21.5.15

Ossos secos e uma nova vida espiritual

"Então ele me disse: 'Profetize a estes ossos e diga-lhes: Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor! Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês terão vida'". (Ezequiel 37:4-5 NVI)
Pensava sobre esse conhecido texto de Ezequiel 37 hoje.
Conhecidíssimo texto, pregado tantas vezes em contextos de avivamento ou de experiências carismáticas, mas que também pode nos convidar a refletir sobre outras coisas.
Tenho conversado - e, por isso, refletido - sobre a vida religiosa comunitária e individual dos cristãos nos dias atuais. É como se, de um lado, houvesse uma crescente desilusão contra a religião dos pais que não responde mais às demandas e angústias da contemporaneidade, e de outro se buscassem saídas e alternativas a tal situação.
Parece o contexto de Ezequiel. Ele era um profeta do exílio, levado à Babilônia em uma das primeiras levas de judeus, antes mesmo da destruição do templo de Jerusalém e da deportação final. 
Desde o início de seu livro ele vai desenhando um cenário terrível para os judeus e sua religião. Lá no capítulo 8, por exemplo, ele é levado em uma visão a Jerusalém, até o templo, e por trás de um buraco cavado na parede vê toda sorte de abominação religiosa e espiritual, denunciando uma religião que é usada pelo poder para submeter o povo, mantendo um determinado discurso moral e ascético que esconde todo tipo de sujeira é mentira manipulativa em detrimento dos fiéis. Ovelhas, afinal, sem pastores.
Essa religião que promovia escravidão, alienação e dominação se esmigalhou com a destruição do templo e o exílio sob Nabucodonosor. Sedecias, o último rei, tenta fugir ao cerco do rei babilônico, é capturado e, antes de ter seus olhos vazados e levado prisioneiro, assiste à decapitação de seus filhos.  O templo queima. A Arca se perde para sempre.
Ezequiel viu isso: ele viu a Glória de Iahweh deixando o templo e em seguida Jerusalém. Era o fim dessa religião dos pais.  Ela não serve mais, ela não responde mais, ela não presta mais.
É no contexto da restauração que surge a profecia do vale dos ossos secos.
Ela tem duas etapas. Primeiro, uma restauração formal, que gera corpos a partir de ossos, mas sem vida.
Em seguida, Ezequiel profetiza para que o Espírito venha e traga vida aos corpos.
Quando leio esse texto em dias de decepção, mágoa e frustração contra as igrejas e, de outro lado, dias de igrejas que promovem a si mesmas mas nada do evangelho libertador do Reino, me identifico. E para mim o texto aponta um caminho de dois passos para uma nova espiritualidade e uma nova vivência de fé comunitária.
Primeiro: é preciso cria uma nova forma. A forma antiga, que aliena, mata, sufoca, é um vale de ossos secos. Mesmo que o vale nem se perceba assim. 
Por que as pessoas se frustram e abandonam a fé? Porque procuram vida relevante e só encontram ossos secos em nossas comunidades. Ossos secos, que batem uns contra os outros, são capazes de fazer muito barulho e chamar a atenção. Mas não têm vida nem representam nada na vida.
Segundo: uma forma correta sem a vida infundida pelo Espírito também não serve muito bem porque é vazia. É preciso que o Vento sopre.
E que vida o Espírito traz? Compromisso com a vida. Fruto do Espírito. Testemunho do Reino. 
Diz, na versão da Bíblia A Mensagem, o texto de Gálatas sobre o fruto do Espírito: 

"O que acontece quando vivemos no caminho de Deus? Deus faz surgir dons em nós, como frutas que nascem num pomar: afeição pelos outros, uma vida cheia de exuberância, serenidade, disposição de comemorar a vida, um senso de compaixão no íntimo e a convicção de que há algo de sagrado em toda a criação e nas pessoas. Nós nos entregamos de coração a compromissos que importam, sem precisar forçar a barra, e nos tornamos capazes de organizar e direcionar sabiamente nossas habilidades".(Gálatas 5. 22-23)

Outro texto que pode nos dar pistas do que podemos esperar da vida do Espírito Santo em nossas vidas é Isaías 61:

"O Espírito do Soberano, o Senhor, está sobre mim, porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros" (Isaías 61:1 NVI)

Como disse pregando domingo, o Espírito não vem sobre nós para nos tornarmos super-homens todo-poderosos. Ele vem para nos dar integridade de vida para o serviço como testemunha - um mártir que vive pelo que crê - do Reino de Deus.

É nessa dimensão que vejo também a visão de Ezequiel 47, do rio que corre desde o Novo Templo levando vida ao deserto e até restauração ao mar Morto: o Rio da Vida corre a partir de nós nessa nova dimensão de vida de fé espalhando vida, libertação, transformação a partir de nós.
Qualquer nova fé que atenda às demandas e angústias contemporâneas deve, a meu ver, repercutir da experiência comunitária para a transformação do mundo, levando a toda parte essa vida. E de minha parte percebo que esse Vento já está soprando mundo afora.

