16.12.16

Não te demores

E eu? Eu sou um nada e não tenho nada. 
Peço-te que faças alguma coisa de mim. 
Tu podes e tens o que é necessário para ajudar, 
mas, por favor, não te demores. 

Salmo 40. 17 


É muito difícil para nós vivermos sem o controle de elementos fundamentais de nossa vida. Entregar-se a essa falta de controle, às circunstâncias que nos superam fundamentalmente, às lutas que são maiores que nós, a questões que claramente não podemos resolver, faz com que nos vejamos de um tamanho menor do que gostaríamos de admitir que possuímos.

Gostamos de ter controle, de administrar nossa luta, de usar nossas forças para resolver os nossos problemas - problemas que só nos pertencem e a ninguém mais. Costumamos achar, inclusive, que esse é um claro sinal de maturidade na vida.

Mas todos nós já fomos postos diante de alguma circunstância que era impossível que resolvêssemos por nossas próprias forças. Tal como o rei daquela estória infantil, todos nós já tivemos algum momento em que estávamos nus diante de todos, numa demonstração evidente de nossa fragilidade, de nosso vazio, de nosso pequeno tamanho e de nossa incapacidade de resolver os problemas que nos acometem. Eles são bem maiores e estão muito além de nossa capacidade.

O Salmo 40 se encerra com uma súplica que relembra o modo de seu início - Deus tirando o salmista do fundo de poço fétido e lamacento. É como se toda a oração tivesse sido escrita para lembrar a Deus e ao salmista todo livramento extraordinário que o Senhor já tinha promovido e que, diante de seu problema atual, recorrer novamente a Deus pode ser causa de mais segurança e esperança. Lembrar que o salmista não tem forças e não pode pretender encarar seus problemas em suas próprias forças.

“E eu? Eu sou um nada e não tenho nada”.

O salmista reconhece que diante das circunstâncias que tem diante de si, ele não é nada - é como o rei nu.

Não me parece uma frase de quem tem pouco auto-estima, mas de alguém que reconhece que seus problemas estão além de suas forças.

Porque somente Deus pode e tem a força necessária para ajudar.

"Peço-te que faças alguma coisa de mim.
Tu podes e tens o que é necessário para ajudar,
mas, por favor, não te demores”

A gente passa por lutas e circunstâncias da vida capazes de nos soterrar completamente. Coisas que nos fazem crer que vamos ser definitivamente tragados, que não temos como escapar, que seremos sufocados e mortos, que os problemas vão eventualmente nos matar. Nessas horas, olhamos para nós e para quem está ao nosso lado e temos a convicção que não temos como escapar.

Só nos resta olhar e buscar pelo Eterno.

Se há alguém que pode fazer algo e nos ajudar, é ele.

Podemos, diante dele, rasgar o coração, derramar a alma, clamar. Ele tem o que é necessário para nos ajudar.

E podemos esperar, não apenas por sua ação em nosso socorro, mas que essa ação virá no tempo preciso.

Nus, diante do Senhor, podemos confiar que Ele cuida de nós e fará tudo o que puder para nos resgatar, socorrer, ajudar em nossa dor e sofrimento, no momento exato.

15.12.16

Preciso da Tua ajuda

Sê mais brando, ó Eterno, e intervém!
Preciso da tua ajuda.
Estão tentando raptar minha alma,
e quero que sejam envergonhados.
Que caia em desgraça
qualquer um que tente me empurrar para baixo;
Que seja humilhado e criticado sem misericórdia
qualquer um que ore pela minha ruína.
Mas que cantem e sejam felizes
todos os que te buscam com sede.
Os que sabem do que és capaz
contem ao mundo que és nobre e não desistes.

Salmo 40. 13-16

O salmista sabe pelo menos três coisas que podem nos ajudar na nossa luta diária.

A primeira coisa: ele sabe que a melhor ajuda possível na luta e no sofrimento só pode vir do Eterno.

Ainda que não tenha como saber o modo de intervenção de Deus em seu favor, o salmista sabe que se precisa de ajuda, ninguém melhor que o Eterno para ajudar.

Isso porque a vida e a experiência com Deus nos permite constatar que Ele é capaz, caminha ao nosso lado e, melhor de tudo, nunca desiste.

