31.1.17

Onde está Deus?

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus
Salmo 14. 1


Não são raras as ocasiões em que as pessoas se questionam, ou nos questionam, perguntando: Onde está Deus? Nas grandes tragédias, como na Tsunami do ano passado [2004]; nos momentos de dor e morte, como em chacinas em que se mata, de graça, 30 pessoas no Rio de Janeiro. Momentos de mal e dor, pratos cheios para o desafios dos incrédulos.
O mundo, boa parte das vezes, parece provar que a fé em um Deus bondoso e de amor não é outra coisa senão uma grande mentira. Qualquer piedade, quando sentimento religioso, é visto como tolice. O problema do mal, o problema da dor, o dilema da morte, parecem atentar contra a realidade da presença do Deus vivo no nosso meio. Um Deus que é Senhor do universo e tem todas as coisas nas Suas mãos.
Dizem os que duvidam de Deus, diante grandes dores e tragédias, que se há um Deus, ou Ele não é Todo-Poderoso, e, por isso, não pode evitá-las, ou não é Bondoso e Amoroso, por isso, as deixa acontecer.
Se o nosso olhar for um olhar puramente humano, será impossível não darmos certa razão a essas críticas. Mas a nossa visão não parte de qualquer ponto humano. Devemos olhar a vida sob o prisma da Palavra de Deus. Sob esse prisma, não é tolo o que crê em um Deus Poderoso e Bom no universo. Antes, ao contrário, o tolo, o insensato, é aquele que diz no coração que não há Deus. Mas afirmar isso é reafirmar o aparente contra-senso: Deus é bom e poderoso e o mal continua reinando no mundo.
Isso me faz pensar em dois relatos que se contam sobre os dias no Campo de Concentração de Auschwitz, onde os nazistas mais mataram gente. Conta-se que um grupo de judeus assistia enquanto um oficial alemão espancava uma criança judia no campo de concentração. Após certo tempo, ele a matou com um tiro. Nesse momento, ouviu-se alguém perguntar: "Onde está Deus?" Ao que foi respondido: "Estava ali, com aquela criança".
Um outro relato é de um fato ocorrido alguns anos depois da Segunda Guerra. Em um debate entre alguns teólogos e filósofos famosos, um dos teólogos debatedores parafraseou uma fala de um poeta e disse que era possível orar depoisde Auschwitz porque se orava em Auschwitz.
Não acredito em respostas para a questão do mal. Não acredito que qualquer um tenha uma resposta, nem que precisamos tê-las. Não acho que a fé em Cristo nos dá todas as respostas. Não consigo entender nem jamais poderei entender isso. Mas sei de uma coisa: o Cristo a quem amo está sempre comigo, sempre conosco, mesmo no meio das maiores tragédias. Essa é a grande coisa do que Deus faz por nós. E é a grande certeza que podemos ter de que, ao contrário do que pensa o tolo, há um Deus.
O evangelho de João está repleto de promessas a esse respeito: Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês ... A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela... Continuem unidos comigo, e eu continuarei unido com vocês (Jo. 14. 18; 23 e 15: 4). E, estando com Cristo, poderemos entender que mesmo que não saibamos o porquê do mal, podemos passar por ele, porque Ele está conosco: Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem.Eu venci o mundo (Jo. 16. 33). Enfim, tolo é o que não se lembra que, quando subiu ao céu, Jesus não prometeu o fim do mal no mundo, mas que estaria conosco por todos os dias, até o fim dos tempos (Mt. 28. 20).
Jesus nunca nos prometeu que nos livraria da tragédia, do mal e da dor. Não. O cristianismo não é a mensagem de uma boa vida por todo o tempo. Mas a mensagem da Cruz de Cristo ensina que Ele sempre estará conosco. Ele pode não impedir que enfrentemos a dor, mas com certeza Ele estará conosco quando passarmos por ela, enxugando a nossa lágrima e fazendo com que a dor e o sofrimento sejam mais fáceis de suportar. Porque, sim, há um Deus. Houve um Deus em Auschwitz. Há um Deus na baixada fluminense. Há um Deus no meio das vítimas da Tsunami.

