casca de banana. No dia anterior, eu havia pregado na minha igreja uma mensagem bíblica sobre compromisso social. A Palavra que Deus dera fora tão radical que uma irmã chegou a me contradizer durante a pregação. Já falei sobre essa experiência alguns meses atrás. Sabia que estava mexendo em ninho de vespas. Deus me mostrara em vários sonhos as tentativas que o Diabo, que tem poder sobre a morte, estava levantando contra a minha vida. Naquela segunda, eu escorreguei em uma casca de banana e não encostei nada do meu corpo no chão, a não ser minha mão esquerda que ralou na calçada. No mesmo instante, Deus me falou ao coração com clareza que aquela tinha sido uma seta lançada pelo maligno, mas que Ele me dera livramento. Eu escorrei em uma calçada e, por pouco, não batia minha cabeça no meio fio. Mas, como marca desse livramento, trago em mim a cicatriz para o resto da minha vida. Eu sorria enquanto as pessoas se preocupavam com a ferida na minha mão porque sabia o que havia acontecido, o que significava. Ao mesmo tempo em que se tratava de um claro livramento de Deus para mim, era também o sinal mais claro de que, do ponto de vista espiritual, o meu envolvimento com a causa social do desarmamento estava incomodando as forças das trevas. Eu sorria porque me sabia no centro da vontade de Deus.
Quando se aproximou a campanha eleitoral, percebemos o jogo sujo que estava para ser jogado. E como não podia deixar de ser, o pai da mentira usou inúmeros subterfúgios para manipular a opinião pública brasileira. Nunca imaginei que ainda fosse possível um jogo eleitoral com tamanha quantidade de mentiras. Mas quando me deparava com isso era ainda mais consciente de que estava em uma batalha espiritual.
Tenho a mais absoluta convicção de que ontem o Brasil não experimentou um simples referendo: tratou-se da mais intensa batalha espiritual. Por isso, não me surpreendia quando eu via muitos crentes acreditando na vigorosa propaganda subliminar e nos efeitos de sentido discursivos da campanha vencedora. Se alguém podia vencer a batalha de ontem seria a igreja unida em oração. Mas, como em toda luta espiritual, Satanás e suas hostes trataram de dissipar o exército intercessor, fazendo o que é de sua natureza: mentindo, enganando. E um exército enfraquecido foi à luta, uma vez que muitos cristãos cederam ao outro lado. O diabo faz tudo para enganar, se possível, até o povo escolhido de Deus (Mt. 24. 24).
Era preciso ter olhos espirituais para perceber do que estava se tratando, mas não apresentei, propositalmente, essa perspectiva nos debates de que participei. Sabia que deveria deixar para expô-la após o pleito. Mas todas as vezes em que, ao debater com alguém, convencia-o de que o que estava acreditando não tinha fundamento (o que aconteceu várias vezes), qual não era a minha surpresa ao perceber que a pessoa dizia: Você está certo, mas ainda assim vou votar não! As pessoas percebiam estar acreditando em mentiras, mas ainda assim mantinham-se cegas pelo não. Força das trevas, ação do mal.
A força contra a qual nos levantamos ontem em oração não foi a força do dinheiro da Taurus. Foi a força de principados e potestades que têm submetido o país no mar de violência em que nos encontramos. Os poderes espirituais do mal que atuam na disseminação da violência e na indústria da morte foram muito eficazes na propagação do medo, revolta e raiva.
Era impressionante como a gente se deparava com tanta gente raivosa nos debates nos quais me envolvi. As expressões dos rostos e a intransigência das falas, apesar da disposição democrática de todos os que fizemos a campanha em Natal, podiam ser facilmente confundidas, em um ambiente eclesiástico, com possessões. Não estou exagerando. Algumas pessoas pareciam dominadas por paixões primitivas, próximas àquelas que manifestam os endemoninhados, quando defendiam o não em alguns momentos. E, mesmo que convencidos da falsidade de seus pressupostos, reafirmavam a decisão passional de seu voto. Não pareciam decisões firmadas em qualquer motivo racional, mas parecia influência espiritual.