A segunda coisa que o salmista sabe é que, infelizmente, há pessoas a seu redor que só pensam e desejam sua desgraça. Pessoas que, como ele diz, estão tentando raptar sua alma, empurrá-lo para baixo e que, absurdo dos absurdos, oram pela sua ruína. Pessoas que pedem a Deus para que o salmista se frustre, se dê mal, seja ferido. Pessoas que usam da oportunidade de relacionamento íntimo com Deus para pedir contra alguém de quem não gosta.

A última coisa que o salmista percebe é que há um grupo fiel, feliz diante do Senhor e que se alegra com a sua felicidade. Pessoas que, fundamentalmente, se importam em ter intimidade com Deus. Pessoas que buscam a Deus com sede por quem pede o salmista: “que cantem e sejam felizes”!

Depois de tudo por que passou o salmista, depois de seu sofrimento e sua libertação, ele aprendeu sobre a importância da ação de Deus em seu favor, mas ainda tem de se preocupar com companheiros de jornada que abertamente lhe fazem oposição e atuam para lhe prejudicar. Ao mesmo tempo, pode pedir pelos companheiros que, em vez de lhe empurrar para baixo, puxam-no para o alto, para cima, para a felicidade, para a paz, para o compromisso de quem tem sede do Eterno e Altíssimo.

Todos nós passamos por situações assim, mas nem sempre temos visão e maturidade para perceber o cenário em sua inteireza e integralidade. Ao passar pela luta, às vezes vamos confiar irrestritamente em todos que nos cercam ou em qualquer situação com a qual nos deparamos.

O que o Salmo 40 também nos ensina é que precisamos estar atentos a todas as situações, especialmente ao fato de que nem todos os que estão ao nosso redor são confiáveis ou atuam em nosso favor - muitos trabalham contra nós, pelas nossas costas, e, portanto, precisamos ter cuidado.

No meio da luta o melhor apoio é encontrado no Eterno e na intimidade com o Eterno. Ele estende uma mão poderosa para nos resgatar e nos ajuda a não permitir que nos sequestrem a alma.

No meio da luta e na intimidade com o Eterno vamos encontrar os amigos e irmãos que estarão conosco para nos ajudar, mão a mão, ombro a ombro, lado a lado, entregando-se ao Amor em nosso favor.

Que esses “cantem e sejam felizes - todos os que te buscam com sede”.

Ao lado do Eterno, sempre, aprendendo passo a passo a viver uma vida verdadeira, que traz a Eternidade ao tempo presente.

14.12.16

Não moderes tua paixão

Preguei a respeito de ti para toda a congregação;
não omiti nada, ó Eterno, sabes disso.
Não fiz segredo das notícias sobre os teus caminhos, 
não guardei nada sobre mim. 
Falei tudo: sobre tua fidelidade e tua perfeição.
Não retive parcelas de amor nem de verdade
Para meu consumo. Eu disse tudo que sabia;
a congregação conheceu a história toda.
Agora, ó Eterno, não resistas a mim,
não moderes tua paixão.
Teu amor e tua verdade
é que me mantém de pé.
Quando os problemas conspiraram contra mim,
uma multidão de pecados foi enumerada.
Fiquei tão impregnado de culpa
que mal conseguia enxergar o caminho.
Mais culpa havia em meu coração que cabelos na cabeça.
O peso era tanto que meu coração desfaleceu.

Salmo 40.9-12


Meu reencontro com Deus através desses textos de reflexão bíblica aconteceu no pior momento possível de minha vida. Não há o que eu possa esconder.

Foi do fundo do poço, no meio do sofrimento por um grave quadro de depressão e com inúmeros problemas pessoais que rasguei o coração e a vida diante do Eterno e, diante dEle, iniciei o caminho de volta. E nesse caminho recuperar parte do chamado de ajudar as pessoas por meio da reflexão sobre as Escrituras foi irresistível.

Para fazer isso, não havia nada que eu pudesse omitir - nem de minhas dores e sofrimentos, nem de minhas culpas e falhas. Como o salmista, mergulhado na vida real, percebia o tamanho da dor e somava inumeráveis os meus pecados e culpas.

Não fiz segredo de meus sentimentos e não fiz segredo de minhas culpas.

Diante de Deus, os expus e por expô-los com honestidade me coloquei em posição de experimentar o cuidado, o amor e a paixão de Deus. Não escondi o que vivi, nem pretendo esconder o que fez o amor de Deus.

