12.12.16

Escolhendo o Inefável


Abençoados são vocês, que se dão ao Eterno, 
que viram as costas para as “coisas certas” do mundo 
e ignoram o que o mundo adora!
O mundo é um enorme armazém 
das maravilhas do Eterno e dos pensamentos de Deus.
Nada e ninguém
se compara a Ti!
Comecei a falar de ti, relatando o que sei, 
e logo me fugiram as palavras.
Nem números nem palavras
conseguem te explicar.

Salmo 40. 4-5

Alguém me contou que nas vésperas de morrer, o ateu Norberto Bobbio escreveu em seu diário que estava pronto ir se encontrar com o Mistério.

Outro dia, estava em um pequeno grupo quando uma amiga fez uma pergunta sobre ancestralidade. “Se recuarmos em nossos ancestrais, dos pais, avós, onde vamos parar?”, perguntou. Uma pessoa respondeu: “No Infinito”. “Isso: alguns chamam de Infinito, Criação, Universo, Deus”, complementou.

Paul Tillich falava na Realidade Última da Existência.

Bonhoeffer dizia, com Paulo, que vivíamos nEle e perante Ele, ainda que devêssemos viver como se Ele não existisse.

Cada ser humano uma ou outra é confrontado com o Mistério, o Infinito, a Realidade Última da Existência, Deus.

Após falar de seu livramento e da nova canção que estava cantando, de sua arte e poesia em louvor do Eterno que o socorreu, o salmista pensa nesse Eterno que o ajudou.

Ele é o Inefável, o Inominável, o Incompreensível, Aquele que não podemos reduzir a nada conhecido. Ele é a Riqueza da Existência, o que dá um novo sentido e um novo significado à vida porque, Ele mesmo, tem um sentido e um significado inigualável.

Por isso mesmo, a primeira coisa de que fala o salmista é que é feliz aquele que se entrega ao Eterno, que deixa sua vida fluir no ritmo e na direção que somente Deus pode conduzir - aquele que faz uma opção por mergulhar no rio de Deus, a melhor escolha dentre todas escolhas.

Essa não deve ser uma escolha limitadora ou castradora. Ao contrário, essa escolha é uma escolha de liberdade. Se assim não for, se o efeito que produzir não for esse, esteja certo de que há algo de errado em sua opção.

Se entregar ao Mistério sem reservas, ao Amor Todo-Poderoso, é uma escolha pela maravilha - afinal, o "mundo é um enorme armazém das maravilhas do Eterno e dos pensamentos de Deus”. Escolher o Infinito é perceber, a cada amanhecer, a cada instante, a cada dia, que a beleza e a riqueza do mundo revelam a Deus. Ver a natureza, sua majestade e complexidade é o mesmo que ver o Criador de tão bela obra.

A essa altura, eu mesmo já sinto a dificuldade expressa pelo salmista - não é possível usar as palavras para falar de Deus.

Ele é muito maior que qualquer ideia que possamos ter a seu respeito. Não há palavras que sejam suficientes para falar dele - aliás, se o nomeamos, encaixotamos, reduzimos, limitamos. Deus é maior que qualquer nome que lhe dermos, palavra que usarmos, valor que atribuirmos.

Deus é maior e ninguém pode explicar.

Por isso mesmo, mergulhar nele, entregar-se a Ele, derramar a vida em seu serviço, diante dEle é uma escolha inigualável para o salmista.

O Eterno que o livrou do fundo lamacento do poço, cuja Criação é seu armazém de maravilhas e pensamentos, o Eterno que é único e incomparável, merece todo compromisso, toda entrega, toda dedicação.

Quando nos deparamos com a Realidade Última da Existência, com o Mistério, com o Infinito, com o Eterno, não temos como fugir de uma decisão.

Que possamos ter sempre uma decisão de liberdade: mergulhar no Inefável.

11.12.16

Esperando no fundo do poço

Eu esperei, esperei e esperei pelo Eterno
Finalmente, Ele olhou para mim; finalmente, Ele me ouviu.
Ele me ergueu do fosso,
tirou-me do fundo da lama.
Ele me pôs sobre uma rocha sólida
para se assegurar de que eu não escorregaria.
Ele me ensinou a cantar sua mais nova canção,
uma canção de louvor ao nosso Deus.
Cada vez mais pessoas estão vendo isso.
Elas entendem o mistério, abandonando-se nos braços do Eterno.
(Sl, 40. 1-3)

Todos nós já experimentamos o fundo do poço - ainda que possamos nos surpreender ao voltar ao poço e descobrir que o fundo é ainda mais fundo do que da última vez.

Todos nós já experimentamos, em algum grau, a sensação terrível de estarmos afundando em lama. Andar na lama é caminhar sem qualquer estabilidade, sem nenhuma segurança, sem paz, percebendo a possibilidade de se afogar a qualquer instante. Na lama, estamos sem firmeza, escorregando, sujando-se inteiro, receoso de cair e, sem conseguir novamente se erguer, se afogar com a sujeira. Corremos o risco de nos afogarmos - na lama não na água.

O poço de lama, fundo e sem perspectiva de saída, vai se assemelhando a uma tumba, à cova em que resto condenado à dor, ao sofrimento e à morte.

O fosso é fundo, fétido, escuro - quase não entra a luz do sol.  Respirar dói pela atmosfera pesada. Talvez fosse melhor ficar parado, quieto, esperando a morte para nos livrar de tão sofrida dimensão da vida.

Quem já andou em um piso molhado ou escorregadio, no chão enlameado ou mesmo num mangue, é capaz de entender a metáfora exposta pelo salmista.

É impossível sair, seja porque o fosso é muito fundo, seja porque a lama não nos dá estabilidade necessária para apoiarmos uma saída.

Lembro de uma cena da infância quando estavam realizando o esgotamento de uma fossa sanitária no prédio em que morava. Um trabalhador estava dentro do sumidouro vazio, mas a parede arrebentou-se e a lama fétida encheu o fosso rapidamente. O jovem quase morreu afogado pelo esgoto, mas foi retirado em tempo.

Essa é a imagem da dor, do sofrimento, da angústia.