Intercedi bastante pela votação de ontem, mas estava certo de que não era o suficiente. O diabo venceu a luta dividindo a igreja por meio do engano. Desde o início da minha história nesse movimento, em maio deste ano, era consciente da dimensão da batalha espiritual em que estava inserido. Sabia que se perdêssemos o referendo, o perderíamos na (falta) de oração. Enfrentamos adversários poderosos, mas já derrotados – poderes espirituais por trás da indústria da morte, maior segmento econômico do planeta –, mas os cristãos enganados se dividiram e não cerraram fileiras para que se manifestasse em nosso meio a vitória eterna de Jesus: Ele [Jesus] fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte.
Hebreus 2. 14
Há alguns meses eu já sabia que, independente do resultado da votação de ontem, era isso que escreveria neste 24 de outubro. Entrei na campanha do desarmamento em maio e, desde o início, independente dos motivos sociais que me deixavam profundamente convicto da escolha correta, tive a mais pura convicção de que estava envolvido com aquilo muito mais de uma perspectiva ministerial. Deus me vocacionara para a tarefa. E, dia a dia, Ele foi me guiando em toda a caminhada, mesmo na campanha pela votação derrotada de ontem.
No dia 20 de maio deste ano, enquanto estava em uma reunião de minha base de pesquisa na universidade, um irmão querido me ligou. Era o fim da tarde daquela sexta-feira quando ele me chamou para uma reunião na manhã seguinte, em uma igreja. Como já tinha, por motivos diversos, dito não em algumas ocasiões a ele, me senti compelido a aceitar e ir para a reunião, que trataria sobre o desarmamento. Eu hoje posso dizer que não tinha a menor idéia do que se tratava a reunião.
No sábado pela manhã, Deus me pegou pela palavra. Antes de sair de casa, comentei com minha família que lamentava não ter tomado parte das lutas pela democratização do Brasil. Ao terminar de falar, disse que ainda restava uma luta na qual ainda podia me envolver: a luta contra a desigualdade social. Deus me pegou por essa palavra, porque quando cheguei à reunião percebi que a questão do desarmamento era muito mais do que simplesmente recolher armas da sociedade – coisa que poucos brasileiros entenderam na votação de ontem. Eu me vi naquela manhã no meio de pessoas que, por anos, têm lutado contra a desigualdade, por um país mais justo. Pessoas que têm perspectiva de que precisam enfrentar as causas da violência. Imediatamente percebi que a questão do desarmamento era muito mais ampla que jamais podia ter imaginado. Muitas outras questões a perpassavam. Mais que isso: Deus me falou nitidamente ao coração que aquela oportunidade respondia às minhas palavras de mais cedo. Não podia fugir ao Seu chamado. Tu és mais forte do que eu e me dominaste (Jr. 20. 7).
Ao mesmo tempo em que percebi a questão social mais ampla envolvida no desarmamento – e que era clara na mente de todos os religiosos e militantes que ali estavam – comecei a discernir a questão espiritual envolvida. Sobre ela, eu jamais discorri em qualquer debate ou em outra circunstância. Mas os meses só foram me confirmando a certeza de que essa era uma luta, não contra seres humanos simplesmente, mas contra poderes espirituais do mal nas regiões celestes (Ef. 6. 12). Afinal, nossa luta era contra uma indústria que lucra com a morte dos outros: Ele [Jesus] fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte. Nossa luta era para salvar vidas contra forças espirituais que se esforçam por destruí-las. Nossa luta era para manifestar a vitória de Jesus contra as forças da morte do diabo.
