2.3.06

Cisternas

O meu povo cometeu dois pecados: Eles abandonaram a mim, a fonte de água fresca, e cavaram cisternas, cisternas rachadas que deixam vazar a água da chuva.

Jeremias 2. 13



O povo do nordeste vive constantemente sob o fio da espada da seca. Fome e miséria fazem parte do cenário que tem como componente importante a falta de chuvas. Entre as formas de resistência e enfrentamento dos efeitos da seca, uma que tem ganhado força e visibilidade, mesmo quando se discute a transposição do Rio São Francisco, é a construção de cisternas.

Confesso que nunca vi uma cisterna, a não ser pela televisão. A idéia é ter um enorme tanque que acumule a água das chuvas, que seria preservada até o período de estiagem. Além disso, já aconteceu de brotar água subterrânea da escavação de cisternas e até poços de petróleo. De qualquer forma, a idéia da cisterna é guardar a água, que é vida, para as necessidades mais fundamentais das homens do sertão.

Estava pensando nisso porque o profeta Jeremias faz uma comparação entre o nosso relacionamento com Deus e a escavação de cisternas. Na verdade, Deus faz um alerta. É como se Ele nos dissesse: Vocês estão no deserto, o sol a pino, a sede e a fome apertando, mas não conseguem perceber que Eu sou a fonte de água sempre disponível para saciar suas mais terríveis sedes. Em vez de virem a Mim e beberem da água que dou, que impede para sempre a volta da sede, vocês tentam achar suas próprias saídas e respostas, cavando por si sós desnecessárias e mal feitas cisternas. O pouco alívio que elas trazem ainda dura um tempo mínimo, porque, paredes mal erguidas, a água parca se esvai entre as rachaduras.

Não penso que essa fala do Senhor serve para qualquer pessoa que não seja eu. Quando olho para meu coração, vejo um monte de carências e necessidades. E, em vez de esperar a saciedade que o Senhor pode me trazer – Ele, a fonte da vida – tento achar minhas próprias saídas e construo minhas próprias cisternas.

Sou eu que tenho feito cisternas rachadas que deixam a pouca água – que penso saciar-me – esvair-se. Sou eu que procuro a saciedade de minha alma e a solução de meus problemas em muitas coisas fora de Deus. Sou eu que tenho esquecido que Jesus é a fonte de água viva. Tenho vivido distante da verdade das palavras desafiadoras e reconfortantes do Mestre: a pessoa que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Porque a água que eu lhe der se tornará nela uma fonte de água que dará vida eterna (Jo. 4. 14).

Sou eu que tenho tentado saídas humanas, feitas por minhas mãos, para a necessidade de relacionamento com o Senhor. Sou eu que tenho buscado saídas humanas para os meus problemas, esquecendo da proposta fantástica e transformadora de Jesus: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Como dizem as Escrituras Sagradas: “Rios de água viva vão jorrar do coração de quem crê em mim” (Jo. 7. 37 – 38).

Sou eu que tenho esquecido do Senhor. Sou eu que tenho sofrido as conseqüências disso. Eles abandonaram a mim, a fonte de água fresca, e cavaram cisternas, cisternas rachadas que deixam vazar a água da chuva. São para mim estas palavras. Para mim e muitos outros do povo de Deus que peregrina no calor e sequidão do deserto e que, por isso, não tem a mínima chance de sobrevivência sem água. Sem a Água Viva que vem do trono de Deus. Sem a comunhão plena e íntima com Jesus. Unicamente com cisternas rachadas, tentativas humanas de se construir uma saída.

Oração

Meus ouvidos querem ouvir, mas são surdos.

Meus olhos querem ver, mas são cegos.

Minhas pernas querem andar até Ti, mas são fracas.

Meu respirar já foi Tua presença, mas meu peito hoje arfa sem forças.



Quero buscar a Ti com o que me resta no interior,

mas a minha fraqueza é presente demais,

o meu pecado me distancia de Ti,

minhas incertezas me fazem esquecer o que fazer.



Sei que Tu estás aqui, a me cercar – creio nisso –

sei que a Tua mão me protege – quero crer nisso –

sei que a Tua força me conduz – ajuda-me, incrédulo que sou!



Tenho muitas saudades de Ti, de Teu toque, Teu afago, Tua voz e Tua glória.

