Você quer ter como palavra final sobre a vida um conjunto diversos de textos escritos em um mundo entendido como finito, plano, feito para o homem, com um Deus fisicamente existente sobre o céu, por pessoas que falavam aramaico, hebraico e grego?
Não é óbvio que isso não faz sentido em um mundo que é apenas um pequeno planeta (entre oito) do sistema solar de uma pequena estrela da periferia de uma pequena galáxia entre cem bilhões de galáxias, em que se sabe que não há um Deus físico no céu, que um vulcão não é a ira de um Deus, um trovão não é a voz de Deus, que uma frente fria define a chuva (e não um Deus)?
Para mim aqueles textos só fazem sentido se eu os encarar como relatos de como povos do passado tiveram suas experiências com Deus, o que pode nos inspirar. Aqueles textos são pontos de partida, não lugares de chegada em que se encerram as questões da vida.
18.7.15
24.6.15
A prática da libertação e um lugar no Reino
Isaías 58 me fala sobre libertação. Na verdade, fala sobre culto e práticas ascéticas - no caso, o jejum -, em sua relação com as práticas de justiça e libertação.
O terceiro Isaías esclarece que o culto, por si, nada significa. Iahweh não chama Seu povo para cultuar, mas para promover a justiça.
Tenho sempre a impressão que mensagens assim serão sempre atuais - porque tenho a impressão que sempre haverá uma força gravitacional que puxará os cristãos para uma prática de fé ensimesmada, uma vez que ela é melhor do que o risco que se corre quando se decide seguir a prática de jejum que o Senhor diz escolher: "romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, por em liberdade os oprimidos, despedaçar totalmente os jugos, repartir o pão com o faminto, recolher em casa os desabrigados, vestir o nu e não fugir de sua responsabilidade frente aos que necessitam".
A vida de fé não é aquela que ocorre no culto ou em seus momentos devocionais. O terceiro Isaías não é condescendente com ninguém: a vida de fé é necessariamente uma vida de compromisso com a libertação.
Por isso mesmo é que um cristão deve chorar quando vê aqueles que se dizem seus representantes defendendo ideias e práticas que nada têm a ver com a essência do que deveria ser sua prática de fé.
São cristãos os que fazem discursos apaixonados pelo direito de andar armados, pela redução da maioridade penal, pela violenta repressão da juventude marginalizada. São cristãos que lutam contra os direitos de camadas e camadas de excluídos, especialmente os LGBTs.
De cortar o coração cenas de cristãos celebrando no Congresso a aprovação da redução da idade penal na Comissão Especial da Câmara. De indignar a alma as imagens de cristãos gritando palavras de ordem contra sua mais recente invenção: a ideologia de gênero, uma desculpa perversa e piedosa para que seu direito de ser homofóbico e promover a violência simbólica contra gays, lésbicas e trans - aquela que alimenta todos os dias a morte de LGBTs Brasil afora. Fazem o mal contra as minorias achando que, com isso, fazem culto a Deus. São como ovelhas sem pastor, perdidos nas mensagens de ódio que os afastam daquilo que o Senhor anuncia como seu culto e sua fé.
Sua história me faz lembrar de uma parábola que Jesus conta no evangelho de Lucas:
"“Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu digo a vocês que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão do lado de fora, batendo e pedindo: ‘Senhor, abre-nos a porta’. “Ele, porém, responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês’. “Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. “Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!’ “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando vocês virem Abraão, Isaque e Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, mas vocês excluídos" (Lucas 13:24-28 NVI).
Isso me faz ter pena dos que se dizem seguidores de Cristo mas se colocam, na prática de fé, fora de uma festa que Jesus faz e fará com os excluídos.
Esta noite eu sonhei com Marco Feliciano. Por alguma razão o sonho me conscientizou de que ele, como opressor, também precisa ser libertado da relação de opressão.
Em algum momento, eu dizia no sonho que estenderia a mão da comunhão a Feliciano, não porque concorde com ele, mas porque ele precisa ser libertado da religião doentia em que se entranhou. Uma religião de poder - não no sentido espiritual, mas político mesmo.
Feliciano e similares fazem tantas coisas em nome do Senhor, mas estão presos na sua própria religião, incapazes de entender o jejum que Iahweh escolheu, incapazes de ver que são os que eles perseguem que festejam com Jesus, enquanto ele e seus pares vivem seus infernos pessoais fora do banquete da salvação com Jesus.
A opressão é uma relação. Quando nós promovemos a libertação, libertamos oprimidos e opressores de seu peso.
O Reino de Deus deveria ser lugar para LGBTs e Felicianos. Por enquanto, tem sido lugar só dos primeiros.
19.6.15
Herdeiros do Reino de Deus
Os dogmáticos forçam a barra das Escrituras para encontrar uma unidade impossível de encontrar.
