2.11.05

A coisa certa a fazer

O próprio Cristo (...) deixou o exemplo, para que sigam os seus passos.
1 Pedro 2. 21

Quem assistiu Meu nome é Radio vai lembrar que ao ser perguntado porque se dedicava tanto para ajudar o jovem Radio, o treinador Harold Jones sempre respondia que aquela parecia a coisa certa a se fazer. Ainda que depois venhamos a descobrir uma outra motivação por trás das ações daquele homem, a mensagem que o filme passa é que devemos agir dessa maneira porque essa é a coisa certa a fazer.
Lembrei-me dessa frase hoje. Uma irmã de quem gosto muito, mãe de uma ex-namorada, está internada desde ontem pela manhã em uma UTI aqui de Natal. E eu estive lá ontem e hoje à tarde. Passei algumas horas ali com a família. E comecei a me perguntar porque fazia aquilo, uma vez que aquela família, pelo menos aparentemente, não tem mais nada a ver comigo. E entendi que estava fazendo aquilo porque aquela era a coisa certa a fazer. É muito difícil estar com uma família com um parente no hospital, mas essa família precisa saber que não está só, que existe alguém com quem pode contar, a quem pode abrir o coração, existe alguém que ora com eles e por eles. Fui ao hospital nessa tarde orando para que a minha presença fizesse diferença na vida de todos e para que viesse a abençoá-los de alguma forma. Essa é a coisa certa a fazer.
É assim que eu penso que devemos agir todos os que têm Cristo no coração. Somos chamados para fazer a coisa certa, independente da circunstância em que estejamos. Às vezes, a coisa certa é apenas estar ao lado de uma família que sofre, sem falar nenhuma palavra. Às vezes, fazer a coisa certa é falar com dureza a um ente querido que precisa se conscientizar a respeito de uma verdade. Às vezes, fazer a coisa certa é infligir dor a alguém que amamos pelo bem dessa pessoa. Às vezes, fazer a coisa certa é não fazer ou falar coisa alguma. Às vezes é estar presente; às vezes é faltar. Enfim, fazer a coisa certa é fazer o que Jesus faria, seguir-lhe os passos.
O próprio Cristo (...) deixou o exemplo, para que sigam os seus passos. Como cristãos, fomos chamados para fazermos o certo, mesmo quando esta não for a nossa vontade. Porque, como cristãos, somos chamados a viver de acordo com o exemplo deixado por Jesus e seguir os seus passos.
Nesses dias tenho pensado e escrito muito sobre o nosso chamado para ser bênção na vida dos outros. E esse chamado corre em profunda relação com a nossa capacidade de sermos discípulos fiéis a Jesus, andando nos rastro dos passos que Ele deixou na vida. Somos chamados a sermos os “pequenos Cristos” na vida dos outros, por nenhum outro motivo a não ser porque essa é a coisa certa a fazer.
Nossa vocação e dependência do Espírito serão máximas quando as nossas ações não tiverem nenhuma outra motivação, a não ser a verdade de que fazemos o certo porque não temos qualquer opção de não agirmos assim. A plenitude do Espírito se manifestará quando formos capazes de agir, em toda e qualquer circunstância, apenas porque era a coisa certa a fazer. Seremos bênção porque seremos santos. Seremos santos porque nenhuma motivação, a não ser o amor, estará em nossos corações. Será o esvaziamento pleno da razão humana e o enchimento total com a presença de Deus. Assim, seguiremos o exemplo de Cristo. E só assim, faremos sempre a coisa certa porque ela será a única coisa que poderemos fazer.

1.11.05

Sacríficio

E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e mandou o Seu Filho para que, por meio dEle, os nossos pecados fossem perdoados.
1 João 4. 10

