A gente passa por algumas conversões na vida, que podem mexer um tanto mais ou um tanto menos conosco.
Uma radical se deu em 1996 comigo quando deixei de crer como um espírita e encontrei sentido em uma versão do evangelho de Jesus que ouvi, naquela ocasião, na Igreja Presbiteriana Independente.
Já disse aqui: hoje olho a forma como eu cri naqueles primeiros anos e me apiedo de tanta repressão, opressão, tradicionalismo. Nem acompanhar uma canção com palmas me era possível - imagine as coisas que hoje eu creio.
Outros momentos de conversão se deram: vim, pela primeira vez, para Fortaleza fazer seminário em 2001. Antes disso, estive alguns meses à frente da congregação da IPI em Pajuçara. Experiências de conversão.
Elas foram se tornando mais aprofundadas com o passar do tempo.
Em 2011, comecei uma paquera teológica com Ricardo Gondim e a Igreja Betesda. O processo se acentuou entre 2013 e 2014. Eu me reencontrei nesta comunidade de fé. Aqui em Fortaleza tenho tido ricas experiências andando com esse povo que pensa uma fé contemporânea de maneira adulta e em busca da maturidade e autonomia.
Estava lembrando isso por um fato que contava a um amigo no sábado. Em 1996, ao dizer que "queria receber Jesus como Salvador", optei por uma religião da qual desconhecia a teologia, formulações, crenças básicas. Fui doutrinado e até pensava, de vez em quando, que cria como um presbiteriano porque havia me convertido em uma igreja presbiteriana - como se me fosse possível crer de maneira diferente da que cria então.
Caminhei muitos anos até me reencontrar na comunidade onde estou hoje. Dessa vez, foi tudo absolutamente diferente: quase duas décadas de vida eclesiástica, muita leitura teológica, experiências em eventos de reflexão, mestrado, doutorado, seis anos de estudos de teologia. A minha escolha não foi afetivo-emocional. A minha escolha foi teológica: assumi a comunidade Betesda como a minha comunidade porque encontrei ali uma forma de viver e pensar a fé cristã de maneira que me pareceu relevante, significativa e extremamente valiosa.
Não foi um adolescente que encontrou a fé na vida da igreja: foi um adulto, homem, maduro. Tanto que primeiro essa foi a minha experiência. Mas veio a ser também a experiência de Kênia. Não cabemos em outro espaço. A fé em Cristo que compartilhamos, compartilhamos na forma, na crença, nas propostas, nos sonhos, nos planos, nas proposições da Betesda.
Não chegamos aqui como neófitos: chegamos aqui como buscadores de uma fé madura que julgamos ter encontrado entre as irmãs e os irmãos dessa comunidade.
(Se cria no passado na relevância de uma mensagem evangelística e na conversão pessoal através da confissão de Jesus, hoje creio no evangelho do Reino nos impulsionando à vida, vida verdadeira, intensa, desalienada, comprometida. Desse modo, compreendam, falo de ter recebido Jesus como Salvador apenas para ressaltar o modo como cria naqueles dias. Jesus é o Salvador independentemente se eu confesso isso ou não. Aliás, o confessar não significa nada no que se refere à minha vida e ao sentido do evangelho nela. Mas isso é outra conversa).
9.6.15
4.6.15
A vontade de Deus é amar
Como vejo a vontade de Deus hoje?
Para mim, uma possível analogia seria o impulso de uma energia empurrando o mundo na direção da vida.
Desse modo, não determina, mas é um vetor que impulsiona mais vida no mundo. Você pode resistir, pode lutar contra, pode decepcionar.
Nesse sentido, é uma intenção, um projeto, um plano de vida para cuja realização depende de nossa ação. Somos livres para participar ou não porque o amor só é amor se os amados e o Amante são livres - se o amado puder frustrar o Amante, se o Amante estiver disponível para ser afetado pelos amados, se assim o Amante puder ver seus planos de amor serem frustrados pelos amados.
Mas há esse impulso pela vida. Como que gravado no código de programação do Universo e da Vida. Como meu genótipo que é capaz de definir elementos essenciais de minha vida, saúde, mente, ideias, mas que não é definidora absoluta de minhas escolhas e de quem eu sou. O que sou não é definido pela programação dos meus gens, ainda que eles sejam essenciais nisso. Sou condenado à liberdade de escolher e esse elemento é o que melhor me define como um sujeito que intenta ser livre e autônomo.
De igual modo, há uma energia que faz a existência ser cada vez mais complexa. A vida inteligente existia potencialmente na singularidade de onde explodiu o Big Bang. Nossa existência inteligente só é possível porque existia potencialmente ainda antes mesmo da existência do cosmos.