Houve uma dimensão existencial que me fez refletir acerca da homossexualidade e mudar de ideia, ao longo do tempo, acerca de sua relação com a vida de fé em Cristo. Se antes eu tinha certeza de que o homossexual estava em pecado, foi a experiência de encontrar irmãos que sinceramente sofriam porque não podiam deixar de ser quem eram que me fez refletir: "isso não pode estar certo: a igreja não pode ser um espaço de opressão e sofrimento". E a partir disso, comecei a repensar a questão.
Uma das primeiras coisas que entendi é que há problemas na visão dogmática sobre a Bíblia que se implicam na questão da homossexualidade.
Eu me pergunto se os dogmáticos que enviam os gays ao inferno não são capazes de perceber o problema essencial que sua leitura possui. Porque se forem verdade textos como 1 Coríntios 6.9-10 ("Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus."), o que se estará admitindo é que há pecados que nos levarão ao inferno independente da graça de Jesus. Isso é outra forma de afirmar um tipo de salvação que depende de nossas obras. É admitir que há práticos, atos, comportamentos que são mais poderosos que o Jesus que nos salva.
Não adianta falar em pecado reiterado, em falta de arrependimento ou coisas similares porque não é sobre isso que fala o texto. O texto diz que não estarão no Reino de Deus esses aí, independentemente de seu arrependimento, de sua luta por mudar, de sua consciência. E não são apenas homossexuais na lista: os perversos - inclusive os que fazem uso da religião para as suas perversidades; os adúlteros - inclusive aqueles que desejam no coração, que Jesus já dissera que adulteram também.
Se o texto de Coríntios for verdadeiro, não tem nada que possamos fazer. Não iremos ao Reino de Deus porque mentimos, porque somos avarentos, porque falamos mal de outras pessoas.
Sabe aquele cristão santinho que vive dizendo na Internet que o filho de Lula é um megaempresário? Se tomarmos a sério o texto de Coríntios, não tem o que ele possa fazer: está perdido!
Mas o santinho acima só se lembra da parte do texto que fala dos gays, né?
***
De todo modo, isso não faz o menor sentido. Não faz o menor sentido, no horizonte do Novo Testamento, considerar esta afirmação como uma verdade irretocável.
Podemos lembrar o próprio Paulo quando considera a dimensão e o impacto da salvação em Jesus na carta aos Romanos: "Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte.
Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará com ele, e de graça, todas as coisas? Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8:1-2, 31-39)
Além desse, podemos lembrar da carta aos Efesios e sua doce afirmação no capítulo 2 de que somos salvos pela graça e não por obras.
***
O dogmático tem de escolher se é salvo pela graça e nada, de modo nenhum em tempo algum, pode afasta-lo dessa salvação ou se avarentos, mentirosos, caluniadores e até homossexuais estão condenados a viverem no inferno.
Esses textos não se reconciliam.
***
A partir da dimensão existencial do sofrimento amargo imposto pela religião e pela igreja contra irmãos e irmãs homossexuais que não podiam deixar de sê-lo e eram confrontados com a pregação dogmática que lhes punham condenados, que comecei a refletir. E percebi logo que esse discurso fere a essência do evangelho e da própria teologia que afirma que não são nossos pecados que nos condenam mas aquilo que fazemos de Cristo. Em outras palavras, a teologia ortodoxa diz que somos salvos pela fé em Cristo, mas que isso não nos faz deixar de sermos pecadores. Assim, mesmo salvos, somos pecadores. E a partir de então nossos pecados não nos condenam porque nenhuma condenação há para os que estão em Cristo.
Vê como não tem sentido, no escopo dessa teologia, a crença do texto de Coríntios de que aqueles pecadores estão condenados? As duas ideias não se complementam nem podem ser conciliadas.
Nesse instante percebi, e isso foi libertador, que a homossexualidade de ninguém é capaz de condená-lo já que não pode ser maior que o amor de Deus e que sua salvação em Cristo. Logo, os gays têm seu lugar na igreja.
A partir disso, até deixar de acreditar que a homossexualidade é pecado, é outra história.
18.6.15
Em Deus mas sem Deus
Antes da modernidade, uma fé em um Deus Todo-Poderoso, determinista, absoluto, fazia todo sentido. Aí veio a modernidade que trouxe consigo um aprofundamento do secularismo.
Se antes, se cria no theós do teísmo, o iluminismo nos trouxe um deísmo ateísta, que negava a possibilidade de um deus todo-garantidor e pôs em seu lugar um que deu corda no mundo, estabeleceu as regras do jogo e deu o pira.
O ateísmo, claro, conforme o conhecemos hoje era a tendência natural de tal postura. Ele, associado a um profundo secularismo.
Por isso teólogos como Dietrich Bonhoeffer e Roger Lenaers, em tempos diferentes, entenderam que um homem que usa um interruptor para acender a luz de casa - ou a Internet para se comunicar à distância, indo até o mais longíquo rincão - não pode acreditar no deus que pregam os teístas.
Não faz mais sentido.
