4.1.17

Salvação

Hoje é dia salvação nesta casa!
Lucas 19. 9


Ao ser anunciado, o Filho de Deus recebe dois nomes. Obviamente, o nome de Jesus, dado pelo anjo Gabriel (Lc. 1. 31). Mateus 1. 23 refere a profecia de Isaías e oferece o nome Emanuel. Emanuel significa “Deus conosco”. Jesus, “Deus salva”.

Em resumo, a vinda e a vida de Jesus significavam a presença de Deus no meio de nós, tornando-se um de nós, um Deus que no nosso meio nos salva.

Onde Jesus esteve, trouxe salvação.

Salvação, nos evangelhos, tem a ver com uma saída para a dor, para o sofrimento, para a doença e para a desesperança. Salvação é um convite e mobilização para uma vida mais intensa e verdadeira. Ser salvo é ser chamado a viver e viver com intensidade. Ser salvo é ser libertado da morte.

O relato sobre Zaqueu testemunha do Deus que salva, do Deus que está conosco e que promove vida e salvação só por estar presente.

O chefe dos cobradores de impostos queria tanto ver Jesus que subiu em uma árvore. Jesus também queria ver Zaqueu - mais que isso, Jesus queria partilhar o pão com Zaqueu.

A salvação começa com o acolhimento, com os braços apertos, com a disposição de compartilhar o pão, com o compromisso de estar junto, com a ausência de olhos que julguem, mas com a presença de mãos que ajudam.

A salvação entrou na casa de Zaqueu. A salvação pode sempre entrar em nossas casas.

Quando a abrimos ao Messias e, mais que isso, quando a abrimos ao perdão, à comunhão, ao acolhimento, ao partir do pão.

Na minha experiência pessoal, já vi Jesus nas casas de pessoas que me socorreram, já deixei de ver na casa de cristãos que viraram as costas.

Recentemente, no meio de uma severa depressão, publiquei um bilhete suicida no Facebook e fui me matar. Uma de incontáveis tentativas - a única, no entanto, que tornei pública. Poucos dias depois, desativei temporariamente minhas redes sociais. Precisava me cuidar e vi Jesus em muitos que me estenderam a mão, me ofereceram o ombro e têm me ajudado a salvar-me.

No entanto, de imediato e por dias seguidos, tive conversas, recebi mensagens e comentários tenebrosos, feitos em nome de Jesus. Dolorosos.

A maior parte, pessoas me dando lições e me passando carões. Outra parte, pessoas duvidando de mim e de minha doença. Uma terceira, pessoas me ensinando como encontrar Jesus.

Todos os três tipos de comentário me fizeram muito mal. Faziam-me pensar que as pessoas nunca leram em suas Bíblias sobre não pisar a cana quebrada nem apagar o pavio que fumega (Mt. 12.20). Mais que isso: tais pessoas me faziam pensar onde estava Jesus, o Deus conosco? Onde estava a graça da salvação a ser trazida pelos cristãos a alguém em tão terrível situação?

Quando Jesus entra numa casa, Ele traz salvação porque Ele é a salvação. Ele nos salva da dor, da morte, da escuridão. Mas só há um jeito de Ele entrar nas casas, como fez na de Zaqueu, nos dias atuais: através de mim e de você. Só tem um jeito de Jesus ser conhecido: através dos seus discípulos.

A minha pergunta é: que Jesus nós temos levado à casa das pessoas? O que é Deus conosco e nos salva ou um que pisa a cana quebrada e apaga o pavio que fumega?

Jesus está aqui: Hoje é dia salvação nesta casa!


3.1.17

Próximo a Deus

Então, vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça. Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas passarão na frente de vocês em direção ao Reino de Deus. Vocês verão estrangeiros, vindos de todas as partes do mundo, sentados à mesa do Reino de Deus, enquanto vocês vão estar do lado de fora, espiando pela janela — tentando descobrir o que aconteceu.

