2.8.05

Confissão

Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e façam oração uns pelos outros, para que vocês sejam curados.
Tiago 5. 16

Em dezembro de 2000 fui apresentado a uma dor que logo eu descobriria chata e constante em minha vida. Era uma dor no nervo ciático, dor que irradia pela perna, passando pelo músculo glúteo. Após muitas idas e vindas, descobri que era causada por uma protrusão discal, uma espécie de deformidade do disco vertebral que pressiona o nervo, causando a dor. Essa dor foi ininterrupta, sem exageros, de dezembro de 2000 até agosto de 2001.
Nestes meses, não houve uma hora, um momento, um instante sequer em que eu não a sentisse. Às vezes em maior intensidade, às vezes em menor intensidade, mas a dor sempre estava lá. Limitando os meus movimentos e as minhas condições de vida. Cansando-me e provocando uma tremenda irritação.
Lembro de uma noite em que, saindo do seminário com uma colega, íamos assistir a uma peça de teatro, mas o ônibus atrasou por horas. Em pé, no terminal de Parangaba em Fortaleza, a dor só aumentava. Voltei para casa quase sem movimento. Subi ao meu quarto, sentei e chorei. Não porque a dor provocasse o choro de tão insuportável, mas porque eu não suportava a sua constância, a sua presença ininterrupta. Aquela dor estava me vencendo. Eu estava perdendo todo o prumo, toda a paciência.
Eu me desentendi com vários colegas por causa do meu ciático. Ele me tirava do sério, me estressava, me perturbava. Não conseguia manter um nível de vida e de paz de espírito satisfatório. A dor me abatia e me irritava.
A protrusão é uma doença anatômica que não possui outro tratamento se não fisioterapia, anti-inflamatório e analgésico. Há mais de um ano eu não sentia nem sequer um resquício dessa dor, mas depois de minhas viagens de carro nos últimos três dias, amanheci hoje com meus movimentos novamente limitados por causa do ciático. E lembrei de todo meu sofrimento de quatro anos atrás.
Essa dor física é terrível. Rouba-nos a paz e a paciência. Transtorna tudo. Mas não se compara à dor emocional causada pela culpa. A culpa fere com intensidade e com persistência o nosso próprio interior, a nossa alma. Qualquer um sabe que não existe pior dor que a dor na alma. Nenhuma dor física pode se comparar ao sofrimento causado pelo dor emocional. E muitas dores físicas são decorrências de dores da alma.
A culpa é a principal dor que carregamos na alma. Como a minha dor ciática, ela limita os movimentos, rouba a nossa paz, tira a nossa paciência. Irrita, causa limitações de condições de vida e de movimento. E não há um instante que ela nos dê trégua. Dói sem parar e persistentemente, ainda que apareça hora com maior, hora com menor intensidade. Tendemos a nos desesperar, especialmente quando nos vemos inconscientes de suas causas, quando não conhecemos o tratamento.
Quem está me lendo e sabe do que estou falando, entenda que não falo acerca de perdão ou da falta dele. Falo sobre o sentimento de culpa. Muitas vezes cometemos pecados que, por algum motivo, consideramos mais sérios ou mais profundos. Às vezes, nos achegamos aos pés da Cruz, confessando-os. Até recebemos uma palavra que nos garante o perdão de Deus. Mas nada disso é suficiente para nos tirar o sentimento de culpa. Que fica lá, nos ferindo, provocando doenças emocionais ou mesmo físicas.
O remédio apropriado foi receitado por Tiago: Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e façam oração uns pelos outros, para que vocês sejam curados. Acredito que existe pelo menos duas razões para que tenhamos de confessar nossos pecados a outras pessoas para nos sentirmos perdoados e sermos, assim, curados. O primeiro desses motivos é que precisamos ouvir de alguém, que não nós mesmos, que Deus pode nos perdoar e nos amar mesmo depois de termos pecado “tão gravemente”, como queremos entender. E ouvimos isso ao mesmo tempo em que esse alguém a quem confessamos consegue provar essa realidade ao se mostrar amoroso, perdoador e misericordioso conosco. Sabemos que somos perdoados e nos livramos do sentimento de culpa quando recebemos do amor de Deus através da vida dos irmãos. Não se trata de receber o perdão diretamente, mas a cura do sentimento de culpa. No fundo, tendo confessado a Deus o nosso pecado, já fomos perdoados. O nosso problema é não acreditar nisso até que o amor de Deus se manifeste por meio de alguém aos nossos corações, através do perdão e da graça liberados pela oração de alguém, que nos ama e nos cura.
Em segundo lugar, confessar nossos pecados aos outros é descobrir que todos estamos no mesmo nível. Porque quando abrimos o nosso coração carregado a outras pessoas, abrimos também a possibilidade de diálogo e, surge assim, um canal de comunicação de mútua confissão e mútuo apoio. Sentimo-nos perdoados, então, porque nos vemos como parte de um corpo de comunhão composto por não só um pecador, mas por vários que são resgatados pela mesma ação de graça de Deus. Confessar os pecados uns aos outros é colocarmo-nos todos no mesmo patamar, no mesmo lugar de relação de Deus, como alvos sempre constantes e dependentes de Sua graça e Seu amor. É colocarmo-nos em nossa real condição: nenhum de nós é melhor que ninguém; somos todos pecadores miseráveis, carentes da graça e do amor de Deus.
A culpa é dos piores problemas que podemos carregar. É das piores dores que, muitas vezes, somos obrigados a suportar. É uma dor da alma, dor emocional, que pode, de repente, se somatizar. É dor que angustia e contra a qual tantas vezes necessitamos de um remédio definitivo que nunca vem. Confie na graça de Deus. Saiba que Deus já o perdoou. E procure o remédio receitado por Tiago: Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e façam oração uns pelos outros, para que vocês sejam curados.

Um comentário:

carmem disse...

Em 05/12/2007, fiz artroscopia nos joelhos D e E, em franca recuperação, apavorei-me 02 meses após com uma dor dilacerante que iniciava logo abaixo da coluna e se estendia por toda a perna; Feita ressonância magnéticA CONSTATOU-SE LESÃO L4 , L5; INFELIZMENTE O MÉDICO PERITo IGNOROU O LAUDO E DETERMINOU A VOLTA AO TRABAlho; claro que não retornei, vivo a base de antinflamatórios e analgésicos e luto em processo administrativo para abono de faltas.Em tempo: sou funcionária pública, do estado do RS - Realizarei nos próximos dias, procedimento hospitalar 3 x em 12 horas, com mais 12 de internação.