O salmista se vê em um cenário sem esperança de saída por suas próprias forças.

Ele espera - espera muito - pelo Eterno.

Até que, finalmente, Deus o ouve. E o livra.

Há situações sem esperança na vida: de dor, angústia, sofrimento. Há situações em que esperamos contra a esperança, em Deus, porque é a única coisa que nos resta, a única coisa que nos protege da loucura. “Não havia esperança, mas Abraão creu” (Rm. 4.18).

Estar no fundo do poço, cercado de lama, se afogando, sem perspectiva de saída, é flertar com a loucura provocada pela dor e pelo isolamento.

O salmista esperou, esperou, esperou.

E findou por experimentar o socorro:

Ele me ergueu do fosso,
tirou-me do fundo da lama.
Ele me pôs sobre uma rocha sólida
para se assegurar de que eu não escorregaria.


Deus nos carrega. Ele nos conduz em Seus braços, em Suas poderosas mãos.

Ele nos tira do poço e nos ergue a um chão firme, a uma rocha onde podemos ter segurança, onde não escorregaremos, onde não há mais risco.

Pés firmes no chão.

Pode levar o tempo que levar - para o salmista pareceu tempo demais -, mas tudo é esquecido quando podemos trocar a lama e a insegurança dos nossos passos pela firmeza da rocha para onde somos conduzidos pelo Senhor.

Estamos livres daquele lugar fétido, apertado, escuro, instável e sem saída aparente no qual nos metemos e onde sofríamos de maneira indescritível.

Agora temos um ar para respirar, o sol para iluminar, uma vida e um mundo para observar, uma existência para curtir - não mais para sofrer.

Ele nos tira do poço de lama e nos salva.

E por isso mesmo, coloca em nós uma nova canção porque o coração, cheio de paz e alegria, agora quer cantar, dançar, pular em gratidão por tudo o que aconteceu.

Ele me ensinou a cantar sua mais nova canção,
uma canção de louvor ao nosso Deus.


E essa gratidão, e essa história de sofrimento e libertação, sendo cantada e sendo contada, falará do Deus que nos ama para cada vez mais pessoas, convidando-as a mergulharem no Mistério (melhor que um poço de lama sem fundo) e a abandonarem-se “nos braços do Eterno”.

O amor do Eterno nos traz de volta à vida.

10.12.16

Nos ritmos da graça

“Vocês estão cansados, enfastiados de religião? Venham a mim! Andem comigo e irão recuperar a vida. Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. Caminhem e trabalhem comigo! Observem como eu faço! Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza” (Mt. 11. 28-30).


A vida e o ministério de Jesus têm diversos significados possíveis, a maior parte deles igualmente válidos, que se somam uns aos outros no sentido de apontar para aquilo que Deus, cuja plenitude nele habitava, tinha a realizar por meio de Seu Filho.

Uma das coisas mais intensas que Jesus realizou em seu ministério foi relativizar o poder da lei e a importância da religião.

Todos nós julgamos precisar de coisas firmes e estáveis para, de nosso lado, termos firmeza e estabilidade. Uma forte religião, com características legalistas e com normas e padrões bem estabelecidos, é uma boa alternativa para a manutenção do controle e para a estabilização da vida.

É sempre mais fácil entregar a outro as rédeas de nossa existência e nos eximir da responsabilidade de tomar decisões e fazer escolhas na vida.

É mais seguro entregar as escolhas éticas que precisamos fazer ao manual de regras da vida que nos diga que, por exemplo, no sábado não me é permitido realizar nenhum trabalho. Contra essa regra, Jesus se insurgiu: “O sábado foi feito para servir às pessoas e não as pessoas para servirem o sábado” (Mc. 2. 27).

Entender a vida a partir do simples cumprimento da lei é mais fácil, ainda que mais pesado. Ter consciência da necessidade de tomar as próprias decisões é duro e, às vezes, mais doloroso.

Jesus passou todo o seu ministério preocupado em relativizar o valor da lei e, desse modo, enfrentava a rigidez da religião.

A fé deve ser libertadora, não castradora. Deve ser alimentada pelo amor e não pelo medo ou obrigação.

Foi o amor de Jesus que enfrentou a lei e a religião em João 8 quando salvou a mulher flagrada em adultério - que deveria, segundo a lei e a religião, ser apedrejada até a morte.

O amor e a fé são a mais pura verdade espiritual e, sabemos todos, que ao conhecermos a verdade, ela nos libertará (Jo. 8. 32).

Esse é o convite de Jesus - um convite para o amor a todos os que “estão cansados, enfastiados de religião”. Um convite a irmos até Ele. "Venham a mim! “

Ouso arriscar que a maior parte de nossas dores da alma resultam da pressão exercida por uma moralidade com viés religioso, uma forma de religião baseada no legalismo e regras de conduta espiritual pouco flexíveis.

Lembro da mulher do fluxo de sangue (Mc. 5, Mt. 9, Lc. 8) e vejo nela uma vítima da religião. Havia 12 anos que ela tinha uma hemorragia vaginal constante. Isso fazia dela uma mulher impura. Além dos bens que empregou tentando uma cura, podemos admitir que em 12 anos ela perdeu marido, família, amigos, tudo o mais, uma vez que nessa condição de impureza lhe restava o isolamento, uma vez que todos e tudo o que ela tocasse também se tornariam impuros.

Ao decidir enfrentar a multidão e tocar Jesus, a mulher, na verdade, decidiu enfrentar a lei e os seus preceitos. Ao se acotovelar no meio de todos, segundo a lei, ela tornou impuros todos aqueles que encostaram nela. Mais que isso: tornou impuro o Mestre que ela julgava ser capaz de libertá-la.

Você percebe? Antes de tocar Jesus, a mulher já se libertara de toda a opressão trazida e representada pela lei e pela religião.

Não acho difícil supor que sua doença tivesse um aspecto psicossomático e que representasse algo de sua culpa e da opressão da fé. Ao romper as barreiras que a prendiam, ela abriu caminho para a cura.

“Vocês estão cansados, enfastiados de religião? Venham a mim! Andem comigo e irão recuperar a vida. Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. Caminhem e trabalhem comigo! Observem como eu faço! Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza” (Mt. 11. 28-30).