30.1.17

Sábado

Guardem o dia de sábado, para que sempre seja santo. Trabalhem seis dias e, nesse tempo, façam tudo que for necessário. Mas o sétimo dia é o sábado do Eterno, o Deus de vocês. Não realizem nenhuma espécie de trabalho, nem vocês, nem seu filho, nem sua filha, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seus animais, nem mesmo o estrangeiro em visita à sua cidade. Porque, em seis dias, o Eterno fez o céu, a terra, o mar e tudo que neles há e descansou no sétimo dia. Portanto, o Eterno abençoou o dia de sábado e o separou como dia santo.
Êxodo 20. 8-11


Jesus enfrenta o sábado em todo o seu ministério - não para negar sua importância, mas para relativizá-lo diante da forma estrita com que a ortodoxia religiosa lidava com o tema.
O refrão de Jesus era que o sábado foi feito por causa do homem, não o homem por causa do sábado.
O sábado é descanso e celebração. Não é necessariamente um dia da semana, mas aponta para essa dupla necessidade que o ser humano tem.
Quanto de nossa vida espiritual e emocional adoeceu porque não guardamos um sábado? Trabalhamos muito, levamos trabalho para casa e, quando deveríamos estar descansando, curtindo a família ou celebrando ao Senhor, seguimos trabalhando.
Quantos fins de semana perdidos em trabalhos?
Quantos cultos que não fomos por causa de trabalho?
Quantos momentos de devoção pessoal foram perdidos porque precisávamos trabalhar?
Quanto de nosso trabalho roubou nossa vida, nosso descanso, nossa celebração, nossa saúde?
O sábado nos lembra que precisamos ter um momento de, fechada porta do quarto, falarmos na intimidade com o Senhor, louvarmos, ouvirmos sua voz falada na Palavra de Deus.
O sábado nos lembra que precisamos ir à praia, ao parque, ao cinema, viajar, descansar, dormir sem ter hora para acordar.
O sábado nos lembra de olhar os olhos de nossa família, nossos cônjuges, nossos pais, nossos filhos, nossos amigos.
O sábado nos lembra que o tempo passa, mas haveremos de reservar um tempo para cuidar de nós e dos outros.
O sábado nos lembra que o mundo veloz, líquido, superficial, passageiro no qual nos inserimos não há de ser o definidor de nossa existência, de nossas relações, de nossa religião.
O sábado nos lembra que é necessário desacelerar.
O sábado é a marca que pontua e faz pulsar o relógio de nossa vida - minuto a minuto, hora a hora, a cada momento.
O sábado nos lembra de mergulhar nas profundezas de um rico relacionamento com Deus.

Portanto, o Eterno abençoou o dia de sábado e o separou como dia santo.

29.1.17

Impassível?

E o Eterno disse: “Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"
Êxodo 3. 7-8


Para Aristóteles, Deus é o Motor Imóvel do universo. Essa ideia penetrou na teologia cristã ainda na Idade Média - muitos teólogos a partir de Tomás de Aquino se valeram da filosofia de Aristóteles para desenvolverem suas construções de fé.
O Motor Imóvel não pode mudar e, por isso, é Impassível - diante da dor e do sofrimento, diante da paz e da alegria, o Motor Imóvel segue igual.
Além disso, muita gente crê em Deus como um Todo-Poderoso e Soberano que já escreveu toda a história passada, presente e futura - portanto, uma história sob Seu controle mas completamente imutável.
Muita gente faz de Deus imutável - ser o mesmo ontem, hoje e sempre, para tais pessoas, faz de Deus alguém Impassível - alguém cuja misericórdia e a compaixão se existirem, são ficções, porque não representam nenhuma mudança no Seu Ser e nas Suas ações.
No entanto, o resumo do chamado de Moisés no Êxodo é que o Eterno não é Impassível. Ele vê, Ele ouve, Ele conhece e Ele, por isso, é tocado e desce para socorrer.
O Eterno não é Impassível.
Diante de um Deus que se compadece podemos saber que nunca estamos sozinhos.
Ele vê sua aflição. Ele sabe o que você está passando. Sabe quanto dói. Sabe que, por vezes, você sente que não aguenta mais. Sabe que você tem vontade de sumir e esgotou suas forças na tentativa de escapar da dor e da aflição. Sabe que você pode estar no limite. Ele vê sua dor e sua angústia.
Ele ouve a sua oração, o seu clamor. Você não chorou sozinho. A dor não doeu só em você. Você não jogou palavras ao vento, mas falou para um Deus que ouve. Se ninguém mais ouviu você, Ele ouviu. Ele ouviu e ainda ouve seu clamor.
Ele desceu para socorrer você. Ele não é impassível. Ele se importa com o que você está passando. Ele desceu, Ele veio até você.
A revelação do Deus da Bíblia tem a ver com um Deus que desce até nós para se revelar e nos libertar - ao invés de uma religião em que os humanos constroem ritos e regras para que alcancemos, tal qual numa Torre de Babel, a Divindade.
A revelação que Deus faz a Moisés aponta para aquela que se manifestou plenamente em Jesus. Em Jesus, o Eterno se fez um de nós. Se Deus fosse um Motor Imóvel, um Deus imutável, nunca poderia ter sido um de nós em Jesus. Nunca haveria esvaziamento, nunca haveria Emanuel, Deus conosco. Nunca haveria vida verdadeira tocada pelo Eterno, cruz, ressurreição e Espírito Santo.
Deus desce para nos livrar finalmente se tornando um de nós.
Deus desce para nos livrar e morar em nós pelo Seu Espírito.
Não é fácil passar por sofrimentos como os hebreus passavam no Egito. Não deve ser fácil enfrentar a dor e as circunstâncias que você está enfrentando. Pode ser que no meio do sofrimento você ainda se sinta sozinho e abandonado por amigos e parentes.
Há um momento no relato de Êxodo 5 que as coisas pioram logo depois de Moisés e Arão falarem com o Faraó. Agora os escravos precisam fazer a mesma cota de tijolos diária, mas sem que os egípcios forneçam a palha necessária. Os castigos aumentaram, a dor aumentou, o sofrimento aumentou.

