11.1.17

Confiem em mim

Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim
João 14. 1



Minha filha de 7 anos, ao mesmo tempo que tem um fascínio, tem muito medo de animais domésticos. Em algum momento de seus primeiros anos de vida aquela admiração que toda criança tem por bichos foi substituída por um pânico desmedido.

Algum tempo atrás, quando eu estava morando e trabalhando em Fortaleza, ela sofria deveras na casa da família que nos apoiava por causa dos gatos. Era preciso que os pobres bichanos estivessem sempre trancados atrás de portas para que minha filha pudesse ter o mínimo de deslocamento no apartamento.

Certa ocasião, estimulamos seu contato com os animais. Uma das gatas é cega. Minha filha ficou sentada, segura, em um colo. A gata, cega e segura, em outro. Só assim a gata conheceu uma manifestação de afeto por parte de minha filha - num ambiente extremamente controlado e protegido por nós, adultos em quem ela confia.

Isso foi possível porque ela se sentia segura - tão segura que não fazia sentido ter medo nenhum. Só então pode enfrentar a situação.

É disso que fala Jesus:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim


Jesus nos convida a sentarmos em seu colo, a nos deixarmos ser protegidos por Ele, deixarmos que Ele nos envolva em seus braços e controle toda a situação. Nessa situação, como uma criança guardada no colo de seu pai, por que ficaríamos aflitos com quaisquer circunstâncias que nos envolvam?

Se vivenciarmos as piores circunstâncias, se formos ameaçados pelas piores aflições, se enfrentarmos as piores dores, se formos atacados das piores formas, se o pior acontecer conosco, o colo do Senhor fará enorme diferença.

Enfrentar o mal sozinho pode gerar aflições sem medida.

Enfrentar o mal estando nos braços do Senhor será como minha filha acariciando a gata cega de nossos amigos - não há mais motivo de ter medo porque toda a circunstância está sob controle, não por nós, mas pelo Senhor. E Ele é forte suficientemente para nos proteger.

Um dos passos para termos mais calma e condições de enfrentar as inevitáveis aflições que a vida nos traz é entender que estamos envoltos e protegidos pelo Senhor.

Nem sempre vamos perceber isso. Nem sempre vamos ver sua mão e seu colo a nos proteger.

Mas parte do nosso caminho de fé é saber disso mais e mais:


Não permitam que esta situação os aflija. Vocês confiam em Deus, não confiam? Confiem em mim

10.1.17

Não imponha seu relacionamento

Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros. 
Romanos 14. 22


Quando eu me tornei evangélico, duas décadas atrás, eu me tornei ainda mais chato do que já era. Não apenas pelo desejo de converter cada amigo e pessoa da família, mas pela forma de atuação que adotei para que isso acontecesse: "encontrei a verdade, logo você está no erro e precisa entender isso de uma vez, se não vai terminar no inferno”.

Agindo assim, eu ofendi amigos e familiares por mais de uma vez, inclusive minha própria mãe. De todos os modos, tentava impor a quem não queria meu modo de ver as coisas e de crer em Deus.

Eu, infelizmente, não era o único. Aliás, todos nós talvez conheçamos pessoas que seguem agindo de tal modo - e não apenas no âmbito evangélico. Conheço gente de diferentes formas de credo que se esforçam ao máximo para impor aos outros suas particulares formas de crença.

É provável que eu mesmo ainda me comporte assim.

Aos Romanos, Paulo diz


Cultivem o relacionamento com Deus, mas não o imponham aos outros.


Se é fundamental cultivar o relacionamento com Deus, também o é não impor a ninguém tal relacionamento. Podemos não agir como nos dias inquisitoriais em que a conversão forçada era condição de sobrevivência, mas fazemos parecido quando impomos a fé: “se não, você vai para o inferno”.

Cultive o relacionamento com Deus. O caminho é simples, ainda que possa não ser fácil: oração diária, meditação na Palavra de Deus, louvor e vida comunitária.

Ore diariamente porque a oração muda seu coração e é a oportunidade de estar mais perto diante do Eterno.

Leia e medite nas Escrituras, crendo que por meio delas o Senhor pode falar com você e instruir seu caminho.

Louve ao Criador, agradeça Suas obras, Seu cuidado, Sua presença, Sua santidade.

Mergulhe na vida com outros irmãos porque um amigo afia outro amigo (Pv. 27. 17)

Nenhum desses passos é fácil de dar, mas ninguém é capaz de cultivar relacionamento ou conhecer alguém sem gastar tempo com essa pessoa, até mesmo quando essa pessoa é o Eterno.

O que as Escrituras apontam é que esse relacionamento se estrutura no amor, vem do amor e conduz a mais amor. Por isso mesmo, não o imponham aos outros.

Aos Coríntios, Paulo deixa claro que o amor não combina com nenhum egoísmo - o que também significa que o amor nos conduz a nos preocuparmos primeiro com os outros.


