16.1.17

Mais importante que tudo

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.
Filipenses 3.8-9

Em setembro de 1996, aos 17 anos, eu enfrentava uma crise existencial, talvez típica da adolescência. A morte de um colega de escola em um acidente de carro fez a crise aprofundar. Tudo estava em crise para mim, a partir da fé e do modo de ver a vida. Ali eu era um adolescente espírita que colocava em xeque sua própria concepção de Deus.
No feriado de 7 de setembro, fui para um acampamento evangélico. Aquela foi a experiência arrebatadora e transformadora da minha vida - aquilo que costumamos chamar de conversão.
Lembro que na noite do sábado, 7, eu fui dormir me sentindo incomodado porque havia uma doce alegria no ar, ela me envolvia, eu me via alegre, mas parecia que ela não era capaz de entrar no meu coração. Todas aquelas experiências me faziam cantar, quando sozinho no acampamento, uma canção que aprendi na escola: “Meu Deus é bom para mim/ comigo vai/ tão forte brilha o sol e a chuva cai/ amor tão grande assim/ só Cristo tem por mim/ direi até o fim:/ Meu Deus é bom para mim”.
Na manhã do domingo, minha cabeça girava em mil ideias - mas todas elas me impulsionando a um desejo e uma vontade cada vez mais incontrolável: deixar tudo de lado para abraçar e seguir Cristo. Queria sentir aquela alegria entrar em mim e em meu coração!
Foi a primeira vez que tive em mim o mesmo sentimento que Paulo expressa aos Filipenses:

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.

Deparar-se com Jesus, com o Deus bom e amoroso, muda as prioridades de nossa vida. Experimentar o Deus vivo brilhando, vibrando, amando dentro de nós é um impulso incontrolável para que nos rendamos e mudemos as prioridades do nosso viver. Viver é Cristo e somente Cristo! Tudo o mais é esterco.
Falei que em 1996 aquela foi a minha primeira experiência. Houve outras. Isso para mim significou sempre que a decisão de "abraçar Cristo e ser abraçado por ele” não é única e de uma vez por todas.
Somos lembrados todos os dias para deixar a alegria entrar no coração, considerar Jesus como mais importante que tudo e, todos os dias, mais uma vez abraçá-lo e deixar-se abraçar por ele.
Além disso, há aqueles momentos em que diversas circunstâncias da vida nos afastam desse abraço. Eu tive alguns desses momentos na vida - seguidos de novas descobertas do amor sem fim de Jesus e do seu abraço carinhoso.
Um desses momentos ocorreu em 2013, na cidade de Fortaleza. No fundo de uma rede, eu me perguntava sobre o sentido da vida. A partir dali, comecei um novo processo de conversão. Converti-me novamente ao Senhor - entreguei meu coração a ele de novo. Pouco a pouco, voltei a entender que tudo o mais é esterco diante do amor de Jesus.
Esse é o meu momento de novo - após passar pela pior das crises pessoais, juntando os pedaços, redescobrindo que Jesus é mais importante do quaisquer outras coisas. Abraçá-lo e deixar-se abraçar por ele.
Quando estiver em pedaços, relembre que cada pedaço é esterco diante de Jesus, de seu amor, de sua vida em nós. Essa ressurreição está disponível para todos nós.

Sim, todas as coisas que um dia considerei importantes nada mais valem na minha vida. Comparado com o alto privilégio de conhecer Cristo Jesus, meu Senhor, em primeira mão, tudo o mais é insignificante — esterco. Joguei tudo no lixo para abraçar Cristo e ser abraçado por ele.

15.1.17

Glória, pecado, perdão

E proclamavam uns aos outros:
“Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos de Anjos.
Sua glória deslumbrante enche toda a terra”.
Isaías 6. 3



O ser humano finito que se depara com a Santidade de Deus, a Realidade Última da Existência, a Sua ação poderosa e amorosa, sofre um impacto imensurável.

Foi assim, por exemplo, no episódio da pesca maravilhosa conforme contada por Lucas. Após testemunhar o milagre, Pedro ficou atônito (Lc. 5. 8):


Assim que presenciou aquilo, Simão Pedro ajoelhou-se diante de Jesus e pediu: “Senhor, afaste-se de mim. Sou um pecador e o senhor é santo demais para mim. Deixe-me sozinho”.


Deparar-se com Deus sempre representou um pavor de morte: como pode viver um pecador diante do Deus vivo e santo?