Parece que a vida - e a vida inteligente, a consciência, é o intuito do vetor que conduz o universo até o seu fim. Um vetor que orienta mas que não submete - o acaso explode, um feixe de raios Gama decorrente de uma explosão estelar pode vaporizar nosso mundo ou outros mundos pondo fim a um processo evolutivo que faria brotar vida e civilização ou destruir toda uma civilização como a nossa. E isso não porque fosse vontade de Deus, mas porque o acaso e o infortúnio são possibilidades na história desse cosmos.
Um cosmos que é caótico, mas que se reorganiza. Um cosmos onde consciências se dirigem umas a outras e que fazem brotar o amor. O Amante nos amou para que pudéssemos aprender a amar - ainda que tudo isso não seja mais que linguagem antropomórfica.
Um dos filmes mais tocantes que vi recentemente foi "Interestelar". E ali há uma proposta: a energia mais poderosa do universo, aquela que é capaz de transpor as barreiras do espaço-tempo, é o amor.
A vontade de Deus é o Amor.
2.6.15
Inferno e fim do mundo
Mateus 13 traz algumas parábolas que falam sobre os injustos sendo lançados "na fornalha ardente" no "fim do mundo" onde "haverá choro e ranger de dentes" (joio e rede).
Sou simpático à ideia de que tal fim do mundo ocorreu na crucificação de Jesus. A cena descrita nos sinópticos de trevas, escuridão na terra, terremotos e mortos voltando à vida combina com aquilo que os profetas escatológicos do Antigo Testamento anunciavam sobre o Dia do Senhor, o fim do mundo.
Não dá, no entanto, para aprofundar a questão aqui. Cito-a para ponderar que, assim sendo, o inferno dos que rejeitaram Jesus seria uma condição existencial que se deu no momento em que Jesus morreu e ressuscitou e estes, injustos, foram mantidos de fora da esperança e da vida do Ressurrecto.
Viver sem a experiência da ressureição e da vida é viver o inferno na terra. Ali, longe da graça. Ali, onde haverá choro e ranger de dentes.
22.5.15
Uma nova fé
"Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade, como forma de conter a rebelião, dar fim ao pecado, arrancar o crime pela raiz, estabelecer justiça para sempre, cumprir a profecia e ungir o Lugar Santíssimo" (Daniel 9. 24)
As Escrituras estão cheias de narrativas sobre um tempo desértico na vida os fiéis. Quarenta anos de um povo liberto pelo deserto a caminho da terra prometida até que toda uma geração teimosa morra, 20 anos na vida de um Jacó até que ele retorne para casa mudado em Israel, 40 dias de jejum e tentação para Jesus antes do ministério, Paulo sozinho no deserto da Arábia antes de se voltar para a igreja.
A ideia de um tempo de comprometimento a fim de experimentar um processo de, poderíamos dizer, conversão, é cara nas Escrituras.
O texto de Daniel tenta reinterpretar a profecias de Jeremias acerca dos 70 anos de exílio babilônico que preconizou.
No fundo o que está em questão é a necessidade de um tempo de descida ao [fundo do] poço a fim de matar um determinado deus e religiosidade a fim de nos encontrarmos com uma nova espiritualidade que nos apresente um Deus mais vivo, relevante e misterioso para o nosso tempo.
Penso ter sido essa experiência de morte de deuses e espiritualidades datadas, comunitária e individualmente, que está por trás desses tantos relatos sobre tempos de deserto nas Escrituras. O tempo da dúvida, da crise, do poço parece ser uma constante na vida do povo e do fiel. Mais que isso: parece ser fundamental. A reinvenção de uma fé mais livre e relevante passa pela experiência de matar quaisquer formatos anteriores, quaisquer concepções de divindidade e religiosidade que não nos digam mais respeito. Antes de uma fé mais honesta precisamos da morte de uma fé que já não responde mais às angústias do tempo presente.
Esse é o deserto.
Há quase três anos vivo dividido entre Fortaleza, onde trabalho, e Natal, onde mora minha família. Mesmo antes disso comecei a descida, mas ela foi ainda mais radical até me parecer ter tocado o fundo do poço depois de ter vindo a Fortaleza.
A caminhada de volta, em uma nova fé, começou a partir daí. O meu deus morreu bem morto e uma nova fé começou a emergir, aqui e em contato com os irmãos que me hospedaram e com a igreja que me abrigou.
Agora que a possibilidade de retorno a Natal se evidencia (após vencermos na justiça federal em primeira instância processo que movemos por uma permuta com colega da UFRN), sinto que cheguei aqui um Jacó, lutei com Deus e com minhas incredulidades e posso voltar para a minha terra um Israel.
Como foi a experiência de Jacó, como foi a experiência do povo no deserto ou no exílio, encontrei aqui, no meu deserto e exílio, um Deus pelo qual vale a pena viver.
21.5.15
Ossos secos e uma nova vida espiritual
"Então ele me disse: 'Profetize a estes ossos e diga-lhes: Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor! Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês terão vida'". (Ezequiel 37:4-5 NVI)
Pensava sobre esse conhecido texto de Ezequiel 37 hoje.
