8.5.15

Fé e herança espiritual

Ao me converter em 1996 o mundo evangélico era notoriamente anticatólico. O anticatolicismo é fruto da nossa herança evangelística e missionária norte-americana do século XIX.
Pouco a pouco, ele foi se desmanchando para mim.  
Hoje, em um momento em que experimento o que Tomás Halík chama de "cristianismo de segundo fôlego" - uma redescoberta da fé que não é um regresso mas um passo mais profundo, sinto-me contemplado, abençoado e desafiado principalmente por autores católicos.
Seja a simplicidade profética de uma Jose Comblin, seja a mística ético-ecológica de Leonardo Boff, seja a espiritualidade profunda de Tomás Halík.
Halík, tcheco, foi descoberto por meu amigo pastor Mardes Silva. Deparei-me com dois de seus livros editados pela Paulinas de Portugal que Mardes comprou: A noite do confessor e O meu Deus é um Deus ferido.  
Acabo de ler "A noite do confessor". Saio dessa experiência de leitura com a fé renovada e com uma sede por uma espiritualidade ainda mais profunda.
E sempre com a coragem renovada em falar de meus irmãos católicos fico pensando em como é a cabeça de uns tantos líderes e teólogos evangélicos que eu conheço que, lendo e aprendendo com padres e teólogos católicos, ainda consideram ser verdadeira à sua condenação ao inferno por idolatria.
E tal hipocrisia ou alienação não os condenam?
E quantos televangelistas ou representantes das bancadas políticas neopentecostais continuam tal discurso anticatólico sem perceber que na vida dos crentes que seguem o Papa Francisco o evangelho faz mais sentido e dá mais frutos que em suas próprias vidas?
A seguir, trechos que me inspiraram do último texto ("Cristianismo de segundo fôlego") da obra de Halík "A noite do confessor"





6.5.15

Esperançar

Quando eu tinha uns doze anos, houve um concurso de redação lá no Colégio das Neves. O tema foi "Se eu fosse Deus".
Devo ter o texto guardado ai em algum lugar, mas lembro que me colocava dizendo que se eu fosse Deus reiniciava a Criação. E concluía por dizer que não poderia ser Deus dada minha condição humana.
Um dos ensaios de Tomás Halík em "A noite do confessor" falava sobre o peso de querer ser Deus e, assim, ter controle e definição sobre, não somente a própria vida, como também a vida dos demais.
Se eu fosse Deus, além do peso da vida, não me restaria muita paciência para não começar de novo a cada decepção com a humanidade.
Penso que isso passa pela mente de Deus a cada vez. Mas sei que nos resta a esperança.
A esperança é o que alimenta qualquer incipiente fé. Não é nada no mundo físico, concreto ou real.  É a esperança que faz a vida valer a pena. Sem ela, não haveria nada além de um cinismo trágico no lugar da fé.
É esse cinismo que nos empurra ao sentimento de que tudo é imutável, de que não há nada a ser feito, de que o fim já chegou e de que nada melhorará. O cinismo trágico de traveste de uma fé tolamente alienante que nos empurra para fora da vida. Essa fé nos faz viver em função de uma eternidade que somente a morte inicia. Não há jeito, resta-nos a morte e esperar o céu.
O cinismo trágico pode ser ateu e se traduzir ou em um hedonismo radical (se nada pode mudar, resta-nos gozar a vida enquanto é tempo) ou num desespero de morte - e daí o suicídio.
Somente a esperança, um olhar esperançoso, a utopia podem nos curar de sermos cínicos a esse ponto. Reconheceremos a magnitude do cenário ruinoso, mas não abriremos mão de esperar e lutar com esperança para que tudo mude. Seja na dimensão utópica da fé ("o Reino de Deus está entre nós") seja na luta secular por mais justiça e paz. 
As utopias se enlaçam e nos fazem "esperançar" mais que esperar.

2.5.15

Ele escolheu os pobres

"O Senhor Deus me deu o seu Espírito, pois ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres. Ele me enviou para animar os aflitos, para anunciar a libertação aos escravos e a liberdade para os que estão na prisão." (Isaías 61:1 NTLH)

Jesus assumiu para si, em Nazaré, esse texto, segundo Lucas (4. 16-19).

Isaías e, então, Jesus deixam claro: a boa notícia do evangelho é para os pobres. Para os escravos. Por tabela, o evangelho não é uma boa notícia para os ricos, para os exploradores.

Lucas (1) entendeu e assumiu isso quando publica o Cântico de Maria:

"Deus levanta a sua mão poderosa e derrota os orgulhosos com todos os planos deles. Derruba dos seus tronos reis poderosos e põe os humildes em altas posições. Dá fartura aos que têm fome e manda os ricos embora com as mãos vazias". (Lucas 1:51-53 NTLH)

O único rico que se converte, em Lucas (19. 1-10), Zaqueu, se tornou pobre e, por isso, Jesus reconheceu que a salvação chegara naquela casa.

E Jesus é ainda mais explícito em Lucas 6. 20-26:

"Jesus olhou para os seus discípulos e disse: 
— Felizes são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês

...

— Mas ai de vocês que agora são ricos, pois já tiveram a sua vida boa. 
— Ai de vocês que agora têm tudo, pois vão passar fome. 
— Ai de vocês que agora estão rindo, pois vão chorar e se lamentar."

O nosso Salvador Jesus e o Seu Deus é Pai têm lado. É o lado dos pobres. Não se pode contemporizar.

Lamento quando vejo um cristão que afirma seguir Jesus mas não foi capaz de entender o evangelho.

Imagine alguém que diz seguir aquele que tem o Espírito para anunciar uma boa notícia aos pobres, aquele que os trata como bem-aventurados, ao mesmo tempo em que proclama os "ais" contra os ricos, mas que critica aquele que se solidariza com os professores atacados pelo governo do Paraná nesta semana...

Esse tal cristão não entendeu que o seu Senhor tem lado. O lado dos que foram atingidos por balas de borracha, por bombas, por mordidas, por cassetetes.