O amor se preocupa mais com os outros que consigo mesmo.
1 Coríntios 13. 5



Quem se preocupa primeiro com os outros não pode pensar em impor nenhum tipo de padrão de pensamento ou comportamento individual a eles. Respeita-os e deixa-os livres, porque o amor é liberdade. “Ponham o interesse próprio de lado”, diz Paulo aos Filipenses (Fp. 2. 4).

Quando queremos impor nosso padrão de relacionamento com Deus aos demais provamos que fazemos isso por interesse próprio, egoísmo, porque nos consideramos a nós mesmos como superiores aos demais, nosso modo como correto, e convencer os outros é reforçar nossa posição egoísta.

O convite das Escrituras é simples: cultive o relacionamento com o Eterno e ame o próximo como a si mesmo. Quem ama não impõe, mas respeita a liberdade. Quem ama permite que o outro seja livre, tome suas decisões, faça suas escolhas. E quem ama importa-se com o real desejo do outro mais do que com sua própria vontade.

Cultive seu relacionamento com Deus e ame.

Deixe que ele cuida do resto.

9.1.17

Sem desistir

Não havia esperança, mas Abraão creu.
Romanos 4. 18



Harrison Odjegba Okene é nigeriano. Em 2013 ele foi o único sobrevivente do naufrágio da embarcação Jascon 4. Onze pessoas morreram.

Okene foi encontrado vivo 60 horas depois do naufrágio, tendo sobrevivido graças a um bolsão de ar em que ficou submerso.

Cozinheiro do barco, Okene orava: “Oh, Deus, pelo teu nome salva-me… sustenta a minha vida”.

Sua situação era, verdadeiramente, sem esperança.

A poesia do texto paulino, que vem de Abraão, que aponta para Okene e que nos estimula a cada um de nós, é que diante de situações sem esperança, ainda podemos crer na salvação de Deus. Como Abraão, Okene creu e soube prosseguir esperando e esperançando a libertação e a liberdade.

Duvido que você já não tenha estado neste lugar em que olha para todos os lados e não vê nenhuma saída, nenhuma possibilidade, que não se lhes apresente nenhuma esperança de salvação.

Será que você já se viu em um lugar tão apertado e sufocante quanto o que manteve Okene vivo por 60 horas? Você já sentiu que não poderia resistir mais e que, mesmo estando vivo até ali, mais cedo ou mais tarde aquele lugar seria sua tumba - ali você cairia morto?

Você já olhou para um cenário em que não havia nenhuma razão para continuar crendo, nenhuma esperança, que tudo apontava para a sua desistência?


Não havia esperança, mas Abraão creu.


Talvez seja esse o mais difícil dos exercícios de fé: crer contra todas as circunstâncias, crer mesmo que nada lhe dê motivo para acreditar, crer quando o cenário, as pessoas, o entorno dizem que isso é insensato, impossível, inviável.

Não cremos, nessas circunstâncias, porque nossa fé é uma crença imatura que funciona como pensamento positivo virando uma chave do universo para que o impossível aconteça.

Cremos, nessas circunstâncias, porque o único jeito de suportar a impossibilidade, a inevitabilidade, o fim certo é com fé. Cremos porque a fé é o que pode nos dar energia e força para lidar com tamanha dor. Cremos porque é a fé que nos liga à intimidade com Deus.

Não cremos porque estamos certos de que sempre seremos milagrosamente libertados, mas porque, como disseram os amigos de Daniel ao rei,


Sua ameaça não nos assusta. Se nos jogar na fornalha, o Deus a quem servimos pode nos salvar não só da fornalha como de qualquer outra coisa. E, mesmo que ele não o faça, não importa, ó rei. Ainda assim, não vamos servir aos seus deuses nem adorar a estátua de ouro que mandou erguer (Daniel 3. 16-18).


Mas por crermos, não desistimos. E, ao desistir, podemos ser surpreendidos porque as coisas não acabaram.

Já imaginou se Okene houvesse desistido na 59o hora de espera?

Quantos de nós já fomos alcançados por algo inesperado porque continuamos a crer?

E você imaginou o que teria perdido se tivesse desistido?

 

8.1.17

Que eu possa dançar

Põe uma música alegre para mim,
conserta meus ossos quebrados, para que eu possa dançar.
Salmo 51. 8



Com razão, boa parte das pessoas imaginam os religiosos, particularmente os cristãos, como pessoas sem graça, com dificuldades para se divertir, alienados da vida e do mundo.

Para muita gente, ser religioso é ser sério e severo, é ter pouco espaço para o sorriso, para o lúdico, para a celebração festiva. É ter a face rígida de Bento XVI e não o sorriso festivo de Francisco.

No mundo protestante isso talvez fique ainda mais evidente. Desde a Reforma, a severidade como característica da religiosidade cristã está em disputa. Parte da Reforma, por exemplo, abdicou da música, qualquer música, nos cultos e na vida.

