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17.1.17

Problemas

Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
(…)
Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 3. 3; 5. 10



Você já deve ter visto por aí inúmeros televangelistas, igrejas e religiões prometendo uma vida sem dor e sem sofrimento. Basta seguir determinado ritual, certas regras, realizar certo sacrifício e, pronto, a vida a partir dali será de tranquilidade.
Se não deu certo para você, o problema é seu. Algum pecado escondido, a falta de fé, não realizou o ritual corretamente - não importa: o culpado pelo seu sofrimento é você mesmo e mais ninguém.
A ideia de que realizar certas práticas seria suficiente para garantir uma bênção sem fim da Divindade e uma vida sem sofrimentos não é nova e, infelizmente, aparece em muitos contextos do Antigo Testamento - que são, aliás, a base do discurso religioso que explora tais ideias hoje em dia.
Claro que há textos, como o livro de Jó, em que não restam dúvidas de que o sofrimento, a dor, os problemas não derivam de nada que o fiel fez. São contingências da vida que atacam, inclusive, um homem dito como justo por Deus duas vezes no início de seu livro.
Para nós é mais fácil acreditar que há uma fórmula mágica de se enfrentar a dor e o sofrimento. Tantas orações, quantos sacrifícios, tais palavras mágicas e, por um milagre, a dor e o sofrimento se foi.
Para mim, o pior efeito da dor, do sofrimento e dos problemas é a sensação de transitoriedade que termina por fazer com que nada na vida seja encarado como real. Como sabemos que nenhuma dor, sofrimento ou problema dura para sempre, podemos ter a tendência de suspender a vida pelo tempo de sua duração. E aí deixamos de viver todos os momentos de verdade - somente como uma etapa, passageira e provisória, na direção do mundo sem dor.
A dor, o sofrimento e os problemas não são alienígenas de nossa existência e, ainda não durem para sempre, não justificam que vivamos a vida como provisória.


Não que os problemas devam surpreendê-los. Vocês sabem que estamos sujeitos a essas situações, que fazem parte do nosso chamado.
1 Tessalonicenses 3. 3



São parte da vida. Não uma parte fácil, não uma parte que seja natural saber lidar. Nada disso. A dor é parte da vida, mas não é fácil. Às vezes, vai nos sugar toda energia. Às vezes, vai nos deixar perdidos, sem saber como agir. Os problemas podem, inclusive, nos submergir. O sofrimento pode levar você ao fundo do poço.
Eles fazem parte da vida e Paulo nos informa que devemos estar prontos para quando eles acontecerem para não sermos surpreendidos.
Mas como é possível lidar com cada um deles?
Não vejo como ser possível afirmar que há somente um jeito de lidar com o sofrimento, mas podemos lidar com a dor a partir do momento que entendemos que ela faz parte da vida - não é uma intrusa que qualquer ritual vá fazer desaparecer e, nem sempre, ela emerge por culpa nossa.
Mas a fé em Jesus oferece um ponto de apoio fundamental para lidarmos com a dor, o sofrimento e com qualquer problema que nos sufoque:


Em qualquer situação, acordados com os vivos ou dormindo com os mortos, estamos vivos com ele!
1 Tessalonicenses 5. 10



Em qualquer situação, estamos vivos com Ele. A vida dEle vive em nós. A eternidade dentro de nosso ser.
Por pior que seja a dor, por maior que seja o problema, por incontrolável que seja o sofrimento, Ele está conosco. Nossa vida está nEle. É nEle que vivemos.


Mesmo que a estrada atravesse
o vale da Morte,
Não vou sentir medo de nada,
porque caminhas do meu lado.
Teu cajado fiel
me transmite segurança.
Salmo 23. 4






13.1.17

Uma vida que não é pequena

A vida que Deus dá não é pequena: vocês é que a vivem de modo pequeno. Digo isso com franqueza e com grande afeição. Abram a vida! Comecem a vivê-la plenamente!
2 Coríntios 6. 12-13



O que é a vida e o que faz com que ela valha a pena?

Paulo nos diz que ela não é pequena - quando se apequena é por nossa própria responsabilidade. Temos a chave da porta que abre a vida para que seja vivida plenamente.

A vida verdadeira tem em si um toque de eternidade. Passamos a viver no mundo, no tempo, com a inspiração e o movimento em direção ao que é eterno. Ao Eterno.

A vida verdadeira é aberta quando podemos encontrar, perceber, vivenciar plenamente a Realidade Última da existência. Quando não fugimos, escondidos por máscaras ou por véus, nem de nós mesmos nem do Deus em Quem nos movemos e existimos.