Esse é o convite de Jesus para todos os que estamos em sofrimento, todos que sentimos o peso e a dor da lei e da religião. Não precisa ser assim. Ele veio relativizar a lei em favor da vida: “aprendam os ritmos livres da graça!”. Ele nos chama a sermos seus companheiros e, assim, aprenderemos “a viver com liberdade e leveza”.

Ainda haverá um fardo e um jugo, mas além de serem suaves e leves, teremos suas mãos para nos ajudarem em conduzí-los.

Não estaremos mais sós para enfrentar os pesos, as lutas e as dores que a vida nos coloca. Estaremos nEle, com Ele. Seremos seus companheiros, caminhando e trabalhando com Ele.

No ritmo da graça.

9.12.16

A depressão de Jó

Finalmente, Jó quebrou o silêncio. Em voz alta, amaldiçoou a si mesmo:
“Apaguem o dia em que nasci. Esqueçam a noite em que fui concebido! Que aquele dia seja transformado em trevas, e que Deus, lá em cima, esqueça o que aconteceu. Apaguem-no dos livros! Que a escuridão mais sombria se apodere do dia do meu nascimento, seja envolto pela neblina e engolido pela noite.
Que as trevas dominem a noite em que fui concebido. Risquem-na do calendário, e que nunca mais seja contada como qualquer outro dia! Que aquela noite seja reduzida a nada. Que nenhum grito de alegria daquela noite jamais seja ouvido. Que os mestres em maldição amaldiçoem aquele dia. Que seja engolido pelo monstro do mar, o Leviatã. Que suas estrelas da manhã perco o brilho, e fiquem à espera da luz do dia que nunca vem! Que nunca mais vejam a luz do amanhecer, porque não impediu que eu saísse do ventre da minha mãe, que eu vivesse esta vida cheia de aflições”
Jó 3. 1-10

Há diversas formas possíveis de se abordar o livro de Jó. Gosto de muitas delas.

Gosto de pensar, por exemplo, que Jó é um servo de Deus irrepreensível, íntegro, que evita o mal (Jó 1. 8; 2. 3), nas palavras ditas pelo próprio Deus, mas não é israelita! É como se o Senhor estivesse dizendo, ao inserir seu livro no meio de muitos outros, exclusivistas e defensores de que somente aos israelitas cabia conhecer a Deus, que o conhecimento de Deus ultrapassa as barreiras nacionais, raciais, culturais e religiosas.

Você pode olhar para o texto, também, a partir do capítulo 42 e entender que não somos capazes de compreender todas as coisas a respeito do Senhor e de sua ação no mundo.

O mais comum é olharmos para o texto sob o viés do sofrimento: Jó sofreu - e muito. Perdeu bens, família, saúde. Recebeu três amigos que queriam convencê-lo que se ele sofria era por sua própria culpa - adeptos da teologia da retribuição. No entanto, o leitor do livro sabe que isso não faz sentido, uma vez que é o próprio Deus quem diz, por duas vezes, que Jó é um servo íntegro, fiel, irrepreensível. O livro nos ensina que o sofrimento é parte da vida humana e não culpa de nenhum pecado necessariamente. E no sofrimento é melhor se livrar de amigos que parecem saber de tudo e se aproximar daqueles que podem só oferecer um ombro para você chorar.

Mas eu passei a olhar para o livro de Jó sob a perspectiva da depressão.

Depois de tanta dor, sofrimento e fatos inexplicáveis da vida, Jó se torna alguém depressivo. Ao lado de outros personagens bíblicos, Jó pede a morte. E de uma maneira bem radical - ele queria eliminar o dia em que foi concebido, a data em que nasceu, deseja ter sido um aborto que nunca tivesse chegado à luz.

É a expressão do mais profundo vazio existencial, da mais profunda incompreensão com os fatos da vida, da dor mais insuportável.

O seu luto e sua perda são de dimensão inconcebível e penso que seriam devastadores para qualquer um de nós. Não apenas perdeu bens e saúde, mas viu a morte dos seus sete filhos. Qual mesmo a razão de continuar vivendo? Qual mesmo a graça da vida nessas circunstâncias?

Jó não superou o limite sugerido por sua esposa: "Então sua mulher lhe disse: 'Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!’" (Jó. 2. 9). Jó não se tornou suicida, mas pedia a Deus que o excluísse do mundo.

O depressivo não deseja morrer - tudo o que ele quer é ter seu sofrimento aliviado. No início do capitulo 3, Jó tem clareza que só tem um caminho de ter sua dor aliviada: deixando de existir. Sua dor é de uma dimensão existencial incomensurável e começa a se manifestar na forma de desabafo. A Deus e aos amigos da onça que o cercaram.

Os seus amigos só podiam fazer sua situação piorar, enquadrando a situação de sofrimento nas suas teorias e ideologias. Teorias, ideologias e teologias enquadram fatos da vida, mas não são capazes de dar conta da própria vida. A coisa mais importante que uma pessoa pode fazer para ajudar um depressivo é se despir de suas certezas, manuais, crenças e juízos. Os amigos de Jó foram capazes de transformar a religião em elemento opressivo que ampliava o impacto da depressão - e não como forma de espiritualidade que lhe ajudasse a lidar com a dor e encontrar o caminho de saída dela.

Entre várias possibilidades de construirmos saídas para a dor da depressão, Jó investiu num caminho de fé e confiança em Deus. É a Ele que se dirige. É dele que quer resposta. É diante dele que deseja estar. É a Ele que quer ouvir.  Ele sabe que seu Redentor vive e se levantará sobre a terra (Jó. 19. 25).

Certamente, estava em dor, sofrimento e confuso, mas havia uma honesta e sincera busca espiritual em Jó. Era a Deus que ele buscava no meio de sua dor. Era dele que esperava uma solução, nem que fosse a morte.

