1.8.15

Um deus que não merece ser crido

Textos como o capítulo 10 do Segundo Livro de Reis são um desafio para certa perspectiva teológica que ainda tem vez no nosso mundo.
O texto relata uma perseguição implacável, sanguinária, contra uma religião e contra uma família real. Eu perco as contas de quantas centenas de pessoas são assassinadas pelo rei em nome de Deus. 
Cabeças são cortadas, fiéis são executados após o culto, corpos são expostos de maneira performática. Há um reflexo nas ações do Estado Islâmico de cenas como as descritas no livro bíblico. Se alguém contasse o capítulo 10 de 2 Reis num relato visual muita gente acreditaria se tratar de uma ação daqueles muçulmanos radicais.
Mas não são. 
São ações de seguidores de Iahweh. Feitas em seu nome. Relatadas como executadas por Sua ordem. São, acima de tudo, canônicas para cristãos e judeus.
Aqui o problema teológico.  Se o texto diz que Jeú agiu obedecendo à ordem de Deus, os fundamentalistas vão defender até a própria morte que foi isso mesmo que aconteceu: aquele sangue foi derramado porque Deus quis e mandou.
Se foi isso que aconteceu, prefiro negar tal deus.  Se o relato deve ser tomado como inerrante, eu abjuro esse deus. Eu apostato da fé nele. E digo para qualquer um: esse deus é o mesmo que faz os muçulmanos do Estado Islâmico fazerem o que fazem com aqueles que não pensam e creem como eles. É esse deus que faz com que homens queimem vivos prisioneiros, degolem-nos, treinam crianças para matarem. Fazem isso para cumprir a vontade de deus - como Jeú.
Se os fundamentalistas estiverem certos esse deus é indigno de ser crido, louvado, servido.
Só se pode sobreviver a um texto assim se eu entender que, como o Estado Islâmico faz, os seguidores de Jeú criaram uma justificativa teológica para a sua perversidade: atribuíram a Deus a responsabilidade pelo seu massacre. Deus não tinha nada a ver com aquilo!
Fundamentalistas - cristãos, muçulmanos, judeus - continuam fazendo o mesmo: para justificar suas perversidades, atribuem-nas à ordem, palavra ou vontade de Deus. Desse deus, quero morrer ateu.

22.7.15

A vida é breve

Eu tenho uma causa pela qual viver e tenho urgência porque a vida é breve.
Há alguns poucos anos, encarei o desafio de ser coerente, ainda que não imutável, com o que penso, creio, defendo. Assumo a cada dia o compromisso de não permitir que normas de conduta, cláusulas de estilo ou etiqueta, conduzam minha prática mais que minhas crenças e minhas ideias.
Falo-as com urgência. A vida que vale a pena pode se acabar a qualquer momento e não quero ir sem ter dito tudo o que poderia.
Escolho as palavras que melhor traduzem o que analiso, creio ou penso - ainda que a linguagem, lugar do deslize, reserve lugares importantes ao inconsciente.
Mas não espere de mim um silêncio condescendente ou a fuga da disputa. Importa menos ser querido ou ter o prazer do debate do que deixar claro o que defendo.
Encontrei uma ideia pela qual vale a pena viver. Vivo por ela.
Ela motiva minhas escolhas.
Ela se alimenta de meu amor ou, antes, do Amor.
Você vai me ver discutindo justiça social e ideias de revolução porque o Amor para mim impulsiona um mundo mais justo que afasta de seu centro ideias de domínio, controle e poder. O Amor se opõe ao mundo que se organiza em torno desses centros de poder e você vai me ver nessa disputa. A vida vale a pena e ela é breve.
Você vai me ver lutar por um Amor que abdica de ser o deus-nas-alturas. O que tive foi um encontro libertador com esse Amor personificado em Jesus; quero dizer aos outros que eles podem ter também. Quero partilhar aos demais uma ideia pela qual vale a pena viver. E vocês me verão fazendo isso.
Não tenho um prazer especial na polêmica.  Mas tenho prazer em deixar claro que vale a pena viver com liberdade e autonomia no encontro com o Deus que se encarna na vida!
Se disputo a questão LGBT, já disse isso, é porque ela aponta para questões muito mais importantes na fé que dizem respeito à leitura da Bíblia e a teologia que nos move como cristãos. Desejo ardentemente que nos livremos das formas fundamentalistas!
Um ideia pela qual vale a pena viver. Um Amor mais real que qualquer amor. 
Espere de mim a luta e a coerência. Urgente. Porque sinto ter perdido muito tempo submetido a regras que escravizam. Tenho 36 anos e a vida é breve. Não sei quanto tempo mais terei para viver movido por tais ideias!