No relato de Juízes sobre Gideão (6), o mesmo sentimento de pavor se faz sentir quando o futuro juiz de Israel compreende que está diante do Senhor (Jz 6. 21-23):


O anjo do Eterno estendeu a ponta do cajado que carregava e tocou a carne e o pão. Na mesma hora, saíram chamas da pedra, e elas queimaram a carne e o pão, enquanto o anjo do Eterno sumia de vista. Gideão finalmente entendeu que aquele era o anjo do Eterno!
Gideão disse: “Ah! Senhor, Eterno! Eu vi teu anjo face a face!”.
Mas o Eterno o tranquilizou: “Não se preocupe. Não se apavore. Você não morrerá”.



Estar diante do Santo é perceber-se pecador. A luz que brilha na santidade, revela os recônditos da alma, faz parecer que os nossos piores e mais sujos segredos estão revelados, expostos em braça pública. A sensação é de que morreremos diante do Santo.

No livro de Êxodo (33), Moisés pede a Deus para ver a sua face, mas não era possível que isso se desse (Ex 33. 18-20):


Moisés, então, disse: “Por favor, permita que eu veja a tua glória”.
O Eterno respondeu: “Farei passar minha bondade diante de você. Pronunciarei o nome, o Eterno, bem na sua frente. Tratarei bem os que eu quiser tratar bem e serei bom com quem eu quiser ser bom”.
O Eterno continuou: “Mas você não poderá ver meu rosto. Ninguém pode me ver e continuar vivo”.



Estar na presença de Deus foi, para esses homens, temível. Prostraram-se aterrorizados. Isaías ainda afirma (Is. 6. 5):


Eu disse:
“Juízo! É o dia do juízo!
Estou perdido!
Cada palavra que falei na vida era podridão,
soou como blasfêmia!
E o povo com que vivo fala da mesma maneira,
são palavras que corrompem e profanam.
E agora olhei diretamente para Deus!
O Rei! O Senhor dos Exércitos de Anjos!”



A maravilha desse Deus cuja glória resplandece em toda a terra, que revela à sua luz os nossos piores segredos, que nos mostra diante dEle a nossa limitação e fragilidade, é que Ele estende a mão, perdoando (Is. 6. 6):


Então, um dos serafins voou até mim. Ele segurava na mão uma brasa que havia tirado do altar com uma tenaz. Tocou minha boca com ela e disse:
“Esta brasa tocou seus lábios.
Sua culpa se foi,
seus pecados foram apagados”.



O toque do perdão é o mesmo toque que nos impulsiona ao serviço - “Eu irei. Envia-me!” (Is. 6. 8).

Esse é o pano de fundo ideal para entendermos a riqueza da glória de Deus que se manifesta inteira e unicamente em Jesus Cristo. Nele reconhecemos a sua glória. Ele expõe os nossos segredos sujos - aos seus olhos, tudo está revelado. Ele é a face de Deus que podemos olhar sem temer a morte porque assumiu a nossa humanidade para que isso se tornasse possível.

A face visível de Deus é amor, perdão, restauração. É o toque nos lábios que apaga a culpa, faz esquecer o pecado, santifica a vida, enche o coração e, na dimensão do toque amoroso, nos leva ao serviço em amor.

Em Jesus, o temor e o pavor de morte que impactam os mortais pecadores em sua relação com Deus não têm mais sentido. Em Jesus, o que tem sentido é encontrar um Deus que ama, perdoa e acolhe, mesmo o pior dentre todos nós.


Mas Cristo nos uniu por meio de sua morte na cruz. A cruz nos leva a abraçar uns aos outros, e faz cessar a hostilidade. Cristo veio e pregou a paz a estrangeiros como vocês, que não são judeus, e também aos judeus, que já conheciam Deus. Ele nos tratou como iguais e nos fez iguais. Por meio dele, compartilhamos do mesmo Espírito e temos igual acesso ao Pai.
Efésios 2. 16-18


14.1.17

O Amor que salva

Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.
2 Coríntios 8. 9


O nome do Amor é entrega.

François Varillon dizia que Deus é o Amor Todo-Poderoso e que Ele era capaz de fazer qualquer coisa que o Amor fosse capaz de fazer. O Seu Poder está restrito ao Seu Amor. Afinal, “Deus é amor” (1 Jo 4. 8), provavelmente a melhor definição conceitual de Sua Pessoa nas Escrituras.