Entregar a dor aos cuidados de Deus é fundamental. Não podemos ter certeza de que Deus curará a nossa dor, mas podemos ter certeza de que Ele nos ajudará a caminhar com a dor, sustentando-nos nas suas mãos, carregando-nos quando necessário. Podemos não ver a cura da dor, mas podemos estar certo que será uma dor muito mais suportável se estivermos conscientes de que Deus nos leva, vai conosco, conforta o nosso coração. Talvez não vejamos ainda a cura, mas veremos o cuidado amoroso de Deus - um passo fundamental, cuidado e amor, para sermos restabelecidos de nosso sofrimento.

"Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pe 5. 7).

Saber que há um Pai amoroso que cuida de nós é extremamente importante para conseguirmos nos livrar da dor do vazio existencial depressivo.

Alguns domingos atrás visitei uma igreja aqui em Natal. O louvor me apresentou uma canção, versão, que me ajudou a enfrentar minha própria situação de sofrimento: “Bom, bom Pai” (“Good, good Father”).

És o bom, bom pai
É quem tu és, é quem tu és, é quem tu és
Sou amado por ti
É quem eu sou, é quem eu sou, é quem eu sou

Reconhecer em Deus um bom Pai e reconhecer em mim mesmo um filho que é amado por Ele - esta identidade - foi, talvez, o passo mais importante que dei no rumo de me livrar do sofrimento e dor que carregava por causa da depressão.

Por isso mesmo, podemos lançar sobre Ele.

Por isso mesmo, o Deus encarnado, o que podemos conhecer de Deus, nos desafiou:

“Vocês estão cansados, enfastiados de religião? Venham a mim! Andem comigo e irão recuperar a vida. Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. Caminhem e trabalhem comigo! Observem como eu faço! Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza” (Mt. 11. 28-30).

25.11.15

Mulheres como coisas, sexo e estupro na Bíblia

A Bíblia, em boa parte dos casos, não trata bem a pessoa humana. As mulheres são tratadas como propriedades dos homens.
Quando o mandamento proíbe cobiçar a mulher do próximo ela não passa de um objeto entre outros de propriedade do próximo que podem ser objeto de cobiça.
Hoje estive pensando sobre sexo e estupro no AT.
Abraão tem uma escrava, Hagar, que vira sua escrava sexual, forçada a ter sexo com seu dono para lhe gerar um filho. Os autores do texto não tem nenhuma preocupação em denunciar o modo como o pai da fé trata aquela mulher.
Jacó usa duas escravas para ter filhos.
Um e outro fazem uso de violência sexual como se fosse natural. E a Bíblia, em nenhum lugar, os recrimina. Para os seus autores, eles fizeram o que tinham o direito de fazer. Não pecaram.
Mas o episódio do qual muito me lembrei hoje se dá quando Absalão lidera uma revolta contra seu pai, Davi. Davi tinha um harém (ou seja, escravas sexuais a quem a Bíblia trata eufemisticamente de concubinas). Ao fugir de Jerusalém, Davi deixou algumas dessas mulheres para tomar conta do palácio.
Absalão, seguindo seus conselheiros, decide estuprar todas diante dos olhos da cidade inteira. Era um modo de afirmar que tomara o poder do pai tomando seu harém.
Para mim, a situação se agrava depois que Absalao é morto: ao retornar a Jerusalém, Davi decide trancafiar as concubinas - que depois de uma vida como escravas sexuais, haviam acabado de serem estupradas em via pública. As vítimas foram punidas porque o poder do rei precisava ser reafirmado. Nunca mais saíram às ruas.
Essas mulheres sem nome, sem rosto e sem vida não recebem uma palavra de defesa, apoio ou afeto de nenhum cidadao, do rei ou mesmo de qualquer outro autor biblico.
Hoje pensei que nós homens seguimos mantendo igual mentalidade.
Preciso urgentemente entender melhor e combater o patriarcado a partir de mim mesmo.

22.11.15

Texto da minha reflexão por ocasião do funeral de minha avó, Aurea Araújo Dantas

Este é o registro da descendência de Adão: Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez;
homem e mulher os criou. Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou Homem.
Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 930 anos e morreu.
Aos 105 anos, Sete gerou Enos.
Depois que gerou Enos, Sete viveu 807 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 912 anos e morreu.
Aos 90 anos, Enos gerou Cainã.
Depois que gerou Cainã, Enos viveu 815 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 905 anos e morreu.
Aos 70 anos, Cainã gerou Maalaleel.
Depois que gerou Maalaleel, Cainã viveu 840 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 910 anos e morreu.
Aos 65 anos, Maalaleel gerou Jarede.
Depois que gerou Jarede, Maalaleel viveu 830 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 895 anos e morreu.
Aos 162 anos, Jarede gerou Enoque.
Depois que gerou Enoque, Jarede viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 962 anos e morreu.
Aos 65 anos, Enoque gerou Matusalém.
Depois que gerou Matusalém, Enoque andou com Deus 300 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 365 anos.
Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o tomara para Si.
Gênesis 5:1-24

O autor do Eclesiastes, quando reflete sobre a vida, nos diz que "É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!”
Na morte, aprendemos mais sobre a vida, seu valor, seu sentido.
Lembro também do salmista que nos estimula, no Salmo 90, "a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria”.

Por isso nos reunimos aqui para nos despedirmos, para manifestarmos o nosso amor a dona Áurea, que nasceu Aura Celeste. Estamos aqui para agradecer por sua vida.  
As vezes, vovó reclamava de algo na história de vida dela - que não foi uma vida fácil - e eu fazia questão de lembrá-la: “Mas vó: se você não tivesse vivido isso, não estaríamos aqui”.
Não se trata de sina, nem de destino. Mas se trata de compreender e viver intensamente a vida.  Como ela viveu.

Pensando no que dizia o salmista sobre contar os dias, ontem, ao entendermos que a trajetória de Dona Áurea chegava ao fim, fiz umas contas.
Dona Áurea faleceu na madrugada do seu dia de número 34071. Viveu, bem vividos, 93 anos, 3 meses e 10 dias.  
Bastante vida. 

Sempre gostei muito do texto de Gênesis 5, que li no início.

Trata-se de uma genealogia mas é bem mais que uma genealogia. Para mim, uma lição sobre a vida.




Há um refrão no texto, uma mensagem constante e repetitiva, marcante para nós: "Viveu [...] anos e morreu".
E morreu.