Conhecidíssimo texto, pregado tantas vezes em contextos de avivamento ou de experiências carismáticas, mas que também pode nos convidar a refletir sobre outras coisas.
Tenho conversado - e, por isso, refletido - sobre a vida religiosa comunitária e individual dos cristãos nos dias atuais. É como se, de um lado, houvesse uma crescente desilusão contra a religião dos pais que não responde mais às demandas e angústias da contemporaneidade, e de outro se buscassem saídas e alternativas a tal situação.
Parece o contexto de Ezequiel. Ele era um profeta do exílio, levado à Babilônia em uma das primeiras levas de judeus, antes mesmo da destruição do templo de Jerusalém e da deportação final.
Desde o início de seu livro ele vai desenhando um cenário terrível para os judeus e sua religião. Lá no capítulo 8, por exemplo, ele é levado em uma visão a Jerusalém, até o templo, e por trás de um buraco cavado na parede vê toda sorte de abominação religiosa e espiritual, denunciando uma religião que é usada pelo poder para submeter o povo, mantendo um determinado discurso moral e ascético que esconde todo tipo de sujeira é mentira manipulativa em detrimento dos fiéis. Ovelhas, afinal, sem pastores.
Essa religião que promovia escravidão, alienação e dominação se esmigalhou com a destruição do templo e o exílio sob Nabucodonosor. Sedecias, o último rei, tenta fugir ao cerco do rei babilônico, é capturado e, antes de ter seus olhos vazados e levado prisioneiro, assiste à decapitação de seus filhos. O templo queima. A Arca se perde para sempre.
Ezequiel viu isso: ele viu a Glória de Iahweh deixando o templo e em seguida Jerusalém. Era o fim dessa religião dos pais. Ela não serve mais, ela não responde mais, ela não presta mais.
É no contexto da restauração que surge a profecia do vale dos ossos secos.
Ela tem duas etapas. Primeiro, uma restauração formal, que gera corpos a partir de ossos, mas sem vida.
Em seguida, Ezequiel profetiza para que o Espírito venha e traga vida aos corpos.
Quando leio esse texto em dias de decepção, mágoa e frustração contra as igrejas e, de outro lado, dias de igrejas que promovem a si mesmas mas nada do evangelho libertador do Reino, me identifico. E para mim o texto aponta um caminho de dois passos para uma nova espiritualidade e uma nova vivência de fé comunitária.
Primeiro: é preciso cria uma nova forma. A forma antiga, que aliena, mata, sufoca, é um vale de ossos secos. Mesmo que o vale nem se perceba assim.
Por que as pessoas se frustram e abandonam a fé? Porque procuram vida relevante e só encontram ossos secos em nossas comunidades. Ossos secos, que batem uns contra os outros, são capazes de fazer muito barulho e chamar a atenção. Mas não têm vida nem representam nada na vida.
Segundo: uma forma correta sem a vida infundida pelo Espírito também não serve muito bem porque é vazia. É preciso que o Vento sopre.
E que vida o Espírito traz? Compromisso com a vida. Fruto do Espírito. Testemunho do Reino.
Diz, na versão da Bíblia A Mensagem, o texto de Gálatas sobre o fruto do Espírito:
"O que acontece quando vivemos no caminho de Deus? Deus faz surgir dons em nós, como frutas que nascem num pomar: afeição pelos outros, uma vida cheia de exuberância, serenidade, disposição de comemorar a vida, um senso de compaixão no íntimo e a convicção de que há algo de sagrado em toda a criação e nas pessoas. Nós nos entregamos de coração a compromissos que importam, sem precisar forçar a barra, e nos tornamos capazes de organizar e direcionar sabiamente nossas habilidades".(Gálatas 5. 22-23)
Outro texto que pode nos dar pistas do que podemos esperar da vida do Espírito Santo em nossas vidas é Isaías 61:
"O Espírito do Soberano, o Senhor, está sobre mim, porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros" (Isaías 61:1 NVI)
Como disse pregando domingo, o Espírito não vem sobre nós para nos tornarmos super-homens todo-poderosos. Ele vem para nos dar integridade de vida para o serviço como testemunha - um mártir que vive pelo que crê - do Reino de Deus.
É nessa dimensão que vejo também a visão de Ezequiel 47, do rio que corre desde o Novo Templo levando vida ao deserto e até restauração ao mar Morto: o Rio da Vida corre a partir de nós nessa nova dimensão de vida de fé espalhando vida, libertação, transformação a partir de nós.
Qualquer nova fé que atenda às demandas e angústias contemporâneas deve, a meu ver, repercutir da experiência comunitária para a transformação do mundo, levando a toda parte essa vida. E de minha parte percebo que esse Vento já está soprando mundo afora.
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