O fundo do poço começou a ficar distante em uma noite quando visitei uma igreja de Natal - não apenas porque pedi oração pela minha saúde como também porque percebi quão sem graça era a vida em que nada me dava prazer. Naquele instante bradei que não aguentava mais aquele poço escuro, fétido e enlameado em que eu estava.

Senti o amor de Deus e a sua mão começando a me puxar para fora.

Foi sua mão amorosa que me impulsionou para fora. Para fora da dor e da culpa. O amor esconde a multidão de pecados.

Além disso, eu escrevi minha história, sem omitir nenhuma parte. Um modo de confessa-la aos poucos amigos que leram-na.

Parte do processo de deixar de lado tudo o que pesava na alma e na vida para me deixar preso no poço. Sair do poço era também contar honestamente a minha história.

Eu disse tudo que sabia;
a congregação conheceu a história toda.


Diante disso tudo, posso ter certeza de que nem o amor, nem a verdade, nem a paixão de Deus por mim serão escondidos ou moderados: sua paixão, seu amor e sua verdade são derramados sem medida e percebidos assim por todo coração de que se humilha e se prosta diante dele.

Sair do fundo do poço também significa experimentar de maneira nova, rica e plena a paixão do Senhor por nós, seu amor e sua verdade.

Agora, ó Eterno, não resistas a mim,
não moderes tua paixão.
Teu amor e tua verdade
é que me mantém de pé.


A história não acabou porque você se sente soterrado por toneladas de dor, sofrimento ou pecado.

Ainda há espaço na história para o derramar do amor e do perdão de Deus, para o resgate amoroso do fundo do poço, para que você conte uma nova e ainda mais bela história de sua vida.

Não apenas uma história de sobrevivência ou resgate, mas uma história rica de encontro, reencontro e transformação na paixão, no amor e na verdade do Senhor.

13.12.16

Festa

Fazer algo para ti, levar algo para ti:
não é isso que procurar.
Ser religioso, agir com devoção: 
não é o que estás pedindo.
Então, abriste meus ouvidos
para que eu pudesse ouvir.
E logo respondi: “Estou indo.
Eu li na carta o que escreveste sobre mim.
E estou indo para a festa
que estás preparando para mim”.
Quando a Palavra de Deus entrou na minha vida,
ela se tornou parte do meu ser.

Sl 40. 6-8

Quando eu me converti, duas décadas atrás, queimei livros, discos e roupas que, aparentemente, tinham compromisso com as trevas em vez de com Deus.

Nessa leva foram embora obras-primas da música brasileira e da música pop.

Fiz isso porque acreditava que ser cristão era o mesmo que adotar tais práticas que estavam mais ou menos na moda. Afastar-se do mundo era o mesmo que abandonar a vida secular.

Lembro também do dia em que, pela primeira vez, bati palmas para acompanhar uma canção no louvor da igreja: os olhares recriminadores eram penetrantes e havia uma determinação de que não se podia usar as palmas nos cultos.

Naquela época, também, se faziam votos para conquistar as coisas com Deus. Minha tia fez um voto de sete semanas para que eu me convertesse, as pessoas jejuavam para conseguir as coisas com o Senhor, a quantidade de horas em oração determinava o sucesso de uma empreitada, quem não conseguia dizimar era vítima do demônio devorador.

Paulo diria que éramos todos vítimas de fábulas.

O Salmo 40 nos diz, no versículo 6, duas coisas incríveis sobre o Senhor para quem pensa em sua espiritualidade nos termos que referi acima: Deus não quer sacrifícios e ofertas nem espera de nós que sejamos religiosos. Estar com o Senhor é algo muito maior e muito mais sublime que uma espiritualidade religiosa ou uma prática de cultos e sacrifícios diários.

Deus é mais que religião e culto.

Na versão da Mensagem, a proposta é clara: em vez de religião e sacrifício, festa e celebração. Em vez de algo feito por mim mesmo, um momento sem igual preparado pelo próprio Deus.

Estar com o Senhor não é viver uma vida religiosa ou litúrgica. É andar em festa ao lado do próprio Deus, numa festa preparada por ele.

É celebração não sacrifício.

É a festa do pai do filho pródigo, que o vê se aproximando ainda à distância, não dá ouvidos às suas palavras de arrependimento e prepara uma festa para comemorar o seu retornar: “Vamos festejar! Vamos nos divertir!” (Lc. 15. 11-32).