Eu me acostumei com o fato de que minha mãe é capaz de fazer qualquer coisa por mim. Já vi minha mãe deixar de comer para que eu pudesse me alimentar. Já vivemos momentos difíceis, sob diversos aspectos, que ensinaram a mim o tamanho do amor que minha mãe tem por mim e a intensidade dos sacrifícios que ela é capaz de fazer em meu favor. Diante disso, sou consciente de que qualquer coisa que um dia vier a fazer por ela não equivalerá a tudo o que minha mãe já fez e já abriu mão por mim. Assim é minha mãe, como são a maioria das mães, dispostas a fazer qualquer coisa pela felicidade de seus filhos, capazes de sacrifícios máximos.
Penso que esse amor é o mais próximo que podemos chegar de compreender o amor de Deus por nós. E não é uma coisa que só diz respeito ao amor de mãe, como se os pais não fossem também capazes de qualquer coisa por seus filhos. E nisso eu relembro um filme que assisti ontem à noite – ao lado de minha mãe – protagonizado por Denzel Washington: Um ato de coragem. É a estória de um pai capaz de fazer qualquer coisa para salvar a vida de seu filho. Capaz até de morrer no lugar do filho, apenas para lhe dar uma chance de vida. Pais são seres capazes de grandes sacrifícios de amor.
O paralelo é óbvio. Se os pais humanos, limitados e pecadores, são capazes de fazer qualquer coisa em favor dos seus filhos, o que poderemos esperar da parte do Pai Celeste em nosso favor? O que o personagem de Denzel Washington – John Q – faz no filme pelo filhinho ilustra o que Deus está disposto a fazer por nós, seus filhos. John Q chega perto de dar cabo da própria vida em favor do filho. Deus não chegou perto: Ele deu a Sua própria vida na cruz para que eu e você tivéssemos a chance de viver uma vida ainda mais real na presença dEle. Não precisamos ficar esperando uma grande ação sacrificial de nosso Pai: ela já foi-nos dada. Agora é a hora de conhecê-la e crer nela. Deus já provou o Seu amor por nós, do qual o amor dos pais é apenas uma ligeira sombra.
E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e mandou o Seu Filho para que, por meio dEle, os nossos pecados fossem perdoados. O que o texto nos diz, por fim, é que esse amor é algo totalmente gratuito. Não é uma escolha que nós fazemos, não é algo que é construído por nossas forças. O amor se origina em Deus e se manifesta em sacrifício em nosso favor. Se podemos amar, se os pais podem amar com amor semelhante ao que manifesta John Q no filme, é porque esse amor nasceu em Deus, o Pai Celestial. O amor flui dEle e existe por meio dEle. Ele, que é em Si o amor. Ele, que está sempre disposto a fazer qualquer coisa para o bem dos seus filhos. Ele, que com Seu próprio sacrifício – na pessoa do Filho unigênito – nos deu vida, perdão e nos mostrou o que é realmente o amor.

Sobre fazer diferença

Quando morreu, ninguém sentiu falta dele
2 Crônicas 21. 20

Semana passada assisti, de novo, um filme da minha infância, As sete caras do Dr. Lao. Para quem não conhece ou não se lembra, o filme é ambientado em uma cidade do oeste americano, em algum ponto do século XIX. Nessa cidade chega o circo mágico do chinês Dr. Lao [fala-se Ló]. O espetáculo, que dura duas noites e muda a vida das pessoas na cidade de Abilone, tem sete personagens mágicos que a gente termina descobrindo se tratarem de uma só e a mesma pessoa: são as sete caras do Dr. Lao – Merlin, Pan, o Abominável Homem das Neves, a Medusa, a Serpente Gigante e Apollonius de Tyana, além do próprio Lao.
Apollonius de Tyana é um sábio, cego, que pode ver o futuro das pessoas. Atendendo uma cliente no espetáculo, mulher que é um dos personagens mais irritantes do filme – apaixonada pelo vilão da estória, termina manifestando uma sinceridade cruel: anuncia à pobre mulher que ela vai viver o resto de sua vida sozinha e morrer solitária. E ao morrer, não deixará nenhuma obra ou lembrança para a posteridade. Ninguém se lembrará dela, sua existência não terá feito diferença. Se ela jamais tivesse nascido, nada seria diferente no mundo. Palavras duras.
Essa estória me fez pensar. Deus não nos chamou para vivermos uma vida irrelevante. Ele não nos fez Seus servos, não nos tornou Seu povo, para que nossa passagem pelo planeta fosse indiferente. Ele nos trouxe ao Seu conhecimento para que a Sua presença em nossas vidas, diferentes por causa disso, viesse a fazer diferença nos ambientes em que vivemos, onde andamos, por onde passamos. Ele nos chamou para fazermos diferença na vida das pessoas que nos cercam. Ele nos vocacionou a viver na dimensão do Seu Espírito, na perspectiva da eternidade, tomados por Sua presença e poder. Ele nos chamou para sermos extraordinários.
É isso me encanta em textos como o Salmo 84, que não me canso de repetir e meditar: Quando eles passam pelo Vale das Lágrimas, ele fica cheio de fontes de água, e as primeiras chuvas o cobrem de bênçãos (Sl. 84. 6). Deus nos chamou para uma vida de relacionamento com Ele. Vida que faz a diferença onde estivermos: cheios de Sua presença, mesmo sem precisar abrir a boca, transformamos os vales secos e de morte em fontes de vida. É essa vida que desejo viver.
Quando morreu, ninguém sentiu falta dele. Esse é um dos textos mais tristes da Bíblia. É o outro lado da moeda. Deus nos chamou para viver vidas que fazem a diferença, mas muitos vivemos de tal maneira que ninguém sentiria a nossa falta se sumíssemos. Porém, há algo que pode ser ainda pior e é o que acontece com o rei Jeorão. Ele não é alguém cuja vida não fez diferença. No entanto, fez diferença para pior e os seus súditos comemoraram a sua morte. Ele ter partido foi um alívio! Esse é o tipo de marca que nenhum de nós deseja deixar.
Sempre fico pensando nas marcas que as pessoas têm deixado em minha vida, nas marcas que as pessoas têm deixado na sociedade e na história humana. Geralmente, aqueles que mais fazem questão de “aparecer” terminam sendo renegados ou esquecidos. Suas existências, por mais que tentem, não fazem diferença. Outros tanto lutam por reconhecimento que terminam como Jeorão, deixando péssimas marcas na vida das pessoas, que não vêem a hora de se livrar deles. Somente uns poucos, coração quebrantado, espírito humilhado diante do Pai, cientes de que dependem em tudo absolutamente do Senhor – e, por isso, famintos e sedentos por Ele – fizeram e fazem a diferença no mundo. Suas marcas são eternas porque foram feitas pelo próprio Deus. Esse grupo tem poucos nomes na história, dos quais podemos destacar gente como Francisco de Assis, talvez Lutero ou Martin Luther King, Jr.. Alguém mais?
Eu e você estamos nessa. Diante de nós a escolha por qual tipo de marca queremos deixar. De início, precisamos entender onde estamos neste momento, respondendo o que aconteceria se desaparecêssemos do mundo agora. Depois, teremos a opção da escolha. Eu pretendo escolher o caminho da cruz. E você?