20.5.15

Tão profundo

Ontem dei uma entrevista a Nathanael, cujo conteúdo em geral deixarei privado. 
Mas, acho, foi uma das primeiras vezes que verbalizei alguns aprendizados recentes sobre meu amor por meu pai e minha relação com ele.
Já disse algumas vezes que o ter me tornado pai mudou a minha compreensão acerca de meu pai. Em resumo, se antes eu me lamentava por ter perdido tantos momentos de intimidade com meu pai por sua ausência, depois de Alice passei a lamentar por meu pai ter perdido tantos momentos de paternidade comigo. 
Outra coisa que entendi nos últimos anos é que, para alguém do tempo e da luta de meu pai, amar era ser clandestino. Quer dizer: fazia parte das consequências de sua luta contra a ditadura e por mais justiça manter as pessoas mais importantes e frágeis de sua vida afastadas - assim como ele fez ao optar pela clandestinidade em 69 e, depois, quando nem todo mundo sabia ou soube de suas ações no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. A clandestinidade protege quem realmente importa na vida do revolucionário.
Essas percepções ajudam no meu atual mergulho na dimensão espiritual da vida porque me ajudam a compreender de uma maneira nova minhas relações com o Deus que é Pai.
Se eu aprendo que o Pai representa a Lei e os limites dados aos filhos na infância, aprendo que seu objetivo é que esses filhos não aprendam a obedecer cegamente, mas encontrem amor e saibam pensar. Esse é o meu desejo como pai de Alice. E vejo ser essa a caminhada de Deus, o Pai, conosco.
Se há infância da fé, se somos crianças espirituais, precisamos de um Pai que seja legislador de nossas vidas. Até que passemos por aquela experiência de matar o Pai sobre a qual falei outro dia.
A partir desse momento, a gente volta a uma experiência com o Pai, mas que é bem diferente daquela de antes. 
Assim como posso reencontrar meu pai em uma relação de amor, amizade, companheirismo, que me impacta e me marca de uma maneira ainda mais profunda, depois de abandonar essa fé infantil e legalista, matar o Pai, encontro uma espiritualidade ainda mais rica e profunda, uma relação mais amorosa e honesta, um coração mais inflamado e experiências mais marcantes e [e]ternas.
Mais poesia, mais beleza e amor.
"É tão profundo, tão imenso e cobre-nos
É furioso, poderoso e abraça-nos
Só Ele pode devolver a vida aos corações"
https://youtu.be/zOc855DIZyk

14.5.15

O lugar da esperança e da incredulidade

“Se podes?”, disse Jesus. “Tudo é possível àquele que crê”. Imediatamente o pai do menino exclamou: “Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!” (Marcos 9:23-24 NVI)