Um dos momentos mais marcantes para mim nessa caminhada foi numa manhã de segunda-feira no mês de junho. Eu voltava de uma reunião do comitê quando, por incrível que pareça, escorreguei em uma casca de banana. No dia anterior, eu havia pregado na minha igreja uma mensagem bíblica sobre compromisso social. A Palavra que Deus dera fora tão radical que uma irmã chegou a me contradizer durante a pregação. Já falei sobre essa experiência alguns meses atrás. Sabia que estava mexendo em ninho de vespas. Deus me mostrara em vários sonhos as tentativas que o Diabo, que tem poder sobre a morte, estava levantando contra a minha vida. Naquela segunda, eu escorreguei em uma casca de banana e não encostei nada do meu corpo no chão, a não ser minha mão esquerda que ralou na calçada. No mesmo instante, Deus me falou ao coração com clareza que aquela tinha sido uma seta lançada pelo maligno, mas que Ele me dera livramento. Eu escorrei em uma calçada e, por pouco, não batia minha cabeça no meio fio. Mas, como marca desse livramento, trago em mim a cicatriz para o resto da minha vida. Eu sorria enquanto as pessoas se preocupavam com a ferida na minha mão porque sabia o que havia acontecido, o que significava. Ao mesmo tempo em que se tratava de um claro livramento de Deus para mim, era também o sinal mais claro de que, do ponto de vista espiritual, o meu envolvimento com a causa social do desarmamento estava incomodando as forças das trevas. Eu sorria porque me sabia no centro da vontade de Deus.
Quando se aproximou a campanha eleitoral, percebemos o jogo sujo que estava para ser jogado. E como não podia deixar de ser, o pai da mentira usou inúmeros subterfúgios para manipular a opinião pública brasileira. Nunca imaginei que ainda fosse possível um jogo eleitoral com tamanha quantidade de mentiras. Mas quando me deparava com isso era ainda mais consciente de que estava em uma batalha espiritual.
Tenho a mais absoluta convicção de que ontem o Brasil não experimentou um simples referendo: tratou-se da mais intensa batalha espiritual. Por isso, não me surpreendia quando eu via muitos crentes acreditando na vigorosa propaganda subliminar e nos efeitos de sentido discursivos da campanha vencedora. Se alguém podia vencer a batalha de ontem seria a igreja unida em oração. Mas, como em toda luta espiritual, Satanás e suas hostes trataram de dissipar o exército intercessor, fazendo o que é de sua natureza: mentindo, enganando. E um exército enfraquecido foi à luta, uma vez que muitos cristãos cederam ao outro lado. O diabo faz tudo para enganar, se possível, até o povo escolhido de Deus (Mt. 24. 24).
Era preciso ter olhos espirituais para perceber do que estava se tratando, mas não apresentei, propositalmente, essa perspectiva nos debates de que participei. Sabia que deveria deixar para expô-la após o pleito. Mas todas as vezes em que, ao debater com alguém, convencia-o de que o que estava acreditando não tinha fundamento (o que aconteceu várias vezes), qual não era a minha surpresa ao perceber que a pessoa dizia: Você está certo, mas ainda assim vou votar não! As pessoas percebiam estar acreditando em mentiras, mas ainda assim mantinham-se cegas pelo não. Força das trevas, ação do mal.
A força contra a qual nos levantamos ontem em oração não foi a força do dinheiro da Taurus. Foi a força de principados e potestades que têm submetido o país no mar de violência em que nos encontramos. Os poderes espirituais do mal que atuam na disseminação da violência e na indústria da morte foram muito eficazes na propagação do medo, revolta e raiva.
Era impressionante como a gente se deparava com tanta gente raivosa nos debates nos quais me envolvi. As expressões dos rostos e a intransigência das falas, apesar da disposição democrática de todos os que fizemos a campanha em Natal, podiam ser facilmente confundidas, em um ambiente eclesiástico, com possessões. Não estou exagerando. Algumas pessoas pareciam dominadas por paixões primitivas, próximas àquelas que manifestam os endemoninhados, quando defendiam o não em alguns momentos. E, mesmo que convencidos da falsidade de seus pressupostos, reafirmavam a decisão passional de seu voto. Não pareciam decisões firmadas em qualquer motivo racional, mas parecia influência espiritual.
Intercedi bastante pela votação de ontem, mas estava certo de que não era o suficiente. O diabo venceu a luta dividindo a igreja por meio do engano. Desde o início da minha história nesse movimento, em maio deste ano, era consciente da dimensão da batalha espiritual em que estava inserido. Sabia que se perdêssemos o referendo, o perderíamos na (falta) de oração. Enfrentamos adversários poderosos, mas já derrotados – poderes espirituais por trás da indústria da morte, maior segmento econômico do planeta –, mas os cristãos enganados se dividiram e não cerraram fileiras para que se manifestasse em nosso meio a vitória eterna de Jesus: Ele [Jesus] fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte.