Ó Deus, não me deixes matar o que de bom tenho em mim:

Tu mesmo, meu Senhor e meu Deus, o único bem que realmente preciso

25.2.06

Dor e graça

Porque, se tomamos parte nos sofrimentos de Cristo, também tomaremos parte na Sua glória. Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.
Romanos 8. 17 – 18

No CD mais recente do U2, a última faixa se chama Yahweh. Os irlandeses questionam a Deus por que sempre antes de uma grande alegria – como o nascimento de uma criança – a dor aparece como elemento anterior inevitável. Antes de qualquer festa ou alegria sempre vem a dor do sofrimento e da luta.
Ouvindo Yahweh nesta tarde comecei a pensar em como isso nos abate; como, tantas vezes, lutamos para nos livrar desse sofrimento. Como aquela lagarta que, certamente, tudo o que queria era sair com facilidade do casulo em que se encontra. Mas se a crisálida não enfrentar aquela dor e sofrimento – aquele aperto – o resto de sua vida será uma nulidade em nada comparada com a beleza e a maravilha que poderia ser. Vai morrer feia e rápido.
Nenhum ser humano gosta de sofrer. Mas desde cedo aprendemos que a dor é elemento inevitável na vida. Se podemos ter uma certeza na vida é a de que vamos sofrer. Vamos sentir dor. Em certos momentos, as coisas vão ser difíceis. O caminho da graça e o caminho da glória é o caminho da dor.
É disso que Paulo fala nesse trecho da carta aos Romanos. Primeiro, se nos consideramos cristãos, precisamos saber que a comunhão com Jesus não significa só salvação ou coisas boas. Não virão só bênçãos. Mas teremos comunhão plena com Cristo. O que inclui tomar parte dos Seus sofrimentos. Mesmo que nossa expectativa seja a glória. Mas não tomaremos parte de Sua glória se, antes, não tomarmos parte de Seu sofrimento.
Ainda assim, e é esse é um mistério da graça, o que para nós está reservado – coisas que nem olhos viram, nem ninguém ouviu, nem jamais pode ser humanamente pensado no coração – não se pode comparar com o sofrimento. Se sofremos muito, a alegria da glória, a festa da libertação, a celebração da vitória são inalcançáveis para nossa imaginação. Se a dor é grande, infinitamente maior será a vitória, porque infinitamente maior é o amor e a graça de Deus. A graça é o conforto que podemos sentir aqui, enquanto dói, e a certeza do que podemos esperar de bênção e festa no nosso futuro. Não estamos abandonados, mas a graça de Deus nos guia e nos conduz à festa da glória. À celebração da vitória. Podemos esperar no Amor.
Uma canção mais antiga do U2 celebra esta graça: A graça assume a culpa/ Ela cobre a vergonha/ Remove a mancha. Mais adiante, diz que a graça acha beleza em tudo e também faz tudo belo. A presença da graça a nos conduzir é a certeza de que a dor é passageira, a vitória já foi conquistada, a festa está reservada. E, mais que isso, não nos perderemos no caminho. A graça é que transforma a desgraça do sofrimento e da dor em bênção e alegria. É a graça que nos faz esperar. É a graça que reserva para nós a alegria e a celebração que virão quando a dor passar e o que para nós está reservado se manifestar. É a graça que nos faz crer e louvar a Deus. Porque, se tomamos parte nos sofrimentos de Cristo, também tomaremos parte na Sua glória. Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.

6.2.06

Má companhia

Viver entre vocês me faz sofrer tanto como se eu morasse em Meseque ou entre a gente de Quedar.
Salmo 120. 5

