30.12.14

Retorno ao Porto Seguro

Hoje me decidi por retomar o projeto deste blog.  Sua última publicação data de 10 de abril de 2009 - quase seis anos atrás.
Muita coisa modificou-se em minha fé, em minha vida de lá para cá.
Desse modo, muita coisa que está escrita antes de hoje eu nem creio mais.  Porém, não editarei nem modificarei nada.
Que o Senhor da graça continue nos dando refrigério e um porto seguro.  Uma caverna de adulão.

10.4.09

Estou com sede!

Fui convidado para refletir hoje em uma das sete palavras de Jesus pronunciadas na cruz. Lá na cruz, Ele teve sede. Agora Jesus sabia que todo estava completado. Então, para que se cumprisse o que dizem as Escrituras Sagradas, disse: - Estou com sede! (João 19.28).
Além da referência explícita ao texto do Salmo 69.21, esse versículo me trouxe duas lembranças de imediato.
A primeira foi o encontro de Jesus com a samaritana. Ele chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, que ficava perto das terrs que Jacó tinha dado ao seu filho José. Ali ficava o poço de Jacó. Era mais ou menos meio-dia quando Jesus, cansado da viagem, sentou-se perto do poço. Uma mulher samaritana veio tirar água, e Jesus lhe disse: - Por favor, me dê um pouco de água (João 4. 5 – 7).
Um convite a partilhar a humanidade com Jesus. Ele é Deus, é Vida – vai deixar isso claro à mulher. Mas convida um ser humano a participar de sua humanidade com Ele. Ele tem sede e ela pode ser saciada pela mulher. E também pode ser saciada pelos guardas aos pés da cruz.
Entendo que a mensagem a ser dita nos dois momentos fosse mais ou menos semelhante:
Você quer experimentar a minha vida, a vida que conquistei na cruz? Você quer experimentar o espírito divino? Você precisa me dar água para beber. Você precisa partilhar minha dor, minha fragilidade, meu sofrimento, minha sede, minha cruz. Você precisa me ajudar a superar minha necessidade: - Estou com sede!
Li em algum lugar que Madre Teresa de Calcutá entendeu sua experiência mística com Deus a partir de seu auxílio aos carentes, explorados e necessitados a partir dessa palavra de Jesus na cruz. Ela entendeu que Jesus na cruz, em dor e sofrimento, precisava ter pelo menos parte dele saciado por alguém que pudesse, de maneira humana, lhe dar água para beber. Ela entendeu que Jesus continuava lhe pedindo água para saciar sua sede na face e na pessoa de cada miserável de sua Índia e de seu mundo.
Ver Jesus no próximo e, assim, ser justo. E isso me leva à segunda lembrança que o texto me traz.
Felizes as pessoas que têm fome e sede de fazer a vontade de Deus, pois Ele as deixará completamente satisfeitas (Mateus 5. 6). Parece para mim que ter fome e sede de justiça, ser justo e saciado em sua fome, fazendo a vontade de Deus, tem a ver com nossa capacidade de participar da humanidade dos outros e ter espírito humano com os outros.
Para ter espírito divino – ser justo e ter fome e sede de justiça saciada – é preciso ter espírito humano.
O espírito religioso é desumano. Pôs Jesus na cruz e lhe deu bebida amarga em vez de água.
O espírito divino é humano. Mata a sede e a fome de Jesus, partilhando sua humanidade e suas fragilidades. Está com Jesus na cruz e com o Jesus da cruz.

17.11.08

Planalto de graça

Passando pelo serrado do planalto central do país, foi inevitável pensar no significado, ou significados, da graça de Deus. Nessa minha viagem algumas coisas foram bem marcantes.
Primeiro, a beleza da natureza composta pelo Senhor e tocante. Confesso que a natureza dessa região me pareceu de uma simplicidade comovente. Se penso na imponência da Cordilheira dos Andes, na riqueza poética do Rio de Janeiro, nas maravilhosas praias do nordeste, o Serrado parece simples. Simplicidade bela e cativante. Com a vida brotando, viva, das torres dos cupinzeiros. Manifestando a viva, bela e comovente graça de Deus.
Outra coisa nessa viagem me trouxe viva a mente a graça. Vim a um casamento. Entre outras coisas, o casamento me fala da renovação da vida e do amor, trazendo Deus, forte, ao coração das famílias e dos casais apaixonados. E me fala sobre a construção e a realização de sonhos. Os sonhos dos noivos, das famílias de Deus. Sonhos revelando o sonho da graça de Deus em nossas vidas.
Porém, certamente, a manifestação mais doce da graça de Deus foi conhecer uma pessoa que ainda gasta suas forças para reconhecer, sem muito sucesso, a beleza da graça. Deparar-me com uma Marta hiperativa assim me fez pensar que a felicidade e a graça de Deus se encontram nas coisas mais simples, belas e amorosas do mundo. Não e preciso uma busca desenfreada pela presença de Deus. Basta um simples e comovente silencio.
Foi tocante encontrar essa Marta por perceber que não podemos encontrar a beleza da graça sem o simples silencio. Sem a simplicidade de um calmo amor. De uma potente e tranqüila manifestação da vida. Como o serrado do Planalto Central.