18.10.05
Rendição
Pessoal,
Eu preciso me render. Não dá para me manter escrevendo nesta semana, a poucos dias do referendo. Temos muito trabalho pela frente. Por isso, vou me ausentar um pouco e prometo regressar depois do dia 23 de outubro. Orem por mim. Orem por essa batalha espiritual. Você vem contra mim com espada, lança e dardo. Mas eu vou contra você em nome do Senhor Deus Todo-Poderoso, que você desafiou! (1 Sm. 17. 45).
Eu preciso me render. Não dá para me manter escrevendo nesta semana, a poucos dias do referendo. Temos muito trabalho pela frente. Por isso, vou me ausentar um pouco e prometo regressar depois do dia 23 de outubro. Orem por mim. Orem por essa batalha espiritual. Você vem contra mim com espada, lança e dardo. Mas eu vou contra você em nome do Senhor Deus Todo-Poderoso, que você desafiou! (1 Sm. 17. 45).
Ungidos
O Senhor Deus me deu o Seu Espírito, pois Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres.
Isaías 61. 1
Muitas pessoas buscam ardentemente pelo Espírito Santo. Querem ser cheias dEle. Querem receber a Sua unção. Embora seja uma promessa para aqueles que recebem a salvação em Cristo, para todos nós, o derramar do Espírito traz implicações para as quais não temos atentado muitas vezes. O poder do Espírito, Seus dons e Sua plenitude não vêm sem propósito. Se o poder de Deus vem sobre a igreja e sobre o cristão é para capacitá-lo para alguma coisa específica. Um serviço ou ministério que pertence a cada pessoa individualmente. Não existe poder do Espírito para se gastar em si mesmo, ou olhando para o próprio umbigo. Poder do Espírito é para nos impulsionar para fora de nós mesmos e abençoar os que estão à volta.
O Senhor Deus me deu o Seu Espírito, pois Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Fomos chamados por Deus e recebemos o Seu Espírito para sermos, especialmente, instrumentos de libertação e da transformação do mundo à nossa volta. Não fomos chamados para curtirmos o prazer de conhecer a Deus, mas sobre nós vem o Seu poder para que, nesse poder, possamos ir na direção do mundo, para transformar a realidade à nossa volta. Fomos chamados para libertar o mundo.
Não quero espiritualizar o texto de Isaías 61 porque não acredito que ele foi escrito para ser entendido, prioritariamente, de forma espiritualizada. Ele se refere à tradição do ano jubilar no Antigo Testamento: aquele momento, a cada sete ou cinqüenta anos, em que dívidas eram perdoadas, escravos eram libertados, as terras eram restituídas aos seus primeiros donos, numa verdadeira ação de Reforma Agrária conduzida pelo Senhor. O Espírito Santo nos unge, como ungiu Jesus, para promover uma transformação completa da humanidade, incluindo sua vida social. Isso é importante demais em um contexto como o Brasil contemporâneo: campeão mundial de mortes pela guerra urbana, um dos piores índices de IDH do mundo. Um lugar onde dizem que cresce a igreja de Cristo. Se ela cresce que papel tem desempenhado como ungida pelo Espírito Santo? Se é uma igreja cheia do Espírito, por que não tem contribuído para a transformação do mundo à sua volta? Por que acontece em nossas cidades algo como o que ocorre no bairro de Felipe Camarão, em Natal: um dos bairros com maior presença evangélica e, ao mesmo tempo, reconhecido como bairro mais violento da cidade?
Para mim, só há uma resposta. As igrejas não estão cheias do Espírito Santo, mas provavelmente estão cheias de si. Porque o Espírito nos unge e para realizar algumas tarefas bem definidas: O Senhor Deus me deu o Seu Espírito, pois Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Ele me enviou para animar os aflitos, para anunciar a libertação aos escravos e a liberdade para os que estão na prisão (Is. 61. 1). Agora, se eu e você, se a igreja está presente em um ambiente mas os pobres não recebem boas notícias, os aflitos não são animados, os escravos – os explorados – não são libertos, os presos – os injustiçados – não são livres, ou não recebem o nosso apoio em suas lutas, para mim isso é um forte indício de que não estamos tão cheios do Espírito quanto estamos de nós mesmos.