Mas a melhor história de amor de Deus, que fatalmente confirma o Seu Amor Todo-Poderoso, é a Encarnação de Jesus.

Jesus é reconhecido pelos primeiros cristãos como Aquele em quem estava toda a plenitude da Divindade (Cl 2. 9), a perfeita semelhança de Deus (Hb. 1. 3) que montou sua tenda entre nós na pessoa de seu Filho (Jo. 1. 14). Deus só pode ser visto quando olhamos para Jesus.

Para viver essa história de Amor e de Entrega, Jesus se esvaziou de si mesmo (Fp. 2. 6-8). O seu esvaziar-se é sua entrega. Sua entrega é o Amor que salva.


Vocês conhecem a graça generosa do Senhor Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. Tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos.


A salvação começa no Amor que se entrega e que, para se entregar, se esvazia. Era rico, mas deu tudo por amor a nós. Tornou-se pobre para que, pela graça, fossemos ricos do seu amor.

O Amor que salva é o amor que se entrega integralmente ao ser amado.

O Amor que salva é o amor que não tem por seu nenhuma coisa, mas vive em função do outro, para resgatá-lo, transformá-lo.

O Amor que salva é o amor que vê o outro em primeiro lugar. É o que toca o outro e, ao tocá-lo, muda o outro.

O Amor que salva é o amor que relativiza as leis, as regras e a moral em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que risca a terra e liberta a adultera - não só do seu pecado, mas especialmente do destino a que lhe reservou a lei escrita.

O Amor que salva é o amor que se torna impuro, tocando a mulher do fluxo de sangue, o esquife do filho da viúva, a mão da filha de Jairo - torna-se impuro pela cura e salvação.

O Amor que salva é o amor que faz no sábado o que a lei proíbe porque o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado.

O Amor que salva é o amor que partilha a mesa com pecadores e a escória social, porque amor só é amor se amar aquele que ninguém mais ama.

O Amor que salva é o amor da entrega radical e absoluta, do esvaziamento completo, do empobrecimento em favor da vida do outro.

O Amor que salva é o amor que enche de graça o mundo. Enche de beleza, de paz, de liberdade, de inspiração, de amor.

O Amor que salva é o amor que nos impulsiona a irmos e fazermos coisas ainda maiores que essas.

O Amor que salva é o amor que nos faz amar - com entrega, esvaziamento, empobrecimento -, e, amando, vivermos mergulhados no Rio de Amor, que pode ser a nossa forma de conhecer a Deus.

13.1.17

Uma vida que não é pequena

A vida que Deus dá não é pequena: vocês é que a vivem de modo pequeno. Digo isso com franqueza e com grande afeição. Abram a vida! Comecem a vivê-la plenamente!
2 Coríntios 6. 12-13



O que é a vida e o que faz com que ela valha a pena?

Paulo nos diz que ela não é pequena - quando se apequena é por nossa própria responsabilidade. Temos a chave da porta que abre a vida para que seja vivida plenamente.

A vida verdadeira tem em si um toque de eternidade. Passamos a viver no mundo, no tempo, com a inspiração e o movimento em direção ao que é eterno. Ao Eterno.

A vida verdadeira é aberta quando podemos encontrar, perceber, vivenciar plenamente a Realidade Última da existência. Quando não fugimos, escondidos por máscaras ou por véus, nem de nós mesmos nem do Deus em Quem nos movemos e existimos.

A vida verdadeira se experimenta na transparência, no diálogo, na intimidade e no serviço. Quando plenamente assumimos o nosso quinhão nessa vida.

A vida amanhece e acorda, encontrando cor e coração, beleza e arte, quando se encanta com toda a magia da existência - de uma onda no mar ao choro de um bebê, quando percebe todos os traços da eternidade no ordinário, no cotidiano, no comum.

A vida é vivida plenamente quando pode ser impulsionada pelo Espírito de Deus, quando é alimentada pela fé em Jesus, quando vivenciada de verdade no mundo.

Ela é tudo e não é simples, mas pode ser encarada com mais simplicidade, com mais força, com mais graça, com mais paz.

A vida é o sopro de Deus no meio da existência. Ele fez isso segundo o relato do Gênesis para trazer à vida um corpo inanimado (Gn. 2. 7). Ele faz isso na visão de Ezequiel (Ez. 37, 9-10). E Jesus repete o gesto para insuflar o Espírito nos discípulos (Jo. 20. 22). O Espírito é o sopro da vida de Deus no meio da existência.