Lucas 13. 28-29



O que nos aproxima de Deus?

As respostas humanas são variadas e historicamente diversas, mas resumem-se, em geral, no mesmo sentimento de religiosidade e espiritualidade - dos tempos primitivos até aqui.

No Gênesis, a religião se inicia com Enos: “Foi nessa época que as pessoas começaram a orar e a prestar culto ao Eterno” (Gn.4. 26).

A religião é um movimento humano na tentativa de encontrar relação com a Realidade Última da Existência, o Eterno, a Divindade. Desde que se deparou com o seus limites, o principal deles a morte, o ser humano estabeleceu tentativas de rituais e cerimônias para apaziguar Deus ou para que houvesse com Ele algum tipo de relacionamento.

Com o tempo, os modos religiosos politeístas foram sendo suplantados por formas monoteístas de relacionamento religioso.

Até que surge uma nova modalidade de crença em Deus, talvez inédita. Os hebreus passaram a acreditar que, mais do que um movimento humano na direção do Eterno, a religião era um movimento do Eterno na direção do humano.

Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito, tirá-los daquele país e levá-los para uma terra boa, ampla, cheia de leite e mel, hoje habitada por cananeus, hitititas, amores, ferezeus, heveus e jebuseus (Ex. 3. 7-8)

Como esse povo não iria se achar especial? Como não pensaria que nascer hebreu era suficiente para ter relacionamento íntimo com Deus? Como não estabelecer a regra de que seus rituais e seus cultos eram os únicos possíveis para que o ser humano pudesse conhecer o Eterno?

Tal processo de institucionalização da fé e da religião é uma realidade até os dias atuais - agora, talvez, outras religiões se arvoram também como as únicas possíveis e corretas.

Era assim nos dias de Jesus e a sua parábola denuncia tal questão.

Então, vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça. Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas passarão na frente de vocês em direção ao Reino de Deus. Vocês verão estrangeiros, vindos de todas as partes do mundo, sentados à mesa do Reino de Deus, enquanto vocês vão estar do lado de fora, espiando pela janela — tentando descobrir o que aconteceu.

Os religiosos de Israel acreditavam que o que lhes garantiria um lugar no Reino de Deus era o pertencimento étnico ao povo judeu e o seguimento de suas regras e condutas religiosas.

Jesus alerta, no entanto, que o acesso ao Reino de Deus é a graça e é de graça - não existe garantia étnica ou religiosa: "vocês se verão do lado de fora, ao relento, estranhos em relação à graça”.

Pelo contrário: até os mais inesperados convidados estarão à mesa do Reino de Deus. Os que se fiam na religião tentarão descobrir o que aconteceu, enquanto aqueles que a religião desprezaria sentarão ao lado de Jesus.

A relação íntima com Deus por meio de Jesus está aberta a quem deseja, para além das circunstâncias e regras religiosas.

Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser (Jo. 4. 23-24).
Religião alguma supera o coração como instrumento adequado para que estabeleçamos uma relação íntima com o Eterno.

2.1.17

Maturidade

Diferentemente da cultura dominante, que sempre os arrasta para baixo, ao nível da imaturidade, Deus extrai o melhor de vocês e desenvolve em vocês uma verdadeira maturidade.
Romanos 12. 2



Sou professor e, como professor, tenho um objetivo principal em sala de aula, independente de qual seja a disciplina que esteja ministrando - e esse objetivo nada tem a ver com o conteúdo ou desempenho acadêmico da turma, com notas, com aprovação ao fim do semestre.

Meu objetivo, aliás, também não tem nada a ver com a receptividade e aprovação dos estudantes ou dos colegas ao meu trabalho.

Como professor meu propósito principal é que, ao fim do semestre, cada estudante possa sair como um ser humano melhor, mais maduro e mais pronto para a vida.

Logo, cada conteúdo que eu tenho de ministrar por causa da estrutura curricular e ementa das disciplinas é abordado na perspectiva de saber como aquilo pode impactar - e de que forma - na nossa vida.

