20.12.16

Solidariedade

Quando estava anoitecendo, os discípulos aproximaram-se dele e aconselharam: “Estamos no meio do nada, e está ficando tarde. Despede o povo, para que eles saiam e consigam o que comer nas cidades”.
Jesus, porém, respondeu: “Não há necessidade de despedi-los. Vocês é que vão dar comida a eles”.
“Mas tudo que temos são cinco pães e dois peixes!”, disseram.
Jesus ordenou: “Tragam-nos aqui”. Em seguida, mandou o povo assentar-se na grama. Ele tomou os cinco pães e os dois peixes, olhou para o céu, orou, abençoou o pão, partiu-o e entregou tudo aos discípulos. Eles repartiram com o povo, e todos comeram e ficaram satisfeitos. Os discípulos recolheram doze cestos de sobras. E os que participaram da refeição foram cerca de cinco mil, fora mulheres e crianças.

Mateus 14. 15-21


Suponho que você conheça os relatos dos evangelhos que narram os episódios das multiplicações de pães e peixes - em João, apenas um episódio, nos outros evangelhos, dois.

O texto de Mateus, por exemplo, coloca os discípulos em posição central diante da ordem de Jesus: Vocês é que vão dar comida a eles. É como se Jesus dissesse que só poderia haver milagre se os discípulos assumissem seu papel e sua responsabilidade. Ou, no dizer do poeta Sérgio Vaz, é como se Jesus afirmasse que “milagres acontecem quando a gente vai à luta”. É preciso se envolver, é preciso participar, é preciso lutar.

Mas é possível que você nunca tenha pensado esse texto sob outro prisma de solidariedade. Uma interpretação possível para o milagre é que ele, antes de ser o de uma geração espontânea de alimentos do nada a partir da ação de Jesus, foi um maravilhoso milagre de solidariedade.

Convido você a suspender suas crenças sobre o evento do milagre e imaginar a cena por uma outra ótica.

São mais de cinco mil pessoas no deserto. O Mestre, então, dá graças a Deus pelo pouco alimento que conseguiu: cinco pães e dois peixes. E o distribui. O altruísmo e a solidariedade de Jesus o fazem entregar toda comida que tinham e que era pouca diante daquela multidão.

Não seria possível que o ato solidário de Jesus tenha estimulado a solidariedade em todos aqueles que, no meio da multidão, tinham sua particular porção de pão, seus poucos peixinhos, para se alimentar quando chegasse o jantar? A partir daí, cada um e todos passaram a compartilhar com os vizinhos do lado, da fila de trás, com as mulheres e as crianças em volta, o pouco que tinham - mas quando cada um deu o pouco que tinha em solidariedade, "todos comeram e ficaram satisfeitos. Os discípulos recolheram doze cestos de sobras”.

O que acontece quando nos entregamos à solidariedade?

Outro dia uma comunidade religiosa de Natal se dispôs a fazer uma ação assistencial junto a sete entidades filantrópicas diversas da cidade e ao presídio feminino. A solidariedade foi tão intensa, que a quantidade de alimentos doados e entidades assistidas foi o dobro do previsto anteriormente. Multiplicação.

Espero que você já tenha sido alvo de solidariedade com eu já fui. Uma rede de amigos socorrendo, dando o ombro, estendendo a mão, apoiando nos maus momentos, incentivando nos bons.

E solidariedade se multiplica. Quando a solidariedade nos alcança somos impulsionados a sermos solidários com outros.

Para mim, imaginar a cena da multiplicação de pães e peixes sob a ótica da solidariedade amplifica a dimensão do milagre. É vivenciar a sugestão de Dietrich Bonhoeffer de que Deus se manifesta no mundo somente através de nossas ações.

É, por fim, reconhecer que Sérgio Vaz, afinal, tem razão: “milagres acontecem quando a gente vai à luta”.

Um comentário:

Orivaldo Lopes Jr. disse...

O que este blogger "Caverna de Adulão" tem a ver com a denominação mineira do mesmo nome?