23.8.08

Exílio

Manda a tua luz e a tua verdade para que elas me ensinem o caminho e me levem de volta a Sião, o teu monte santo, e ao teu Templo, onde vives. Então eu irei até o teu altar, ó Deus, pois tu és a fonte da minha felicidade. Tocarei a minha lira e cantarei louvores a ti, ó Deus, meu Deus!
Salmo 42. 3 – 4

A gente lê muitos salmos e percebe, de imediato, o sofrimento do salmista que, afastado de Jerusalém pelo exílio, anseia pela chance de poder voltar a ir ao Templo de seu Deus e encontrá-Lo para culto, louvor e adoração. Os salmos 42 e 43, com refrão semelhante, falam do homem exilado. Homem que clama que o Senhor o possa levar de volta ao Templo, à Jerusalém.
Eu sou um homem exilado dentro de mim mesmo há bastante tempo. Não fui exilado para terra estranha, ainda que more fora de minha cidade Natal há dois anos. Mas me exilei dentro de mim mesmo. Os muros que me separam do encontro com o Deus da Criação, para louvor, culto, adoração e para ouvir a Sua voz, estão construídos dentro de meu coração.
Tenho minhas suspeitas de sobre como cheguei a me tornar assim. Sei onde as feridas não foram tratadas, supuraram e me afastaram da minha real fonte de felicidade. Sei porque minha alma anda cansada, sei porque sou aflito e triste, sem a presença e o culto ao Senhor. Não posso ter certeza e nem sei em que me ajuda toda essa consciência, uma vez que me parece sempre que pensar nisso me lança mais fundo em meu próprio exílio.
Talvez não haja uma certeza para as causas, mas muitas vezes nós nos encontramos assim, por períodos maiores ou menores de tempo. Sabemos o tamanho de nossa dor e sofrimento. Sabemos como Deus parece ausente de nós, a fonte de nossa felicidade. A gente se vê triste e aflito. Toca e dói o coração.
Eu estou passando por isso nos últimos anos. É uma ferida, uma marca constante em meu coração, em minha alma. Uma ausência do Senhor que incomoda, marca, altera meu modo de ser, de ter fé, de amar, de me relacionar. Transforma. A dor do sofrimento do exílio machuca o ser humano de uma forma inimaginável.
Há uma certeza no salmista, que me consola. Manda a tua luz e a tua verdade para que elas me ensinem o caminho e me levem de volta a Sião, o teu monte santo, e ao teu Templo, onde vives. Deus é quem nos trará de volta a Sião. É Deus quem nos converterá de volta aos Seus Caminhos. Ele nos trará de novo ao recanto de Seu Tabernáculo, onde possamos vivenciar novamente a experiência de um relacionamento íntimo com Ele, com o Seu culto, Sua adoração, Sua Palavra. O salmista diz que irá celebrar de novo em Sião, mas sabe que somente o Senhor é poderoso para lhe tirar do exílio.
Refletindo nesse texto hoje, lembrei-me de outro. Na Transfiguração, após o choque inicial dos discípulos, que propõem fazerem tenda para Jesus, Elias e Moisés, desce uma nuvem gloriosa que os envolve. Da nuvem, Deus Pai exclama: Este é meu Filho querido. Escutem o que Ele diz! (Mc. 9. 7). O Pai enviou Sua Palavra, Jesus. É cheio de graça ler o Pai mandando-nos escutar o que o Filho, Sua Palavra, diz! Ele é a Palavra. Ele é a Luz. Ele é a Verdade. Ele é a Fonte de nossa felicidade. É nEle, no Filho, através dEle, que Deus vem a nós para nos tirar do exílio em nossas almas. É nEle que nos tornamos mais humanos, mais reais, mais livres, mais felizes. É nEle que reencontramos a alegria do louvor, do cântico, da música a Deus. É em Jesus que a felicidade de estar na presença de Deus se concretiza, modifica nossa vida, nosso amor e nossa fé. Livrando-nos do exílio em nós mesmos.
Eu ainda sou um exilado em mim. Mas hoje eu sei mais que ontem que Deus é quem pode me livrar dessa sequidão e sofrimento longe dEle. Manda a tua luz e a tua verdade para que elas me ensinem o caminho e me levem de volta a Sião, o teu monte santo, e ao teu Templo, onde vives. Então eu irei até o teu altar, ó Deus, pois tu és a fonte da minha felicidade. Tocarei a minha lira e cantarei louvores a ti, ó Deus, meu Deus!

14.8.07

Palavra de vida

E Deus viu que tudo o que havia feito era bom.
Gênesis 1. 10.