18.7.15

Bíblia como ponto de partida

Você quer ter como palavra final sobre a vida um conjunto diversos de textos escritos em um mundo entendido como finito, plano, feito para o homem, com um Deus fisicamente existente sobre o céu, por pessoas que falavam aramaico, hebraico e grego?
Não é óbvio que isso não faz sentido em um mundo que é apenas um pequeno planeta (entre oito) do sistema solar de uma pequena estrela da periferia de uma pequena galáxia entre cem bilhões de galáxias, em que se sabe que não há um Deus físico no céu, que um vulcão não é a ira de um Deus, um trovão não é a voz de Deus, que uma frente fria define a chuva (e não um Deus)? 
Para mim aqueles textos só fazem sentido se eu os encarar como relatos de como povos do passado tiveram suas experiências com Deus, o que pode nos inspirar. Aqueles textos são pontos de partida, não lugares de chegada em que se encerram as questões da vida.

24.6.15

A prática da libertação e um lugar no Reino

Isaías 58 me fala sobre libertação. Na verdade, fala sobre culto e práticas ascéticas - no caso, o jejum -, em sua relação com as práticas de justiça e libertação.

O terceiro Isaías esclarece que o culto, por si, nada significa. Iahweh não chama Seu povo para cultuar, mas para promover a justiça.
Tenho sempre a impressão que mensagens assim serão sempre atuais - porque tenho a impressão que sempre haverá uma força gravitacional que puxará os cristãos para uma prática de fé ensimesmada, uma vez que ela é melhor do que o risco que se corre quando se decide seguir a prática de jejum que o Senhor diz escolher:  "romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, por em liberdade os oprimidos, despedaçar totalmente os jugos, repartir o pão com o faminto, recolher em casa os desabrigados, vestir o nu e não fugir de sua responsabilidade frente aos que necessitam".
A vida de fé não é aquela que ocorre no culto ou em seus momentos devocionais. O terceiro Isaías não é condescendente com ninguém: a vida de fé é necessariamente uma vida de compromisso com a libertação.
Por isso mesmo é que um cristão deve chorar quando vê aqueles que se dizem seus representantes defendendo ideias e práticas que nada têm a ver com a essência do que deveria ser sua prática de fé.
São cristãos os que fazem discursos apaixonados pelo direito de andar armados, pela redução da maioridade penal, pela violenta repressão da juventude marginalizada.  São cristãos que lutam contra os direitos de camadas e camadas de excluídos, especialmente os LGBTs.
De cortar o coração cenas de cristãos celebrando no Congresso a aprovação da redução da idade penal na Comissão Especial da Câmara. De indignar a alma as imagens de cristãos gritando palavras de ordem contra sua mais recente invenção: a ideologia de gênero, uma desculpa perversa e piedosa para que seu direito de ser homofóbico e promover a violência simbólica contra gays, lésbicas e trans - aquela que alimenta todos os dias a morte de LGBTs Brasil afora.  Fazem o mal contra as minorias achando que, com isso, fazem culto a Deus. São como ovelhas sem pastor, perdidos nas mensagens de ódio que os afastam daquilo que o Senhor anuncia como seu culto e sua fé.
Sua história me faz lembrar de uma parábola que Jesus conta no evangelho de Lucas:
"“Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu digo a vocês que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão do lado de fora, batendo e pedindo: ‘Senhor, abre-nos a porta’. “Ele, porém, responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês’. “Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. “Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!’ “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando vocês virem Abraão, Isaque e Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, mas vocês excluídos" (Lucas 13:24-28 NVI).
Isso me faz ter pena dos que se dizem seguidores de Cristo mas se colocam, na prática de fé, fora de uma festa que Jesus faz e fará com os excluídos.
Esta noite eu sonhei com Marco Feliciano. Por alguma razão o sonho me conscientizou de que ele, como opressor, também precisa ser libertado da relação de opressão.
Em algum momento, eu dizia no sonho que estenderia a mão da comunhão a Feliciano, não porque concorde com ele, mas porque ele precisa ser libertado da religião doentia em que se entranhou. Uma religião de poder - não no sentido espiritual, mas político mesmo.
Feliciano e similares fazem tantas coisas em nome do Senhor, mas estão presos na sua própria religião, incapazes de entender o jejum que Iahweh escolheu, incapazes de ver que são os que eles perseguem que festejam com Jesus, enquanto ele e seus pares vivem seus infernos pessoais fora do banquete da salvação com Jesus.
A opressão é uma relação. Quando nós promovemos a libertação, libertamos oprimidos e opressores de seu peso.
O Reino de Deus deveria ser lugar para LGBTs e Felicianos. Por enquanto, tem sido lugar só dos primeiros.