Billy Graham admitia que um dos traços principais que caracterizam uma igreja e um cristão como cheios do Espírito é o envolvimento nas causas que redundam na transformação da sociedade e libertação do oprimido. O cristão, cheio do Espírito, deveria ser alguém profundamente otimista, utópico e lutador. Mas o que vemos, lamentavelmente – e que nos marca como pessoas que precisam aprender a mergulhar mais na intimidade dos rios de águas vivas do nosso Deus –, são cristão adeptos da tese do quanto pior melhor, como se o mundo precisasse piorar para a volta de Jesus, para o quê a igreja colabora com sua omissão. Muitos cristãos, profundamente pessimistas, manifestam sua falta de enchimento do Espírito e sua plenitude de Si mesmos. Mas ainda há tempo de voltar atrás. As águas da vida de Jesus permanecem disponíveis para quem quiser bebê-las. Basta correr e se chegar a Ele. Com fome e sede de justiça, que serão plenamente saciadas.
Isaías 61. 1
Muitas pessoas buscam ardentemente pelo Espírito Santo. Querem ser cheias dEle. Querem receber a Sua unção. Embora seja uma promessa para aqueles que recebem a salvação em Cristo, para todos nós, o derramar do Espírito traz implicações para as quais não temos atentado muitas vezes. O poder do Espírito, Seus dons e Sua plenitude não vêm sem propósito. Se o poder de Deus vem sobre a igreja e sobre o cristão é para capacitá-lo para alguma coisa específica. Um serviço ou ministério que pertence a cada pessoa individualmente. Não existe poder do Espírito para se gastar em si mesmo, ou olhando para o próprio umbigo. Poder do Espírito é para nos impulsionar para fora de nós mesmos e abençoar os que estão à volta.
O Senhor Deus me deu o Seu Espírito, pois Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Fomos chamados por Deus e recebemos o Seu Espírito para sermos, especialmente, instrumentos de libertação e da transformação do mundo à nossa volta. Não fomos chamados para curtirmos o prazer de conhecer a Deus, mas sobre nós vem o Seu poder para que, nesse poder, possamos ir na direção do mundo, para transformar a realidade à nossa volta. Fomos chamados para libertar o mundo.
Não quero espiritualizar o texto de Isaías 61 porque não acredito que ele foi escrito para ser entendido, prioritariamente, de forma espiritualizada. Ele se refere à tradição do ano jubilar no Antigo Testamento: aquele momento, a cada sete ou cinqüenta anos, em que dívidas eram perdoadas, escravos eram libertados, as terras eram restituídas aos seus primeiros donos, numa verdadeira ação de Reforma Agrária conduzida pelo Senhor. O Espírito Santo nos unge, como ungiu Jesus, para promover uma transformação completa da humanidade, incluindo sua vida social. Isso é importante demais em um contexto como o Brasil contemporâneo: campeão mundial de mortes pela guerra urbana, um dos piores índices de IDH do mundo. Um lugar onde dizem que cresce a igreja de Cristo. Se ela cresce que papel tem desempenhado como ungida pelo Espírito Santo? Se é uma igreja cheia do Espírito, por que não tem contribuído para a transformação do mundo à sua volta? Por que acontece em nossas cidades algo como o que ocorre no bairro de Felipe Camarão, em Natal: um dos bairros com maior presença evangélica e, ao mesmo tempo, reconhecido como bairro mais violento da cidade?
Para mim, só há uma resposta. As igrejas não estão cheias do Espírito Santo, mas provavelmente estão cheias de si. Porque o Espírito nos unge e para realizar algumas tarefas bem definidas: O Senhor Deus me deu o Seu Espírito, pois Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Ele me enviou para animar os aflitos, para anunciar a libertação aos escravos e a liberdade para os que estão na prisão (Is. 61. 1). Agora, se eu e você, se a igreja está presente em um ambiente mas os pobres não recebem boas notícias, os aflitos não são animados, os escravos – os explorados – não são libertos, os presos – os injustiçados – não são livres, ou não recebem o nosso apoio em suas lutas, para mim isso é um forte indício de que não estamos tão cheios do Espírito quanto estamos de nós mesmos.