Tal festa é possível para o fiel porque ele foi capaz de compreender o que realmente importa. E o que realmente importa resulta de seu prazer em guardar a lei no coração e conhecer sua vontade, ou, como diz a Mensagem, da percepção de que “quando a Palavra de Deus entrou na minha vida, ela se tornou parte do meu ser.”

A raiz da festa é mergulhar no Inefável e permitir-se ser tomado por sua revelação, sentindo o prazer de estar diante dele em sua vida.

Só assim a espiritualidade poderá ser liberdade, prazer, festa e celebração. Só assim não estaremos presos em uma religiosidade que destrói a beleza da vida.

12.12.16

Escolhendo o Inefável


Abençoados são vocês, que se dão ao Eterno, 
que viram as costas para as “coisas certas” do mundo 
e ignoram o que o mundo adora!
O mundo é um enorme armazém 
das maravilhas do Eterno e dos pensamentos de Deus.
Nada e ninguém
se compara a Ti!
Comecei a falar de ti, relatando o que sei, 
e logo me fugiram as palavras.
Nem números nem palavras
conseguem te explicar.

Salmo 40. 4-5

Alguém me contou que nas vésperas de morrer, o ateu Norberto Bobbio escreveu em seu diário que estava pronto ir se encontrar com o Mistério.

Outro dia, estava em um pequeno grupo quando uma amiga fez uma pergunta sobre ancestralidade. “Se recuarmos em nossos ancestrais, dos pais, avós, onde vamos parar?”, perguntou. Uma pessoa respondeu: “No Infinito”. “Isso: alguns chamam de Infinito, Criação, Universo, Deus”, complementou.

Paul Tillich falava na Realidade Última da Existência.

Bonhoeffer dizia, com Paulo, que vivíamos nEle e perante Ele, ainda que devêssemos viver como se Ele não existisse.

Cada ser humano uma ou outra é confrontado com o Mistério, o Infinito, a Realidade Última da Existência, Deus.

Após falar de seu livramento e da nova canção que estava cantando, de sua arte e poesia em louvor do Eterno que o socorreu, o salmista pensa nesse Eterno que o ajudou.

Ele é o Inefável, o Inominável, o Incompreensível, Aquele que não podemos reduzir a nada conhecido. Ele é a Riqueza da Existência, o que dá um novo sentido e um novo significado à vida porque, Ele mesmo, tem um sentido e um significado inigualável.

Por isso mesmo, a primeira coisa de que fala o salmista é que é feliz aquele que se entrega ao Eterno, que deixa sua vida fluir no ritmo e na direção que somente Deus pode conduzir - aquele que faz uma opção por mergulhar no rio de Deus, a melhor escolha dentre todas escolhas.

Essa não deve ser uma escolha limitadora ou castradora. Ao contrário, essa escolha é uma escolha de liberdade. Se assim não for, se o efeito que produzir não for esse, esteja certo de que há algo de errado em sua opção.

Se entregar ao Mistério sem reservas, ao Amor Todo-Poderoso, é uma escolha pela maravilha - afinal, o "mundo é um enorme armazém das maravilhas do Eterno e dos pensamentos de Deus”. Escolher o Infinito é perceber, a cada amanhecer, a cada instante, a cada dia, que a beleza e a riqueza do mundo revelam a Deus. Ver a natureza, sua majestade e complexidade é o mesmo que ver o Criador de tão bela obra.

A essa altura, eu mesmo já sinto a dificuldade expressa pelo salmista - não é possível usar as palavras para falar de Deus.

Ele é muito maior que qualquer ideia que possamos ter a seu respeito. Não há palavras que sejam suficientes para falar dele - aliás, se o nomeamos, encaixotamos, reduzimos, limitamos. Deus é maior que qualquer nome que lhe dermos, palavra que usarmos, valor que atribuirmos.

Deus é maior e ninguém pode explicar.

Por isso mesmo, mergulhar nele, entregar-se a Ele, derramar a vida em seu serviço, diante dEle é uma escolha inigualável para o salmista.

O Eterno que o livrou do fundo lamacento do poço, cuja Criação é seu armazém de maravilhas e pensamentos, o Eterno que é único e incomparável, merece todo compromisso, toda entrega, toda dedicação.

Quando nos deparamos com a Realidade Última da Existência, com o Mistério, com o Infinito, com o Eterno, não temos como fugir de uma decisão.

Que possamos ter sempre uma decisão de liberdade: mergulhar no Inefável.