A existência é feita de limites. Somos limitados culturalmente, do ponto de vista da educação. Somos limitados em nossos corpos, em nossa alma. Somos limitados pela dor, pela doença. E temos o maior limite de todos diante de cada um de nós: a morte.

Viver uma vida plena, verdadeira, com toques da eternidade, é a forma de transcender a todos os limites. A beleza, a arte, o amor, a paz, a graça nos levam além.

O sopro de Deus é a garantia de que podemos abrir as portas da vida para vivê-la até além dos limites. O toque do eterno em nós é a certeza que temos de que a vida nos impulsiona e nos carrega para além de nós mesmos, para além dos limites, para além do que nos faz frágeis e pequenos.

A vida, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus nos asseguram que é possível ir além - ainda que ir além seja, de verdade, doloroso.

Que fujamos de nós. Que recebamos o sopro do Espírito. Que vivamos na dimensão de Jesus, indo além dos limites numa vida que signifique bem mais do que apenas experimentar uma existência neste mundo.

12.1.17

A morte foi derrotada

Finalmente foi a Morte derrotada pela Vida!
1 Coríntios 15. 54


O francés Michel Henry diz que a verdade do cristianismo não é o túmulo vazio, ou a encarnação, ou a morte de Jesus. Henry diz que a verdade do cristianismo é que homens e mulheres acreditaram que Jesus, morto na cruz no conluio entre religiosos e romanos, ressuscitou e está vivo. Há uma sutil diferença, mas uma diferença que pode impactar tudo: o fundamental não é o túmulo vazio mas a experiência de que Jesus está vivo.

Eu posso encontrar o túmulo vazio, posso comprovar a ressurreição e posso nunca ter a experiência de que Jesus está vivo.

Crer que a verdade do cristianismo é o fato histórico da ressurreição pode nos conduzir a uma desenfreada busca por encontrar provas de que ela houve. A possibilidade dessa busca racional me afastar da experiência espiritual com o Jesus vivo é concreta.

Crer que a verdade do cristianismo é a fé de que Jesus está vivo pode mudar nossas vidas. Sou cristão porque creio que Ele está vivo.

Ter a experiência de que Jesus está vivo é vencer a morte no dia a dia. Porque, “finalmente foi a morte derrotada pela vida!”

Impossível para mim não comparar tais questões ao meu recente quadro de saúde.

Pela quarta vez em oito anos eu vivenciei um ciclo depressivo - dessa vez, o mais grave, não apenas pela reincidência como também pelo enorme tempo que eu levei para iniciar um tratamento de verdade.

Entre setembro e novembro de 2016 a situação ficou ainda mais grave e eu confesso ter perdido as contas das minhas tentativas de morrer. Entrei em tratamento médico apenas no fim de outubro.

Sem muito esforço, ao esticar meus dedos, eu era capaz de tocar a morte naqueles dias. Sentia a minha vida frágil, por um fio, e foi muito difícil não sucumbir. A única imagem que me vinha como comparação da fragilidade de minha vida naqueles dias eram os últimos dias de vida de minha avó, em 2015, quando a gente via sua vida se esvaindo, e um pequeno fio cada vez mais frágil segurando-a por aqui.

A morte era vívida. E doía muito.

Como se sai desse cenário de morte?

O caminho é múltiplo (tratamento médico, psicológico, amor, amizade), mas todos eles apontam para o fato de que, em Jesus, a morte foi derrotada pela vida!

Lembro de um domingo, em um dos meus piores momentos, em que cheguei em uma igreja e escrevi um pedido de oração: Cura. Após o culto, fomos a uma lanchonete e comecei a me incomodar enormemente com aquela situação: tudo parecia muito vivo e divertido, mas para mim estava absolutamente sem graça. Sai de lá amaldiçoando a doença e dizendo a um amigo que não aguentava mais estar doente e achar sem graça momentos tão bons como aquele.

A vida estava chamando.

Dali por diante, a vida, e não mais a morte, me envolveu com seus braços amorosos.

A experiência de Jesus vivo, vencedor da morte, voltou a fazer sentido para mim.

Naquela noite, na minha vida, a morte foi derrotada.



A vida anuncia
que renuncia à morte
(Perdoando o Adeus, O Teatro Mágico)