Provavelmente o texto bíblico é mais humano do que gostaríamos de imaginar. Por vezes, os personagens dos relatos, as palavras dos atores são tão nossas, tão humanas, que parece que gostaríamos de mudar as coisas. Penso que isso nos ensina a lição óbvia e fundamental de que o projeto de Deus na história – que Ele conduz – se realiza por meio de instrumentos humanos. Não são super-homens os servos de Deus, mas homens e mulheres tão estranhos e limitados quanto eu e você. Aliás, eu e você podemos ser instrumentos plenamente usados por Deus na Sua obra, apesar de quem somos, de modo surpreendente.
Disse isso porque quero pensar nas razões que usamos para adorar a Deus e para vivem em comunhão com Ele. Às vezes queremos demonstrar alguma piedade especial que não temos e nem é esperada de nós e fingimos razões e causas espirituais demais para andarmos com Jesus. Não somos capazes de admitir que tantas vezes nossas razões são humanas demais. Humanas demais para serem admitidas.
Mas a Bíblia é um livro humano, já dizia. E especialmente o livro de Salmos é eivado de humanidade de capa a capa. As mais diversas orações, os mais ricos louvores. E também as mais humanas questões são postas pelos salmistas. As mais humanas razões de louvor também. Viver entre vocês me faz sofrer tanto como se eu morasse em Meseque ou entre a gente de Quedar.
Nos Salmos há boas razões para dedicar a vida em louvor a Deus. Uma dessas razões é que Deus nos livra quando estamos aflitos. Aflitos, especialmente, porque somos obrigados a conviver com pessoas que não gostam de nós ou que não valem nada: Ó Senhor, livra-me dos mentirosos e dos falsos! (Sl.120. 2).
Ontem meus olhos foram atraídos por algumas coisas que jamais tinha prestado atenção no Salmo 120. As razões do Salmo 120 são extremamente humanas. São tão humanas que se, não estivessem sendo ditas pelo salmista – se eu dissesse isso, por exemplo – seriam facilmente classificadas de pecado. Há razões para louvar a Deus. Uma dessas razões é que Deus nos ajuda a nos livrarmos das más companhias que nos cercam. Um dos motivos que temos para subir ao templo em louvor a Deus é sairmos da companhia dos que não valem nada e só pensam o nosso mal. Em outras palavras, fugir é uma das boas razões que temos para louvar a Deus.
O que me impressionou nesse texto foi a semelhança da situação enfrentada pelo salmista com a situação que tenho ouvido da parte de muitos ao longo dos anos – inclusive a minha. Viver entre vocês me faz sofrer. Muitos têm uma situação difícil dentro de suas casas. As pessoas com quem convivem – seus familiares – são pessoas tão difíceis de tratar que terminam fazendo sofrer enormemente. As vezes, o lar – um refúgio – se transforma em câmara de tortura porque os parentes são adversários e inimigos mais vorazes que quaisquer outros que jamais imaginamos. Não temos paz em casa. Viver com as pessoas de nosso lar nos faz sofrer. Deles queremos escapar. Nossa escolha é o culto a Deus. Porque Deus nos livra dos que nos fazem sofrer. Porque Ele é o consolo e abrigo para a nossa alma.
Existem também aqueles que sofrem por causa de colegas de trabalho. Inveja, maledicência, inimizade, coisas de tantas espécies diversas que fazem do local de trabalho um lugar de sofrimento e tristeza da alma. Dia desses conversava com um amigo que, perseguido em seu local de trabalho, sofreu crises seguidas de depressão e só agora está conseguindo parar de tomar medicamentos.
Mas a situação pode ser pior que essas. Porque quando temos problemas em casa ou no trabalho, temos o escape da nossa comunidade de fé. Louvando juntos, nos alegrando juntos, aprendendo juntos a Palavra de Deus, comungando a intimidade do Pai, escapamos da dor e do sofrimento que as pessoas nos causam. Mas a situação é mais desesperadora quando os inimigos mentirosos, as pessoas que nos fazem sofrer e de quem pedimos ao Pai que nos livre, são os nossos companheiros de caminhada de fé. Viver entre vocês me faz sofrer tanto como se eu morasse em Meseque ou entre a gente de Quedar. Tenho a impressão que é dessas pessoas que o salmista está falando. É viver entre os judeus que o tem feito sofrer, como é viver entre os fiéis de nossas igrejas que tantas vezes nos faz sofrer.
Conviver com alguns irmãos nos últimos meses, confesso, me fez adoecer. Era sinceramente desesperador porque ir à Igreja, que deveria ser uma experiência de aproximação e comunhão com o Pai – e de vivência de fé – se tornava uma traumática experiência de tortura. Ir à Igreja significou, por um tempo, me afastar e não me aproximar de Jesus. Porque viver entre vocês me faz sofrer tanto como se eu morasse em Meseque ou entre a gente de Quedar. Há muito tempo que estou morando com aqueles que odeiam a paz (Sl. 120. 5 – 6).
Qual a saída? O que fazer? Sinceramente, não sei. A única coisa que temos é usar as mais humanas palavras para clamar por socorro ao Deus do Céu, o nosso Pai. Ele nos livra, pode ter certeza. Podemos, então, clamar, na certeza de que Ele responde – Ele ouve a nossa voz e a nossa oração e livra a nossa alma: Quando estive aflito, pedi ajuda a Deus, o Senhor, e Ele me respondeu. Ó Senhor, livra-me dos mentirosos e dos falsos! (Salmo 120. 1 -2).
Estar cercado por inimigos ainda continua sendo uma boa razão para buscar a Deus. Ainda que esses inimigos estejam na nossa comunidade de fé. O Senhor libertador ainda estará ali para nos abençoar e enriquecer de alegria. E no devido tempo, livrará a nossa alma.

