15.9.15

13.9.15

Na terra dos lembrados

Sempre gostei muito do texto de Gênesis 5. Trata-se de uma genealogia mas é bem mais que uma genealogia. Para mim, uma lição.
Há um refrão no texto, uma mensagem constante e repetitiva, marcante para mim: "Viveu [...] anos e morreu".
E morreu.
Em Camus aprendo sobre a ideia da absurdidade: a vida não tem nenhum sentido diante da morte, que é a nossa única certeza.  É preciso um projeto, a construção de um sentido, de um objetivo, de uma razão.
Uma das razões para a vida pode ser o legado.  Lembro de Jeorão, rei citado em 2 Crônicas 21, de quem se diz que morreu "sem que ninguém o lamentasse" (v. 20).  Jeorão foi alguém que morreu sem deixar um legado. Sua morte não fez falta porque sua vida não fez diferença.  A tentativa de fazer a vida se prolongar após a morte com base em um legado é um dos nossos mais intensos projetos.  Porque todo mundo morre.
Gênesis 5 nos diz que todo mundo morre. Menos um. Enoque resiste à morte e vive.  Não apenas no legado ou na lembrança.
Vimos esta tarde o doce "Festa no céu": os mortos, na lenda mexicana, vivem na terra dos lembrados ou morrem na terra dos esquecidos. E o amor, bem, ele é capaz de fazer viver a vida.
Essa é a ideia.  Sempre gostei de pensar em que Enoque é diferente para que sua vida sobreviva à morte.  Ele já não era encontrado porque Deus o tomou para Si.  
Se há projeto para enfrentar a absurdidade da morte, se há um legado possível, ele se dá quando nós não somos mais encontrados porque Deus nos tomou. Olham para nós e O veem.  Ainda que morramos, viveremos.  No legado. No projeto. Na memória. Na terra dos lembrados. A nossa vida faz a diferença e, portanto, se prolonga.
Viveu ao todo 905 anos e morreu
Gênesis 5:11
Viveu ao todo 905 anos e morreu
Gênesis 5:11

1.8.15

Um deus que não merece ser crido

Textos como o capítulo 10 do Segundo Livro de Reis são um desafio para certa perspectiva teológica que ainda tem vez no nosso mundo.
O texto relata uma perseguição implacável, sanguinária, contra uma religião e contra uma família real. Eu perco as contas de quantas centenas de pessoas são assassinadas pelo rei em nome de Deus. 
Cabeças são cortadas, fiéis são executados após o culto, corpos são expostos de maneira performática. Há um reflexo nas ações do Estado Islâmico de cenas como as descritas no livro bíblico. Se alguém contasse o capítulo 10 de 2 Reis num relato visual muita gente acreditaria se tratar de uma ação daqueles muçulmanos radicais.
Mas não são. 
São ações de seguidores de Iahweh. Feitas em seu nome. Relatadas como executadas por Sua ordem. São, acima de tudo, canônicas para cristãos e judeus.
Aqui o problema teológico.  Se o texto diz que Jeú agiu obedecendo à ordem de Deus, os fundamentalistas vão defender até a própria morte que foi isso mesmo que aconteceu: aquele sangue foi derramado porque Deus quis e mandou.
Se foi isso que aconteceu, prefiro negar tal deus.  Se o relato deve ser tomado como inerrante, eu abjuro esse deus. Eu apostato da fé nele. E digo para qualquer um: esse deus é o mesmo que faz os muçulmanos do Estado Islâmico fazerem o que fazem com aqueles que não pensam e creem como eles. É esse deus que faz com que homens queimem vivos prisioneiros, degolem-nos, treinam crianças para matarem. Fazem isso para cumprir a vontade de deus - como Jeú.
Se os fundamentalistas estiverem certos esse deus é indigno de ser crido, louvado, servido.
Só se pode sobreviver a um texto assim se eu entender que, como o Estado Islâmico faz, os seguidores de Jeú criaram uma justificativa teológica para a sua perversidade: atribuíram a Deus a responsabilidade pelo seu massacre. Deus não tinha nada a ver com aquilo!
Fundamentalistas - cristãos, muçulmanos, judeus - continuam fazendo o mesmo: para justificar suas perversidades, atribuem-nas à ordem, palavra ou vontade de Deus. Desse deus, quero morrer ateu.