Estive pensando nesses dias sobre minha vida e minha relação com Deus. Aliás, sempre penso e escrevo sobre isso. Houve momentos de intensa comunhão e alegria. Houve momentos de entusiasmos e momentos de tristeza.
Nunca meus momentos de tristeza resultaram de ações de Deus. Pelo contrário, minhas ações ou reações me roubaram algum entusiasmo. Aliás, sempre é assim. O resumo disso, no entanto, é que olho meu interior e percebo, atualmente, que um furacão costuma estar me varrendo. O interior é um tumulto, mesmo que haja paz à minha volta e tudo esteja indo muito bem. Às vezes, vejo um caos em meu coração.
Nesses dias, pensando nesse caos, li o capítulo primeiro de Gênesis. E naquele relato de como o Senhor, pela Sua palavra, traz a existência todas as coisas que hoje são e que antes não eram, percebi algumas coisas importantes sobre o meu coração.
Em primeiro lugar, entendo que Deus se manifesta ali por meio de Sua Palavra. E, no texto, Sua Palavra é Sua própria ação. Deus age enquanto fala. Age por falar. Age ao falar. Seu falar é Sua ação criadora. Assim sendo, Deus está presente em Sua Palavra. Ele poderosamente fala porque poderosamente está presente. Ele está ali. E se eu preciso de algo na minha vida, eu preciso de Deus presente, falando poderosamente em minha vida, transformando meu coração e aprofundando minha comunhão íntima com Ele.
Ao falar, ao anunciar Sua Palavra poderosa, ao estar presente, Deus faz algumas coisas. Ele põe ordem no caos. Eu sei que o caos pode ser algo bom, mas falo aqui da desorganização, destruição e desordem que marcam a realidade da morte e da destruição da vida em nosso mundo. A Criação em Gênesis começa com a descrição do caos. A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo (Gn. 1. 2). Antes de tudo, existia o caos. A terra era morta, vazia. A morte e a desorganização da vida reinava no mundo. Na Bíblia, o mar é imagem da morte e do inferno. A descrição vívida é de uma desorganização mortal, oposta ao Espírito da Vida que paira sobre as águas. Esse Espírito, o Senhor, por Sua palavra e presença, converte o Caos em vida e ordem. Todos os “reinos” do mundo são criados com os seus “reis”: terra, ar, mar, com seus animais, peixes e aves.
Quando olho meu coração confuso, mortalmente desorganizado, me lembro de clamar para que o Espírito da vida, que paira sobre o mar profundo do meu íntimo, possa começar a obra de organizar a vida e de ordenar o mundo para a glória do Deus que vê executar todas essas coisas boas. A presença de Deus em nossas vidas desorganizadas e mortalmente feridas gera ordem, organiza, coloca tudo sob a direção do Senhor. A ordem que é estabelecida na Criação se fundamenta na submissão de tudo ao Senhor do Universo.
A presença de Deus na vida confusa de nossas almas coloca beleza naquilo que julgamos feio. Deus viu que tudo o que fazia era bom. E Ele fez um belíssimo planeta, um fabuloso universo, animais e plantas de enebriante beleza. A Palavra de Deus, além de criar ordem, cria beleza em nossas vidas. É criativa, gera expectativas e faz coisas novas e lindas para encantar os nossos corações. Um coração triste, desorganizado e desestruturado precisa, no Senhor, da beleza da vida.
A Palavra de Deus também traz, é o que nos ensina o texto da Criação, vida. É por Sua Palavra que Deus gera vida. A ordem e a beleza são sinais de vida. A ordem é criada para que a beleza da vida brote em forma de florestas, de animais, de tudo o mais. Um coração triste e confuso, envolto em escuridão, morte e desorganização, precisa de vida. De um sopro de vida fantástico que corra do trono do Senhor, que seja um rio a alimentar a alma mais faminta, que seja poder para transformar as piores e mais tristes situações, que seja luz para iluminar de novo uma vida que perdeu a alegria da comunhão e da salvação com o Senhor e com os irmãos. É a presença de Deus, Sua palavra, que traz vitória, vida, beleza e ordem aos corações mais miseravelmente entristecidos e derrotados.
Por fim, a presença e a Palavra do Senhor traz santidade. O texto da Criação se conclui com um decreto de santidade: Ele abençoou o sétimo dia e o separou como um dia sagrado, pois nesse dia Ele acabou de fazer todas as coisas e descansou (Gn. 2. 3). A consciência de que o Deus vivo está presente e agindo em nossas vidas nos empurra, irrestivelmente, a percepção de nossa pequenez, miséria e pecado e, consequentemente, a experiência viva da santidade, da pureza e da insondável riqueza de poder e sabedoria do Senhor. A conseqüência do que Deus faz em nossas vidas, para restaurar, ordenar, embeleza e vivificar é a consciência da Sua santidade e a necessidade de abandonarmos o nosso pecado e vivenciarmos uma nova dimensão de culto, adoração, experiência e santidade.
Tenho sentido falta em minha vida dessa comunhão, desse culto, dessa certeza, dessa experiência, dessa santidade e dessa adoração. Tenho visto confusão, feiúra e desordem dentro de mim. Clamo que o Espírito de Deus, que paira sobre as águas profundas de meu coração, traga ordem, beleza, vida e santidade de volta ao meu ser.