2.2.06

Dormindo de tristeza

... os encontrou dormindo, pois a tristeza deles era muito grande.
Lucas 22. 45

Provavelmente por ser mais acostumado a chorar de tristeza, sempre fiquei curioso com a expressão dessa passagem. Em vez de chorar de tristeza, os discípulos estão dormindo. Já começaram a entender que o Senhor está para ser entregue e a tristeza que Jesus sente é tão forte que transbordou aos corações dos homens que foram Seus companheiros de ministério. Por isso, em vez de orarem com Ele, dormem.
A idéia que esse sono incontrolável me passa é que a tristeza é paralisante. Quanto mais triste se encontra o nosso coração, mais paralisados nos vemos. Jesus tinha pedido a companhia dos discípulos na oração – difícil – daquele momento duro. Orem pedindo que vocês não sejam tentados (Lc. 22. 40). Mas a tristeza no coração era um peso incontornável. Por que vocês estão dormindo? Levantem-se e orem para que não sejam tentados (Lc. 22. 46).
Sei que o comum é a gente ouvir pelos púlpitos as denúncias contra os irmãos que só se lembram de buscar ao Senhor nos momentos mais difíceis, mas esse texto fala de uma experiência que é muito diferente. E que é a minha própria experiência pessoal. Quando tudo vai bem, é bem mais fácil para mim dedicar uma parcela considerável de minha vida para a oração, meditação e contemplação do Santo. Quando o coração pesa de tristeza, tudo o que quero é, trancado no quarto, dormir. A tristeza me paralisa, exatamente na hora em que mais precisava estar ativo, em oração vigilante. Por que vocês estão dormindo? Levantem-se e orem para que não sejam tentados.
Escrevo esse texto hoje porque procuro companheiros que tenham a mesma experiência. Irmãos que se sentem como que discriminados quando ouvem falar que é muito fácil buscar a Deus na dor. Para mim, é muito difícil. Meu coração pesado de dor e de tristeza não deseja em nada perder-se nos braços do Senhor para achar a alegria do Senhor – que é a raiz de nossa força. A tristeza me paralisa. Eu sempre espero uma experiência de ressurreição quando estou abatido.
É mais ou menos que vai acontecer com os discípulos. Foram incapazes de orar para não caírem em tentação, como ordenara o Senhor. Então, caíram. Pedro negou o Senhor. Os demais fugiram. Abandonaram as experiência de fé que haviam tido. Não entendiam o acontecia. Sucumbiram ante a incerteza, a dor e a tristeza. O Mestre morreu e eles estavam longe e dispersos.
Até que experimentaram o valor da ressurreição. No terceiro dia, começaram a correr as notícias de que Jesus não estava mais no túmulo. Aos poucos, cada um deles experimentou ver e estar com o Senhor ressurreto. E finalmente a tristeza começou a ir embora.
Os dois, no caminho de Emaús, ilustram tal fato. Quando Jesus – a Quem não reconhecem – lhes pergunta acerca de que conversavam, o texto diz que eles pararam, com um jeito triste (Lc. 24. 17). Estavam ali, sem saber o que fazer, afogados em tristeza e incerteza. Se pudessem, estariam dormindo. Quando o Mestre se revela a eles, constatam o renascimento da alegria que incendeia a alma: Não parecia que o nosso coração queimava dentro do peito quando ele nos falava na estrada e nos explicava as Escrituras Sagradas? (Lc. 24. 32).
Mas, para mim, o contraponto da experiência do jardim está nos últimos versículos do evangelho de Lucas. Enquanto no jardim, paralisados, os discípulos dormiram de tristeza, quando Jesus sobe aos céus, eles O adoraram e voltaram para Jerusalém cheios de alegria (Lc. 24. 52). Experimentar a ressurreição significou, para esses discípulos, encher-se de alegria e se colocar aptos a saírem da inatividade. Eles não estavam mais paralisados. Não dormiam mais de tristeza. Mas, tomados pela alegria do Senhor ressuscitado no coração, estavam prontos para o ministério que Deus lhes encarregara: restaurados pela alegria, estavam pronto a começar o anúncio e implementação do Reino de Deus através da igreja que, agora, podia nascer.
Dormir de tristeza, eu sei, não é exclusividade minha. Ou dos discípulos de outrora. O seu antídoto é a experiência da ressurreição em Cristo. Ela nos enche de alegria e nos empurra ao serviço pleno do Reino de Deus.