Antes de formar jornalistas, meu objetivo é ajudar pessoas a alcançarem sua maturidade.

Sei que nem sempre é possível e sei que, como professor, sou falho inclusive na maturidade, humildade e nas minhas condições em sala de aula.

Exemplo disso foi-me relatado por um amigo na universidade que, falando sobre um determinado aluno meu, me disse que insatisfeito com minhas brincadeiras tal estudante pensou em me processar. Eu que sempre procuro respeitar os limites que os estudantes me põem, aprendi da necessidade de cuidar disso mais atentamente.

Sou consciente, portanto, que por mais que tente arrastar os meus estudantes a um nível mais alto e maduro, provavelmente algumas vezes estarei arrastando-os para baixo e, na maior parte do tempo, não serei capaz de levá-los tão alto assim. Porque esse é o papel de Deus.


Deus extrai o melhor de vocês e desenvolve em vocês uma verdadeira maturidade.


O mundo à nossa volta, às vezes até os nossos amigos, sempre nos arrastará para baixo. E experimentaremos aquela frustrante sensação de nos esforçarmos muito para sermos alguém melhor, para sairmos do lugar em que estamos, do nosso passo empacado, e, de repente, sermos abatidos em pleno voo pelo petardo de alguém que, conscientemente ou não, quer nos ver no chão.

De um lado, isso devia nos fazer preocupar com aqueles amigos, parentes ou profissionais que elevamos à categoria de conselheiros, e afastar do papel todos aqueles que não ajudam a vida a fluir mais alto, mais perto de Deus.

De outro, podemos nos render diante de Deus. Não há ninguém melhor que Ele para cuidar de nós. Ele extrairá de nós o melhor que nós somos. Ele nos fará maduros. Essa é sua vontade perfeita, boa e agradável.

Se o perfeito Deus tem uma vontade boa e agradável e ela inclui extrair o melhor de vocês e desenvolver em você uma verdadeira maturidade, não há ninguém mais a quem você deveria confiar a vida.

Não se deixe arrastar-se ao nível da imaturidade, mas abra seu coração ao perfeito cuidado do Senhor.

1.1.17

Aflição

Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.
Marcos 13. 20


Talvez porque 2016 tenha sido, provavelmente, o pior ano de minha vida, chamou minha atenção a quantidade de pessoas nas redes sociais e em outros espaços falando de quão ruim o ano que passou foi.

Não apenas por causa das crises (econômica, política, social) que enfrentamos em nosso cotidiano - e que, infelizmente, não foram magicamente resolvidas quando o relógio bateu a primeira meia-noite de 2017. Parece que todos nós passamos por crises pessoais intensas, por sofrimentos, por dores. Doenças graves, rupturas, brigas, inconstâncias, tragédias, mortes: ninguém, com raras exceções, pareceu feliz com 2016 nos últimos instantes do ano.

Foi um ano aflitivo até o fim.

Mas a palavra de Jesus nos ajuda a perceber o cuidado de Deus:


Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.



Quando passamos por uma forte aflição é possível considerar que não dá mais para suportar. No enfrentamento de uma doença grave em 2016 vários amigos e parentes me ouviram vaticinar que eu não tinha mais como suportar. E era a mais pura verdade: eu não teria suportado se dependesse unicamente de mim.

Como destaca Rob Bell, Deus é o nosso Pai que sabe o caminho seguro e nos protege em seus braços - como Ele, no rumo de casa, estamos seguros. Vai chover, vão cair tempestades, vamos ter frio, medo, aflição, podemos até nos machucar, mas a certeza que podemos ter é o cuidado e a proteção do Senhor em todo tempo.

Se 2016 foi um ano difícil, podemos estar certos que, se não sucumbimos, foi devido à ação amorosa de Deus.