Estava pensando sobre a reflexão de Tomás Halík acerca do ateísmo e da [falta de] fé e me veio à mente o relato do menino epiléptico que Jesus encontra logo que desce do monte da transfiguração.
Como os discípulos não conseguiram curá-lo, o pai se aproxima de Jesus para pedir que, caso possa, cure seu filho.  E o diálogo segue conforme cito acima.
Esse texto inteiro, frise-se, pode nos ensinar sobre o lugar da incredulidade, da incompreensão e da incapacidade na nossa vida de seguidor de Cristo. Mas queria destacar esse aspecto da incredulidade.
Ontem conversava com uma amiga sobre [mais] um modelo de ganhar dinheiro derivado de pirâmides. Ela comentou: "Melhor que doar para campanhas políticas". Retruquei. Em resumo, disse o que penso: "A gente só investe no que acredita".
Aquele pai decide investir o pouco que crê naquele em quem acredita, esperando que Ele possa ajudar com sua falta de fé.
O que esse relato me fez pensar é que ao investirmos no que cremos não o fazemos fundados em certezas. O investimento é feito na dimensão da incerteza, repleto de dúvidas, cheio de insegurança e medo. A crença aqui não se baseia em uma fé triunfante, uma fé que é certeza. Cremos com base na esperança. Ao afirmar que cremos estamos dizendo de nossa esperança de que tudo dará certo - mesmo que seja, como Paulo diz acerca de Abraão, um esperar contra a esperança.
Só investimos no que acreditamos - isto é, no que temos esperança de que funcionará. É como o casamento, por exemplo. Não temos, nem podemos ter, nenhuma certeza de que dará certo. Nossa expectativa é a esperança de sucesso. É essa esperança que justifica todo meu investimento em uma relação.
A esperança, portanto, abre o espaço para a dúvida, para a descrença, para a incredulidade.  Não somos super-homens e super-mulheres que têm absoluta certeza de que serão capazes de tudo em nome de sua fé. A fé titubeia, ela fraqueja, ela falta. Chega aquele momento em que a alma se encontra sem fé. A única chance de seguir em frente, a única coisa que motiva nosso investimento na vida, é a esperança. 
Aquele pai esperava, ainda que sua fé fosse pequena ao ponto de pedir ajuda quanto a sua falta. Ele esperava de Jesus e esperava em Jesus.
Algumas outras coisas me despertam atenção neste texto. Primeiro, e mais importante, é que todas aquelas pessoas - e, em particular, os discípulos - estavam ao lado de Jesus. Mais que isso: Jesus e três deles acabaram de passar pela experiência da transfiguração no alto do monte. É, portanto, natural que nós tenhamos, como leitores, a expectativa que todas aquelas pessoas estivessem repletas de uma fé que fosse certeza absoluta. No entanto, todo o relato é o relato sobre a falta da fé: Jesus esbraveja contra, pasme, os discípulos que foram incapazes de curar o menino: "Respondeu Jesus: 'Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?'. (Marcos 9:19 NVI) 
O texto é sobre falta de fé: dos discípulos, do pai. Nossa. A falta de fé, a incredulidade, o ateísmo é parte de nossa vida. 
Em "Paciência com Deus" diz Halík: "A fé só poderá vencer a descrença abraçando-a".  Ele diz ainda que ateísmo deve ser visto não como uma mentira mas como uma verdade incompleta.  E complementa: "O ateísmo constitui uma útil antítese do ingênuo e vulgar teísmo - mas é necessário dar mais um passo para a síntese e para a fé madura".
Enquanto isso, caminhamos na esperança. É ela que nos motiva a investir em nossas crenças - entre elas, de que a fé vale a pena, de que o amor é o melhor caminho.
“Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!”

12.5.15

Matar o Pai

Para a psicanálise, a partir da análise do mito do Édipo Rei, quem não matar o pai simbolicamente permanecerá infantil a vida toda. 
Lembrei-me disso na leitura da parábola do filho pródigo em Lucas:
"E Jesus disse ainda: — Um homem tinha dois filhos. Certo dia o mais moço disse ao pai: “Pai, quero que o senhor me dê agora a minha parte da herança.” — E o pai repartiu os bens entre os dois". (Lucas 15:11-12 NTLH)
Quando pede sua parte na herança do pai, o filho, simbolicamente, mata o pai. Herança é algo que é dado como testamento, após a morte. É, então, como se o filho dissesse ao pai que a partir daquele momento vai considerá-lo como morto.  Isso ajuda, na parábola, a explicar toda a relutância que o filho tem, após gastar todos os bens, para voltar à casa do pai. Aliás, isso também ajuda a explicar porque ele acha que o único papel que lhe caberia ali, no retorno, seria o de um empregado.
Mas pensemos na morte simbólica do pai como ato fundamental para que o sujeito alcance a maturidade. O pai representa a lei. Sob seu domínio, não podemos ser outra coisa que não heterônomos: ou seja, somos guiados pela lei de outro. Ser maduro, ser adulto é o mesmo que ser autônomo: ou seja, é reconhecer em si a lei, o princípio ético para a sua ação no mundo. E se responsabilizar - quer dizer, ser capaz de dar resposta - por isso.
Ai eu volto para a parábola, na qual o pai é uma figura de Deus. É preciso matar o pai. É preciso matar Deus. O filho só consegue experimentar a realidade de uma vida autônoma com Deus, uma vida plena da graça e do amor perdoador do Pai, depois que O mata, usufrui de sua herança. É nesse retorno para o Pai, já morto simbolicamente, que o filho encontra sua fé e uma nova e revigorante relação com o Pai.
Interessante também pensar que a parábola foi contada, como sabemos no início do capítulo 15 de Lucas, contra os fariseus porque estes criticavam Jesus por andar com pecadores.
Os fariseus estavam sob a Lei. Sua fé era infantilizada como a do irmão que ficou - aquele que não matara simbolicamente o pai, ou seja, a Lei. Infantis, chateiam-se enormemente contra aquele irmão que, matando o pai e vivendo dissolutamente, reecontrou-se com ele em uma nova forma de relacionamento, fundado no amor, com liberdade e autonomia, como convém a adultos.
Na minha experiência de fé tenho aprendido que, como o filho pródigo, temos de matar o Pai para encontrarmos uma nova fé madura e autônoma. Tenho encontrado muitos irmãos e irmãs que, passando pela mesma experiência, ressignificaram sua fé longe de heteronomia escravizante. Ousaram romper com a fé infantil como a dos fariseus denunciados por Jesus.