Com Alberto Camus aprendo sobre a ideia da absurdidade: a vida não tem nenhum sentido diante da morte, que é a nossa única certeza.  É preciso um projeto, a construção de um sentido, de um objetivo, de uma razão.

Caminhamos na vida em busca de um sentido.

Uma das razões da vida para a vida pode ser o legado.  Lembro de Jeorão, rei citado em 2 Crônicas 21, de quem se diz que morreu "sem que ninguém o lamentasse" (v. 20).  Jeorão foi alguém que morreu sem deixar um legado. Sua morte não fez falta porque sua vida não fez diferença.  

A tentativa de fazer a vida se prolongar após a morte com base em um legado é um dos nossos mais intensos projetos.  Porque todo mundo morre.


Gênesis 5 nos diz que todo mundo morre. 
Menos um. 
Enoque resiste à morte e vive.  

Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o tomara para Si

A diferença em Enoque é que ele permanece vivo porque já não é ele quem vive, mas Deus nele. 

Não nos fala necessariamente de imortalidade, mas de permanência. 

Seu legado é a permanência, sua vida permanecendo pela marca que deixou.

Vovó se vai deixando aqui suas marcas. 

Cinco filhos (além de Rita Maria que faleceu bebê), nove netos (além de Elisabete que faleceu aos 17 anos). Já são quatro bisnetos. 

Neles, em nós, sua vida continua. Em nossas memórias, em nossas histórias, em nossas lembranças, em nosso amor, carinho. Até mesmo na dor e na saudade. 

Dona Áurea permanece.

Não era perfeita, mas era autêntica, como gostava de se referir a si mesma. 

Tenho algumas lembranças afetivas bem antigas de minha avó.
Lembro que gostava de ir dormir na casa dela, nos fins de semana. 

Gosto da lembrança de deitar em seu colo, nos sábados à noite, enquanto ela assistia o programa de Agnaldo Rayol na velha tevê preto e branco a válvula. 

Amava o cheiro e comer seu arroz refogado com cenouras.
Lembro de irmos à praia de Ponta Negra e lembro de sua roupa e de seus óculos de sol elegantes.

Lembro de suas almôndegas de carne recheadas com pão de forma de leite. Que delicia! 

Por meio dela, o evangelho chegou a nosso pequeno núcleo familiar.  

Foi a primeira a se batizar lá em casa. 

Gostava de música. Gostava de cinema. 

Era tão performática, como disse Kênia mais cedo, que sempre pediu que seu velório tivesse como música de fundo o Réquiem de Mozart.

Amava Zorba, o grego. Gostava de O violinista no telhado. Chorava com saudades em Pedaço de mim - as canções que vocês ouviram aqui desde cedo.

Tinha um único irmão, Edinor, tio Biodo, com quem brincava sobre qual dos dois iria primeiro. Ganhou a aposta, porque Biodo partiu antes.
Adorava votar. E quando começou declínio, semanas antes da eleição de 2010, ficou muito chateada por não poder votar em Dilma.

Essa é sua permanência conosco. 

Ela está aqui - sempre estará.  

Ela se vai e nós lamentamos muito.

Só vamos desobedecê-la em uma coisa: não vó, sua lápide não vai dizer “aqui jaz uma pessoa muito contrariada”, nem vamos doar seu corpo para a ciência. 

Precisamos do nosso luto, de nossa despedida, precisamos dizer adeus. 

É no humano que vemos Deus encarnado.  Foi isso que Jesus fez conosco, o Homem-Deus. Ele nos ensinou que Deus só pode ser conhecido a partir de nós em nossa humanidade.

Um filme infantil de que gostei muito foi "Festa no céu": os mortos, na lenda mexicana, vivem na terra dos lembrados ou morrem na terra dos esquecidos. E o amor, bem, ele é capaz de fazer viver a vida.

Essa é a ideia.  Sempre gostei de pensar em que Enoque é diferente para que sua vida sobreviva à morte.  Ele já não era encontrado porque Deus o tomou para Si.  

Se há projeto para enfrentar a absurdidade da morte, se há um legado possível, ele se dá quando nós não somos mais encontrados porque Deus nos tomou. Olham para nós e O veem.  Ainda que morramos, viveremos.  No legado. No projeto. Na memória. Na terra dos lembrados. A nossa vida faz a diferença e, portanto, se prolonga.

Por isso temos certeza - seu legado, sua permanência, sua memória, nossas lembranças nos provam - que você andou com Deus; e já não foi mais encontrada, pois Deus a tomou para Si.

Tudo agora é mais calmo. Como disse meu amigo Elienai, se no início Deus era o verbo, no fim Ele é só o abraço.


Que nós aprendamos a contar nossos dias e alcançar coração sábio.

12.11.15

Minha participação no Seminário Ler Faz Crescer da Prefeitura de Ipanguaçu

Fui convidado esta tarde para participar do 3o Seminário Ler Faz Crescer, da Prefeitura de Ipanguaçu (RN). Era a mesa "Diversidades Religiosas, Educação e Direitos Humanos: o desafio da escola frente à discriminação e à violência”. Minha condição de saúde me impediu de ir a Ipanguaçu, infelizmente. No entanto, eu gravei a minha participação para a mesa:

24.10.15

O meu Deus é um Deus injusto

Muita fé religiosa e muita convicção teológica se elabora a partir da ideia de que existe um Deus justo, cuja justiça tarda, mas não valha.
Justiça, aqui, sempre entendida como retributiva, como sendo resultado de um sistema de leis que, quando quebradas, precisam sofrer sanções. 
A própria religiosidade sacerdotal e legalista do AT se elaborou sobre esse ponto. 
Elaborações teológicas posteriores continuaram neste caminho. Teologias cristãs e protestantes afirmaram que o sacrifício de Jesus era necessário para resgatar os eleitos da condenação da lei. A justiça tinha de ser feita, redributiva como se crê, para que a graça e o amor fossem alcançados.
Ainda que tal concepção tenha sentido numa lógica humana, contradiz por inteiro a noção de graça e de amor infinitos e imensuráveis. Se olho para Jesus, sua encarnação (Deus se fazendo um de nós), sua vida é sua morte falam de um Deus que, se for justo, não o será para garantir que recebamos benefícios ou punições a partir dos nossos atos. O Deus que se encarna em Jesus ao se tornar um de nós já rompeu essa ideia na base. Ele vem até nós, nos amar, perdoar e salvar de graça. Não exige nenhuma expiação no lugar.
Mas o texto sobre o qual pensei nesses dias emerge da tensão da teologia do templo com a teologia viva e profética do povo do AT. É Jó.
Jó é um estrangeiro. Não é judeu. Para a teologia judaica do templo só no templo do Deus de Jerusalém era possível conhecer a Deus.
Mas quando começamos o texto, lemos Deus dizer duas vezes que Jó é um homem justo, correto, santo. O texto nos prepara: Jó vai sofrer mas não é culpado. O sofrimento é contingência da vida humana, não é resultado de seu pecado.
Seus quatro amigos (começam três e depois se introduz Eliu do nada) passam o livro todo tentando convencê-lo que sofre porque pecou contra Deus, porque  Deus é justo e, portanto, qualquer sofrimento ou dor só pode nos abater como resultado de nossos próprios erros. Um Deus cuja justiça é retributiva. Esse Deus aparece na teologia calvinista e no Kardecismo, por exemplo. 
Mas o leitor de Jó sabe que seus amigos estão errados. Jó nada fez para merecer sofrer. 
Aí, no fim do livro, depois da restauração,Deus deixa isso ainda mais evidente:
“Depois que acabou de falar com Jó, o Senhor disse a Elifaz, da região de Temã: — Estou muito irado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram a verdade a meu respeito, como o meu servo Jó falou.”
Jó 42:7
O que os amigos de Jó falaram não é a verdade a respeito de Deus. Deus não é esse da Justiça Retributiva que eles defenderam.  
Para quem pensa em um Justiça divina na base do "tarda, mas não falha", "o que a gente faz volta para a gente", o Deus revelado na Bíblia é injusto. Quem pensa em Justiça divina na base do Karma tem dificuldade em pensar num Deus que não é vingança, punição ou revanche.
Justiça para o  Deus que a Bíblia revela é igualdade. 
O enfrentamento e a destruição de todas relações de poder de exploração e desigualdade. É essa justiça a base de julgamento divino.
Se você espera um Deus que aja na base do "aqui se faz, aqui se paga", Jó desfaz sua ilusão.
E sei que é duro sair de tão ilusão porque deixar de crer na Justiça de Deus dessa forma exige de nós um triplo movimento: encarar a vida, assumir a responsabilidade por ela e se tornar agente da Justiça de um Deus que se encarnou para que conhecêssemos o caminho. O outro caminho, da fantasia de Deus e da Justiça Retributiva, é mais tranquilo e apaziguador porque exige de nós pouco mais do que seguir um manual de instruções.
“Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos.”
Jó 42:5

13.9.15

Na terra dos lembrados

Sempre gostei muito do texto de Gênesis 5. Trata-se de uma genealogia mas é bem mais que uma genealogia. Para mim, uma lição.
Há um refrão no texto, uma mensagem constante e repetitiva, marcante para mim: "Viveu [...] anos e morreu".
E morreu.
Em Camus aprendo sobre a ideia da absurdidade: a vida não tem nenhum sentido diante da morte, que é a nossa única certeza.  É preciso um projeto, a construção de um sentido, de um objetivo, de uma razão.
Uma das razões para a vida pode ser o legado.  Lembro de Jeorão, rei citado em 2 Crônicas 21, de quem se diz que morreu "sem que ninguém o lamentasse" (v. 20).  Jeorão foi alguém que morreu sem deixar um legado. Sua morte não fez falta porque sua vida não fez diferença.  A tentativa de fazer a vida se prolongar após a morte com base em um legado é um dos nossos mais intensos projetos.  Porque todo mundo morre.
Gênesis 5 nos diz que todo mundo morre. Menos um. Enoque resiste à morte e vive.  Não apenas no legado ou na lembrança.
Vimos esta tarde o doce "Festa no céu": os mortos, na lenda mexicana, vivem na terra dos lembrados ou morrem na terra dos esquecidos. E o amor, bem, ele é capaz de fazer viver a vida.
Essa é a ideia.  Sempre gostei de pensar em que Enoque é diferente para que sua vida sobreviva à morte.  Ele já não era encontrado porque Deus o tomou para Si.  
Se há projeto para enfrentar a absurdidade da morte, se há um legado possível, ele se dá quando nós não somos mais encontrados porque Deus nos tomou. Olham para nós e O veem.  Ainda que morramos, viveremos.  No legado. No projeto. Na memória. Na terra dos lembrados. A nossa vida faz a diferença e, portanto, se prolonga.
Viveu ao todo 905 anos e morreu
Gênesis 5:11
Viveu ao todo 905 anos e morreu
Gênesis 5:11

1.8.15

Um deus que não merece ser crido

Textos como o capítulo 10 do Segundo Livro de Reis são um desafio para certa perspectiva teológica que ainda tem vez no nosso mundo.
O texto relata uma perseguição implacável, sanguinária, contra uma religião e contra uma família real. Eu perco as contas de quantas centenas de pessoas são assassinadas pelo rei em nome de Deus. 
Cabeças são cortadas, fiéis são executados após o culto, corpos são expostos de maneira performática. Há um reflexo nas ações do Estado Islâmico de cenas como as descritas no livro bíblico. Se alguém contasse o capítulo 10 de 2 Reis num relato visual muita gente acreditaria se tratar de uma ação daqueles muçulmanos radicais.
Mas não são. 
São ações de seguidores de Iahweh. Feitas em seu nome. Relatadas como executadas por Sua ordem. São, acima de tudo, canônicas para cristãos e judeus.
Aqui o problema teológico.  Se o texto diz que Jeú agiu obedecendo à ordem de Deus, os fundamentalistas vão defender até a própria morte que foi isso mesmo que aconteceu: aquele sangue foi derramado porque Deus quis e mandou.
Se foi isso que aconteceu, prefiro negar tal deus.  Se o relato deve ser tomado como inerrante, eu abjuro esse deus. Eu apostato da fé nele. E digo para qualquer um: esse deus é o mesmo que faz os muçulmanos do Estado Islâmico fazerem o que fazem com aqueles que não pensam e creem como eles. É esse deus que faz com que homens queimem vivos prisioneiros, degolem-nos, treinam crianças para matarem. Fazem isso para cumprir a vontade de deus - como Jeú.
Se os fundamentalistas estiverem certos esse deus é indigno de ser crido, louvado, servido.
Só se pode sobreviver a um texto assim se eu entender que, como o Estado Islâmico faz, os seguidores de Jeú criaram uma justificativa teológica para a sua perversidade: atribuíram a Deus a responsabilidade pelo seu massacre. Deus não tinha nada a ver com aquilo!
Fundamentalistas - cristãos, muçulmanos, judeus - continuam fazendo o mesmo: para justificar suas perversidades, atribuem-nas à ordem, palavra ou vontade de Deus. Desse deus, quero morrer ateu.