Os protestantes norte-americanos que evangelizaram o Brasil impuseram às igrejas certas tradições completamente alheias aos nossos trópicos festivos. Até hoje parece muito anacrônico deparar-se com um púlpito repleto de ternos e gravatas, sem cor, sem brilho e sem ludicidade em nossas igrejas.

Parece anacrônica ainda haver gente que encara a festa e a dança como pecados.

O Salmo 51 é um cântico de confissão de pecados e pedido de restauração. A tradição o atribui a Davi, logo depois do adultério com Bate-Seba e o homicídio de Urias.

É no contexto de confissão de pecados que o salmista pede a Deus:

Põe uma música alegre para mim,
conserta meus ossos quebrados, para que eu possa dançar.


Enquanto as igrejas investem na severidade, no terno cinza, no rosto sem sorriso, o salmista pede a Deus que o perdoe (“conserta meus ossos quebrados”), ponha no som uma música alegre para que ele dance. O salmista reconhece em Deus a fonte do lúdico, da festa, da música, da dança, da celebração.

Tive grandes experiências com Deus reconhecendo minha cultura, a música que mexe no meu íntimo, a festa que diz respeito a mim.

Lembro de um divisor de águas em um dos tradicionais forrós que encerravam as reuniões da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Ao som de “Espumas ao vento”, dancei com minha amiga Gidália. Deus tocou-me fundo: “esse é você e não fuja disso: você é do Nordeste, é do Forró, é da Festa”. Eu senti como se meu sangue pulsasse ao som da zabumba e do triângulo, uma experiência que mudou a minha vida.

O salmista vem da tristeza do pecado e pede a Deus que toque uma canção para que Ele dance. O perdão enche o coração de alegria, a restauração nos leva à festa, a cura nos faz dançar.

O DJ é o próprio Deus.

Fantástico isso, não?

7.1.17

No coração quebrantado

O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.
Salmo 51.17



Dizem que conhecer a opulência de Roma em seu tempo teve profundo impacto em Francisco de Assis. Havia um contraste imenso entre o que ele e sua ordem entendia do evangelho (como a necessidade de imitar a pobreza de Cristo) e a riqueza da corte do Vaticano.

Aquela riqueza era sinal de poder, mas manifestava também uma certa concepção de relacionamento com Deus. Basicamente, uma visão que atribui aos templos um lugar especial para nos encontremos com o Senhor, que lida com os bens como manifestação de sua graça e com a riqueza como demonstração de sua majestade.

Em suma, a meu ver, esse contraste atualiza a conversa entre Jesus e a mulher samaritana (Jo. 4). O debate é sobre onde e de que forma deve ser o culto e o relacionamento com Deus: na simplicidade ou na opulência? Na basílica ou na caverna? Com ouro ou com madeira?


O que conta para Deus é quem você é e como vive. Seu culto deve envolver o seu espírito na busca da verdade. Este é o tipo de gente que o Pai está procurando: aquele que é simples e honesto na presença dele, em seu culto. Deus é Espírito, e quem o adora deve fazê-lo de maneira genuína, algo que venha do espírito, do mais íntimo do ser.

João 4. 22-23



Jesus esclarece definitivamente: a relação com Deus é espírito, não depende nem se relaciona a nenhuma forma exterior, nenhum templo, nenhuma regra - se relaciona unicamente ao coração. É no coração que nos encontramos com o Deus de Jesus.

E o caminho começa com aquilo que diz o Salmista:


O coração quebrantado, disposto a amar,
não escapa, nem por um minuto, da percepção de Deus.



O caminho começa com um coração que se quebranta, que não é orgulhoso, que conhece a si mesmo, que sabe suas próprias falhas, que reconhece sua fragilidade e sua ignorância. Um coração que chora porque dói, mas se alegra porque é grato. Um coração que reconhece e confessa os pecados, que aceita o perdão. Um coração, em suma, que abraça a humanidade sem discutir muitas coisas.

Esse é um coração disposto a amar porque é um coração que se sabe nenhum pouco melhor do que ninguém. Um coração que reconhece seu lugar, sua pessoa, que sabe de si e, sabendo de si, pode mergulhar em uma relação amorosa com Deus e com o próximo.

É esse coração que não pode se esconder do olhar amoroso de Deus, que não escapa de sua graça, de seu cuidado. É esse coração que Deus encontra. É nesse coração que a graça e a verdade se beijam. É aí que há culto, que há celebração, que há gozo, que há paz.

É no coração quebrantado e alcançado por Deus que Senhor mergulhar para se relacionar conosco, nos amar, nos tocar, promover a festa de um culto que seja verdadeira adoração e que nos impulsione, a cada instante, para a vida verdadeira - a vida que foi tocada e movida pela eternidade.