A vida verdadeira se experimenta na transparência, no diálogo, na intimidade e no serviço. Quando plenamente assumimos o nosso quinhão nessa vida.

A vida amanhece e acorda, encontrando cor e coração, beleza e arte, quando se encanta com toda a magia da existência - de uma onda no mar ao choro de um bebê, quando percebe todos os traços da eternidade no ordinário, no cotidiano, no comum.

A vida é vivida plenamente quando pode ser impulsionada pelo Espírito de Deus, quando é alimentada pela fé em Jesus, quando vivenciada de verdade no mundo.

Ela é tudo e não é simples, mas pode ser encarada com mais simplicidade, com mais força, com mais graça, com mais paz.

A vida é o sopro de Deus no meio da existência. Ele fez isso segundo o relato do Gênesis para trazer à vida um corpo inanimado (Gn. 2. 7). Ele faz isso na visão de Ezequiel (Ez. 37, 9-10). E Jesus repete o gesto para insuflar o Espírito nos discípulos (Jo. 20. 22). O Espírito é o sopro da vida de Deus no meio da existência.

A existência é feita de limites. Somos limitados culturalmente, do ponto de vista da educação. Somos limitados em nossos corpos, em nossa alma. Somos limitados pela dor, pela doença. E temos o maior limite de todos diante de cada um de nós: a morte.

Viver uma vida plena, verdadeira, com toques da eternidade, é a forma de transcender a todos os limites. A beleza, a arte, o amor, a paz, a graça nos levam além.

O sopro de Deus é a garantia de que podemos abrir as portas da vida para vivê-la até além dos limites. O toque do eterno em nós é a certeza que temos de que a vida nos impulsiona e nos carrega para além de nós mesmos, para além dos limites, para além do que nos faz frágeis e pequenos.

A vida, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus nos asseguram que é possível ir além - ainda que ir além seja, de verdade, doloroso.

Que fujamos de nós. Que recebamos o sopro do Espírito. Que vivamos na dimensão de Jesus, indo além dos limites numa vida que signifique bem mais do que apenas experimentar uma existência neste mundo.

20.5.15

Tão profundo

Ontem dei uma entrevista a Nathanael, cujo conteúdo em geral deixarei privado. 
Mas, acho, foi uma das primeiras vezes que verbalizei alguns aprendizados recentes sobre meu amor por meu pai e minha relação com ele.
Já disse algumas vezes que o ter me tornado pai mudou a minha compreensão acerca de meu pai. Em resumo, se antes eu me lamentava por ter perdido tantos momentos de intimidade com meu pai por sua ausência, depois de Alice passei a lamentar por meu pai ter perdido tantos momentos de paternidade comigo. 
Outra coisa que entendi nos últimos anos é que, para alguém do tempo e da luta de meu pai, amar era ser clandestino. Quer dizer: fazia parte das consequências de sua luta contra a ditadura e por mais justiça manter as pessoas mais importantes e frágeis de sua vida afastadas - assim como ele fez ao optar pela clandestinidade em 69 e, depois, quando nem todo mundo sabia ou soube de suas ações no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. A clandestinidade protege quem realmente importa na vida do revolucionário.
Essas percepções ajudam no meu atual mergulho na dimensão espiritual da vida porque me ajudam a compreender de uma maneira nova minhas relações com o Deus que é Pai.
Se eu aprendo que o Pai representa a Lei e os limites dados aos filhos na infância, aprendo que seu objetivo é que esses filhos não aprendam a obedecer cegamente, mas encontrem amor e saibam pensar. Esse é o meu desejo como pai de Alice. E vejo ser essa a caminhada de Deus, o Pai, conosco.
Se há infância da fé, se somos crianças espirituais, precisamos de um Pai que seja legislador de nossas vidas. Até que passemos por aquela experiência de matar o Pai sobre a qual falei outro dia.
A partir desse momento, a gente volta a uma experiência com o Pai, mas que é bem diferente daquela de antes. 
Assim como posso reencontrar meu pai em uma relação de amor, amizade, companheirismo, que me impacta e me marca de uma maneira ainda mais profunda, depois de abandonar essa fé infantil e legalista, matar o Pai, encontro uma espiritualidade ainda mais rica e profunda, uma relação mais amorosa e honesta, um coração mais inflamado e experiências mais marcantes e [e]ternas.
Mais poesia, mais beleza e amor.
"É tão profundo, tão imenso e cobre-nos
É furioso, poderoso e abraça-nos
Só Ele pode devolver a vida aos corações"
https://youtu.be/zOc855DIZyk