22.7.15

A vida é breve

Eu tenho uma causa pela qual viver e tenho urgência porque a vida é breve.
Há alguns poucos anos, encarei o desafio de ser coerente, ainda que não imutável, com o que penso, creio, defendo. Assumo a cada dia o compromisso de não permitir que normas de conduta, cláusulas de estilo ou etiqueta, conduzam minha prática mais que minhas crenças e minhas ideias.
Falo-as com urgência. A vida que vale a pena pode se acabar a qualquer momento e não quero ir sem ter dito tudo o que poderia.
Escolho as palavras que melhor traduzem o que analiso, creio ou penso - ainda que a linguagem, lugar do deslize, reserve lugares importantes ao inconsciente.
Mas não espere de mim um silêncio condescendente ou a fuga da disputa. Importa menos ser querido ou ter o prazer do debate do que deixar claro o que defendo.
Encontrei uma ideia pela qual vale a pena viver. Vivo por ela.
Ela motiva minhas escolhas.
Ela se alimenta de meu amor ou, antes, do Amor.
Você vai me ver discutindo justiça social e ideias de revolução porque o Amor para mim impulsiona um mundo mais justo que afasta de seu centro ideias de domínio, controle e poder. O Amor se opõe ao mundo que se organiza em torno desses centros de poder e você vai me ver nessa disputa. A vida vale a pena e ela é breve.
Você vai me ver lutar por um Amor que abdica de ser o deus-nas-alturas. O que tive foi um encontro libertador com esse Amor personificado em Jesus; quero dizer aos outros que eles podem ter também. Quero partilhar aos demais uma ideia pela qual vale a pena viver. E vocês me verão fazendo isso.
Não tenho um prazer especial na polêmica.  Mas tenho prazer em deixar claro que vale a pena viver com liberdade e autonomia no encontro com o Deus que se encarna na vida!
Se disputo a questão LGBT, já disse isso, é porque ela aponta para questões muito mais importantes na fé que dizem respeito à leitura da Bíblia e a teologia que nos move como cristãos. Desejo ardentemente que nos livremos das formas fundamentalistas!
Um ideia pela qual vale a pena viver. Um Amor mais real que qualquer amor. 
Espere de mim a luta e a coerência. Urgente. Porque sinto ter perdido muito tempo submetido a regras que escravizam. Tenho 36 anos e a vida é breve. Não sei quanto tempo mais terei para viver movido por tais ideias!

18.7.15

Bíblia como ponto de partida

Você quer ter como palavra final sobre a vida um conjunto diversos de textos escritos em um mundo entendido como finito, plano, feito para o homem, com um Deus fisicamente existente sobre o céu, por pessoas que falavam aramaico, hebraico e grego?
Não é óbvio que isso não faz sentido em um mundo que é apenas um pequeno planeta (entre oito) do sistema solar de uma pequena estrela da periferia de uma pequena galáxia entre cem bilhões de galáxias, em que se sabe que não há um Deus físico no céu, que um vulcão não é a ira de um Deus, um trovão não é a voz de Deus, que uma frente fria define a chuva (e não um Deus)? 
Para mim aqueles textos só fazem sentido se eu os encarar como relatos de como povos do passado tiveram suas experiências com Deus, o que pode nos inspirar. Aqueles textos são pontos de partida, não lugares de chegada em que se encerram as questões da vida.

24.6.15

A prática da libertação e um lugar no Reino

Isaías 58 me fala sobre libertação. Na verdade, fala sobre culto e práticas ascéticas - no caso, o jejum -, em sua relação com as práticas de justiça e libertação.