Billy Graham admitia que um dos traços principais que caracterizam uma igreja e um cristão como cheios do Espírito é o envolvimento nas causas que redundam na transformação da sociedade e libertação do oprimido. O cristão, cheio do Espírito, deveria ser alguém profundamente otimista, utópico e lutador. Mas o que vemos, lamentavelmente – e que nos marca como pessoas que precisam aprender a mergulhar mais na intimidade dos rios de águas vivas do nosso Deus –, são cristão adeptos da tese do quanto pior melhor, como se o mundo precisasse piorar para a volta de Jesus, para o quê a igreja colabora com sua omissão. Muitos cristãos, profundamente pessimistas, manifestam sua falta de enchimento do Espírito e sua plenitude de Si mesmos. Mas ainda há tempo de voltar atrás. As águas da vida de Jesus permanecem disponíveis para quem quiser bebê-las. Basta correr e se chegar a Ele. Com fome e sede de justiça, que serão plenamente saciadas.
16.10.05
Filhos de Deus
Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos.
Mateus 5. 9
Ontem, em um dos muitos debates em que participamos acerca do Referendo, um irmão amigo perguntou à platéia na Igreja do Nazareno em Natal quem queria ser reconhecido como filho de Deus. O texto do Sermão do Monte nos diz que serão tratados como filhos por Deus aqueles que trabalharem pela paz. Isso ficou na minha cabeça.
Às vezes, eu escrevo sobre as nossas vidas íntimas e nossas relações mais particulares com Deus. Mas às vezes é preciso que a gente se lembre que está no mundo, hoje, para fazer diferença e fazer o mundo diferente. Nessa tarde, participei, junto com algumas milhares de pessoas, umas dez mil, de uma Caminhada pela Paz pelas ruas da cidade. Caminhar pela paz não gera a paz como um passe de mágica, mas é uma ação a favor dela porque transforma nossas mentes e nossos corações pela paz.
Ali, refleti sobre a oração atribuída a Francisco de Assis: Senhor, faze-me instrumento de Tua paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erros, que eu leve a verdade. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. O filho de Deus, fazedor da paz, transforma os ambientes em lugares onde a graça de Deus se manifesta de forma natural. O filho de Deus é instrumento da paz do Senhor onde quer que esteja e pede a Deus para que seja sempre esse instrumento.
Da caminhada fui pregar em uma de nossas igrejas. No culto de missões, falei sobre o perfume de Cristo que nós somos, texto sobre o qual escrevi na semana passada: Como um perfume que se espalha por todos os lugares, somos usados por Deus para que Cristo seja conhecido por todas as pessoas (2 Co. 2. 14). E tudo se relaciona. A presença do Senhor é capaz de fazer profunda diferença na vida dos outros a partir de nós. O cheiro do Senhor se espalha desde os nossos corações e vai tocando e transformando as vidas à nossa volta.
Só podemos viver essa realidade e essa dimensão se mergulharmos na comunhão e intimidade de Deus, o nosso Pai, através de Jesus. Não é de nós mesmos que somos instrumentos de transformação. Não é nossa a paz que levamos. A paz que levamos, e que pode transformar o mundo, é paz dAquele que nos chama. Sejamos instrumentos da paz do Senhor na transformação do mundo e seremos reconhecidos como filhos de Deus.
Para sermos instrumentos dessa paz precisamos estar impregnados dela. E como isso se dá? Jesus é o Deus da Paz. Ele é o Príncipe da Paz (Is. 9. 6). É apenas nEle que podemos ter a fonte da verdadeira paz, paz que podemos levar ao mundo e que pode construir uma nova cultura, uma cultura de paz: Deixo com vocês a paz. É a minha paz que eu lhes dou; não lhes dou como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo (Jo. 14. 27). Ele que fez a paz entre o homem e Deus e entre o homem e o homem por meio de Sua cruz. Impregnados dEle podemos levar a Sua paz ao mundo.