Se o Eterno não tivesse nos socorrido
— todos juntos agora, Israel, cantem! —;
Se o Eterno não tivesse nos socorrido
quando todos foram contra nós,
Teríamos sido engolidos vivos
por uma onda de violência,
Afogados pela enchente da ira,
arrastados pela correnteza.
Teríamos perdido a vida
naquelas águas agitadas e violentas.

Salmo 124. 1-5



Em suma: 2016 foi um péssimo ano, mas poderia ter sido pior não fosse o cuidado do Senhor conosco - cuja constância podemos contar em 2017.

Se esses dias de aflição seguissem o curso normal, ninguém suportaria.


31.12.16

Médico

Jesus escutou a crítica e reagiu: “Quem precisa de médico: quem é saudável ou quem é doente?"
Marcos 2.17



Quem pede ajuda é quem reconhece que não é capaz de fazer algo ou mudar uma situação sozinho ou, especificamente, sem o auxílio daquele a quem se demanda a ajuda.

Pedir ajuda é, portanto, um duplo reconhecimento. De um lado, ao pedir ajuda reconheço minha fragilidade.

Por outro, reconheço que o outro tem, sobre mim, um poder que eu não tenho. Peço ajuda de quem pode ou sabe mais que eu.

Na época que estudava para o vestibular, há duas décadas, montamos um grupo de estudo em que nos ajudávamos mutuamente - naquilo que eu era mais forte que meus colegas, eu os ajudava. No que eu era mais fraco, recebia ajuda. Lembro que uma amiga me ensinava biologia, matéria em que eu me via pior.

Ajudar é um ato de amor, carinho, atenção, ainda que possa ser mobilizado por motivações as mais toscas ou egoístas. No entanto, em geral, ajudo porque me importo com o outro.

E quem não precisa de ajuda? Quem se sente bem, autossuficiente, saudável, forte. Não precisa de ajuda aquele que olha para si e para o outro e não vê, no outro, nada que lhe possa ajudar.

Jesus era constantemente criticado por andar ao lado da escória da sociedade. No texto de Marcos 2, ele foi à casa de um cobrador de impostos e os representantes do sistema religioso o criticam por isso.

A resposta de Jesus é de uma riqueza de graça e vida ímpar. Ele está ali para ajudar pessoas doentes. E naquela casa, cada um e cada uma, sabe que é alguém que precisa de ajuda. Reconhece sua fragilidade, sua culpa, sua dor, seu pecado - sabe que Jesus pode ajudá-lo e curá-lo.

A esses Jesus pode socorrer - os que sabem que precisam de socorro, aqueles que carregam o peso de dor do sofrimento em que se encontra, quem entendeu que não vai se livrar do mal que o aflige sozinho.

Mas Jesus não pode ajudar quem não sabe que não precisa de ajuda. Não existe ninguém tão saudável que dispense o socorro do Senhor - mas existe gente tão arrogante que se sinta tão saudável que não precise do Mestre.

Na cena de Marcos, os líderes religiosos assumem uma postura crítica contra Jesus e os cobradores de impostos. Ao agirem assim, se colocam como moralmente superiores àqueles pecadores. Os moralmente superiores são salvos, santos, curados, saudáveis. Ao avaliar daquela forma aqueles com quem Jesus anda, é como quem dissessem: “Somos perfeitos, tão superiores a vocês que podemos julgá-los”.

Quem não se sente doente, não procurará um médico porque não precisa.

Quem se sabe enfermo reconhece tal necessidade.

Aí reside a diferença entre andar ou não com Jesus. Quem se sente espiritualmente perfeito, santo e saudável, andará sempre para mais longe de Jesus. Quem sabe de sua própria fragilidade saberá que somente em Jesus há cura e restauração para a sua vida.

Quem sabe que é frágil, sabe que não pode abrir mão de andar com o Médico dos Médicos. Quem não se reconhece doente, é autossuficiente demais para fazer algum movimento na direção de Jesus. Sua autossuficiência será uma barreira entre ele e o Mestre.

Que em 2017 nos saibamos todos doentes em busca do Médico.