Uma fé relevante, como dizem os dois que citei acima, é aquela que aprende a viver em Deus sem Deus - em um mundo que não tem em Deus na cadeia causal do mundo. Porque o mundo já não cabe numa cadeia causal em que caiba Deus.
Vou dar um exemplo. Hoje pela manhã enquanto lia a Bíblia percebi com clareza como fazia sentido pensar em um deus todo-interveniente quando parecia que tudo fora criado para nós, humanos. O mundo era absolutamente finito, o céu era uma limitada toalha jogada sobre nossas cabeças, que andávamos em um plano mundo da terra - e com um fim logo ali. Era claro que esse mundo só podia existir em nossa função, a única espécie inteligente e com autoconsciência a coexistir nesse mundinho.
Mas hoje nosso mundo é muito maior. Entendemos o tamanho da nossa insignificância e podemos ter certeza de que o céu acima de nossas cabeças não foi estendido para nós. Como diria Cortella, somos um indivíduo entre mais de 7 bilhões, de um pequeno planetinha, rodando em torno de uma pequena estrela na periferia de uma galáxia com outras bilhões de estrelas - uma galáxia, por sua vez, que é uma entre bilhões. Quando era um tapete, havia sentido pensar que ele fora estendido para nós. Mas esse universo virtualmente infinito não pode ser pensado a partir de nosso ponto microscópico dentro de si.
Uma fé relevante não pode esquecer isso - e logo precisa ressignificar toda uma visão mítica e teológica dos séculos anteriores, não só na leitura do texto bíblico como também nas suas respostas teológico-religiosas.
Mas a fé hegemônica no cristianismo, ao menos no brasileiro, é ainda teísta pré-moderna. Eu ia dizer, por fim, que é essa fé teísta pré-moderna que nos arrasta para o fundo do poço do conservadorismo no Brasil. Não é à toa que o crescimento de Malafaias e afins se confunde com posturas cada dia mais medievais entre nós.
Se antes, se cria no theós do teísmo, o iluminismo nos trouxe um deísmo ateísta, que negava a possibilidade de um deus todo-garantidor e pôs em seu lugar um que deu corda no mundo, estabeleceu as regras do jogo e deu o pira.
O ateísmo, claro, conforme o conhecemos hoje era a tendência natural de tal postura. Ele, associado a um profundo secularismo.
Por isso teólogos como Dietrich Bonhoeffer e Roger Lenaers, em tempos diferentes, entenderam que um homem que usa um interruptor para acender a luz de casa - ou a Internet para se comunicar à distância, indo até o mais longíquo rincão - não pode acreditar no deus que pregam os teístas.
Não faz mais sentido.
Uma fé relevante, como dizem os dois que citei acima, é aquela que aprende a viver em Deus sem Deus - em um mundo que não tem em Deus na cadeia causal do mundo. Porque o mundo já não cabe numa cadeia causal em que caiba Deus.
Vou dar um exemplo. Hoje pela manhã enquanto lia a Bíblia percebi com clareza como fazia sentido pensar em um deus todo-interveniente quando parecia que tudo fora criado para nós, humanos. O mundo era absolutamente finito, o céu era uma limitada toalha jogada sobre nossas cabeças, que andávamos em um plano mundo da terra - e com um fim logo ali. Era claro que esse mundo só podia existir em nossa função, a única espécie inteligente e com autoconsciência a coexistir nesse mundinho.
Mas hoje nosso mundo é muito maior. Entendemos o tamanho da nossa insignificância e podemos ter certeza de que o céu acima de nossas cabeças não foi estendido para nós. Como diria Cortella, somos um indivíduo entre mais de 7 bilhões, de um pequeno planetinha, rodando em torno de uma pequena estrela na periferia de uma galáxia com outras bilhões de estrelas - uma galáxia, por sua vez, que é uma entre bilhões. Quando era um tapete, havia sentido pensar que ele fora estendido para nós. Mas esse universo virtualmente infinito não pode ser pensado a partir de nosso ponto microscópico dentro de si.
Uma fé relevante não pode esquecer isso - e logo precisa ressignificar toda uma visão mítica e teológica dos séculos anteriores, não só na leitura do texto bíblico como também nas suas respostas teológico-religiosas.
Mas a fé hegemônica no cristianismo, ao menos no brasileiro, é ainda teísta pré-moderna. Eu ia dizer, por fim, que é essa fé teísta pré-moderna que nos arrasta para o fundo do poço do conservadorismo no Brasil. Não é à toa que o crescimento de Malafaias e afins se confunde com posturas cada dia mais medievais entre nós.
14.6.15
Ajuda-me a vencer as minhas dúvidas! Incredulidade, impotência e incompreensão na vida de fé
Ajuda-me a vencer as minhas dúvidas! Incredulidade, impotência e incompreensão na vida de fé by Daniel Dantas Lemos on Mixcloud
Mensagem pregada na noite de 14 de junho de 2015 na Igreja Betesda Cidade 2000, em Fortaleza (CE)
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