O terceiro Isaías esclarece que o culto, por si, nada significa. Iahweh não chama Seu povo para cultuar, mas para promover a justiça.
Tenho sempre a impressão que mensagens assim serão sempre atuais - porque tenho a impressão que sempre haverá uma força gravitacional que puxará os cristãos para uma prática de fé ensimesmada, uma vez que ela é melhor do que o risco que se corre quando se decide seguir a prática de jejum que o Senhor diz escolher:  "romper os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, por em liberdade os oprimidos, despedaçar totalmente os jugos, repartir o pão com o faminto, recolher em casa os desabrigados, vestir o nu e não fugir de sua responsabilidade frente aos que necessitam".
A vida de fé não é aquela que ocorre no culto ou em seus momentos devocionais. O terceiro Isaías não é condescendente com ninguém: a vida de fé é necessariamente uma vida de compromisso com a libertação.
Por isso mesmo é que um cristão deve chorar quando vê aqueles que se dizem seus representantes defendendo ideias e práticas que nada têm a ver com a essência do que deveria ser sua prática de fé.
São cristãos os que fazem discursos apaixonados pelo direito de andar armados, pela redução da maioridade penal, pela violenta repressão da juventude marginalizada.  São cristãos que lutam contra os direitos de camadas e camadas de excluídos, especialmente os LGBTs.
De cortar o coração cenas de cristãos celebrando no Congresso a aprovação da redução da idade penal na Comissão Especial da Câmara. De indignar a alma as imagens de cristãos gritando palavras de ordem contra sua mais recente invenção: a ideologia de gênero, uma desculpa perversa e piedosa para que seu direito de ser homofóbico e promover a violência simbólica contra gays, lésbicas e trans - aquela que alimenta todos os dias a morte de LGBTs Brasil afora.  Fazem o mal contra as minorias achando que, com isso, fazem culto a Deus. São como ovelhas sem pastor, perdidos nas mensagens de ódio que os afastam daquilo que o Senhor anuncia como seu culto e sua fé.
Sua história me faz lembrar de uma parábola que Jesus conta no evangelho de Lucas:
"“Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu digo a vocês que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão do lado de fora, batendo e pedindo: ‘Senhor, abre-nos a porta’. “Ele, porém, responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês’. “Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. “Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!’ “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando vocês virem Abraão, Isaque e Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, mas vocês excluídos" (Lucas 13:24-28 NVI).
Isso me faz ter pena dos que se dizem seguidores de Cristo mas se colocam, na prática de fé, fora de uma festa que Jesus faz e fará com os excluídos.
Esta noite eu sonhei com Marco Feliciano. Por alguma razão o sonho me conscientizou de que ele, como opressor, também precisa ser libertado da relação de opressão.
Em algum momento, eu dizia no sonho que estenderia a mão da comunhão a Feliciano, não porque concorde com ele, mas porque ele precisa ser libertado da religião doentia em que se entranhou. Uma religião de poder - não no sentido espiritual, mas político mesmo.
Feliciano e similares fazem tantas coisas em nome do Senhor, mas estão presos na sua própria religião, incapazes de entender o jejum que Iahweh escolheu, incapazes de ver que são os que eles perseguem que festejam com Jesus, enquanto ele e seus pares vivem seus infernos pessoais fora do banquete da salvação com Jesus.
A opressão é uma relação. Quando nós promovemos a libertação, libertamos oprimidos e opressores de seu peso.
O Reino de Deus deveria ser lugar para LGBTs e Felicianos. Por enquanto, tem sido lugar só dos primeiros.

19.6.15

Herdeiros do Reino de Deus

Os dogmáticos forçam a barra das Escrituras para encontrar uma unidade impossível de encontrar.  
Houve uma dimensão existencial que me fez refletir acerca da homossexualidade e mudar de ideia, ao longo do tempo, acerca de sua relação com a vida de fé em Cristo. Se antes eu tinha certeza de que o homossexual estava em pecado, foi a experiência de encontrar irmãos que sinceramente sofriam porque não podiam deixar de ser quem eram que me fez refletir: "isso não pode estar certo: a igreja não pode ser um espaço de opressão e sofrimento". E a partir disso, comecei a repensar a questão.
Uma das primeiras coisas que entendi é que há problemas na visão dogmática sobre a Bíblia que se implicam na questão da homossexualidade.
Eu me pergunto se os dogmáticos que enviam os gays ao inferno não são capazes de perceber o problema essencial que sua leitura possui.  Porque se forem verdade textos como 1 Coríntios 6.9-10 ("Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus."), o que se estará admitindo é que há pecados que nos levarão ao inferno independente da graça de Jesus. Isso é outra forma de afirmar um tipo de salvação que depende de nossas obras. É admitir que há práticos, atos, comportamentos que são mais poderosos que o Jesus que nos salva. 
Não adianta falar em pecado reiterado, em falta de arrependimento ou coisas similares porque não é sobre isso que fala o texto. O texto diz que não estarão no Reino de Deus esses aí, independentemente de seu arrependimento, de sua luta por mudar, de sua consciência.  E não são apenas homossexuais na lista: os perversos - inclusive os que fazem uso da religião para as suas perversidades; os adúlteros - inclusive aqueles que desejam no coração, que Jesus já dissera que adulteram também. 
Se o texto de Coríntios for verdadeiro, não tem nada que possamos fazer. Não iremos ao Reino de Deus porque mentimos, porque somos avarentos, porque falamos mal de outras pessoas. 
Sabe aquele cristão santinho que vive dizendo na Internet que o filho de Lula é um megaempresário? Se tomarmos a sério o texto de Coríntios, não tem o que ele possa fazer: está perdido!
Mas o santinho acima só se lembra da parte do texto que fala dos gays, né?
***
De todo modo, isso não faz o menor sentido.  Não faz o menor sentido, no horizonte do Novo Testamento, considerar esta afirmação como uma verdade irretocável.
Podemos lembrar o próprio Paulo quando considera a dimensão e o impacto da salvação em Jesus na carta aos Romanos: "Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte.

Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará com ele, e de graça, todas as coisas? Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8:1-2, 31-39)
Além desse, podemos lembrar da carta aos Efesios e sua doce afirmação no capítulo 2 de que somos salvos pela graça e não por obras.
***
O dogmático tem de escolher se é salvo pela graça e nada, de modo nenhum em tempo algum, pode afasta-lo dessa salvação ou se avarentos, mentirosos, caluniadores e até homossexuais estão condenados a viverem no inferno.
Esses textos não se reconciliam.
***
A partir da dimensão existencial do sofrimento amargo imposto pela religião e pela igreja contra irmãos e irmãs homossexuais que não podiam deixar de sê-lo e eram confrontados com a pregação dogmática que lhes punham condenados, que comecei a refletir. E percebi logo que esse discurso fere a essência do evangelho e da própria teologia que afirma que não são nossos pecados que nos condenam mas aquilo que fazemos de Cristo. Em outras palavras, a teologia ortodoxa diz que somos salvos pela fé em Cristo, mas que isso não nos faz deixar de sermos pecadores. Assim, mesmo salvos, somos pecadores.  E a partir de então nossos pecados não nos condenam porque nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. 
Vê como não tem sentido, no escopo dessa teologia, a crença do texto de Coríntios de que aqueles pecadores estão condenados? As duas ideias não se complementam nem podem ser conciliadas.
Nesse instante percebi, e isso foi libertador, que a homossexualidade de ninguém é capaz de condená-lo já que não pode ser maior que o amor de Deus e que sua salvação em Cristo.  Logo, os gays têm seu lugar na igreja.
A partir disso, até deixar de acreditar que a homossexualidade é pecado, é outra história.