Fui à caminhada pela paz e tenho tentado ao máximo trabalhar pela paz porque quero ser instrumento da paz de Deus ao mundo. Quero estar impregnado do shalom, afogado na Sua presença. Quero, e peço isso ao Pai, ser reconhecido como filho de Deus por ser construtor da paz. Uma paz que, acredito, não é um horizonte irrealizável para o cristão, mas uma utopia possível construída na dimensão da vida e da comunhão com Cristo: Eles transformarão as suas espadas em arados e as suas lanças, em foices. Nunca mais as nações farão guerra, nem se prepararão para batalhas (Is. 2. 4).
Mateus 5. 9
Ontem, em um dos muitos debates em que participamos acerca do Referendo, um irmão amigo perguntou à platéia na Igreja do Nazareno em Natal quem queria ser reconhecido como filho de Deus. O texto do Sermão do Monte nos diz que serão tratados como filhos por Deus aqueles que trabalharem pela paz. Isso ficou na minha cabeça.
Às vezes, eu escrevo sobre as nossas vidas íntimas e nossas relações mais particulares com Deus. Mas às vezes é preciso que a gente se lembre que está no mundo, hoje, para fazer diferença e fazer o mundo diferente. Nessa tarde, participei, junto com algumas milhares de pessoas, umas dez mil, de uma Caminhada pela Paz pelas ruas da cidade. Caminhar pela paz não gera a paz como um passe de mágica, mas é uma ação a favor dela porque transforma nossas mentes e nossos corações pela paz.
Ali, refleti sobre a oração atribuída a Francisco de Assis: Senhor, faze-me instrumento de Tua paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erros, que eu leve a verdade. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. O filho de Deus, fazedor da paz, transforma os ambientes em lugares onde a graça de Deus se manifesta de forma natural. O filho de Deus é instrumento da paz do Senhor onde quer que esteja e pede a Deus para que seja sempre esse instrumento.
Da caminhada fui pregar em uma de nossas igrejas. No culto de missões, falei sobre o perfume de Cristo que nós somos, texto sobre o qual escrevi na semana passada: Como um perfume que se espalha por todos os lugares, somos usados por Deus para que Cristo seja conhecido por todas as pessoas (2 Co. 2. 14). E tudo se relaciona. A presença do Senhor é capaz de fazer profunda diferença na vida dos outros a partir de nós. O cheiro do Senhor se espalha desde os nossos corações e vai tocando e transformando as vidas à nossa volta.
Só podemos viver essa realidade e essa dimensão se mergulharmos na comunhão e intimidade de Deus, o nosso Pai, através de Jesus. Não é de nós mesmos que somos instrumentos de transformação. Não é nossa a paz que levamos. A paz que levamos, e que pode transformar o mundo, é paz dAquele que nos chama. Sejamos instrumentos da paz do Senhor na transformação do mundo e seremos reconhecidos como filhos de Deus.
Para sermos instrumentos dessa paz precisamos estar impregnados dela. E como isso se dá? Jesus é o Deus da Paz. Ele é o Príncipe da Paz (Is. 9. 6). É apenas nEle que podemos ter a fonte da verdadeira paz, paz que podemos levar ao mundo e que pode construir uma nova cultura, uma cultura de paz: Deixo com vocês a paz. É a minha paz que eu lhes dou; não lhes dou como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo (Jo. 14. 27). Ele que fez a paz entre o homem e Deus e entre o homem e o homem por meio de Sua cruz. Impregnados dEle podemos levar a Sua paz ao mundo.
Fui à caminhada pela paz e tenho tentado ao máximo trabalhar pela paz porque quero ser instrumento da paz de Deus ao mundo. Quero estar impregnado do shalom, afogado na Sua presença. Quero, e peço isso ao Pai, ser reconhecido como filho de Deus por ser construtor da paz. Uma paz que, acredito, não é um horizonte irrealizável para o cristão, mas uma utopia possível construída na dimensão da vida e da comunhão com Cristo: Eles transformarão as suas espadas em arados e as suas lanças, em foices. Nunca mais as nações farão guerra, nem se prepararão para batalhas (Is. 2. 4).
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