Moisés orou ao Eterno e perguntou: “Por que tratas tão mal este povo? E por que me enviaste? Desde o momento em que fui falar ao faraó em teu nome, as coisas só pioraram para o povo. Libertação? É essa a ‘libertação’ que pretendias?”
Êxodo 5. 22-23


Nessa hora, por mais que seja difícil, acredite que Deus não é impassível - Ele desceu a fim de livrar você. Se mais ninguém está ao seu lado, Ele está não apenas ao seu lado, mas o Emanuel habita em você por meio do Espirito Santo.
Ele nunca o deixará e nunca o abandonará. Ainda que você não saiba quanto tempo ainda haverá até a libertação, Ele está com você e será sua força para que você passar por tudo.
Ele levará você à terra prometida.

“Faz tempo que venho observando a aflição do meu povo no Egito. Ouvi o povo clamar por livramento das mãos dos seus senhores e conheço muito bem o sofrimento dos israelitas. Agora desci para ajudá-los, para livrá-los do domínio do Egito"

28.1.17

Mágoa

Passado o funeral, os irmãos de José começaram a falar: “E se José está guardando rancor e resolver nos devolver o mal que lhe fizemos?”
Gênesis 50. 15


Muitos anos atrás, ouvi uma pregação sobre esse texto. Jacó/Israel morreu após 17 anos morando no Egito. Embalsamado, foi levado por seus filhos para ser enterrado na Palestina.
Agora, os irmãos de José têm medo de que o agora governador do Egito decida se vingar pelo que lhe fizeram - ser vendido como escravo para uma caravana que o levou até o Egito.
Confesso que ao ouvir essa mensagem, me incomodei. Não porque não ache importante falarmos de rancor e mágoa. Mas porque o pregador assumiu a ideia, fácil, de que José, o sonhador, vendido como escravo, afastado de sua família, não guardou mágoa, não alimentou o rancor.
Os irmãos inventam que Israel pediu que José os perdoasse. José chora e diz que Deus estava naquilo para que todos pudessem, agora, ser protegidos e salvos da seca e da fome no Egito (Gn. 50. 16-21).
Lindo, não é?
Mas esse não é o José que o Gênesis mostra. Aliás, o Gênesis mostra um José que no fim do livro não precisa mais se vingar dos irmãos porque deu-lhes o troco antes.
O trecho que vai dos capítulos 42 a 44 mostra um José que, incógnito aos irmãos, vestido como governador egípcio, falando por meio de intérprete, aflige-os do mesmo modo como ele mesmo afligido: põe na cadeia, faz falsas acusações, ameaça com escravidão.
Esse, definitivamente, não é um homem que não guardou rancor, que não alimentou a mágoa. Ele é alguém que promoveu uma vingança, ainda que não fatal, fazendo sofrer os que lhe fizeram sofrer, antes de fazer as pazes com o passado.
Para mim, esse aspecto da narrativa de José não está ali para legitimar a vingança ou o troco. Ao contrário, mostra um José libertador que é humano o suficiente para deixar-se levar pela mágoa.
Serve para nos mostrar que a mágoa pode estar presente e ser guia das ações de qualquer um de nós. E que, ainda assim, quando erramos não se perde nada de bom que Deus fez ou faz por nosso intermédio.
Não é uma desculpa para ficar magoado mas um ensino de que não é impossível que a mágoa aconteça. E quando ela acontecer, lembre-se de que você é humano.
Ainda que saibamos que não somos culpados pelo mal que nos fazem, sabemos que a mágoa é nossa responsabilidade porque é resultado daquilo que fazemos com o mal que nos fazem. E isso é humano.
Deixar que a mágoa conduza nossas ações é deixar-se levar pelo mal. A raiva, o rancor são péssimos conselheiros. Fazem, por exemplo, confundir vingança e justiça. Mas isso é humano.
O caminho de livrar-se da mágoa é conhecido, ainda que nem sempre seja fácil: é o caminho mais excelente do amor (1 Co. 12. 27) e do perdão:

Então, Jesus orou: “Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo”.
Lucas 23. 34


Jesus perdoou os que o crucificavam. Não é fácil, mas é parte do caminho de deixar a mágoa de lado.

27.1.17

Lutar com Deus

Jacó ficou sozinho do outro lado, e um homem começou a lutar com ele. A luta durou até o raiar do dia. Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.
O estranho disse: “Deixe-me ir embora, o dia já raiou!”.
Mas Jacó retrucou: “Não deixarei você ir sem que me abençoe”.
O homem perguntou: “Qual é o seu nome?”.
Ele respondeu: “Jacó”.
E o homem disse: “Não mais. Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”.
E Jacó perguntou: “Qual é o seu nome?”.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Gênesis 32. 24-29


Lutar com Deus é se agarrar com todas as forças ao Senhor diante das situações mais difíceis ou assustadoras pelas quais passamos. É agarrá-lo, dizer-lhe que não pretende ir enquanto não vier uma bênção. É persistir na presença dEle - não para mudá-lo, alterar sua vontade, mas para que Ele nos mude.
Jacó enganou seu irmão duas vezes para roubar seus direitos como primogênito. Depois, foi enganado 20 anos por seu tio Labão até conseguir fugir e voltar para a sua terra.
Nesse momento da narrativa, Jacó está apavorado pela possibilidade de encontrar seu irmão, Esaú, ferido e magoado como deixara.
Jacó luta com o homem. Reconhece nesse homem o próprio Deus. Não pode deixá-lo ir. Quer a benção - a chance de encontrar seu irmão em paz.
Provavelmente, seu desejo era de que Deus mudasse Esaú para que o encontro ocorresse sem luta entre os dois.
E o que Deus faz?

Quando viu que não conseguia vencê-lo na luta, o homem deslocou de propósito o quadril de Jacó.

Jacó, depois de 20 anos, não podia saber nada acerca de seu irmão. Ele não controlava a vida de seu irmão, suas escolhas, seus sentimentos, sua mágoa, seu rancor. Jacó não podia impedí-lo de que viesse com 400 soldados ou com presentes e flores.
A única circunstância sobre a qual Jacó podia interferir era a sua própria vida.
Lutar com Deus não muda Esaú - muda Jacó.
Ao lutar com Deus em oração talvez você não possa mudar um centímetro da circunstância ou da vida do outro - mas ao lutar com Deus, esteja certo, a sua vida será mudada.

"Seu nome não será mais Jacó. De agora em diante, será Israel (Aquele que Luta com Deus). Você lutou com Deus e levou vantagem”

Por isso, não queira controlar as circunstâncias nem os meios de luta. Eles não pertencem a você.
Também não encaixote Deus dentro dos limites e parâmetros que você definiu. Nem suas crenças, seu conhecimento, nem a sua teologia definem (dão fim) a Deus. Ele é maior.
O homem respondeu: “Por que você quer saber o meu nome?”. Dito isso, abençoou Jacó ali mesmo.
Lutar com Deus muda você porque Deus está além do que você imagina e nomeia.
Ao orar, portanto, não espere a mudança das circunstâncias ou do outro. Reconheça a sua própria mudança. Assim, talvez, você seja a resposta à sua própria oração. Como Jacó ao se tornar Israel.