31.10.05

Guarda-chuva

(...) já estou ouvindo o barulho de muita chuva.
1 Reis 18. 41

Nossa vida com Deus não precisa de guarda-chuvas! Deus me falou isto claramente neste domingo: eu não posso me permitir caminhar de guarda-chuva enquanto sigo com Jesus. Ele tem uma chuva abundante a derramar sobre nós, o som do que virá já se ouve, e não podemos perder a chance de nos molharmos nessa água. Já se ouve esse som inquietante, já estou ouvindo o barulho de muita chuva: é hora de fechar os guarda-chuvas e deixá-los de lado.
Nessa noite eu perguntava a Deus porque vinha me sentindo tão seco, tão árido, desde um tempo atrás. E fui, então, perceber que a terra de meu coração estava morrendo, sem água e vida. O Senhor havia retido Seu fluir sobre mim? Reparei que não. Então, qual seria o problema? Um guarda-chuvas aberto. Às vezes nossa vida se resseca, não porque o Senhor não a está abençoando com chuvas de águas da vida, mas porque não temos permitido que essa chuva toque o nosso solo. Temos interposto obstáculos diversos a essa ação da graça do Senhor. Abrimos guarda-chuvas e não tomamos banho dessa água.
Não raras vezes celebro quando a chuva me pega pelo caminho, antes de chegar em casa, e me vejo encharcado por aquela água abençoada que vem das nuvens. Em primeiro lugar, porque, em geral, a chuva que cai nos refresca. Eu curto o banhar calmo e constante das nuvens do céu. Gosto de sentir aquela água pura lavando meu rosto, aliviando o calor e o cansaço. Eu gosto de tomar banho de chuva. Talvez por isso tenha perdido o único guarda-chuva que tive em anos: não gosto de impedir a água de me molhar.
Mas percebi que tenho feito exatamente o que não gosto no que se refere à minha vida espiritual. O Senhor tem derramado abundante chuva de Sua presença, mas eu tenho erguido empecilhos que impedem que a Sua Água penetre o solo de minha vida e revitalize meu coração. Estou morrendo, ressequido, porque tenho usado, inadvertidamente, guarda-chuva espiritual.
Esse guarda-chuva pode ser o nosso ritualismo que impede que o Senhor traga algo novo na vida de Sua chuva sobre nós. Podemos impedir o fluir da água do Senhor também com os nossos pecados. O nosso formalismo pode ser o nosso guarda-chuva. Nossas crenças, tipo afirmar que tal coisa não é possível porque eu não acredito nela, podem se constituir em obstáculos para que a chuva do Senhor alcance o nosso coração. Precisamos jogar fora os nossos guarda-chuvas, sejam eles o que forem. Só assim a presença de Deus, derramada em nós, fará o que tem de fazer em nossas vidas.
(...) já estou ouvindo o barulho de muita chuva. Elias havia falado em nome do Senhor de que haveria um período de seca intensa no reino de Acabe. E houve, por três anos e meio. Nesse dia, após enfrentar os profetas de Baal e do poste-ídolo, ele finalmente ora para que a chuva volte. Antes mesmo de orar, ele manda que o rei se apronte porque vem água e muita água. E vai interceder. Podemos ver aqui uma imagem do que temos feito tantas vezes em nossa vida cristã: vivemos um período de seca espiritual e começamos a clamar para que Deus nos avive e derrame sobre nós a Sua chuva, nos restaurando e trazendo vida. E o Senhor está sempre disposto a ouvir a nossa oração e nos abençoar, se o nosso pedido é pelas melhores coisas: pelo Espírito Santo.
Mas do que adiantaria tanta água em resposta a prece de Elias se algum obstáculo viesse impedir a chuva de molhar a terra? A terra iria continuar seca e morta. Do mesmo modo, se orarmos a Deus pedindo o Seu derramar profundo em nossos corações, precisamos cuidar para que não tenhamos qualquer guarda-chuva aberto em nosso ser impedindo que esse derramar alcance a terra de nosso coração, trazendo de volta a vida, revitalizando as nossas forças pela Sua graça.

29.10.05

Provações

Essas provações são para mostrar que a fé que vocês têm é verdadeira.
1 Pedro 1. 7

Pra mim, hoje é um daqueles dias difíceis em que os ouvidos, surdos, por mais que tentem, não conseguem achar e ouvir uma Voz trazendo a Palavra do Senhor. Hoje é um daqueles dias difíceis em que Deus parece ter-se ausentado e nos abandonado, sozinhos, obrigados a encarar a feiúra de nossas falhas, falta de caráter, iniqüidades e pecado.
Vez por outra Deus nos prova assim, mas Sua prova não visa a nos destruir, muito pelo contrário: Essas provações são para mostrar que a fé que vocês têm é verdadeira. O propósito do Senhor é nos aperfeiçoar, purificando nosso interior do mesmo modo como o fogo burila o ouro.
Hoje me sinto enlameado pelo pecado. Como o filho pródigo da parábola, vejo-me revolvendo a lama da pocilga, cuidando dos porcos, faminto e sedento. Como o filho pródigo, considero-me abaixo dos suínos na escala de valores do céu.
Vou voltar para a casa do meu pai e dizer: “Pai, pequei contra Deus e contra o senhor e não mereço mais ser chamado de seu filho. Me aceite como um dos seus trabalhadores” (Lc. 15. 18 – 19). Há escape. Para sair de um poço tão fundo e sujo, o escape é voltar os olhos, o corpo e a fé, intensamente, ao Pai do Céu.
O Deus do Céu, que nos prova, nos tira do poço, restaura a nossa vida, lava-nos da sujeira do pecado, da lama fétida que se impregna às nossas almas. O Senhor Deus diz: “Venham cá, vamos discutir esse assunto. Os seus pecados os deixaram manchados de vermelho, manchados de vermelho escuro; mas eu os lavarei, e vocês ficarão brancos como a neve, brancos como a lã” (Is. 1. 18).
O Deus que permite que sejamos provados, cuida de nós, nos protege e nos restaura. Ele nos tira de um poço e firma os nossos pés. Não percamos a esperança, não deixemos de buscá-Lo e ao Seu auxílio. Esperei com paciência pela ajuda de Deus, o Senhor. Ele me escutou e ouviu o meu pedido de socorro. Tirou-me de uma cova perigosa, de um poço de lama. Ele me pôs seguro em cima de uma rocha e firmou os meus passos. Ele me ensinou a cantar uma nova canção, um hino de louvor ao nosso Deus. Quando virem isso, muitos temerão o Senhor e nele porão a sua confiança (Sl. 40. 1 – 3). Se suportarmos a prova, não desanimando e não perdendo a fé, ainda cantaremos a grande bênção da vitória do Senhor em nossas vidas.
Essas provações são para mostrar que a fé que vocês têm é verdadeira. Deus nos permite vivenciar essas coisas, experimentar as provas, dores e culpas, para nos tratar, aprovar e fazer de nós aquilo que é o Seu projeto para nós. Ele cuida de nós e nos conduz ao ponto em que quer nos levar. Essa é a Sua vitória em nossas vidas.